Preto

Era uma presença negra, coisa preta mesmo, perdida no meio da escuridão, me esperando chegar perto para me comer. Ia me comer de qualquer jeito e eu torcia muito pelo “good way” da coisa, afinal, àquela altura, com o medo e o tesão que eu estava, dava pra acreditar em morte e sexo na mesma proporção. A casa era minha, o campo de batalha era meu, mas com ele eu me sentia tão vulnerável, tão insegura, a ponto de ter medo de avançar dentro da escuridão familiar da minha própria porta de entrada. “Não acende a luz!”, disse, e eu obedeci hipnotizada.

Com uma mão na minha cintura, um passo atrás de mim, me guiou para dentro apartamento gelado como se me conhecesse, como se soubesse da minha casa, do caminho para o quarto, ou o banheiro, ou que a água fica na porta da geladeira e os copos estão na terceira porta da direita para a esquerda do armário. Sabia tudo ali, inclusive, que eu ficava completamente mole com gente me segurando firme pelo quadril. Era muito escuro estar com ele, se é que escuridão pode ser um sentimento. Eu pensava que ele podia ser um assassino, um ladrão, um sequestrador, um estuprador e em todas as opções o meu tesão não diminuía. Era preto o mundo ao redor.

Quando a porta se fechou pude me dar conta de como minha casa era escura. Não conseguia ver nada e mantinha um mínimo senso espacial por saber onde as coisas costumavam ficar, mas não via. Jurava que mesmo à noite entrava alguma luz pela janela da sala, mas não. Era ele, apagando tudo, até as coisas do além, tornando meu mundo um pretume sólido e fosco para onde, totalmente movido por intuição, ele me levava. Eu já não acreditava como ele sabia o que estava fazendo, para onde estava indo e, principalmente, em como estava fazendo tudo certo. Talvez a escuridão fosse só para mim e ele, já sendo escuro e sombrio, pudesse ver com exatidão o que se formava à nossa frente.

Reconheci o cheiro do meu quarto e ali meu corpo amoleceu. Não teve conversinhas na sala, não teve um bom vinho na cozinha, não teve uns beijos na parede do corredor, nem uns amassos no batente da porta. Eu estava no meu quarto, com um cara que eu tinha conhecido algumas horas antes e tudo que minha mente podia processar era a vontade incontrolável de fazer sexo com ele. Era só isso que me preocupava. Tinha medo que ele fosse daqueles sadomazoquistas que gosta de ficar batendo, amarrando. Não pela dor, mas pelo sofrimento de ficar perdendo horas e horas de puro sexo para alimentar uma tara. Eu hoje não queria beijo na boca, não queria palavras ao pé do ouvido, não queria, talvez, nem preliminares. Eu queria dar!

E então, como numa mágica, meus pensamentos fugiram para fora de mim, saindo por algum ponto do meu corpo e flutuando em letras vermelho-neon pelo quarto. Iam se grudando nas paredes em uma porção de frases prontas. Eu pensava e automaticamente uma linha cursiva e delicada ia escrevendo meus pensamentos no teto, nos cantos das paredes, na cabeceira da cama e ele, escuro até o talo, absorvia cada sílaba. O que aconteceu depois é difícil explicar porque está naquele limiar que gira em torno da alucinação, da completa loucura, do sonho e da realidade extrema. Mas eu dei. Ou melhor, ele tomou de mim, sem chance de reação, nem de rebobinar a fita, voltar os capítulos, não tinha mais volta.

Me puxava os cabelos como se quisesse arrancar minha cabeça do corpo, acabava com qualquer traço de vaidade do meu corpo e investia para dentro de mim como se quisesse me varar, sair do outro lado, me rasgar ao meio. E tudo isso porque eu queria. Estava escrito nas paredes, estava saindo de mim e eu já não pensava mais, era só impulso e instinto. Às vezes é preciso deixar a princesinha interior lá fora, na rua, longe de casa e deixar a ninfomaníaca selvagem tomar conta. Eu queria trepar, daquele jeito que ninguém tem dúvida, ninguém precisa explicar e ninguém consegue repetir. Pra ele, com ele, dentro daquela escuridão, eu daria até a alma sair andando. Numa definição bem banal e simplória, me comia como uma puta barata. Mas aquelas putas que pedem mais, que instigam o cara, que fazem de tudo pra que ele peça pra parar, que diga que não aguenta mais.

E eu, agora tomada por algum espírito maligno, não queria mais parar. Falava absurdos, pedia coisas impensáveis, sentia  partes do meu corpo que eu nunca soube que existiam, apanhava igual uma escrava e sorria, às vezes até gargalhava e berrava tomada por uma loucura que não era minha. Não sei se desmaiei ou dormi, mas em algum momento ele foi embora, acabando com a loucura, terminando meu exorcismo e levando aquele pretume todo, deixando a luz aparecer. E já era dia. Acordei destruída, com o corpo roxo em lugares enigmáticos, como as canelas, os braços, os ombros, e com dores estranhas e intensas, que vinham de dentro e passavam para fora, como se estivesse sendo castigada por mim mesma. Naquele dia não levantei da cama, criando coragem para entender o que é que tinha acontecido e esperando, ressentida, vir a noite, para escurecer tudo de novo.

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