Arquivo mensal: março 2012

Diz que eu não estava preparado

Vai dizer pra ela que eu fiquei assustado. Diz que não era bem uma experiência controlada, mas que eu não esperava algo assim. Também diz pra ela não se preocupar porque eu ainda danço, eu ainda bebo, ainda estou vivendo e nada mudou. Quase nada. Alguma coisa entre o meu sentimento de carinho e afeto por ela ficou pra trás e uma sensação de receio e insegurança tomou o lugar vazio. Não foi suave.

Acho que a mente estranha muito mais uma situação totalmente inusitada do que o corpo. Me jogar de um prédio com um paraquedas vagabundinho grudado nas costas seria extremamente físico, mas acabaria em alguns segundos. Mesmo no chão, sentado e seguro, minha mente não descansaria. Acho que foi o que aconteceu. Meu corpo, minha visão e tato estavam perfeitamente adaptados. Meus pensamentos completamente desajustados e fora de ordem.

Vai dizer pra ela que está de parabéns, mesmo! Vai dizer que eu tremi quando ela apareceu, que me faltou vocabulário pra definir a beleza, que faltou músculo pra movimentar o corpo e que sem dúvida não existia ninguém mais impressionante. Diz também que está tudo sob controle, que ainda existe um plano, que eu ainda estou de pé e que ainda tem muito por vir. Como dizia a música que tocou no momento do choque, “nothing’s over, nothing’s over” e pode dizer pra ela botar fé nisso.

Tem um pouco de perda no ar quando penso sobre a minha antiga autoconfiança. Algo se perdeu entre o momento em que eu achei que tinha o controle de tudo e o momento que eu me senti completamente perdido. Não aconteceu nada, eu não vi nada, eu não fiz nada, eu não soube de nada. Só que no ar, naquele infinito invisível de oxigênio e sentimento que fica sobre as nossas cabeças, dava pra sentir que tinha uma decepção escondida no meio daquela euforia toda. Nenhum carnaval termina sem sangue. Nenhuma festa termina sem choro. Nenhum sorriso dura pra sempre.

Mas avisa pra ela que ok, tudo bem, não tem nada pra conversar. Avisa que eu estava despreparado, pensei e calculei errado, quase tudo foi como tinha de ser e o que fugiu eu conserto depois. Diz que eu fiquei meio abalado, talvez por isso tão sem reação, e pede desculpas por mim caso ela diga que estava esperando mais atitude da minha parte. Diz que não sou, nem nunca fui, afobado com esse tipo de coisa, mas que ontem foi muito mais susto e insegurança do que estratégia. Diz que na próxima, se tiver, vai ser bem diferente. Diz que eu prometo que vai.

Na verdade, foda-se, não diz nada. Eu vou dizer.

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Não era real, mas sentia as coisas de gente que é. Sabia das dores do amor, da solidão, do ciúme, da perda e até das dores físicas. Era fã desse tipo de privilégio das pessoas de carne e osso: o “sentir” era fabuloso ao toque dela, que não existia. Era como um anjo, daqueles bonitos que vivem no meio das pessoas incógnitos, sem que ninguém os perceba, mas que não sentem frio, nem calor, nem fome, nem sono. Era uma coisa que não existia, só que existindo. Era o fantasioso real. E o que a tornava existente era sua capacidade de sentir, mesmo sem saber o que.

A gente conversava muito quando ficava escuro. Ela vinha aqui pra casa, a gente subia pro meu quarto e ela me perguntava sobre as sensações que ainda não tinha tido. Era bom porque apesar de ser difícil descrever, eu aprendia muito sobre meus gostos e medos contando sobre o que eu sentia. Ela tinha um ritual que no começo me dava medo, mas depois eu comecei até a gostar e vibrar com aquilo. A gente tende a se assustar com as reações que diferem muito do que nós faríamos na mesma situação. Eu jamais imaginei aprender algo físico da maneira como ela aprendia. Talvez porque eu tinha corpo e ela não.

Quando eu contava uma coisa nova, que era nova para nós dois, ela pedia para eu apagar a luz e aí começava. Respirava cada vez mais forte, ficava ofegante e me dizia para não parar de descrever. Eu ia falando coisas, às vezes repetidas, e ela ia respirando e tremendo, sentindo o que eu sentia, imaginando como era e transformando os pensamentos e sensações reais. Era assustador, mas mágico ao mesmo tempo. Eu fechava os olhos e disparava numa fila infinita de substantivos. “Foi como um abraço, só que mais quente, e macio, e calmo, mas forte, só que sem o corpo, mas com sentimento, só que terno, puro, livre, mas simples…”, e deslisava pelo vocabulário que eu conseguia alcançar.

Ela tremia inteira, arrepiava a ponto de sua pele ficar escrita em braile, áspera e vermelha, só que translúcida pela falta de matéria. Era como uma esponja que inchava e absorvia minhas sensações. Quando terminava, caia no chão cansada e eu olhava a cena dela deitada ali, no tapete, largada, iluminada pela luz laranja do abajour, e pensava que aquilo, para ela, devia ser semelhante a um orgasmo para mim. Igual em importância, bem diferente em efeitos fisiológicos. Só que eu não oferecia a ela emoções e sentimentos novos juntos e sexo era exatamente isso, só que em grande quantidade.

Sentia que se começasse a falar de tudo o que eu já tinha sentido ela tentaria absorver coisa demais e morreria. Uma vez contei do meu primeiro beijo e tive certeza de que no meio da minha descrição ela explodiria numa respiração maior do que os próprios pulmões. Fechei os olhos e desatei a lançar meus melhores adjetivos. “Quente, molhado, áspero e macio, passava energia, colavam as bocas e as línguas ficavam agitadas, inquietas, tinha o calor do corpo, o movimento das mãos nos pescoços, nas costas e cintura, eu sentia arrepios, ela soltava gemidos impossíveis de ouvir a uma distância maior do que a que nos separava, eu senti que ia voar”, e ela estribuchava no chão recebendo uma carga de informações maior do que podia suportar.

Foi justamente nesse dia, no meio dessa certeza assustadora de que ela explodiria, que percebi que nada poderia matá-la. Percebi que não, nunca morreria, porque nunca havia nascido. Ela não existia, portanto, não podia morrer. Quando abri os olhos percebi o quarto tomado por fumaça branca como aquelas dos shows, que têm cheiro doce e não asfixiam ninguém. Só que ao invés de estarem no ar preenchendo o cômodo, lambiam o chão como um mar branco e flutuante, como as fumaças de gelo, que ao invés de subirem, pesam e ficam no chão. No meio do cobertor de névoa estava ela, com o peito quase explodindo durante uma respiração ofegante demais para um ser humano, mas bem suportável para ela, que não tinha raça, nem definição, nem matéria, nem nome.

Ela sempre me dizia estar em busca de alguma coisa que completasse o ciclo, mas eu nunca entendi que porra de ciclo era esse. Ela dizia “espiritual, mental e físico” e depois dizia que ainda faltava o físico. Mas eu já tinha explicado de como tinha sido quando me queimei, quando quebrei o braço e de quando cortei o pé. Eram lembranças bem físicas para mim, mas ela ainda não estava feliz. Um dia decidi que iria testá-la e a descrevi, mas sem citar o nome. Disse que havia conhecido uma mulher incrível, que estava apaixonado e comecei a falar de suas próprias características. Nesse exercício de ser o espelho do que não se refletia percebi o que estava faltando! “É uma garota linda, de uma cor que não tem nome, invade os meus sonhos, tem um olhar nítido e transparente, mas instigante ao mesmo tempo. Eu daria minha vida para que ela fosse real por uma noite aqui, no meu quarto, comigo”, eu disse, e de repente ela parou de tremer.

Abriu os olhos de maneira agressiva, levantou com um salto e veio na minha direção, firme e decidida. De repente estava tátil, sólida e quente. Tinha corpo, deixava marcas no tapete e fazia sombra na parede. Existia e pesava, pouco, mas tinha um corpo de verdade. “Ofereceria o fim da minha imortalidade para viver essa noite com você!”, me disse quando já estava sobre mim, segurando meus braços perto da cabeça, ajoelhada sobre o meu corpo estendido no chão. Eu não entendi como conseguiu adquirir matéria, nem como sabia que era ela mesma quem eu estava descrevendo, mas era uma cena real como eu nunca havia visto. Um milagre havia se tornado banal diante dos meus olhos.

“E aí? Você vai me deixar sentir tudo isso sem precisar me contar? Digo, sentir de verdade, com essa pele de verdade, com esse corpo de verdade? Eu quero a sua coragem, preciso dela agora!” me disse, soltando meu pulso e tapando meus olhos. Me beijou de um jeito que eu não seria capaz de descrever, nem para ela, nem para você, nem para ninguém. Era como se tivesse me roubado alguma coisa pela boca e deixado outra coisa, inédita, no lugar. “Te dou a minha palavra de que nada ruim vai acontecer”, me garantiu, para me arrancar a resposta mais sincera que já pude dar em toda a minha vida. “Te dou a minha vida para provar que acredito em você!”, eu disse, sem nem pensar no que estava fazendo. Mas acreditava! Acreditava nas palavras e acreditava que era mesmo real.

Naquela noite não precisei dizer nada para que ela entendesse o que era o sexo, o amor, a fúria, a paz, a calma e a eternidade da duração de um segundo perfeito. Foi naquela noite que completou-se o ciclo, o elo perfeito de corpo, mente, alma, espírito e sonho. Naquela noite eu perdi o medo do escuro, da solidão, da morte, da dor e do desconhecido. Naquela noite o preto deixou de ser sombra para ser cor, o toque deixou de ser tato para ser transcendência e ela deixou de ser espírito, ideia, fantasia e absurdo, para ser mulher, amante, namorada, amiga e pó. “No fim todos vamos virar pó”, me disse uma vez, com a certeza do universo. Virou pó depois que gozou. Riu, me olhou, respirou mais fundo do que os pulmões poderiam aguentar e agora, já humana, de carne e osso, se desfez no ar para sempre.

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Caneca Preta

Sempre fui apegado à espiritualidade dos objetos que me parecem importantes. Não precisa ser nada mágico ou sagrado, pode ser qualquer coisa banal, como um clips, uma fotografia, um instrumento musical ou uma caneca. Depende da história, de onde veio, pra onde vai e como aquilo deveria funcionar caso os planos tivessem sido diferentes. Inconscientemente algumas coisas começam a ter mais valor para mim do que para a maioria, e outras, que deveriam ser importantes por não terem uma história por trás, acabam me parecendo banais, mas muito valiosas aos olhos dos outros.

Eu tenho uma caneca preta que me tira completamente do centro. É como se fosse uma espécie de amuleto, ou um totem, uma relíquia, algo que a gente guarda pra se salvar na hora que der de cara com o fim do mundo. Tem uma coisa nela, uma mística, que me faz acreditar que o que eu bebo dela me faz mais bem do que o que eu bebo do resto dos recipientes comuns. E não é aquela coisa de criança que tem o copo preferido e só quer tomar as coisas ali, no mesmo lugar, com os mesmos gostos, sempre igual. Por ser especial eu faço o inverso e bebo nela só o que é importante. Quando eu preciso de alguma coisa, de uma lembrança, de coisas não palpáveis, é pra ela que eu peço. E ela me dá!

É um beijo líquido cheio de palavras boas e reconfortantes. Eu faço um chá, seguro na asa da caneca com força e quando meus lábios tocam o líquido sinto um impacto profundo, como se a alma acordasse de um pesadelo num susto asfixiante. Sinto um tambor enorme tocar no meio das minhas costelas. É muito enorme, maior que planetas, maiores que as coisas grandes que costumam me assustar, como a morte, a invalidez, a solidão e o desespero no escuro. Sinto como se fosse um saco vazio se preenchendo de alguma coisa que não é sólido, nem líquido, nem gasoso. É um preencher de sentimentos, comida de espírito, coisas assim.

E quando solto a caneca sobre a mesa, que olho para as mãos e para o mundo, já está tudo se movimentando. Minha paciência e tolerância se esticam como quem esgarça um elástico e percebo que tudo é perdoável, aceitável, entendível, diluível em água, efervescente ou aspirável. Mais um gole, mais uma explosão, mais uma avalanche de sentimentos e mais uma vez a certeza de que vai ficar tudo bem. É a história por trás, é o sentimento que vem de onde a caneca saiu, é a lembrança da paz, do bom e do eterno.

No escuro, pelado, sozinho e fodido ninguém tem onde se segurar. É o tal do desespero na penumbra, quando o medo se confunde com aflição e tudo mais, até que a morte venha por dentro da loucura, num canudinho, coisa pequena, simples, mas letal. Acho que o máximo do absurdo é estar no fundo do poço e pensar que a força da mente vai mudar as coisas. Pensar positivamente não funciona para mim. Eu preciso do tato, do real, do objeto que me liga ao que ainda existe e pode me salvar. E nesses momentos de perda de consciência, de confusão no meio do breu, eu ainda tenho meu amuleto, minha sagacidade de porcelana delineada em linhas arredondadas e simples. Minha caneca preta é meu portal porque há de bom porque ela representa todo o meu amor que o futuro anseia devorar. E tá na hora do chá!

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Fail

Ela esperava que eu fosse inventar uma história incrível, cheia de detalhes e objetos inexistentes, diálogos profundos, palavras pesadas e sentimentos traduzidos em um monte de parágrafos cheios de frases que qualquer poderia recortar, colar na porta do armário e ler toda vez que precisasse se lembrar que o mundo pode ser ainda mais dolorido do que já é. Mas não, eu não a satisfiz e dei de presente um belo silêncio literário. Não escrevi uma linha sequer sobre qualquer coisa que ela me disse, nem sobre o que fez, nem sobre as minhas opiniões.

Eu já conhecia esse tipo de garota. Abria as pernas para mim em troca de um texto, de uma história fantástica que narrasse a nossa noite de sacanagem como o dia mais romântico e mágico da minha vida. Ela não teve nada de mim, absolutamente nada. No dia seguinte era como se eu tivesse ido dormir às 22h e nada de diferente tivesse acontecido. Na verdade precisei me esforçar para isso. Faz parte de mim contar das minhas experiências e desamores. Mas ela precisava tomar do meu silêncio, comer da minha indiferença e foi isso que fiz. Dei a ela absolutamente nada. Entreguei uma página branca, cheia de adjetivos e substantivos nobres que eu não escrevi, repleta de ideias que eu nunca tive, contando de uma cena tão bem detalhada que não dava para imaginar, porque não existiu.

Fiz dela um fantasma que não passou pela minha vida. “Se não está escrito, não existiu”, escrevi no box do banheiro do motel logo depois de tudo, aquele tudo que não foi nada. Eu estava realmente cagando e andando para o que ela ia pensar, ou fantasiar, mas eu sabia que ela esperava algo. Algo grande, delicado, bem desenhado e fino. No lugar dei a ela um imenso e infinito nada. Só o nada, puro e sem tempero, exatamente igual ao valor dela para mim. Foi como se eu soprasse uma garrafa que não fizesse barulho, ou com se queimasse uma vela que não trouxesse luz. Foi um impossível que nem foi nada, não foi, não ser, não existiu verbo, não existiu nada. Zero, conjunto vazio, nulo, oblívio, vácuo, fim.

Ela ficou fudida!

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Meu Dia das Mulheres

Tanto quando escrevia no Fotolog, quanto nos meus outros dois finados blogs, sempre tive a “tradição” de dizer alguma coisa especial nos dias que tinham o mesmo número que hoje. Eu, que já escrevo para mulheres todos os dias da minha vida no trabalho, e que faço das minhas criações aqui no blog as coisas mais femininas que eu consigo, não podia deixar passar essa data. Mas hoje está sendo um dia realmente feminino. Talvez os outros também sejam, mas hoje acordei lembrando que era o Dia Internacional das Mulheres e resolvi prestar atenção. Primeiro que acordei às 4h40 da manhã. Seria normal acordar a essa hora se estivesse indo para a academia, mas estava vindo direto pro trabalho. Claro que só faria isso se tivesse influencia de uma mulher. Queria, de qualquer jeito, fotografar uma amiga para o meu projeto fotográfico dos fumantes e ela só podia se fosse às 7h da manhã. Meu dia começou regido pela agenda de uma mulher!

Antes de sair de casa reservei uns dois minutos pra mandar três mensagens no celular de mulheres importantes. Em uma delas, a mais importante, tinha um trecho assim “Mãe, você é a mulher mais FODA do mundo…” e continuava dizendo outras coisas. Ela, foda como é, respondeu à altura: “FODA é você! kkkkkk obrigada filhinho”. Isso tudo às 5h e pouco da manhã. Peguei minhas coisas, saí do quarto e dei de cara com céu preto e uma lua cheia gigante. Mas gigante mesmo, fiquei até assustado. Me deu um gelo na hora, como se estivesse sendo vigiado por alguém, como se na escuridão houvesse gente escondida. É aquela sensação de impotência que os homens sentem quando a mulher que eles desejam deixa claro, no olhar matador, que também o desejam. A mãe da noite me lançando um olhar fulminante no Dia das Mulheres: nada mais justo.

Entrei no ônibus e só tinha mulher. Umas três perdidas em bancos separados e o resto tudo vazio. Homens, só eu e o motorista. Sair de casa “de madrugada” tem umas nuances engraçadas que eu só tenho vontade de dividir com mulheres. Alguns exemplos. O sol nascendo no meio das nuvens fazendo o céu ficar de um laranja de um jeito que nenhuma fotografia poderia reproduzir. É o tipo de coisa que não da pra mostrar pra alguém depois, contar como era, nem tentar descrever. Precisa estar lá e ver junto, na hora, na real. Mas geralmente as mulheres reagem melhor a esse tipo de fenômeno natural. O vento de manhã é friozinho de um jeito que nem o vento da noite consegue ser. É úmido, suave e às vezes eu sinto como se fosse possível segurar com as mãos. Mas para a maioria dos meus amigos homens “vento é vento e foda-se”. Tem sons da manhã que só as mulheres ouvem, os homens ouvem música.

O caminho que faço de manhã é bem longo e meu livro acabou ontem. Estava lendo “Coisas Frágeis 2”, do Neil Gaiman, e acho que você deveria ler também, principalmente se você for mulher, se for frágil, ou se for do tipo que gosta de coisa que não existe, mas impressiona. Como estava sem leitura, passei na banca da estação de trem e comprei a Inked, que é uma revista de lifestyle permeada por tatuagens e street culture (uma das minhas revistas preferidas). Justo no mês das mulheres eles resolveram dar o primeiro homem na capa. O “menino zumbi”, aquele modelo bonitão que tem o corpo inteiro tatuado de símbolos de “biohazard”, órgãos expostos e ossos. Nada mais justo que dar um “colírio” pras mulheres na capa da revista, que sempre foi ocupada por peitos apertados em espartilhos e coisas assim. Achei de bom tom!

Andar de metrô de madrugada é calmo de um jeito que fica difícil descrever. As pessoas continuam com pressa, mas parece que tudo flui melhor. Você tem lugares para sentar, não tem lotação, empurra-empurra, bagunça e barulho. O metrô antes das 6h50 é um lugar diferente. Me lembrei da calma que me dava quando eu acordava de repente e ficava deitado, ouvindo os sons da rua, vendo as luzes que os cristais da janela faziam na parede, sentia o cheio do café-da-manhã das outras casas e ficava pensando e sentindo a certeza de que ela estava dormindo logo ali, bem pertinho de mim. É uma calma caseira que paira no metrô da madrugada. A muitos metros de profundidade a calma reina até que haja mais gente debaixo da terra do que andando sobre ela. Aos amigos que sabem o que é “SER” de uma mulher ao invés de achar que pode “TER” uma mulher, essa calma do metrô vazio é bem familiar. É o tipo de sensação que só mulheres trazem!

Vim pra avenida onde trabalho, encontrei minha amiga que seria, durante dois cigarros, minha modelo e percebi que, em geral, as mulheres se sentem muito mais confiantes e confortáveis sob o olhar de uma câmera do que os homens. Acho que é essa coisa da vaidade feminina, da própria imagem no espelho, do sentimento de se sentir bonita. Mulheres mandam muito melhor sendo fotografadas. Homens são duros, ficam perguntando toda hora o que têm que fazer e sempre precisam fumar uns quatro ou cinco cigarros para renderem uma boa foto. Exceto os que são muito amigos, que já sabem exatamente o que eu estou esperando deles.

Depois disso vim prestando atenção na paisagem, caminhando com calma, vendo os relógios chegarem às 8h e tornarem a cidade um caos infinito. Chamei o elevador e uma mulher com cara séria, meio infeliz, meio feia, meio descabelada, parou ao meu lado. O elevador daqui demora uma vida pra viajar do décimo pro térreo e no tempo de espera nem nos entreolhamos. Quando chegou, não tinha nada mais justo a se fazer do que abrir a porta e deixá-la entrar primeiro. “Obrigada” me disse, dando um sorrisinho simpático e repentinamente deixando de ser meio infeliz, meio brava, meio feia e meio descabelada. Mulheres só precisam de uma demonstração natural de gentileza para devolverem na mesma moeda. Hoje, na hora do almoço, vou ali embaixo comprar dois sacões de Sonho de Valsa e distribuir pras meninas aqui na empresa. Eu acho que elas merecem todo dia, mas hoje é a chance de ter um motivo pra eu dar sem parecer chavequeiro.

Por fim, no fim do dia, vou ao cinema, programa que eu curto mil vezes mais fazer ao lado de uma mulher, assistir um filme de mulherzinha ao lado de uma mulherzona! A mulher da minha vida, dos meus sonhos e da minha realidade, vai estar comigo. Quero que o Dia da Mulher dela sejo o meu dia da minha mulher. Só pra tomar café no Starbucks e dar risada das pessoas que circulam por aí sendo vítimas da moda. Pra contar da vida, da viagem, do fim de semana, de qualquer coisa. Pra ir naquela loja ver aquela coisa que a gente nunca vai ter dinheiro pra comprar, mas gosta de ficar querendo mesmo assim. Só pra sentir perfume doce, pra fazer a vida valer a pena, pra desligar a chavinha dos problemas e ligar no turbo a máquina das soluções. Só pra lembrar porque é que eu gosto tanto de mulher!

Tuas meninas estão assustadas e perdidas

Falta tempo para que elas possam crescer. A evolução do mundo, o jeito como a sociedade cria suas crianças e a maneira como a televisão e a Internet fazem tudo parecer lindo, livre e fácil tornou esse amadurecimento uma tarefa quase impossível. Quem é que quer ter responsabilidades, se interessar por coisas complexas e tentar manter o controle num mundo onde jovens de dois ou três anos de diferenças são considerados geração X, Y, Z Alpha, e uma porção de outros nomes que só servem para vender, usar, lavar e plantar ideias pagas. As crianças vão nascer com códigos de barra para não precisarem ter nomes nem sobrenomes para honrarem.

As tuas meninas estão perdidas agora, sem você. Enquanto te tinham aqui eram as melhores, as mais seguras de si e escondiam todos os problemas que têm em casa e com o mundo dentro das bolsas gigantes, dos batons rosas demais e das roupinhas descoladas. De onde é que vem a opinião dessas meninas? Muito me admira que consigam ouvir as músicas que ouvem. O rap não é macio para quem vive uma realidade alienada, mas para elas parece uma espécie de ponte, um link que as puxa de volta para a vida que têm quando estão vivendo no mundo de fantasia que sonham em tornar permanente.

Não é bonito, nem inteligente, viver se escorando na força de uma pessoa só, mas que opção elas tinham? Se uma se escorasse na outra seriam uma meia dúzia de varetas frouxas enfiadas na areia esperando que, durante a queda, as outras a segurassem. Acredito, por experiência própria, que a vida de verdade está na rua. O caráter de uma pessoa e suas qualidades são formadas em casa, na infância, mas quando chega a adolescência e o sentimento de liberdade é que todos esses valores são postos à prova. Tuas meninas encontraram em você todo o reforço para as qualidades que elas gostariam de ter, mas não desenvolveram. Não só isso. Você trouxe a elas a segurança contra o medo que toda menina jovem tem quando vê o mundo de verdade: homens de verdade.

Me lembro bem, muito bem, com cores, sons e cheiros, do dia que conheci todas, numa paulada só. Elas pareciam as meninas mais sabidas do mundo. Sabiam como me olhar, como falar comigo, como me desmontar e como saber que tipo de gente eu era. Eu tinha sido apresentado por você, trazido por você, não tinham porque terem o pé atrás comigo. Sendo assim, vieram com tudo. “Você fala bem, é bem articulado!”, “o que você faz da vida? Tem cara de profissão séria!”, “que perfume você usa? É muito bom!”, “o seu sorriso é contagiante” e dai por diante. Me perguntaram numa mesa, no primeiro momento em que fiquei sozinho com elas, sem você, de onde a gente se conhecia, se eu era solteiro e o que ia fazer mais tarde. Alguém tinha ensinado isso a elas, não era possível estar ali no meio de gente que beirava os recém 18 recebendo o tipo de cantada que recebo de mulheres de quase 40. Elas tinham uma confiança que não era delas, parecia um teste, como se falassem coisas esperando uma reação automática, tentando adivinhar o que iria acontecer. Mas você ensinou mais do que “o que fazer”. Acho que o que elas aprenderam com você foi o “como não me foder”. Não tinham compromisso com o sucesso, e sim com a não derrota.

E acho que isso valia pra tudo. Não perdiam ninguém! Para moleques metidos a sabidos. Não perdiam para outras meninas, ex-namoradas, ficantes e gente de fora. Não perdiam para cobranças do mundo, roupas, vontades, costumes e até religião. Sempre se sentiram donas das próprias ações. Claro, desde que você estivesse por perto. Agora você não está e eu perdi o interesse por todas elas. Até nas fotos, onde a gente finge sorriso, dá pra ver que tem alguma coisa errada. Elas estão perdidas, assustadas, fazendo coisas que acham que você diria que era o certo a se fazer, mas sem nunca terem certeza de nada. Vai ser bom para elas, apesar de agressivo, esse processo de amadurecimento pelas próprias ações. Vão ser mulheres com opinião própria quando você voltar.

Mas se eu pudesse dar um palpite, diria que hoje em dia estão se arriscando menos, jogando menos e confiando menos. Devem estar com medo de não terem para quem pedirem conselho na hora que bater a dúvida se devem ou não transar com fulano, ou se deveriam ou não ficarem com aquele cara que tem namorada, ou até coisas mais simples, como por exemplo, qual o programa das quintas-feiras à noite. Acho que hoje, se eu encontrasse qualquer uma delas, não teria de responder nenhuma pergunta. Elas não teriam coragem de questionar nada, absolutamente nada. Tuas meninas estão perdidas e encontrando o caminho por conta própria, o que é bom, mas não acredito que só isso, que só essa imersão na vida real, vá torná-las independentes. Você criou essa dependência, e agora vai ter que desmamar, uma a uma, todas as essas crianças que você transformou em falsas mulheres.

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