A personagem base

“Não existem muitos de você no mundo”, ela me disse, e eu lembro disso como se lembrasse de algo que ouvi dois segundos atrás. Me sentia estranho por lembrar, mas lembrava mesmo assim. Eu lembrava dela em todos os detalhes, do tom de voz, da maneira como conversava falando lentamente e de como conduzia raciocínios complexos de maneira simples e direta, com poucas palavras, sem metáforas ou grandes explicações. Eu me lembro de pensar que era preciso ser inteligente para manter um diálogo sobre os assuntos que ela iniciava.

Ela não existia. Nunca existiu. Passei muito tempo construindo seu rosto, sua pele muito branca, cheia de marcas que a vida foi deixando ao longo do tempo. Uma vida que ela não teve, uma porção de memórias criadas, desenhadas com cuidado, tecidas umas nas outras, essas memórias, tentando criar alguém, uma personalidade, uma pessoa com quem eu teria o maior prazer de beber alguma coisa, falar sobre temas complicados e discutir até quase beirar a agressão. Eu pensava suas roupas, sua casa, suas características mais marcantes, como tiques com os olhos, sobre ser sozinha, ou sobre o tipo de gesto que fazia quando estava feliz ou triste.

Eu a criei para textos assim, como este, que precisam de uma protagonista que eu não conheço, alguém cuja existência eu não poderia suportar. É uma criação fantasiada de perfeição, personagem recorrente, que muda a cor do cabelo, dos olhos e os gostos pessoais, mas que não muda de rosto, nem de corpo, nem de vida. Criar personagens tem disso, dessa fixação, admiração por uma ficção tão repetitiva que às vezes se confunde com a realidade. Devo ter criado mais uns 8 irmãos e irmãs para ela, sempre que necessário, sempre que o tom é outro, sempre que falar de gente de carne e osso me parece chato, cansativo ou perigoso.

Uma das principais vantagens de ser “pai” de criaturas assim é que elas dizem o que eu quero ouvir, fazem o que eu quero que façam, pensam o que eu quero que pensem e morrem quando eu mando morrer. Escrever ficção é como ser Deus, só que sem ferir ninguém. Mato meus personagens de amor, de ódio, de bala perdida e de azeitona presa na garganta. Não importa, não existem, não deixaram filhos, família, amigos. E se deixaram, são inventados também. São pedaços de mim que eu mesmo não manifesto durante a vida. São retratos de famílias que eu nunca fiz parte, cartas de amor que eu nunca escrevi, nem recebi, festas para as quais eu nunca fui convidado.

Cada pessoa que eu conheço doa, mesmo que involuntariamente, um pouco de si para personagens como ela. Personagens sólidos que eu faço questão de cultivar. “Ela” é minha mulher padrão, a moça que sempre está na primeira opção de protagonista branca e magra de qualquer história que eu venha a escrever. Assim com existe um homem padrão, uma moça negra padrão, uma criança padrão e um espírito padrão. Mas ela é a mais velha, a primogênita, veio da minha pré-adolescência. Ela é a mulher traída, a mulher infiel, a assassina e a vítima. É a mãe dedicada, a namorada psicótica, a amiga confidente e o rosto mais atraente de todas as festas. Ela é a melhor trepada, ou a maior decepção sexual da vida de qualquer homem. Ela é a massa de baunilha que vira todo tipo de bolo, é a folha branca, é a gênesis de qualquer criação.

E esses dias, quando ouvi que “não existem muitos ‘de mim’ no mundo”, tive certeza de que isso já está indo longe demais. Alter ego. Sombra. Musa. O nome e o rótulo todo mundo pode escolher, mas o fato é que quando seus personagens começam a parecer gente de verdade é hora de se agarrar à realidade mais do que tudo. Que tipo de gente doente cria pessoas para elogiarem a si mesmas? Que tipo de megalomaníaco contrata capachos para ouvir sobre qualidades planejadas? Tenho estado muito pouco inspirado quanto à criação de novos personagens. Preciso abrir mão das criações antigas e dar espaço para outra gente imaginária. Ela está tentando sair dessa tela e pular pro lado de cá, pra fora da minha cabeça, querendo entrar pro time das pessoas que morrem de verdade. Não vai rolar…

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Um pensamento sobre “A personagem base

  1. Cara, você tem o dom de fazer eu me apaixonar pelas suas personagens!

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