Arquivo mensal: julho 2013

Ninguém, nem nada

Esperava uma recepção calorosa, cheia de sorrisos, abraços apertados e conversas interessadas. Mas não, porque a volta pra casa é sempre solitária pra quem é sozinho. Não se tem alguém para encontrar em casa, não se tem para quem contar o dia, não se tem para quem pedir o último gole, ou levar um doce como desculpa por ter chegado tarde demais. Não teve recepção nem do cachorro, porque este não existia. Ninguém, nem nada.

O lado ruim de beber, isentando qualquer preocupação com a saúde, é que beber nos faz falar demais, mas a ressaca nos cala a boca como uma morte de aluguel. Simplesmente paramos de falar quando estamos sob efeito da intoxicação alcoólica e, acredite ou não, tudo o que uma pessoa sozinha quer, num momento de desespero, é falar. Mas falar com quem? Falar pra quem? Falar o quê? Não existe um ser humano que consiga responder a estas perguntas. Ninguém, nem nada.

Drum n Bass. Nada de rock. Nada de eletrônicos supertecnológicos cheios de grunhidos. Nada de rap, nem americano, nem canadense, nem inglês. Nem brasileiro. Nada de MPB, nada de coisas figurativas, casinha de sapê, o barquinho, a garota no calçadão da praia. Só um grave, muitos beats, ritmo acelerado e uma porção de paradas bruscas para respirar. Faltava o ar, mas não podia morrer assim. Ninguém ia ficar sabendo e o corpo ia ficar ali, de bobeira, mofando sobre o tapete, sem nenhum choro, nenhum grito de horror, nenhuma pessoa assustada chegando de repente e surpreendendo o presunto ali, estirado. Ninguém, nem nada.

Estava nas paredes. Sempre estão, há anos. Frases e mais frases escritas com pincel atômico e cobertas com tinta salmão, que é pra acalmar o clima do quarto. Estão escritas, todas, debaixo do piso de madeira colado e brilhoso por causa do sinteco. Tá por dentro do travesseiro, atrás dos pontos firmes do edredon, agarradas na sujeira escondida debaixo das teclas deste teclado. As frases estão sempre aqui, sendo ecoadas, repetidas, esquecidas e lembradas. Mas quem escreveu? Quando escreveu? Foram escritas para quem? Não sei, não conheço quem sabe. Ninguém, nem nada.

É aquela falta de amor de Claritromicina. Não o remédio, as pílulas e tal. Mas sim a escritora, que fala do Rio, que fala do povo que chega sem avisar, que vai entrando e depois some como veio, sem querer, sem lembrar. São as constantes faltas de memórias. Mas não aquelas da cabeça, daquelas que a gente lembra mais tarde. Tô falando de coisa séria, tipo as memórias do Sr. Cubas, que tem o mesmo nome que eu, mas se escreve meio diferente, que via borboleta preta, que pensava na morte enquanto ainda estava vivo e depois resolveu pensar na vida quando já estava morto. Ou então, quem sabe, esteja faltando tudo isso. Esteja faltando o veio de ouro, esteja faltando pirâmides e coisas cheias de mistério, enigmas do milênio, todo dia um novo. Talvez esteja faltando utopia, ou memórias utópicas. Mas não há, não existem, porque memórias utópicas são memórias de ninguém. Nem nada.

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Sensual e fictício

A porta fechada que era pra fingir que o mundo tinha parado de existir e tudo o que restava era aquele quarto. Os corpos tremendo de frio e tesão, cheios de pontas de dedos muito frias e narizes que pareciam bicos de gelo. No escuro, quase nada visível, quase nada pra ver e calma, uma extrema calma que descia dos cantos das paredes e lambia os pés da cama, as costuras e as franjas da cortina, os beiços do tapete e as nossas canelas.

De costas, apoiada na parede como quem acaba de ser pega pela polícia, me oferecia uma nuca lisa e comprida para eu beijar, lamber, morder e arranhar. Minha mão sumia por dentro dos cabelos, que se agarravam nos meus dedos e não largavam mais. Foi o primeiro começo de um par de pares de dias da gente se alisando como se tivéssemos mais intimidade que qualquer outra dupla no mundo, nos olhando sem roupas e sem defeitos, isentos de perfeição por opção e felizes com a nossa curiosidade.

Dias sentindo sua respiração quente ao redor da minha orelha, sua voz falhada e oscilante brotando do meio da escuridão e um calor concentrado que passava de mim pra você e depois voltava de novo, num ciclo de aquecimento natural quase imbatível. De dia ainda era escuro e a noite era 24h a dentro, mergulhada em todo tipo de troca de experiências e sensações. Eu passava meus dedos pelo seu rosto, desenhando o contorno da tua boca como um batom de festa, sentindo a ponta da tua língua surgindo por entre os dentes para fazer meu tato salgado receber as boas vindas do teu paladar voraz.

Beijos no olho, carinhos detrás da orelha, dedos entrelaçados debaixo de um sem número de cobertas, pelados e muito quentes, nos aproveitando um do outro para pura sobrevivência. Era tão sensual que chegava a doer ter que dormir. Fechava os olhos fora de controle desejando mais uma dúzia de noites muito bem gastas transando ao som de Los Hermanos, pedindo comida pelo telefone, bebendo vinho barato e usando a boca para beijar e lamber, mas quase nunca para falar.

Era tão erótico, tão intenso e, ao mesmo tempo, tão suave, que beirava a loucura, daquele tipo de sentimento que faz a gente pensar sobre largar o emprego, vender o apartamento e o carro, deixar o cachorro com a mãe e se mudar, de mala e cuia, de vez pra outro lugar. Tão bom, mas tão bom, mas tão bom, que não existia e, enquanto eu passava os dias desenhando uma fantasia cheia de delicadeza e sentimento, a vida real corria a passos largos acabando com toda a minha imaginação.

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O dia de morrer

– registro só pra não esquecer

Na parede, do lado esquerdo, no fundo, a frase do Einstein fazia todo sentido: “A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”. Acontece que não era a ciência que estávamos recebendo em nossas mentes ali. O chão vermelho, as luzes vermelhas, as vestes vermelhas, as velas vermelhas e tudo muito quente, enquanto a cidade ainda não sabia se preferia chuva ou mormaço noturno. 20h30.

Tinha uma fila de gente do lado de fora, na calçada, todos com aparência simples e amena, calmos, já sabendo o que ia acontecer. Eu tentava controlar minha euforia. É inusitado sair de casa numa noite de sábado para participar de um evento onde só você não sabe o que vai acontecer. Chega a ser um pouco idiota se meter numa experiência dessas, mas eu estava lá justamente para abrir minha mente para uma nova ideia e não deixar que ela voltasse para o tamanho original. Um rapaz com a cabeça raspada e barba, parecido comigo, me deu boa noite e me entregou uma senha: 156.

As cadeiras brancas dispostas lado a lado, como num auditório, o cheio do incenso por todo lugar e em segundos meu coração disparou como se fosse a ascensão de uma montanha russa: eu sabia que a queda viria em algum momento. Nada nesse mundo exerce uma influencia mais poderosa sobre o corpo do que tambores. Sentado na segunda fila, atônito, eu tentava absorver todas as figuras, as cores, os gestos e as formalidades, de vez em quando interrompendo o raciocínio para responder perguntas do tipo “tá tudo bem?”, “você tá legal?”, “você quer perguntar alguma coisa?” e eu sempre respondia da maneira mais evasiva possível, disfarçando meu rosto chocado.

Um grito, uma gargalhada, uma moça de uns 20 e poucos anos rodando como uma carrapeta e, de repente, tudo começou a parecer real e calmo. Meus pés formigavam intensamente, qualquer pedaço de pele se arrepiava constantemente e em segundos eu me odiei por não fazer parte daquilo, por ter de me contentar com o papel de visitante, de novato, de amador. Nada ficou turvo, nada me fez ficar tonto, nada me fez mal e isso era um sentimento que eu constantemente ficava procurando, tentando me precaver de algum desmaio súbito ou qualquer outro mal estar atribuído a rituais assim. Estava claro e obvio ser um ritual positivista.

De repente me lembrei da frase “não importa a beleza da mulher, sua Pomba Gira vai ser sempre extremamente sensual” e vi, diante de mim, exatamente o que haviam me alertado. De tanto acreditar, ao invés de me questionar “como isso acontece?”, estava muito mais interessado em simplesmente admirar certas habilidades que passam da capacidade humana de execução. Quem é que equilibra uma vela num chão de cacos só de tocar sua base no solo? Quem é que consegue rodar no próprio eixo dezenas de vezes e depois parar sólido e imóvel como um mastro, sem qualquer sinal de tontura? Quem é que expõe suas próprias roupas ao fogo e não queima uma linha sequer? Quem?

Tesoura nas costas, tridente desenhado no chão, cálice de champanhe, charuto de palha, saia de cetim, preto, branco, vermelho, e preto de novo. “Hoje é dia de morrer”, ela disse, e todo mundo ali – inclusive eu – estava ansioso por esse momento. “Viver é difícil, mas morrer é bem mais. E é preciso morrer para dar início a uma nova vida…”. Fez tanto sentido que a minha euforia até diminuiu. Eu sentia meu rosto quente, meus braços pegando fogo e me concentrava no meu número, 156, porque a fila já havia se formado.

Gente rodando, rodando, rodando, gargalhando, tudo vermelho, tudo às claras, sem pudor, sem segredo, mas sem contar pra ninguém. Não era magia, não parecia magia, porque não era místico, não era nebuloso, não era secreto. Chegou a minha vez, me chamaram com um gesto, eu olhei pra ela, ela olhou pra mim e me pareceu muito difícil sentir medo de uma entidade que se propõe a ouvir, resolver e finalizar alguns dos seus incômodos. Minha primeira reação foi sorrir e eu me lembro de me sentir feliz, imensamente feliz. Escreve no papel, dobra o papel, faz coisas com o papel, pensa no papel, pensa numa luz, pensa numa chuva de rosas, fecha os olhos e no fim, como se já não bastasse a humildade de me ajudar, perguntou: “você tem mais alguma coisa para pedir?” e eu só pude dizer que não.

“Acredite nos seus pensamentos e vá em paz”, ela disse, e me sorriu, e eu sorri de volta e depois me pareceu a coisa mais obvia do mundo saudar ou me despedir de alguém com três abraços. É isso que você faz com quem te oferece ajuda, você abraça! Quando saí de perto, caminhando meio sem rumo, descalço num chão que não tinha temperatura, senti uma alegria que beirava a euforia descontrolada, com o corpo estruturalmente leve, como se me tivesse tirado algum objeto supérfluo e muito pesado. Depois eu ri, cantei, conversei, me senti em casa, me senti acolhido e parte de algo muito maior. “E aí, foi bom?” ouvi, e respondi sem dúvidas: “foi… foi ótimo, na verdade”.

Depois disso São Paulo ainda ficava na dúvida se chovia ou se esquentava. O cheio da rua noturna continuava incrível, o assunto na Rua Augusta continuava sendo sexo, o preço da Itubaína Retrô continuava um disparate, ter amigos continuava sendo a melhor maneira de levar a vida, conversar continuava sendo uma forma de aprender. Ter calma, estar centrado, focado e em paz continua sendo a receita para viver bem, rir ainda é um santo remédio. Se permitir experimentar novas sensações e viver intensamente o novo ainda é uma das melhores maneiras de não viver em vão. Enquanto isso, o Fran’s Café continuava fazendo o pior e mais caro cappuccino da cidade, o dia continuava amanhecendo mais tarde do que o esperado, as pessoas continuam vivendo como se precisassem provar algo para alguém e eu continuava bem, com a certeza de que eu ia voltar lá. O resto de tudo sobre isso é mentira, ignorância ou só histórias que o povo conta. 06h40.

Pensativa

Ela pensava muito, o tempo todo, daquele jeito que deixa o corpo inquieto, agitado além da conta. Pensava sobre o tempo, sobre o sol que não veio, sobre as contas pra pagar, sobre mudar de casa, de cidade, de emprego, de cor de cabelo, de carro, de vida. E queria entrar na academia, ficar mais gostosa, ou botar uns peitos, ou fazer uma tatuagem, ou virar um avatar e sair pulando de árvore em árvore super azul e com um rabo sensacional. Pensava o tempo todo em tudo, junto e não chegava a conclusão nenhuma.

Então pensava sobre a bagunça da casa, sobre as compras que ninguém fez, sobre como ser jovem e morar sozinha é complicado, sobre como tudo que existe para solteiro custa o dobro e vem a metade. Pensava sobre as pessoas que vão jantar em casa no final de semana, sobre o que ia cozinhar, sobre o que tinha que comprar só para cozinhar e sobre o motivo de ter marcado com tanta gente, se não daria conta de fazer comida para todo mundo. Pensava sobre os lugares na mesa, sobre quantos pratos tinha, sobre a bagunça da casa de novo e sobre ter que lavar o banheiro, porque visita tem que ver banheiro limpo.

Aí pensava que a hora não passa, que o trabalho está chatíssimo, que só tem gente incompetente nesse mundo e que, só por isso, merece uma cerveja depois do expediente. Mais que uma cerveja, merece uma ida ao bar com as amigas sem hora para voltar, só a mulherada, “girls night out”, paquera, gente nova, qualquer coisa que anime o fim do dia. Depois pensou que ia acordar tarde no dia seguinte, esquecer celular e despertador, ia se dar a manhã de sábado só por capricho.

Mas depois pensava que pra sair precisava se preparar, e o cabelo não estava nos melhores dias. Pensou sobre a cor das unhas, sobre uma sandália que viu em uma vitrine dias atrás, sobre o vestidinho sensacional que está emprestado pra amiga. Pensou sobre a depilação, que ia marcar na semana anterior mas a esteticista estava doente, depois lembrou da sobrancelha, e lembrou que acabou o batom rosa “de balada”. Pensou sobre todas as coisas, tudo de novo, quatro vezes, em ordens aleatórias, acrescentando novos assuntos, tirando alguns menos relevantes e no meio do fim do expediente, no meio da nuvem de pensamentos malucos, o celular acendeu com uma mensagem: “estou na frente da sua casa. Sai mais cedo do trabalho hoje?“, leu.

Aí não conseguiu pensar em mais nada…

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Gente imensa

O segredo está na alma, e a gente só arranha a superfície. Os cientistas dizem que a gente não usa muito da capacidade do nosso cérebro, mas poderíamos não usar nada, a questão é toda espiritual, quase nunca racional. Você pensa sobre as coisas que você disse, que você fez, os lugares onde foi e o que achou. Ao mesmo tempo, compara suas opiniões e impressões com a dos outros, julga o que os outros disseram, fizeram, viveram e viram. Você nunca pensa sobre pra onde foi o espírito do outro, quando não havia mais o que analisar.

E hoje, mais do que nunca, percebo que o segredo está no espírito, acima da mente, acima da palavra, acima do olhar. Falta o ar – o tempo todo – saber que seu corpo dorme enquanto alguém nutre raiva por você. Falta o ar porque o espírito não apaga, não descansa, não cochila e sente a negatividade entrando pela janela. O que se pensa, se for real, contamina o outro. É coisa de espírito, não de pensamento. Pensar não afeta a vida de ninguém ao seu redor, sentir sim!

Quando já não existe o que dizer, nem o que fazer, nem o que pensar, é hora de procurar os grandes, as pessoas grandes, que realmente podem trazer de volta a paz que não existe mais. Mas não é preciso nem procurar, elas chamam e encontram você. A intuição mediúnica nunca falha. A intuição mediúnica nunca falha. A intuição mediúnica nunca falha. A intuição mediúnica nunca falha. Entendeu? Nunca falha! Você recebe o chamado, vem de dentro, do fundo e, de repente, você está lá, sentado diante de uma coisa que já não é alguém, não é um amigo, não é um conhecido, não é uma pessoa. É uma coisa, uma criatura, algo maior, tanto em escala de importância, quanto em escala física.

Com sorte – muita sorte – sou cercado de médiuns enormes. Eu disse E-NOR-MES! Gente que entra na minha casa e bota uns dez espíritos pra dentro do meu quarto, senta na minha cama com o peso de sete entidades e conversa comigo em doze vozes. Gente de metros de altura, que tapam o sol, que me olham muito de cima e me sorriem medonhamente felizes. Tobias. Capelosa. Cury. Nomes são só nomes, mas o espírito não se confunde, não se nega e não se esconde. Nesses momentos que me falta a paz, que me escurece o ambiente, abro mão de qualquer ceticismo, qualquer descrença, e deixo entrar o que sempre esteve aqui fora, esperando, desde o dia em que eu nasci.

Existe uma hora que nenhum pensamento é páreo para uma entidade, um espírito, um santo, uma luz. Sugo ao máximo a influência dessa gente quase mágica, enorme, gigante, imensa, presa em corpinhos de menos de 1,60 m, cheios de uma fé que não se mede, que não se explica, mas que invade cada canto de cada coisa em todo lugar por onde vão. Nunca tive coragem de negar a superioridade de gente assim, assim como nunca pude deixar de notar o tamanho da sombra que se forma atrás de seus pés. São pessoas imensas, repito.

Aprendi – e muito bem aprendido, com aulas práticas e prova final – que não se deve desejar o mal de ninguém, nem nutrir rancor, nem desprezo, nem qualquer tipo de fúria. Hoje sei que sentimentos assim me trazem mais coisas ruins do que qualquer malfeitor poderia conseguir. Desejo o bem, a paz e a felicidade a todo mundo que me cruza na rua, em dia de sol e de chuva, de noite e de dia, no inverno e no verão. Mas sei, assim como 2+2 são 4, que nenhum pensamento ruim, nenhuma má intenção, nenhum sentimento negativo, é páreo para a quantidade de santos, espíritos, orixás, entidades, energias, e luzes que me rodeiam de agora em diante.

Um corpo fechado, aberto a todo ser. Tudo vai ficar bem. Amém.

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A vida é uma escola

Toda vez que alguém se empenha em fazer algo, acredito eu, é para fazer bem feito. Ninguém decide se dedicar a alguma coisa para obter um resultado ruim. Quanto mais exigente nós somos, melhores são nossas conquistas, mas nem sempre o resultado é proporcional à expectativa. Tem vezes que a gente quer fazer o melhor e simplesmente falha. E falha porque o ser humano é falível, porque as nossas ações são variáveis, não existe fórmula matemática da vida.

Eu pretendia ser incrível. Pretendia porque era o certo a se fazer, porque eu estava determinado a ser bom. Acontece que por algum motivo, ou vários deles, fui escorando minhas conquistas numa porção de erros pequenos, médios e enormes, que variavam de tempo, intensidade e cor. Os erros da gente têm cores. Nos últimos tempos – e não sei precisar exatamente quanto tempo – aprendi a adotar uma conduta de extrema responsabilidade pelos meus atos e humildade diante dos meus vacilos. Decidi que nunca mais tentaria me defender mudando a opinião de alguém que estava certa, quando eu estava errado. Eu tinha esse talento e era muito bom nisso. Não faço mais. Junto com isso, teria plena consciência dos meus atos e dos possíveis males que eles poderiam me causar e aos que estavam ao meu redor.

Mas eu me acomodei. Aprendi que deveria ser humilde, queria ser humilde, tentava ser humilde, mas esqueci de retribuir os que foram humildes e bons comigo. Quando alguém faz uma coisa por nós, tendemos a agradecer e lembrar do gesto. Quanto alguém faz muitas coisas boas para nós, em sequência, ironicamente deixamos de reconhecer esses atos. A gente fica acostumado a ter o melhor e acha que não deve agradecer por isso, cuidar disso, manter isso. E eu não tive tino pra perceber o que estava fazendo e deixando de fazer.

Perdi. E perdi daquele jeito que não tem nem como argumentar, como pedir revisão, como dizer que foi resultado roubado. Perdi limpo, no único jogo que não tem replay nem tira-teima: na vida é tudo no preto e no branco. E quando a gente perde assim, de surpresa, sem nem saber que era dia de final, clima de decisão no ar e você moscando, acabamos ficando sem rumo. Bate o desespero, as ações começam a ficar todas descoordenadas e do dia pra noite você, que tentava ser bom, que tentava fazer o certo, está se atropelando nos seus próprios passos.

Viver é foda porque a gente não vive sozinho. Qualquer pessoa em sã consciência não quer magoar ninguém, nem decepcionar, nem frustrar, nem iludir ninguém. Mas a gente erra e o dedo do povo é implacável, tá sempre na nossa cara, ta sempre direto virado pra nós.

Nessa hora, que você já fodeu tudo, desapontou todo mundo, fez tudo que não devia fazer, tentou consertar e fodeu mais, o que você deve fazer é voltar ao início: se comprometer em fazer o melhor. Eu não quero ser vilão, não quero ser o cretino, nem o desmerecedor. Não quero ficar marcado no lado preto da página. Eu não quero ser o resultado do “eu te avisei”, ou a certeza do “eu já sabia”, porque por trás de tudo, de todo o julgamento de todo erro, e por trás de todo erro de julgar alguém, o que existe é uma pessoa que tá tentando acertar as coisas.

A gente não ganha todas… mas sempre vale o aprendizado. Como disse Alexandre Pires: “a vida é uma escola”!

Viva a siririca!

A gente anda careta e babaca demais. E quando digo “a gente”, quero dizer eu e você, os dois, os todos, porque não é difícil perceber a própria coxinhice, a própria hipocrisia e o próprio atraso de opinião. Mas a gente vive dizendo que vai melhorar e sorte daqueles que realmente buscam aprender mais, ficar mais maleáveis, porque a vida desenhada na base de opiniões sólidas é uma merda construída de um erro atrás do outro. Sabe como você faz isso? Prestando atenção em pessoas que têm opiniões – as sensatas e embasadas, ok? – e formando as suas próprias.

Esses dias pulou um cartaz no meu feed do Facebook que dizia apenas “Gente que toca siririca S2” (imagem disponível na página do facebook) e quem replicou foi a Carol Patrocínio, um bom exemplo dessas pessoas que têm opiniões que podem te ajudar a ter suas próprias opiniões, você concordando com as dela ou não. O lugar de onde ela replicou era uma página chamada Indiretas de Satã, que faz piada com coisas religiosamente não recomendadas, e a justificativa para “Satã” curtir a moçada que toca siriria era que “Siririca é pecado e por isso mesmo é tão massa” e eu, de cara ri. E ri porque é engraçado, porque era pra ser uma piadinha besta e funcionou, mas por trás da piada, ao replicar uma imagem que incetiva e apoia, de maneira carinhosa e leve, mulheres que se masturbam, você fica parecendo um revolucionário revoltoso.

A Carol deu reply na imagem, eu vi, achei incomum e no mesmo segundo repliquei também. Claro que as pessoas ofendidas não se manifestaram, mas elas estavam lá, do outro lado da tela, se sentindo super envergonhadas e incomodadas com um banner gigante na tela dizendo que gente que toca siririca é legal e a gente gosta delas. Alguns dos meus amigos até arriscaram comentários como “Porra, Braz” ou “Ahh, tinha que ser o Braz”, mas na verdade o que todo mundo deveria fazer era dar um like e compartilhar. Só! Assim como o simples fato de um homossexual assumir sua homossexualidade se tornou um ato político e militante, mesmo que o correto seria ser uma coisa banal que não é da conta de ninguém além da dele, colocar-se a favor da liberdade sexual da mulher, que deveria ser uma coisa banal que não é da conta de ninguém além da dela, se tornou uma coisa chocante.

Quando eu vi que o banner só parecia interessante para mim, e não para um monte de outras pessoas envergonhadas, foi que me deu um estalo: ué, tô errado? Acho que não. E dizer “siririca” é o mesmo que dizer “punheta”, que dizer “xana”, “pinto”, “xiririca”, “bilau” e por aí vai. É uma palavra estranha que alguém inventou pra servir de sinônimo popular de uma palavra que a ciência tratou de complicar. MAS-TUR-BA-ÇÃO FE-MI-NI-NA. Prefiro siririca, na boa.

Aí o povo tem vergonha até de LER a palavra, de falar do assunto, como se fosse tabu. Naquelas entrevistas pseudo-sexuais estranhas que veículos estranhos fazem com sub-celebridades estranhas, nunca perguntam pro cara: “Mas então, você bate punheta?” porque a resposta seria um sonoro “CLARO!” e todo mundo já imaginava aquilo. Mas o povo ainda pergunta pra mulher “Você se masturba?” e se ela responde que sim, ela é polêmica (?) se ela responde que não, ela é puritana. Isso parece tão bizarro para mim que fico em dúvida se isso é coisa minha, se eu que tô pensando diferente.

Quem lê as coisas que eu escrevo aqui já deve ter topado com algum texto que fala de uma mulher que se masturba – que toca siririca, pra ficar mais suave – e eu comecei a escrever “cenas” assim depois que percebi que é raridade encontrar gente falando disso como se fosse normal. Porque vamos combinar: É NORMAL! Mas de tanto “as pessoas” acharem que não é, dizerem que não é, ensinarem que não é, a gente acha que não é. E pior: as mocinhas mais novas, nos 10, 12 anos, também acham que não é certo e aí não fazem. E não se masturbar, tanto para homens quanto para mulheres, é uma questão que pode gerar problemas futuros. Problemas que “as pessoas” também insistem que não são importantes, como por exemplo, OR-GAS-MO FE-MI-NI-NO, ou gozo – outra palavra que faz a galera desligar o monitor na hora.

Tem sexólogo falando, tem psicólogo falando, tem mulheres comuns falando, mas o povo ainda recrimina a siririca. Masturbação é um exercício de conhecimento do próprio corpo, isso ajuda – e muito – a mulher, ou o cara, héteros ou homos, a curtirem mais o sexo quando chegar a hora e a se curtirem sozinhos. A mulher se masturba, descobre do que ela gosta mais, onde funciona, onde não funciona e vai ser feliz. Se não tiver com quem ser feliz, vai ser feliz sozinha e fim. Mas aí a gente ensina, direta e indiretamente, que punheta é normal pro garoto, e siririca é errado ao extremo pra menina. Depois abre o jornal e vê estatísticas tristes, tipo “70% das mulheres não atingem o orgasmo em relações sexuais”. CLARO que não é porque ela se masturba que ela vai gozar transando, existem mil coisas a serem consideradas e não é uma formula matemática: siririca = goza no sexo. Mas ajuda, e como ajuda!

Deixar a mulher se masturbar e, mais importante do que isso, incentivar a masturbação feminina, faz parte de criar um mundo onde as mulheres podem decidir sobre o próprio corpo e viverem felizes com eles. Quanto mais mulheres aceitarem a própria imagem e viverem bem com isso, mais homens aceitarão as imagens de suas mulheres e essa cultura do corpo lindão vai se tornar menos importante. Mulheres precisam, merecem e devem ser felizes sexualmente. Sentirem prazer adoidadas. Gozar como loucas. Sozinhas, acompanhadas, em casa, na rua, na chuva, na fazenda ou na casinha de sapê. Siririca não deveria ser uma palavra que gera vergonha, assim como seu significado não deveria ser proibido ou escondido. Não estraguemos as nossas crianças com crenças babacas, opiniões medievais e sentimentos negativos. Viva a siririca!

ps: na página do Memórias Utópicas no facetruque a imagem que foi utilizada para ilustrar este texto é de uma moça chamada Evelyn que atende pelo pseudônimo de “Negahamburguer“. Vale a pena ver o trabalho dela e curtir a visão dela sobre a liberdade do corpo da mulher!

ps2: desculpem as pessoas quem manjam mais do assunto que eu, caso eu tenha falado alguma merda. E desculpem eu bancar a sexóloga frustrada com a  carreira, é que siririca/punheta é coisa séria!

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Metamorfose

Se dissessem que era feliz, chorava de desgosto. Não queria, não combinava. O bom, mesmo que ruim, era estar na merda. Vivia cagada, fodida, sem vontade de porra nenhuma, mas destilando toda a elegância que a solidão e a tristeza têm. Depois escrevia coisas sobre o sentimento de vazio que se sente quando não se tem alguém, falava sobre vida e morte, futuro – ou quase isso – e lia muito. Lia como se fosse o que garantiria que sua vida ainda valeria a pena. Lia coisas antigas, muito novas, cheias de palavras desconhecidas e até em outras línguas. Lia e sofria, porque a vida nos livros sempre vai para algum lugar, nem que seja para a última página. A dela não se movia.

Tinha “Que o amor seja meu suco, meu soco e meu sulco, para que nasça e morra comigo” escrito no teto, bem sobre a cama, para se lembrar todo dia de que o motivo daquilo todo era o suco, o soco e o sulco. Amava tão desmedidamente que chegava a odiar o amor incontrolável que sentia. Tinha picos de ódio e aceitação. Por vezes passa dois dias sem comer, enrolada nas cobertas, cada vez mais quente, cada vez mais magra, cada vez mais cadáver. Fechava os olhos por muitas horas e permanecia imóvel, mas não dormia. Chorava um pouco, resmungava um pouco, sentia tristezas atrozes e continuava enrolada o mais apertado que podia. O corpo novo, cheio de energia acumulada, não conseguia dormir tanto, então vagava por pensamentos obscuros de olhos fechados, mas acordada, fosse dia ou noite.

Depois que se cansava do isolamento, virava totalmente na direção oposta e se despia de todo pano. Pegava o carro da mãe e dirigia de noite com os vidros abertos, passando um frio do caralho, usando a mesma camisola dos dois dias anteriores. Comia fast food comprada em drive-thru e pedia bebidas enormes, refrigerantes de litros sorvidos em canudinho, milkshakes que vinham em copos do tamanho de seu antebraço e ia engordando tudo que perdera em dois dias de água e sonhos. Comia doces sem controle, abria latas de leite condensado em casa e comia todo o conteúdo com o dedo. Tornava-se uma voraz devoradora de açúcares e gorduras e não tinha hora para parar.

No dia seguinte pegava o carro e comprava bebida em lojas de conveniência e se obrigava a beber sozinha. Dirigia misturando tudo, ouvindo músicas adolescentes em volumes acima do aceitável para o horário e voltava para casa mais acabada do que havia saído. Então sentia-se enojada pelo cheiro de sujo do próprio corpo e tomava banho com as luzes apagadas. Era sempre um show à parte.

Levava uma garrafa de qualquer coisa para o chuveiro, botava a música pra dentro, fechava a porta e ficava debaixo da água quente embaçando tudo que não podia ver. Bêbada até o talo, fazia danças sensuais imaginando as stripers americanas daqueles filmes B. Rebolava fazendo carões que ninguém poderia enxergar, esfregava-se na parede, alisava o próprio corpo da maneira mais vulgar possível e continuava dançando, rodando, tomando cabelada na cara sem saber de onde vinham. Esquecia por algum tempo das desilusões da vida, do amor e do mundo e lembrava-se só dos prazeres que sentira nos raros momentos bons que os homens puderam lhe proporcionar.

Como não podia manter o equilíbrio de botar uma perna para cima e segurar o corpo com a outra, sentava-se no chão e usava a escuridão e a imaginação para formar as melhores transas do mundo. Masturbava-se com violência, intervalando gemidos e goles de álcool, gozando descontrolada e quase apagando com pressão baixa. Secava o corpo como se ainda estivesse se exibindo para alguém, ignorava os cabelos molhados e voltava ao quarto como se não houvesse dia e noite, nem semanas, nem horários. Era uma brecha no tempo que ela dedicava para a auto-cura. Dormia pelada, jogada de qualquer jeito por cima das cobertas e sentia a cama girar como um espeto de churrasco fixo numa televisão de cachorro. Ela era a galinha assando ali.

Quando acordava queria morrer. Vomitava horrores, não se conformava com a intensidade das dores de cabeça, do corpo, não entendia os arranhões no peito, nas coxas e se recusava a aceitar que tinha feito aquilo sozinha sem motivo algum. Sentia-se mal, ficava deprimida, não sabia o que fazer, não ficava de pé, nem deitava, nem sentava, nem falava com ninguém. Passava algumas horas inerte, fazendo gestos aleatórios e falando palavras desconexas. Quando não aguentava mais a fome e a dor, saía, sentava na cozinha e a mãe cuidava de preparar algo com cara de comida de gente doente. Ficaria três dias nessa paz consigo mesma, usando roupas normais, indo à faculdade, tentando ter amigos e levando uma vida normal. No quarto dia se recolheria ao seu casulo novamente e a metamorfose recomeçaria do zero.

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Deixa a menina transar!

Isso é coisa de gente que não soube se emocionar na adolescência. Eu me lembro que com 20 anos eu não tinha medo de nada a não ser da morte prematura, do sofrimento e da solidão. Felizmente nenhum dos três me atingiu. Só deus sabe a alegria que me dava ficar na rua com gente que me diziam ser “ruim”, vendo como viviam, o que pensavam e o que os fazia parecer tão não-recomendáveis. Eram todos ótimos, cheios de boas histórias e tão destemidos como eu. Foi dessa época que nasceu meu namoro eterno com a noite, minha admiração pelo barulho, pela bagunça e pela efervescência da juventude. Afinal, não se é jovem para sempre!

Hoje vejo gente da minha idade que não soube se divertir, que não soube se entregar, podando a moçada que quer descobrir o mundão lá fora. “Leave them kids alone!” Imagino o quão babaca cresce alguém que não pôde experimentar o melhor da adolescência. Eu nunca seria capaz de encarnar a caretice de brigar e dar lição de moral em alguém que comete os mesmos erros que eu cometia. Isso é coisa de quem não viveu, não se fodeu, não aprendeu e quer ser dono da verdade. Sabem nada… assim como todos nós.

Me preocupo muito em conseguir chegar a tempo de dizer “meu chapa, eu fiz assim e deu merda”, para não me sentir omisso. Mas a vida é feita de escolhas e vale muito mais apontar as opções do que obrigar alguém a escolher a que você julga ser a certa, sem explicar o motivo ou deixar que se arrependam sozinhos das escolhas que fazem. Dar o próprio exemplo funciona, eu juro! É o caso da mãe que diz pros filhos que tais coisas não são certas, mas que deixa que cada um deles entenda sozinho o motivo daquilo. Fui criado na base do “escolha o certo” e não do “escolha o que eu disser para você escolher”, e isso fez toda diferença.

O menino não pode fumar porque faz mal. Porque vicia. Porque estoura os pulmões. Mas se ele quiser fumar, nem um milagre vai fazê-lo desistir da ideia, perder a curiosidade e deixar pra lá. Ser jovem tem tudo a ver com aprender na marra, comprovar empiricamente, sentir na pele e decidir só depois. Deixa o menino fumar, uma hora ele decide se aquilo é bom ou não. A mocinha não pode sair de roupa curta porque é coisa de vagabunda. Porque aparece a bunda. Porque vai perder o respeito. Porque não vai arranjar um cara legal. Deixa ela! Vai ver, dentro do tubinho preto curtíssimo dela, quem sabe, ela perceba o que é o preconceito, o que são valores sociais idiotas e quais são as verdadeiras mentiras que as pessoas contam. Talvez ela encontre um namorado que goste das roupas dela, talvez ela descubra que o que importa é se sentir confortável e talvez um dia ela sinta frio e decida sair com algo maior. Mas deixe a mocinha decidir sobre o próprio corpo, as próprias roupas, a própria aparência e sobre a própria vontade.

Não pode beber porque é coisa de marginal, porque acaba com o homem, porque mulher de verdade não fica bêbada. Que grandes merdas a juventude ouve “da gente”, não? Os caras dão de frente com os pais bebaços de caipirinha na feijoada de domingo, com a família, mas não podem fazer o mesmo na baladinha de sábado com os amigos novos. A gente envelhece e começa a ficar cego para o quão hipócritas são nossas opiniões. Cinco anos atrás ninguém gostaria de ser censurado como censuramos os jovens de agora. Deixa os caras aprenderem com a vida: melhor aprendizado não há.

Aí a menina fica cansada da infância e decide dar uma olhada no que é que tem pra lá do playground, pra lá do condomínio, pra lá dos muros da escola. Aí a menina descobre que fumar maconha é legal de vez em quando, mas sozinha ela percebe que fica meio lenta e decide que não é bom fumar sempre. Aí a menina descobre que cerveja é ruim, mas é bom. Que álcool é divertido, e depois do primeiro porre, sozinha, sem bronca nem sermão, aprende que tudo tem limite e que agora ela já sabe até onde pode ir. Aí a menina descobre que variedade é bom, diversidade é ótimo e começa a beijar os menininhos do colégio, depois os amigos das amigas, depois o irmão mais velho da outra amiga e depois começa a descobrir que tipo de homem a atrai. Depois ela aprende que sentir prazer dá vontade de dar prazer e que dar prazer também dá prazer. E quando a vida vai caminhando para ela aprender todo o resto, uma porção de jovens-velhos se sentem na obrigação de intervirem, de salvar a moça, de impedir que ela seja uma “puta”. Quanto “20 e poucos anos” envelhecido precocemente, meu deus. Na boa, ensina que camisinha é lei e deixa a menina transar!

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