Arquivo mensal: maio 2014

Simpatia

Ela tinha dentes grandes meio amarelados, só os de baixo, e parecia um pouco desconfortável com o próprio corpo, como se tivesse vestido uma roupa que não lhe servia. Uma roupa de corpo. Os cabelos castanhos secos como as cerdas das vassouras velhas e vagabundas compradas na feira aos domingos, a roupa bagunçada num corpo que não lhe servia e a pele doente. Tinha marcas vermelhas na pele, pontos, como espinhas, erupções diversas, espalhadas pela cara, pescoço e colo. Constelações de doenças de pele. Olhava com os olhos fixos para a janela, assistia a vida do lado de fora e se incomodava com o corpo que não lhe vestia confortável. Era magra, tinha peitos de tamanhos diferentes, mas igualmente magros. Usava um sutiã que os apertava ainda mais e desenhavam uma estrutura invasora por debaixo da roupa fina. Parecia não ter peitos, só um sutiã apertadíssimo agarrado ao tronco com bojos de espessuras diferentes. Eram peitos díspares, os dela, assim como seus olhos, um sempre mais aberto que o outro, e seus dentes de baixo. Tinha dentes brancos em cima, amarelados em baixo.

Sentada sobre a mesa da cozinha com as pernas cruzadas ela olhava a janela. As sobrancelhas marcadas no rosto branco, a pele pálida cravejada de revoltas e estresses, o queixo anguloso projetado um pouco para frente, o osso maxilar forte e largo e as orelhas furadas com brincos discretos ganhando espaço no meio dos cabelos sem vida. Cabelos marrons da cor de palha morta e velha deixada na chuva. As unhas comidas e machucadas nas pontas dos dedos grudados em umas mãos ossudas e magras quase como a dos mortos, só que mais geladas. Eram mãos de faca, com dedos afiados como lâminas e gelados como aço. Ela cortava coisas com aquelas mãos, inclusive a própria carne, cutucando feridas, coçando o pescoço com violência e espremendo marcas que se transformam em feridas horríveis. Apesar de sentada sobre o tampo da mesa, nunca fora calma ou quieta. Incorporava a revolta ali, de pernas cruzadas, fixando a vida além da janela fechada.

O dia cinza como o resto do carvão no fim da festa, frio, úmido e cruel. Dias cinzas e frios são cruéis porque acabam com a esperança das pessoas, drenam o ânimo até quase beirararem a depressão, mas ela gostava assim. Gostava de dias tristes e cruéis porque era triste e cruel. Trise com o mundo. Cruel consigo mesma. A cozinha quente tomada pelo calor da panela no fogo e ela sentada sobre a mesa. Cozinhava. Uma panela prateada enorme estava posta sobre o fogão com as quatro bocas acesas e a água dentro borbulhava sem parar, vigorosa e urgente. Bolhas são sempre urgentes, vivendo no limite da morte presas em sua redonda fragilidade aquática. Cozinhava um sapato preto.

No dia em que se sentou com os peitos apertados a um sutiã disforme, o corpo esquálido e branco, cravejado de marcas e feridas, com as unhas e as laterais dos dedos comidas até a carne, estava cozinhando um sapato preto. Olhava a janela e o além dela, imaginando os passos de alguém em algum outro lugar fora da vista da casa. Sentada com calças velhas e pés descalços sobre o tampo marrom da mesa, ostentando cabelos de cerdas de vassoura vagabunda, cor de leite coalhado, dentes de cores diferentes e vestindo um corpo que não lhe cabia, ela abriu mão da própria juventude. Entregou tudo a uma corujaescura que passara por lá mais cedo. Porque todo mundo sabe que o diabo é uma coruja escura que passa cedo na casa das gentes. Ofereceu beleza, energia, libido, viço e 20 anos de idade para uma simpatia besta. Quase uma galinha preta gorda, só que coruja, só que demônio, só que do além. Acreditava estar cozinhando o corpo do ex afogando seu sapato em água quente. É de maldade que as pessoas fazem isso. Essas pragas nunca têm fim. Só começo.

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Novo mundo?!

Você já sentiu como se o mundo estivesse recomeçando? Como se o dia fosse nascer pra um mundo novo e você fizesse parte dele, como se fosse hora de deixar tudo de velho e feio para trás e dar boas vindas ao que há de mais novo e promissor. Iniciar novos planos, do zero, da prancheta, como se tudo o que já tinha sido planejado não tivesse mais nenhum valor. Já sentiu isso?! É um estalo que dá, como se a gente acordasse de um sonho nebuloso, ou como se tivesse tomado um susto no meio de uma tarde sonolenta e percebesse que o dia já era noite. É um abrir de olhos, mágico e intenso, que apresenta novas cores em paisagens já conhecidas e nos convida a dançar por outros salões de baile.

É de repente, então não tente provocar esse tipo de coisa. Não é assim que funciona. Essas sensações são como acontecimentos, são fenômenos, não podem ser controladas, previstas, evitadas ou manipuladas. Como seria possível manipular o renascimento da existência? Da sua própria existência? Não é concebível, uma coisa dessas, nem em ideias abstratas. Nessa hora Juliana diria que eu estou psicografando, tendo a certeza estranha que só ela tem de que eu não escrevo “sozinho”nesse tipo de texto. Vai ver a psicografia, a canalização, a incorporação ou qualquer outro fenômeno semelhante seja um fio condutor para esse renascimento de mundo. É estar conectado a alguém ou algo que ainda não veio, ou que já se foi há muito.

Renovação. É disso que eu estou falando. Daqueles momentos em que simplesmente a vida pede um pouco mais de ação, uma direção diferente, um novo roteiro para interpretar. Somos atores protagonistas das nossas próprias telenovelas. Tem gente que vive eternamente no núcleo cômico da história, enquanto outros encarnam o drama principal e seguem firmes no eterno perde e ganha, separa e junta, conquista e decepciona. É quando esse tipo de ciclo entra em cena que é hora de gritar em alto e bom som: “CORTA!”, e começar de novo, de um jeito melhor. Você nunca sentiu isso?! Essa vontade estranha de começar algo novo do zero e fazer acontecer? São momentos épicos em que a gente sente que tudo está no lugar certo, feito para a mudança acontecer. É quando você ouve um daqueles clássicos do Oasis e pensa sobre tudo o que daria pra fazer com isso tudo o que você é!

Talvez você já tenha passado por isso e não tenha dado importância, ou então, quem sabe, tenha lhe faltado fibra na hora de tomar a decisão da virada, aquela hora em que tudo muda. Porque, claro, é preciso muita coragem para fazer renascer um mundo assim, tão redondo, tão ok, como o que a gente vive. Mas nunca te deu curiosidade para saber o que é que poderíamos ter sido se não fossemos nós mesmos desse jeito que nos fizeram ser? Eu sei que parece confuso, talvez até um pouco mirabolante, mas se fosse para reduzir tudo isso em algumas poucas palavras, a melhor maneira seria em forma de pergunta. Uma pergunta só. Dessas que a gente ouve e leva pro almoço, mastiga preso no trânsito, guarda debaixo do travesseiro e fica ruminando dias e dias sem parar. Afinal, você está satisfeito?

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