Arquivo mensal: julho 2014

Me responde

Fodeu, mas a gente dá um jeito, tudo bem. Depois a gente vê isso, a gente pensa no que vai fazer, se vai viajar pra algum lugar ou tirar férias. A gente pode até ir para a casa daquela sua tia que mora no interior e tem aquela pousada. Depois a gente pode alugar um carro e entregar lá pra Minas, longe, outra cidade, outros ares, vai ser bom pra nós.

A gente pode passar uns dias perto de Vermelho Velho e depois ir para o deserto, ou para a floresta, você escolhe, pode escolher. Depois talvez a gente construa uma cabana, passe uns meses, podemos comer fruta, treinar aquela coisa de só comer vegetais crus, sabe? Nada de carne, nada de cozinha, nada de complicado. Vamos ser naturais, que tal, o que você acha, heim?

A gente pode deixar a poeira baixar, ver o Ano Novo sem fogos dessa vez, ficar juntos na chuva e no sol, sentir o vento dobrar as árvores e chamar o mundo todo, aquele conhecido e ao alcance dos nossos olhos, de lar. Nosso lar vai ser o mundo todo, rei e rainha da nossa própria parte do mundo. Vamos decretar que todo fim de tarde vai ser roxo, laranja e rosa, com as árvores desenhadas de sombra ao fundo e tudo bem no resto do planeta.

Depois, se a gente ver que tá virando bicho, pode tentar voltar para a cidade, morar de frente pro mar, tomar banho de sal todo dia, limpar a alma, lavar o corpo e tomar o dia e a noite como relógio. Viver sem calendário, sem regra, sem lei, pelados, bonitos e saudáveis, do jeito que a gente sempre sonhou. Você sempre sonhou isso, não sonhou? Eu sei que sonhou. Então, a gente pode viver tudo isso. A gente tem todo o tempo do mundo, vamos vomitar tempos, criar tempos com as mãos e a vida nunca vai acabar.

Quando a gente decidir ser eterno tudo vai ficar bem. Não vai ter mais motivo pra fugir, nem se esconder, nem sentir medo, nem envelhecer, porque ficar velho é morrer um pouco a cada dia e quem é eterno é imortal. As mesmas cores dentro dos olhos, os mesmos sabores de fruta, os cheiros da pele limpa com água de rio e a vida perfeita. Vai ser lindo, calma, vai ficar tudo bem, mas agora me responde de novo: você tem certeza que tá grávida? Me responde…

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Velas para memórias

A janela aberta, um frio absurdo entrando e abraçando tudo no quarto com aquela calma que só o inverno tem, a luz apagada, a cidade acesa como sempre e eu bebendo já o oitavo copo, chorando as mesmas perdas de sempre. As velas escorrendo suas ceras como pedaços de um pano que se forma aos poucos, esparramando ao redor, secos, duros e foscos, como vestidos de noiva que se formam debaixo do fogo. Eu sempre acendo velas para as coisas que não voltam mais. Lembro que quando era criança ficava feliz com o breu da falta de energia no bairro e todo mundo acendia velas para tentar enxergar a casa. Eu sempre achava que a luz podia nunca mais voltar e a ideia me agradava absurdamente.

Hoje acendo velas para coisas como pessoas, fotografias, músicas, cheiros e momentos. Momentos, principalmente. Tenho flashes de coisas que vivi e lamento profundamente por não conseguir fazer com que essas memórias durem mais do que uns poucos segundos. Hoje já estou no décimo primeiro copo e continuo olhando o quarto, a pouca escuridão que as luzes de fora deixam que se forme, meus dedos, minhas mãos e isso me faz ficar pequeno. Sinto uma implosão, como se minhas emoções saíssem pelos olhos, pela pele ou por onde for, e voltassem de volta para dentro. Sinto uma tristeza e uma saudade sem tamanho, sem medida e sem nome. São saudades acumuladas todos esses anos, inclusive de coisas que nem sei direito se são dessa vida ou de outra mais antiga.

Penso sobre como a existência deve ser, coloco uma música do tipo que se ouve durante reflexões assim e sinto o mundo todo se arrepiar, apertado assim como eu, crescendo por trás das paredes, pelo outro lado das janelas, expandindo, vibrando, me mostrando que eu não sou o único com velas acesas essa noite. Todo mundo, no escuro e sozinho, tem coisas a sentir falta, a rezar por, a desejar de volta. De tempos em tempos decido abrir as garrafas da casa e me jogar num poço de lembranças que insistem em passar rápido demais durante a queda. Queda livre nas próprias imagens pode matar, sabia? Ainda mais assim, já no décimo terceiro copo e sem sono algum.

Então, quando vem o refrão, forte, gordo e intenso eu me deixo cair de joelhos no tapete, sinto a dor do impacto e penso vagamente no barulho que deve ter feito no andar de baixo. Tenho vontade de sussurrar músicas que não sei a letra, confessar segredos a anjos desempregados, beijar estátuas, abraçar sombras e dormir agarrado a um monte de vidas que já passaram, minutos que escorreram e horas que já foram deitar. Acender velas para lembranças no escuro é chamá-las de volta, todas, num grito só, num eco longo e agudo, como se a cada prece, cada pequena frase antiga dita, uma carta chegasse a um momento que ficou no passado o convidando para um jantar no presente. Não sei se a comida vai dar pra todo mundo, mas bebida sempre tem. Já é meu décimo sexto copo e eu estou só começando. Tem tanta coisa pra lembrar…

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O peito se abre de bom grado para a passagem de quem se ama

Ela encostava a testa na minha, me olhava nos olhos, enrolava os dedos nos meus e dizia “eu nunca vou te largar, eu nunca vou te largar, eu nunca vou te largar” e me beijava em seguida. Dizia três vezes porque acreditava que era assim que tinham de ser as palavras com valor e não podia ser diferente. As coisas com ela tinham esses misticismos, tudo tinha significado, toda ação, por mais simples que fosse, tinha algo mágico por trás. Ela tinha amigos assim também, mas eu não conseguia me apegar a rituais tão complexos. Eu dizia “eu te amo” uma vez só, mas de todo o coração, ela acreditava e a gente vivia feliz.

Quando viajávamos ela abria o vidro e colocava a cabeça para fora do carro para sentir os cabelos balançando sem controle. Se estava terminando o dia, naquela hora em que o pôr do sol é mais amarelo que a própria cor amarela, ela conseguia fazer as árvores dobrarem igual borracha. A gente ia passando e as árvores do canto da estrada prestavam reverência a nós, como quem diz “boa tarde e boa viagem” a um novo turista. Eu não me cansava de vê-la fazendo isso e ela não se importava de repetir quantas vezes eu pedisse. Eu trabalhava como fotógrafo e ela era dançarina em uma casa noturna. Sabe aquelas moças lindas que dançam dentro de gaiolas a noite toda? Esse era o emprego que ela tinha.

A gente andava com uma turma de mais uns oito amigos. Foi a junção de alguns dos meus com alguns dos dela, até porque não se consegue manter todas as amizades quando a vida de solteiro acaba. Eu tinha amigos moderninhos, viajados, cheios de histórias para contar, guarda-roupas abarrotados de calças skinny e camisas xadrez, enquanto ela andava com o pessoal das artes, gente alternativa ao extremo e eu não conseguia me enturmar muito bem com a maioria deles. Tinha um rapaz que voava. Ele trabalhava fazendo malabares e servindo mesas em uma das casas onde ela dançava. Tinha o cabelo branco, mesmo não tendo mais que vinte anos, servia drinks com perfeição e era capaz de subir até o topo de um prédio flutuando. Fechava as mãos com bastante força, rangia os dentes e, de repente, o corpo estava no ar. A gente aplaudia, ele sorria e caia em seguida, mas há quem diga que já viu ele pular de uma janela do oitavo andar e chegar ao chão com suavidade.

Eu e ela decidimos morar juntos depois de alguns meses namorando e a vida ficou do jeito que eu queria. O bom humor reinava, tudo era interessante, a gente se envolvia em programas exóticos, fazia festas com temas engraçados, dividia amigos, sonhos, planos e juras de amor. Uma vez ela colocou a mão no meu peito e o braço atravessou até o outro lado. No espelho era possível ver a mão dela abrindo e fechando, fazendo graça, saindo pelas minhas costas, e disse que essa era a prova de que meu amor era verdadeiro. “O peito se abre de bom grado para a passagem de quem se ama”, ela me explicou. Um dia, depois de acordar no meio da noite com uma sede atroz, percebi que ela sonhava com beijos. Sua boca fazia movimentos de quem beijava e era beijada por alguém e tive certeza de que ela me amava. Num golpe só, varei seu peito com a mão firme e senti o macio do colchão do outro lado. Ela sangrou até a morte, me olhando com os olhos arregalados como quem é pego de surpresa e pede desculpas na falta de ter uma coisa melhor pra dizer.

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Trem da madrugada

Era noite, eu já estava viajando há doze anos e o trem acabava de partir. Tem um grande erro na nossa cabeça quando imaginamos viagens de trem sem nunca ter efetivamente viajado sobre trilhos: as cabines. A gente vê nos filmes aqueles trens com cabines e portinhas fechadas, mas a verdade é que hoje esses trens são minoria. O comum é viajar em vagões com cadeiras um pouco mais confortáveis do que as de trens normais, mas só um pouco, e sem divisórias entre passageiros. O trem moderno é como um avião grudado no chão. Eu lembro que a ferrovia seguia por cima de uma ponte muito alta e lá em baixo passava um rio. Ao redor do rio as casinhas acesas, alguns barcos, a vida acontecendo e eu assistindo.

O ser humano, seja quem for, se transforma em um diretor de cinema fazendo um vídeo-clipe da própria vida no momento em que dá de cara com uma janela, movimento, o próprio reflexo lá fora e alguma música. Meu ipod estava carregado e preparado para as próximas seis horas de viagem, eu imaginava um filme viral mostrando a minha viagem com muitos ângulos difíceis e modernos. Na verdade, tirando a música e a imaginação, somos só nós fitando a noite sem ter mais nada pra dizer. Ninguém viajava ao meu lado, nem à minha frente, de modo que apoiei as pernas na cadeira vazia e tentei relaxar. Viajar sozinho nos traz uma sensação estranha de extrema liberdade e e claustrofobia, como se, de repente, essa liberdade tivesse nos feito achar o mundo pequeno demais para todos os planos que ainda temos a cumprir.

As luzes apagaram, acho que já passava das onze da noite e tive a estranha sensação de estar vivendo algo importante. Via como se o trem fosse uma linha longa e preta cortando a própria escuridão. Eu fazia parte daquilo e estar sentado naquele vagão quase vazio me fazia sentir responsável por alguma coisa, como se fosse necessário explicar a beleza do escuro viajando por dentro do breu, cheio de gente dormindo, jantando e sonhando dentro dele. Esse escuro, sólido e barulhento, me levava para uma cidade onde as coisas estavam ficando complicadas. Ao menos para mim. Eu achava, naquele momento, que era uma grande coisa estar num trem apagado viajando durante a noite, mas na verdade era uma banalidade sem fim. Todos os dias três locomotivas diferentes levando centenas de passageiros em seus vagões faziam o mesmo trajeto noturno. Eu estava tentando romantizar a coisa mais simples do planeta: andar de trem.

Só que fazia isso porque realmente queria que fosse algo épico. Queria chegar do outro lado transformado, como quem renasce ou surge sabendo mais coisas do que sabia antes de partir. Um dia saí para pedalar, estava inspirado, tinha acabado de assistir Forrest Gump e queria ver o que tinha além dos lugares onde eu costumava ir. Depois voltei para casa e desejei crescer rápido para poder viajar, ter a vista que eu quisesse e ver o mundo como ele é do outro lado. Dei um beijo na minha mãe, acenei para o meu pai e saí para trabalhar. Eu tinha pedido demissão dois dias antes. Apanhei a mala na garagem, escondida debaixo de uma toalha velha e fui para a casa da minha namorada. Fizemos sexo, ficamos deitados a tarde toda e eu disse que ia voltar para casa. Nos beijamos sem amor e eu fui para a rodoviária. Peguei um ônibus, outro, peguei carona, corri algum tempo, aliviei o peso da mala, troquei por uma mochila, morei em alguns lugares, passei a viver com outras pessoas, conheci uma moça que me deu dinheiro pelo simples motivo de ter me achado simpático, vi alguns países, conheci algumas línguas, tive a chance de morrer uma centena de vezes e depois entrei naquele trem para voltar para casa. Era noite, eu estava com medo, o vagão estava escuro e eu não tinha mais para onde ir.

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