O peito se abre de bom grado para a passagem de quem se ama

Ela encostava a testa na minha, me olhava nos olhos, enrolava os dedos nos meus e dizia “eu nunca vou te largar, eu nunca vou te largar, eu nunca vou te largar” e me beijava em seguida. Dizia três vezes porque acreditava que era assim que tinham de ser as palavras com valor e não podia ser diferente. As coisas com ela tinham esses misticismos, tudo tinha significado, toda ação, por mais simples que fosse, tinha algo mágico por trás. Ela tinha amigos assim também, mas eu não conseguia me apegar a rituais tão complexos. Eu dizia “eu te amo” uma vez só, mas de todo o coração, ela acreditava e a gente vivia feliz.

Quando viajávamos ela abria o vidro e colocava a cabeça para fora do carro para sentir os cabelos balançando sem controle. Se estava terminando o dia, naquela hora em que o pôr do sol é mais amarelo que a própria cor amarela, ela conseguia fazer as árvores dobrarem igual borracha. A gente ia passando e as árvores do canto da estrada prestavam reverência a nós, como quem diz “boa tarde e boa viagem” a um novo turista. Eu não me cansava de vê-la fazendo isso e ela não se importava de repetir quantas vezes eu pedisse. Eu trabalhava como fotógrafo e ela era dançarina em uma casa noturna. Sabe aquelas moças lindas que dançam dentro de gaiolas a noite toda? Esse era o emprego que ela tinha.

A gente andava com uma turma de mais uns oito amigos. Foi a junção de alguns dos meus com alguns dos dela, até porque não se consegue manter todas as amizades quando a vida de solteiro acaba. Eu tinha amigos moderninhos, viajados, cheios de histórias para contar, guarda-roupas abarrotados de calças skinny e camisas xadrez, enquanto ela andava com o pessoal das artes, gente alternativa ao extremo e eu não conseguia me enturmar muito bem com a maioria deles. Tinha um rapaz que voava. Ele trabalhava fazendo malabares e servindo mesas em uma das casas onde ela dançava. Tinha o cabelo branco, mesmo não tendo mais que vinte anos, servia drinks com perfeição e era capaz de subir até o topo de um prédio flutuando. Fechava as mãos com bastante força, rangia os dentes e, de repente, o corpo estava no ar. A gente aplaudia, ele sorria e caia em seguida, mas há quem diga que já viu ele pular de uma janela do oitavo andar e chegar ao chão com suavidade.

Eu e ela decidimos morar juntos depois de alguns meses namorando e a vida ficou do jeito que eu queria. O bom humor reinava, tudo era interessante, a gente se envolvia em programas exóticos, fazia festas com temas engraçados, dividia amigos, sonhos, planos e juras de amor. Uma vez ela colocou a mão no meu peito e o braço atravessou até o outro lado. No espelho era possível ver a mão dela abrindo e fechando, fazendo graça, saindo pelas minhas costas, e disse que essa era a prova de que meu amor era verdadeiro. “O peito se abre de bom grado para a passagem de quem se ama”, ela me explicou. Um dia, depois de acordar no meio da noite com uma sede atroz, percebi que ela sonhava com beijos. Sua boca fazia movimentos de quem beijava e era beijada por alguém e tive certeza de que ela me amava. Num golpe só, varei seu peito com a mão firme e senti o macio do colchão do outro lado. Ela sangrou até a morte, me olhando com os olhos arregalados como quem é pego de surpresa e pede desculpas na falta de ter uma coisa melhor pra dizer.

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