Arquivo mensal: janeiro 2012

Quem te viu, quem te vê!

“Quem te viu, quem te vê”, diz o espelho quando eu tô saindo pra trabalhar. Não ganho o dinheiro que ganho, nem dirijo o carro que dirijo e nem moro na casa que moro, para aguentar desaforo de espelho filho da puta, mas esse tem razão. Homem de meia idade, desquitado, fudido no coração, cheio de dinheiro e problema pra resolver, tem mais é que rolar na merda mesmo. Saio pro trabalho e vou olhando as pessoas na rua, atravessando de uma calçada para outra, pedalando, correndo de manhã, comprando cafés em lugares duvidosos. Parece que está todo mundo tão mais feliz, como se tivessem todos tomado LSD e eu tivesse ficado no banheiro durante a partilha dos papeizinhos.

É sempre igual. Vejo as pessoas, penso que o mundo pode estar só atravessando uma fase diferente da minha e, de repente, como se fosse mesmo necessário, aparece um casal feliz. Geralmente estão de mãos dadas, conversando alguma coisa divertida, indo e vindo para lugares igualmente interessantes, como se tivessem trepado, dormido, acordado, trepado e saído para trabalhar, para trepar mais à noite. Que falta faz alguém que me ajude a cumprir esse ciclo de maneira natural. Não queria precisar pedir, nem lembrar. Só chegar em casa e pronto, está armado o circo, com amor, risadas e muita ação. Não é mais assim.

Uma vez li num livro do Leminski que a vida sexual do personagem se resumia a “peitar debaixo do lençol e tomar banhos demorados” e, infelizmente, senti identificação imediata. Aprendi que sofrer por estar infeliz com seu próprio estado é coisa de gente sem atitude, mas experimenta estar na pele de que tá fudido e vê se é fácil mudar a opinião sobre si mesmo. Minha secretária me disse: “se você não quer sofrer, seja feliz”, que filha da puta. Disse como se estivesse me mandando ir para casa caso não esteja me sentindo bem. Não é tão simples assim. Envolve muita coisa, muita coragem, muita entrega. Ela. Envolve ela, e pra caralho!

Descobri que a separação só é sofrida para quem não teve chance de escolha. O que anunciou o término, mesmo que esteja um lixo, tem sempre a chance da ressurreição, de recomeçar, porque vinha pensando nisso quando tentava descobrir se era mesmo hora de finalizar o infinalizável. Mas quem recebe a notícia não. Quem recebe a notícia fica sempre rendido, perdido no meio de um labirinto que caiu do céu e ninguém sabe por onde se entra ou se tem uma saída. Tem notícia que a gente recebe que é uma espécie de morte temporária da própria alma. A gente fica branco, atônito e começa a parar de perceber as coisas, ou as cores e vai sumindo de dentro de si mesmo bem devagarinho.

Fui procurar me reviver provando para mim mesmo que eu precisava de coisa melhor, ou que valia mais do que pensava. Comecei com as meninas do escritório, das mais próximas, como a Sheila, minha secretária, até chegar nas mais de longe, como a Camila, que é a estagiária da recepção do prédio no turno da noite. Depois comecei a ficar com as amigas dos tempos de faculdade, depois as amigas das amigas, depois as pessoas que eu só conhecia de vista. Passei para encontros virtuais, amigas de amigos do trabalho, serventes e garçonetes dos restaurantes onde costumo almoçar, pessoas no trânsito e tudo mais quanto era lugar. Tinha noites movimentadas no mínimo três vezes por semana sem nunca repetir ninguém. Eu era um cavalo reprodutor e sentiria inveja de mim se não estivesse me sentindo mal mesmo depois disso tudo.

Ela não estava em casa chorando o término, nem se lamentando pela escolha. Ela estava na rua, vivendo, fazendo um monte de coisas que eu desaprovaria completamente e eu aqui, achando que comendo todo mundo estaria, de alguma forma, atingindo e ferindo seu ego. Ela não sabia das manhas novas que eu tinha aprendido. Das posições incríveis que eu desenvolvi. Do número de vezes que eu trepava e do tanto de arranhões sobrepostos que minhas costas carregavam. Ela não sabia de nada! Estava ocupada em jantares legais, com caras legais, em programas legais, tendo conversas legais, indo para motéis legais, tendo orgasmos legais, vivendo uma vida legal. Legal demais para não ter eu no meio.

Aí volto para casa todo arrebentado, por dentro e por fora. Todo dia é um perfume de mulher novo, e às vezes são elas que saem do meu apartamento. O porteiro da noite só ri, deve me achar um puta herói ou pensar que eu gasto mais dinheiro comendo puta do que pagando condomínio. Mas a verdade é que no fim do dia, depois que as luzes da cidade já se acenderam pro mundo, quando os relógios já estão em franca ascensão rumo à meia-noite, só sobra um projeto de mim. Só o bagaço da casca da laranja podre que caiu do caminhão da feira da viela que dá na boca da favela mais imunda da cidade mais subdesenvolvida do estado mais infeliz. Era eu, uma merda de ser humano vivendo numa orgia desenfreada para provar a mim mesmo que eu valia alguma coisa. Mas quando chego está lá o espelho, um que fica na passagem pro quarto, um que é infalível. Me vê, me sorri com uma boca sarcástica e sentencia minha dura realidade num provérbio de merda. “Quem te viu, quem te vê!” Quebrar espelho dá azar e eu não posso me dar a esse luxo.

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Nós somos eternos

– Para pessoas medíocres, nada. Para pessoas comuns, coisas comuns. Para pessoas especiais, meu melhor!

Eu já tinha tomado uns três litros de cerveja, fora as bicadinhas da caipirinha das meninas, quando deu tempo de ficar só com ela, um pouco de paz no meio da bagunça programada, pra conversar em paz. Aí ela, com os lábios apertados, as sobrancelhas levantadas, e uma expressão de lamento, sentenciou o que já não dava mais para mudar. “Porra, a gente ainda não zuou o suficiente…” e eu concordei. Concordei porque não tinha como discordar, não existe quem diga que a gente já esgotou as possibilidades, que a gente já chutou todos os baldes, todos os paus de barracas, sopramos todos os trombones, jogamos todas as pedras, fizemos tudo que dava.

Foi identificação imediata quando a gente se conheceu. Falsa preta como eu. Inquieta como eu. Raçuda e briguenta como ninguém. Quem que é essa filha da putinha que anda de cara feia pelos corredores? Foi tipo achar que tinha tudo pra dar certo mesmo antes de começar a bolar o plano. Foi meio sem querer que a gente começou a dançar, uma vez, quando já era umas 3h da manhã. Eu vi as estrelas baixarem, a lua dormir e o sol estourar no horizonte enquanto a gente, suando bicas, pulava batendo os pés no chão repleto de placas de ferro. Nós ouvíamos a música das caixas e fazíamos a nossa própria, sem sentir dor, nem cansaço, nem arrependimento. Fizemos 13h de rave, música eletrônica e resistência física parecerem meia hora, só tomando água e Guaraná. A gente nunca precisou de aditivo nenhum pra se manter animado.

Agora a gente se preocupa com o futuro, com o dinheiro, com o trabalho e com o que a gente pretende ser. Fazemos planos de nos tornarmos coisas enquanto já estamos sendo . Só que de tudo o que foi dito, uma coisa é incontestável: “a gente ainda não zuou o suficiente!”. Boto a mix da Karol Conka pra poder falar à altura. Por sinal, rap é uma extensão do que eu considero a lembrança que ela me deixa. O dia em que a gente saiu para ouvir rap dentro do carro, ou quando fomos num show e eu achei que a gente fosse se jogar do camarote, tamanha a violência que colocávamos nos movimentos, foram momentos em que ficava claro que a nossa identificação era muito mais do que simpatia e idéias. Nós somos quase iguais!

De noite, no último rolê antes da viagem, fiz questão de dizer pra ela o que sempre pensei, mesmo que não tivesse conseguido, até então, explicar com palavras objetivas. “A gente não vai morrer nunca! A gente é eterno!” e ela não entendeu de cara. Mas não existe muito o que entender quando se é exatamente isso, uma eternidade. E como uma epifania, sozinha, ela percebeu que sim, que seríamos para sempre, sempre esperando uma noitada nova, sempre esperando o próximo absurdo, sempre acreditando que “a gente ainda não zuou o suficiente!”. Hoje ela está longe pra caralho, deve estar no meio do mar, cruzando o mundo, indo atrás de uma parada que, se ela achar, talvez nunca mais volte aqui para um show novo.

Eu não consegui dar o último abraço antes de embarcar, aquele bem apertado que a gente fala um monte de coisas no ouvido e só os dois podem saber o que é. Mas mesmo assim ela sabe que eu lembrei, que eu desejei boa viagem e hoje de manhã, quando mandei uma mensagenzinha besta na internet, pensando que ela nem ia ver, veio o que é sempre típico dela. Veio a resposta na medida exata! “Eu achei que ia conseguir te ver antes de você viajar. Não consegui dar tchau direito”, e ela me respondeu, “Relaxa! Quando você dormir, um dia eu vou te visitar.” e eu sorri sozinho. Eu espero que ela se divirta, que cresça e que faça as coisas certas. Nós somos eternos, não preciso ter pressa de desejar que ela volte. Nós temos todo o tempo do mundo!

(Boa viagem, Rah!)

 

Imortais

Tá acontecendo uma cidade lá fora. Abri a janela e meu silencio foi espancado por uma onda apressada de barulhos de carros passando pelo asfalto molhado, vento, buzinas, obras ao longe e um helicóptero bem perto fazendo ar vibrar e as ondas de som oscilarem. Cortava o som e descortava cada vez que as pás daquele carro voador giravam sobre a minha cabeça. Estava mesmo acontecendo uma cidade lá fora. Pela janela do décimo andar não restavam dúvidas, não havia nem o que argumentar, o mundo estava funcionando novamente. Olhei para as pessoas caminhando, indo cuidar das vidas, tendo objetivos, compromissos, horários. Alguns com guarda-chuvas, outros ao relento, indo e voltando, enquanto dezenas de carros cruzavam a cena indo em direções opostas e seguindo para outros compromissos e outros objetivos.

As pessoas estavam todas ali, vivas mesmo, como se as engrenagens nunca tivessem parado, como se não precisassem parar. Na verdade, não tinham mesmo motivo para pararem, mas eu acreditei que isso estaria diferente quando abrisse a janela. O mundo estava acontecendo, o inusitado e o destino traçado estavam enrolados no mesmo dia. Estava tudo normal. Ao redor das coisas existia o movimento natural do vento.

As árvores balançavam, também tinha o movimento das gotas da chova, ora indo mais para a esquerda, ora mais para a direita. Ainda maravilhado com os movimentos da vida real, fiquei olhando uma mulher que atravessou a rua correndo antes do farol abrir e ainda me espantei com a maneira fluida e natural com que ela se movia, como suas roupas balançavam, como seu cabelo alçava voo a cada novo passo largo. Era muito estranho para mim, era incomum. Ver tudo aquilo foi como estar diante de uma parede lisa e sólida tendo a certeza de que havia uma porta bem ali.

Olhei ao meu redor, as coisas todas iluminadas pelo céu claro e cinza enquanto sombras de gotas escorrendo pela janela desenhavam o chão de marrom claro e escuro. Acho que estava com a boca meio aberta, queixo caído, quando senti você se aproximar, com a mão nas minhas costas subindo para o ombro. Senti você chegar, encostar sua cabeça no meu braço e descer a mão até a minha cintura. Ficou ali, me segurando junto, sorrindo e achando graça da minha cara de idiota. “Eu disse para você que ia ser estranho, mas é legal, não é?” ouvi você dizer, concordando, mas sem conseguir dizer uma só palavra. Não piscava, não conseguia fazer movimentos rápidos e respirava acelerado.

De repente, quando me dei conta de que o mundo estava mesmo acontecendo, de que as coisas estavam mesmo existindo, que tudo se movia, era normal e comum, tive um ataque de riso. Comecei com um breve sorriso, depois uma risada tímida e foi evoluindo para gargalhadas violentas cheias de lágrimas e dores nos músculos da barriga. Era como se fosse um absurdo anunciado, uma tragédia temporária que causava estranheza e indignação em quem assistia até o fim. Você também riu, comigo e de mim, e esperou eu me acalmar.

Depois de algum tempo, comigo já deitado no chão da sala vendo o ventilador de teto girar lentamente, quase parando, e continuar olhando as gotinhas que se moviam pelo vidro da janela, vi você se aproximar. Agora o mundo se movia, tudo acontecia, o relógio ainda tinha horas para mostrar e tudo era normal. Você deitou ao meu lado, os dois olhando para o teto, e depois de pegar minha mão, virou a boca na direção do meu ouvido e perguntou se eu não queria ver tudo de novo. “Quer me dar outro beijo?” perguntou entusiasmada e feliz, mesmo dizendo baixinho.

Virei o rosto, olhei dentro dos teus olhos gigantes e sorri, antes de fechar os meus e colar minha boca na sua. Foi igual, foi idêntico, como se agora eu já soubesse fazer a mágica acontecer. Senti o vento parar, os carros sumiram com seus sons incômodos, tudo ficou meio imóvel e nós dois, flutuando no ar, eramos as únicas coisas em movimento ali. Não só ali. Acho que nada no mundo se movia enquanto nos beijávamos, e eu lembro que nossas bocas não se separavam e a gente ria beijando de olhos abertos, fitando um ao outro, embaçados, perto de mais, brincando de controlar o tempo. Senti o impacto do chão duro quando nos separamos e agora ambos morriamos de rir da experiência absurda.

“Beijar você faz meu mundo parar”, eu contei, confirmando o que já estava óbvio. Você sorriu e me contou um segredo que eu já sabia, mas não tinha percebido que estava ali, nos esperando, me aguardando brilhante e macio para ser usado pelo resto da vida. “A gente não vai morrer nunca mais!”, você disse, e depois voltamos a flutuar.

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Nove horas

Era o fim da picada, com o mundo se acabando em água lá fora e eu me acabando em ódio aqui dentro. Como é que pode alguém ser tão filha da puta assim, desse jeito tão descarado, sem joguinho, sem esquema, sem proteção nenhuma. Estava ali, assim, na frente de todo mundo, pra quem quisesse ver, pra qualquer idiota poder analisar, qualquer idiota tipo eu, com o meu copo de qualquer coisa, encostado num pilar, meio no canto, lá no fundo, olhando para o bar e pensando em matar todo mundo depois me matar também.

Eu via a sua alegria, teu brilho saindo do olho, o sorriso sincero, mas via também quase metade da tua bunda, semi coberta por uma saia tão curta que até uma criança de 8 anos se sentiria incomodada. Não tinha como não te ver. Era subir a escada do carpete vermelho, virar a esquerda, passar pela porta do salão e pronto, lá estava você, linda, gostosa pra caralho, sentada com as pernas cruzadas e o cu quase aparecendo, conversando com um cara bem mais velho que eu, bem mais feio que eu, com muito menos cabelo do que eu e, provavelmente, muito mais dinheiro do que eu. Você, teu cu a mostra, teu sorriso confortável e a porra da taça de margarita na tua mão.Me dava ódio ver você tomando aquela merda. Pegava a taçona rasa por baixo, passava a língua na borda, pegava o sal e depois sorvia um golinho delicado do líquido verde-azulado. Puta!

– Essa deve ser boa no boquete, hein?! – ouvi ao meu lado, olhando de súbito e encontrando o manobrista ali, junto comigo, partilhando da mesma coluna em que eu estava apoiado, olhando pros mesmos gestos que eu assistia. Sim, ela era excelente com a boca, não importava muito o que estivesse fazendo, mas se o fizesse com a boca, fazia bem feito. Mas eu sabia porque fora seu parceiro por muito tempo, dividindo histórias, alegrias, tristezas e planos. Mas o manobrista? Questionei.

– Desculpe. O que você disse? – perguntei, bancando o João sem braço.

– Quem toma drink assim, com a língua, é boqueteira, chefia. Com todo respeito, tenho certeza que essa aí chupa qualquer um! – disse, rindo e me dando um tapinha no ombro com o peito da mão, antes de se virar e ir para outro canto, manobrar um carro, entregar alguma chave, pegar algum ticket de estacionamento, fazer qualquer coisa de filha da puta que não seja falar que minha ex-mulher é boqueteira.

Eu ali, com meu copo cheio de gelo derretido misturado com algum álcool, perdido nos pensamentos sobre quais eram as chances de ela já ter chupado o manobrista, nem percebi quando descruzou as pernas para cruzá-las pro outro lado, fazendo metade dos homens do salão virarem o rosto repentinamente para o bar. A mão, a taça, a linguinha, o sal, o líquido, o balcão e a PORRA DE UM BEIJAÇO NA BOCA! De repente todo mundo que estava olhando para ela sabia, miraculosamente, que eu estava na coluna do fim do salão, e me olhou. Me olharam com cara de “e agora, meu chapa?” e eu devolvi a todos um olhar de “tomei no cu, e daí, quem nunca tomou?” e beberiquei meu copo com gosto de tragédia e desastre.

Na frente de todo mundo, assim, já é sacanagem. Todo mundo me conhece, ali. Todo mundo conhece você também. TODO MUNDO CONHECIA TODO MUNDO ALI NAQUELA PORRA, não precisava me dar um desgosto desse. Aí virei meu copo, fiz aquela careta de quem não esperava que a bebida fosse queimar tanto, caminhei pisando firme entre as mesas e fui até o bar, um pouco atrás de você e pedi firme à mocinha que assistia ao beijo cinematográfico que você protagonizava.

– Me vê um uísque sem gelo. – fiz o pedido em voz monotônica, olhando firme para a moça, sem desviar o olhar.

O copo veio vazio, depois veio o gargalo, depois veio o líquido alaranjado, leitoso, depois subiu o gargalo, depois eu peguei o copo, bebi um gole, botei de volta no balcão e aí veio a voz. A sua voz! Num tom cínico e vagabundo que me deu vontade de cuspir na tua cara e gritar “CORTA! Que merda de atuação hein, porra!”, mas não o fiz. Você falou, eu olhei primeiro para o seu rosto sorridente, pro teu cabelo bonito, pro teu decote de puta, e logo depois vi a mão do cretino à tua frente acomodada confortavelmente na tua coxa. Que grande porco!

– Oooi, não te vi aí. Como você tá? – que grande cretina, você. Como eu estou? Eu estou na merda! Tô sentindo a tua falta o tempo todo, em tudo quanto é lugar e não tenho paz nem quando pretendo ficar bêbado. No meu banco tá sentada a tua bunda linda, como é que eu posso ter paz aqui? Ainda mais com esse animal do teu lado. Precisei ser grosseiro, para ser firme, para ser fodão, para honrar alguma coisa que eu carrego no meio das pernas. Orgulho ferido, todo mundo me olhando com aqueles olhos de quem julga o sofredor pela fraqueza e eu tinha que reagir. Me dei o direito de não responder. Abri minha boca para falar apenas o indispensável!

Não vem com nove horas que eu sei bem que porra é essa! – Saiu quase como uma frase de música. Disse numa voz firme, sem titubear, como se não tivesse planejado, como se não tivesse mais nada para dizer, apontando os dois e a mão do escroto na coxa que era minha. Olhei meu copo, virei o conteúdo inteiro, não fiz careta, mesmo sentindo um rio de lava descendo em direção ao meu estômago, levantei e saí.

O salão se calou para bater palmas em pensamento. Tem horas que um homem precisa se respeitar, mesmo que o mundo não lhe dê respeito. Eu precisava tanto de você, tanto do passado, tanto de tudo que eu perdi. Mas porra, no salão, no bar, com um idiota, rico, velho, puto do caralho, comendo a minha ex-mulher sem saber nem seu nome, ganhando mais dos teus talentos orais do que eu jamais pude sonhar. Mas a vida é injusta e às vezes ela força a barra pra lembrar que isso continua valendo. Que se foda! Já passou, tô fudido, mas to bem, amanhã tem mais. Eu espero que tenha, fico louco se não te vejo.

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Céu na Terra

Você faz tanta merda, mas eu te amo tanto. Fico esperando dia em que minha paciência vai acabar, em que meu perdão vai se cansar de perdoar, como dizia Vinicius de Moraes, e eu mandar você embora daqui. E quando digo “daqui”, quero dizer de tudo, da minha casa, das minhas viagens, dos meus finais de semana, porta retratos, roupas, memórias, músicas. Quero que você suma das minhas músicas mais do que tudo, mas você fica. Porra, você sempre fica! E aí vai ficando meio que dizendo que são só mais uns dias, que já me entendeu, e quando vejo já está completamente dentro da minha rotina de novo.

Essa praga que você plantou no meu coração quando a gente se conheceu agora dá mais frutos do que nunca. A cada motivo que o mundo me apresenta para eu esquecer de tudo que eu não quero deixar de lembrar vem essa plantinha, meio preta, meio roxa, florescendo no meu peito, se enroscando das minhas costelas, fazendo cócegas nos meus pulmões e reciclando meus pensamentos ruins. Cada coisa ruim que eu penso, duas me fazem perceber que é inútil fugir. Nenhuma cama é tão confortável quanto a que eu divido com você, mesmo que não seja a nossa.

Tudo é nosso quando você está perto. Perco completamente o senso de propriedade e passo a te dar tudo que tenho de mais valioso quase sem querer, como se fosse uma hipnose. Você aparece e eu já estou te dando minha vida inteira, com um laço bonito, um embrulho legal e uma versão sempre mais moderna do que a última que você ganhou no encontro anterior. Eu me reinvento para caber nessa dominação que você chama de “gostar de mim”. Vai saber quando foi que você começou a desenvolver esse talento de me dominar com um olhar, só com um gesto de dedos, com essa mania louca de não me deixar ganhar nenhuma vez.

Todo esse controle absurdo me faz derreter. Eu sou tipo um sorvete incrível guardado no fundo do microondas que está cozinhando a pipoca. Só me sobra o palito a cada nova tentativa de ser engolido por você. Mas no fundo é um sofrimento que esquenta. É um tipo de relação auto-destrutiva que me alimenta. Existe correspondência, existe troca, alguma coisa fica pra mim e me sinto completo quando você chega. Eu quero tanto te tirar daqui, tirar todas as cagadas astronômicas que você faz, mas tudo bem. No fim das contas eu também erro, o vizinho também erra, todo mundo faz besteira e é do ser humano ser imperfeito. A sua imperfeição é não sacar que eu sou perfeito pra você!

Pensando bem, você é como aquela música da Lana Del Rey, aquela toda melosa, aquela que rasga o coração de qualquer um. “O céu é um lugar na Terra, com você”, é o que diz a música e é o que eu queria te dizer. Tem uma mágica toda particular no jeito que você me olha e na maneira como a gente dá certo quando fica junto. A gente dá certo até quando dá errado, porque nosso nervosismo e estresse é curado da maneira mais delícia que existe. Eu sou uma extensão das suas vontades e você é um pedacinho do fim do meu desejo. E acho que é por isso que não consigo tirar você das minhas molduras, das minhas ligações, dos meus momentos de solidão e das minhas playlists. Você é a maldade que eu quero ter pra sempre.

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Pedra

Você é dura como uma pedra quando está em um ambiente seguro. É como se, quanto mais segura a situação, mais fechada e agressiva você fica. Existe um monte de gente na rua indo e vindo o tempo todo, mas acredito piamente que poucas, bem poucas, são como você. Poucas têm essa habilidade social de controlar o ambiente, ou medir as próprias emoções, e saberem se estão se expondo, se precisam se proteger, se precisam de ajuda, se é hora de baixar a guarda. Eu nunca vi você baixar a guarda!

Tem mulher que nasceu pra dominar a situação, daquelas que chegam na mesa e dizem para o maitre sugerir o vinho, ou que preferem ir com o próprio carro para o encontro ao invés de serem buscadas em casa. Não entendo o motivo dessa postura, nem condeno, nem incentivo, só convivo e vou aprendendo a como viver com você, que é uma mulher diferente do que as mulheres costumam parecer. Ficar perto de você é absorver uma bagagem de conhecimento que a gente usa naquelas horas em que tudo parece sair do controle.

Não que eu não goste de mulheres independentes, ou das que sabem até demais o que estão fazendo, mas a sua autoconfiança irrita. Chega a ser tediante a maneira como você não se surpreende, como você não é pega de surpresa, como não se abala. O seu estar é tão sólido que abalado fico eu diante da sua reação quando conto alguma novidade bombástica. É como se eu fosse uma criança boba contanto uma piada manjada para um adulto bêbado e com dor de barriga. É constrangedor, às vezes.

Você, essa carapaça de pedra recheada de um creme que eu não faço ideia do sabor que tem, está cada dia mais para professora do que para aprendiz. É como se o mundo fosse uma aventura controlada onde o perigo é pouco, a emoção é barata e as novidades custam algumas dezenas de reais no débito ou no crédito. Teu mundo deve ser uma coisa muito louca visto de dentro, porque aqui de fora eu não tenho a menor noção de com o que ele se aprece, ou que cor deve ter, ou que roteiros deve seguir, ou se existe mesmo.

Vai ser forte assim lá na puta que pariu! Acho que, na verdade, você deveria tomar cuidado. Nessa sua mania de saber tudo, de já ter vivido as coisas ou de simplesmente ignorar o que não lhe parece muito bom, vai acabar tirando toda a graça do mundo. Na verdade eu sei onde está a sua novidade, a sua grande chance de ver o novo: quando você não está no controle. Você num lugar estranho, com gente que não te conhece, vivendo numa rotina atípica à sua agenda deve ser uma gatinha persa com cara de brava e comportamento dócil e amigável.

Ta aí o meu interesse tão grande em desmontar esses pedaços enormes da tua minúscula estátua dura e fazer o oco ver o mundo e vice-versa. Vai que, no fundo, essa tua proteção contra o universo não passa de uma cobertura de glacê derretendo numa faca quente. Espero que nas próximas vezes que estiver por aqui, que diminua os portões, abaixe as defesas e fique calma. Quando te vejo faço questão de me abrir como um portão recém pintado, enquanto dou de cara com toda a sua blindagem passando desconfiada por mim. É a pedra mais complicada que eu já vi.

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Impressão Digital

Depois de um tempo comecei a ler só o que ela me indicava. Todos os livros, romances de poesias, que agora ocupam a minha estante, vieram dela. Os antigos eu guardei numa caixa, já não fazia tanto sentido diante dessa minha nova vida. A gente tomava café com leite, ou capuccino em pó, na sala, conversando sobre literatura, música, viagens, cores e depois, quando o assunto às vezes acabava, porque sempre acaba, a gente ficava só se olhando, vendo a cara um do outro, ou analisando o que a gente gostava de ver. Eu olhava pras pernas brancas dela enfiadas numas meias felpudas que subiam meio sem elástico até quase os joelhos. Acho que ela olhava para minha barba, gostava dela, acho.

Me visitava menos do que eu gostaria. Aparecia vez em quando sem avisar, tipo um cão chutado de casa, e eu abria a porta para abraçá-la com todo o meu amor. Às vezes conversava e contava tudo, às vezes só sentava no sofá com o olhar perdido na televisão desligada e eu assistia de longe, do balcão da cozinha, vendo a cena de perfil, olhando o corpo meio corcundinha se desmanchando em algum pensamento violento. Nessas horas eu não sabia se oferecia o café de sempre, se tentava conversar, se a beijava. Eu nunca soube o momento certo, se é que ele existe, de beijá-la.

Não sei o nome do que a gente tinha. A gente se beijava às vezes, mas não era um beijo de continuidade, uma coisa que dava a entender que haveria outros mais por vir. Era sempre um beijo de último dia, uma despedida de bocas, uma coisa estranha e intensa que nunca se repetia da mesma maneira, mas acontecia com uma certa frequência. Tinha dias que eu acordava querendo esfolar o mundo e ela me aparecia, toda branca, magra, fedendo a cigarro recém fumado e eu, por instantes, via sua aparição como o Lobo via a caminhada da Chapeuzinho pelo bosque.

Nunca soube sua idade, nem seu nome completo. A gente tinha essa brisa de falar de tudo, menos de nós mesmos. Talvez porque nos julgássemos interessantes pelos gostos ou pelo que sabíamos muito mais do que pelo que éramos ou parecíamos ser. Minha casa era uma espécie de refúgio para as dores do mundo que ela tinha que enfrentar. Para mim ela era uma espécie de musa inspiradora, que eu lembrava quando o mundo parecia chato, sem cor, ou quando acordava querendo fazer sexo pro resto da vida com a mesma pessoa. Só que ela não dava pra mim!

Teve uma vez, por sinal a última que ela esteve aqui, que a coisa quase rolou. Estava radiante com a vida e, por um motivo secreto e inédito, ao invés de cair no mundo e vir curar as feridas aqui, decidiu cair aqui e curar as feridas no mundo. Veio toda contente com uma garrafa de vinho na mão dizendo que queria passar a noite aqui para a gente conversar. “Vai ter um eclipse da Lua hoje” ela disse, entrando e me cumprimentando com um beijo na boca como se fôssemos um casal que se encontra no fim do dia. Quase nunca ela fazia isso. Aí teve o vinho, o eclipse, outros beijos e de repente eu me vi protagonizando a cena que tantas vezes me fez demorar no banho.

Ela me olhou de um jeito diferente e riu. Ria muito naquela noite, coisa rara nas outras aparições por aqui, onde imperava o silêncio e a calmaria. Carregando a taça de vinho foi se deitando no tapete da sala, espalhando os cabelos escuros como uma coroa ao redor da cabeça e me olhando, com a saia já meio levantada demais, como um convite que eu não podia perder tempo nem tentando ler. Aceitei de cara. A evolução daquele sonho real foi tão perversamente rápida que só me dei conta de que estava realmente ali quando ela já estava me mostrando os peitos que eu nunca vi, vestindo só uma calcinha de nada, montada em mim, me descamando peça por peça.

Quando chegou à minha calça senti seus dedos curiosos procurando o botão, o zíper tudo que a impedia de chegar ao que importa. Era como se fosse uma criança no Natal desembrulhando o presente mais legal, se livrando de todo aquele papel colorido para encontrar a recompensa mais desejada. Só que quando conseguiu, quando arrancou minha calça, minha roupa, tudo, olhou o conteúdo e congelou. Sua expressão mudou radicalmente e percebi que, naquele momento, olhando meu nu mais nu de todos os nus que já havia protagonizado, ela havia se tornado a criança que abre o presente e percebe que ganhou roupas, ao invés de brinquedos.

Ela foi embora, desapontada, infeliz e nunca mais voltou. E foi quando aprendi que a falta de uma mulher em casa é mais ácida e dolorida quando nunca se sabe qual será a reação da próxima que vai entrar. Eu ainda leio a mesma linha de livros, os mesmos tipos de poemas, tomando os mesmos capuccinos, só que sozinho. Antes eu esperava ela voltar, hoje já não penso nem em ligar para saber se está viva. Tenho mergulhado num autoconhecimento sombrio e destrutivo que me tornou alguém contemplativo e observador, mas pobre de conclusões e respostas. Me tornei um nada sem um tudo, que foi embora pela porta dos fundos e desceu de escada para não deixar nada para trás, nem mesmo a impressão digital no botão do elevador.

Quarta-Feira

Um monte de cigarros, todos fumados. Uma porrada de bituca velha socada num cinzeiro que mais parecia uma pilha de lixo, com filtros usados de todas as marcas misturados com papeis de Trident e 7 Belo. No resto da mesinha o campo de batalha estava formado. Garrafas de cerveja meio bebidas, copos, alguns trincados, dois quebrados e um monte de amendoins jogados e pó de cinza de narguile misturado com cinza de cigarro misturada com cerveja derramada misturada com um pó branco, cocaína, eu acho, não sei, não vi ninguém cheirando. Na verdade, não vi muita coisa que acho que aconteceu.

Tem uma mancha vermelha grande no tapete, que deve ter vindo de cima da mesinha. Acho que é catuaba, ou vinho, mas pode ser também groselha, sempre tem groselha nessas merdas de copos que quebram bem em cima do tapete. Bom, vai fazer companhia pras outras manchas. A TV tá ligada, sem som, no canal pornô, mas eu tenho certeza que não liguei. Alguém ligou, acho que lembro de todo mundo aqui no sofá assistindo, rindo horrores e umas pessoas fazendo a “dublagem” das cenas. Não deve ser difícil dublar filme pornô, né? Sei lá, às vezes o som nem é tão importante assim.

Minha roupa está ok. Não sei onde foram parar meus tênis, mas isso é o de menos. Por algum milagre não tem nada derramado em mim, pelo jeito não estou rabiscado, nem com pasta de dentes na cara. Bom sinal de maturidade da galera, antes isso seria de lei. Esse meu sofá precisa de substituição urgente, tempo, cartão vermelho, expulsão, sacrifício, guilhotina e morte. Péssimo para dormir, ótimo para sentar. Qual é o sentido? Você se sente confortável sentado, aí quer se deitar para ampliar seu conforto e é obrigado a enfrentar o inferno na Terra. Não dá mais, vou terminar com ele logo menos, pode apostar.

Esse solzinho entrando pela janela faz a sala parecer muito mais confortável. Deixa tudo meio sonolento, meio clarinho com sombras macias, me dá até um sono. NOSSA, que dor de cabeça! Jamais deveria ter tentado tirar a cabeça do sofá, parece que toda minha pressão foi parar no cérebro e ele quase explodiu. Meu deus, que coisa horrível essa de beber o mundo e não tomar Engov. Puta merda, que dó, meio violão tá ali jogado, com duas cordas quebradas, filhosdasputas! Para mim quem não tem respeito com criança, velho, bicho e instrumento musical precisa mesmo é se foder no colo do capeta.

Ah, sei la, to mal. Acho que tô enjoado, não sei ainda, tem um monte de coisa com defeito aqui nesse corpo largado no sofá. Tem uma dor estranha dos dedos, um mal jeito nas costas, um torcicolo de leve por causa da porra do sofá enganador, a dor de cabeça gigantesca e umas escoriações estranhas. Não lembro de ter caído nem de ter brigado com ninguém, mas tô aranhado pra caralho. No pescoço, nos braços, na barriga. Tentei abraçar um gato ou outro felino violento qualquer? Acho que tô sem cueca, não sei, esse ziper da calça ta me incomodando.

Tá, são 9h. Eu não deveria estar aqui, deveria estar na redação escrevendo qualquer coisa sobre saúde, bem-estar e vida leve. Eu deveria começar a viver o que eu escrevo, e não exatamente o oposto. Estou atrasado pra caralho, não vai dar pra inventar nenhuma história, minha cara deve estar entregando tudo, cada copinho que eu virei na boca, ontem. Cara, não sei de onde vem a energia dessa galera de fazer bagunça no meio da semana. Não sei de onde vem a minha também. Qualquer dia desses morro no meio de um brinde, fudido, caído no chão em estafa física. Putz, e hoje ainda é quarta-feira.

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Pé de amor

Ah, como eu gosto dessa aventura que a gente vive quando se encontra. O olho no olho mais profundo que eu já tive é sempre o último segundo com você, antes do primeiro beijo, antes de mergulhar nesse buraco sem fundo que é a nossa atração. Quando mais afunda, mais cresce, mais interessa, mais permanece, mais infinita fica. Tem uma nebulosa dentro da tua boca, dormindo na tua garganta. Ela sobe, tipo uma nuvem viva que se atrapalha no enroscar da nossa língua e pula um pouquinho pra dentro da minha boca também, com todas as suas cores, estrelas e explosões. Beijar a sua boca é engolir um pedacinho do universo!

Minha casa se retorce toda quando você chega. Da última vez que veio aqui, lembro bem, meu espelho da cabeceira da cama se concertou sozinho, como se fosse uma mágica dos móveis que gostam de te receber. As rachaduras se encaixam, as árvores aceleram o florescer, os pássaros ficam todos malucos com o balancê nos galhos. Aí, quando você pisa, não sei se você percebe, mas os pelinhos do tapete felpudo da sala vão se direcionando para onde seus pés vão tocar, como se fosse obrigado te dar o máximo de conforto. Mal sabem eles o quanto você é confortável também.

Eu gosto daquele momento depois de tudo, no “after all you’re my wonderwall” quando você se entrega pro mundo se acabar em barrancos e eu fico, tipo um paleontólogo, varrendo teus pelinhos do corpo todo com a minha barba, descobrindo ossos, fósseis, histórias e segredos escondidos em um corpo que me traz quase tudo que a história da humanidade sempre quis esconder. Vou com meus dedos curiosos desenhando um mapa secreto do tesouro que se estende por dentro dos seus dedos, sobe teus pulsos, braços e ombros, passa pela tua boca e desce direto e reto pra morrer no umbigo, quente e calmo, do jeito que você sempre foi. Meu corpo se esquenta só de te ver, imagina então, quando a gente se gruda.

Você se gruda em mim de muitos jeitos. Desde o teu perfume, que fica grudado na minha barba e na gola da minha camisa, enebriando o caminho de volta pra casa, até o talento que você tem de se encaixar em mim quando é hora de dormir. E apaga feito uma pedra que se atira em um rio fundo demais e não há nada que te acorde desse hibernar angelical que você chama de cochilo. Dorme sonhando com sei lá o que, mas são sempre coisas boas, porque nunca se debate, nem treme, nem se assusta. Deve ser coisa de gente linda, que só sonha com notícias boas e cenas bonitas.

Na verdade só uma coisa te acorda. E quando acontece eu fico maravilhado com a sua leveza, se mexendo devagarinho, pra um lado, depois pro outro, aí deita de bruços e se apoia sobre os cotovelos. Me beija de levinho, puxando meu lábio entre os seus e quando me vê abrir os olhos sorri. Apresenta tua cabeleira bagunçada, o rosto amassado e vermelho, e diz como quem sente dó de si mesma: “Lindinho… busca um copo d’água pra mim?” e vira pro outro lado, já sabendo que eu não tenho a menor condição de dizer não. Quando eu volto você bebe, me agradece, me beija e apaga no mundo da alegria de antes.

É novidade pra mim essa coisa de acordar com mulher na minha cama. Tô acostumado com o espaço e o vasto universo de um colchão pra um, mas tenho gostado do aperto que a gente divide. É bom porque de um lado, o meu lado, fica a parede. Do outro lado, você. Querendo ou não, cedo ou tarde, a gente acaba se agarrando e eu sonho que a gente tá nadando enquanto você vê, de olhos fechados, um passeio de bicicleta em um litoral qualquer. A gente se distrai com os nossos próprios devaneios e vai dormindo, meio que sem graça, meio que tímidos, cada vez mais perto um do outro. O instinto de ficar junto é mais forte!

Tenho gostado de você, dessa sua presença calma e delicada que me atormenta a loucura e a falta de freio que a minha vida gosta de ter. Com você e essa sua boca lotada de dentes o meu riso virou coadjuvante de um estado de alegria quase permanente. Me faz feliz não ter planos e receber um sms sacana no meio do expediente pra me fazer rir, ou chegar em casa e ser convidado para conhecer um restaurante novo, ou pra subir no telhado e ver as estrelas, porque hoje não tem nuvem. Tenho gostado desse teu jeitinho, do seu corpinho que eu nunca vi igual, da sua sabedoria silenciosa e da maneira como completa alguns pedaços do enorme vazio que tinha aqui. Se fosse uma semente plantada na minha terra te chamaria de “meu pézinho de amor”, e já tá dando fruto!

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Boneco Vodu

Entrou em casa como quem arromba os portões de Tróia e foi arremessando as coisas pelo caminho, como um guerreiro que se desfaz de sua armadura para uma luta honrosa e corpo a corpo. As chaves do carro foram parar debaixo de um móvel da sala, o paletó e a pasta se estatelaram na parede e escorreram moribundos até o chão. Caminhou firme, respirando fundo, puxando o máximo de ar que os pulmões podiam acomodar e atacou, com o olhar, o telefone sem fio dormindo em cima do aparador. Apanhou o aparelho, discou números rápidos, como quem desarma uma bomba prestes a acabar com o mundo e, quando ouviu o derradeiro “alô” do outro lado, iniciou sua sequência de golpes ininterruptos. Alguns certeiros e mortais, outros tão desajeitados que feriam a si mesmo. Começou firme.

“Não fala nada! Não fala absolutamente nada! Senta aí em algum lugar, seja lá onde você estiver, e me ouve, ouve o que eu tenho pra dizer. Você tá comendo o que eu tenho de melhor, sua filhadaputinha adorável. Tá engolindo meu coração, minha cor e meu sono. Voltei a não dormir, sabia? Passo a noite toda tendo cochilos de no máximo uma hora, interrompidos por uma porção de despertares indesejados. Tá difícil manter uma vida minimamente saudável com você me ferindo assim. Vejo sua imagem quando olho no espelho, só que ao invés de feliz e sorridente, você está acabada, cansada pra caralho, com o mundo, comigo, cansada da vida e puta até o talo. Eu ando puto até o talo! E sabe por quê? Não responde! Não responde porque você não faz ideia! Sua filhadaputazinha linda. Eu to fudido na tua mão, desse jeito.”

Parava para respirar, caminhava pela casa, mas em momento algum lhe ocorreu deixá-la dizer uma palavra sequer. Ouvia a respiração do outro lado e continuava desferindo golpes ao léu, na esperança de que um fosse certeiro e a matasse pelos ouvidos.

“Eu tô puto da minha cara porque eu não acredito que você está fazendo exatamente o que sempre me disse para não fazer. Teu maior medo em mim é exatamente a tua diversão preferida agora. VOCÊ ACHA QUE EU NASCI ONTEM, PORRA??? Desculpa, desculpa, não queria gritar, te assustei? Pérai! Foda-se, se assustei foda-se, se não, foda-se também. É essa minha mania cretina de tentar não brigar com você, de fazer as tuas vontades, de não te magoar, que me fez chegar a esse ponto calamitoso. Tô desacreditado em tudo que se fez eterno da boca pra fora. Nunca vi a eternidade e a minha vaga ideia de como ela se pareceria, caso cruzasse meu caminho, você tá rabiscando e deturpando. É a destruição da minha crença mais forte: você! Você tá se apagando pra mim.”

Continuava caminhando e agora portava o telefone em uma mão e uma garrafa na outra. Uma garrafa d’água enorme, tipo aqueles galões de cinco litros. Andava para lá e para cá com a garrafa e bebericava alguma coisa entre uma frase exaltada e outra, se babando inteiro e cuspindo água no horizonte, na gola da camisa, no bocal do telefone e onde mais pudesse cuspir.

“Lembro daquela vez que o Zé Ramalho em suas metafóricas letras nordestinas me dizia, meio que em segredo, meio que perdido nas entrelinhas, que eu deveria dar um tapa na tua cara, ao invés de tentar entender e me acalmar. Tá faltando violência nesse meu tratar com você. Eu não espero muito do futuro, hoje em dia, agora que o que eu mais queria cultivar é uma merda de uma filhadaputinhalinda que tá me servindo de ladra de sonhos. Você não imagina quantos pesadelos eu tenho por noite. Cheguei ao nível de achar que meu corpo não aguentaria tamanho sofrimento noturno. Sinto como se, mais cedo ou mais tarde, no meio de uma dessas horripilantes noites, meu cérebro fosse explodir feito uma bexiga cheia de molho de tomate com carne moída.”

Agora ofegava, como se sentisse falta de ar, ou como se a adrenalina tomasse conta de um corpo já em frangalhos.

“Eu estou morrendo por dentro, bem por dentro, como se tivesse pego uma doença mortal, como um câncer crescendo por dentro do meu umbigo, criando dentes, garras e unhas, arranhando minhas entranhas pra chegar ao meu coração e roubá-lo para você. Nem Tó Brandileone deve ter passado por tudo isso quando escreveu a música que me entregou a verdade sobre tudo que está acontecendo aí. Percebi que o que a gente tem é, na verdade, uma troca de medos horríveis e erros incorrigíveis, que dessa vez, são só seus. Me comprometi a não fazer o que você me pediu para não fazer, enquanto você faz exatamente tudo que eu confessei temer. Você se tornou minha melhor personagens para histórias onde a mulher merece se foder no fim. Você é uma vilã perfeita, me rendeu um livro lindo e hoje mesmo acabei de assinar um contrato com uma editora das grandes. Veja só, estou conversando com você usando roupa social, imagine. Você sabe o quanto odeio isso, mas para contratos é necessário. Roupa social é tão necessária para contratos quanto você é necessária para minhas noites de sono.”

Dando sinais de cansaço diante de um adversário que não cansava de apanhar e ainda ria das trapalhadas de se acertar golpes mais fortes do que os que desferia contra o outro, começou a desistir e bater em retirada num discurso confessional.

“Quando pensei no que fazer com você, só lembrei de todo o instinto vingativo que você me ensinou e eu sempre devolvi de bom grado e educadamente. Pensei em enterrar teus pés de coelho, recalçar tuas ferraduras, regar tuas pimentas com álcool, furar teus olhos gregos, chutar teus vasos de trevo, descruzar tuas figas e desdentar tuas carrancas. Ia lhe desejar um azar tão tátil e sólido que a morte pareceria mais justa. Junto com isso te enviaria por correio, num envelope bonito, o medo maior do mundo, daqueles que viram fobia, síndrome do pânico e te tiram do convívio social, te prendem em casa com medo das janelas, da luz do sol e do som da rua. Mas não! Não gosto de desejar males que podem voltar para mim. Decidi lembrar de todas as vezes que você me disse ‘não faça nada que eu não faria’ e fazer o oposto, para sentir o gosto do que você está provando. Hoje ando com teus inimigos, bebo com eles, como com eles, conto minhas maiores intimidades para eles e nem é de proposito. Eles me parecem as melhores companhias em alguns momentos. Cometo erros primários contra mim mesmo para aprender a aceitar as consequências do futuro e me fazer forte. Tenho vivido num imenso filme de terror onde saio pelado na rua currando velhas assassinas, aliciando e desvirtuando crianças loiras, dando minha herança a bandidos vagabundos e amando toda e qualquer prostituta condenada pela aids. Tenho, sim, feito tudo isso.”

Percebendo a contradição do número de golpes que acertou em si mesmo, diante dos quase nenhum que acertara nela, decidiu encerrar seu combate com o restinho de dignidade que lhe restava num frasco que já não era tão avantajado assim.

“Tudo isso só por um motivo. Um único motivo. Tudo isso porque soube dessa coisa toda pela minha consciência, pela minha intuição de grande filhodaputinha que eu sou. Nosso mix de convivência e espiritualismo me faz sentir o que você sente, ver o que você vê e falar o que você fala, só que ao contrário. Sinto pontadas a cada erro teu, a cada merda que você faz, como se quanto mais você erra daí, mais eu me fodo daqui. Eu e você somos nossos bonecos de vodu. Por isso faço coisas absurdas daqui para te doer daí, para te acordar numa madrugada cansada no meio de um sonho lindo e te fazer pensar, mesmo que do nada, que você está desapontada comigo, assim como eu estou com você. Faço as maiores atrocidades da vida para que, talvez, algum dia, você sinta, assim como eu senti, que tem alguma coisa que te desagrada muito acontecendo por aqui. Eu sabia, eu senti no corpo, na alma e em tudo que é meu, toda a tua trajetória. Nós somos ligados dessa maneira, pelo ‘achismo’ sensorial.”

Desfalecido no campo de batalha abandonou o corpo no chão da sala, apertou o botão no telefone já quente do contato com a orelha sem dizer tchau nem nada e respirou fundo. Estava morrendo, sabia disso. Sentia o câncer do umbigo subindo rumo ao coração, os batimentos diminuindo, as funções diminuindo e, quase que sem perceber, suavemente desmaiou, num desmaio sonolento que lhe rendeu uma noite de sono que durou um dia inteiro sem interrupções ou pesadelos, só o confortável breu inconsciente do sono dos justos.