Calípso [1/3]

Eu a conheci durante uma viagem para a Alemanha, enquanto tentava dormir numa cama barulhenta de um quarto coletivo de um albergue em Berlim. Seis camas, só eu no quarto: alegria plena. Mas no meio da noite a luz acendeu, uns barulhos foram se arrastando pelo corredor e eu acordei. Não abri os olhos, mas fiquei prestando atenção nos passos, nos sons, nas vozes e concluí que eram duas ou três garotas chegando. Aí decidi acordar de verdade. Quando olhei, na última cama, lá perto da janela, uma única garota arrumava suas coisas e, quando me olhou, sorriu pedindo desculpas em inglês.

Era brasileira, eu também era e ela gostava de climas frios, estava estudando cinema na França, pegou as férias para viajar para outros lugares e estava sozinha na jornada. Eu também. E conversamos até amanhecer. Quando eu saí ela estava indo dormir e depois passei o dia todo pensando nas coisas que ela falava, em como ela falava, na cor do cabelo e nos dentes que tinha. Eu estava ficando obcecado por alguém que bebia a mesma língua que eu, mas não tinha nome. Eu não tinha perguntando o nome.

Mas ela sabia o meu. Eu só sabia que tinha olhos expressivos, um corpo fino e delicado, uma mala maior que o mundo e que gostava de estar comigo. Ela disse isso: “gosto de estar com você” e por alguns segundos fiquei pensando se já nos conhecíamos ou se era uma forma estranha de dizer “gostei de te conhecer”. No fim da tarde voltei, cortando minha agenda do dia pela metade só para reencontrá-la. As coisas estavam lá, a mala gigante, as roupas, mas ela não. Deitei, apaguei as luzes e esperei.

À noite ela chegou. Estava diferente, com ares diferentes, um andar diferente e, por incrível que pareça, um corpo meio diferente. Eu me levantei e perguntei como tinha sido o dia, em português, assim, na lata e ela franziu a testa assustada. Me olhou de dentro da jaqueta de couro e por trás da maquiagem no rosto me perguntou em outro tom: “como você sabe que eu falo português? E quem é você?”, perguntou, nervosamente séria. No início me pareceu piada, depois foi ficando constrangedor até beirar o medonho. Por instinto, puro instinto, disse meu nome, disse que era brasileiro, disse que tínhamos conversado na noite anterior e perguntei o nome dela.

Fez cara de quem sentiu vergonha, sorriu, disse que não se lembrava da noite anterior e ficou me olhando. Mas não como quem olha alguém esperando palavras. Me media, me contava em centímetros, metros cúbicos, cores, cheiros, texturas e no fim, sorrindo para algum lugar perdido entre meu queixo e meu pescoço, disse macia: “Meu nome é Calípso!” e meus joelhos falsearam por um instante. CA-LÍ-P-SO. Soletrei lentamente em pensamento e senti que era um orgasmo em forma de nome. Começava forte, firme e com a boca aberta. CA! Depois seguia com a língua fazendo força contra o céu da boca, pressionando a ponta entre o dentes de cima. LÍ! Aí vinha o ápice, a gozada das estrelas com o toque sensível, mas poderoso e seco, dos lábios que só uma consoante muda pode proporcionar. P! E depois um relaxamento tranquilo e minguante no SO do final. “Calípso eu te amo”, pensei, e ela sorriu, como se tivesse ouvido.

… continua.

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