Eu vou mudar a sua vida!

A porta abre e ele vem na minha direção com o olhar voraz de uma serpente. Se esgueira pelos cantos, atravessa o corredor ladeando os batentes de porta e a moldura da janela e não para mais. Quando chega ao quarto eu já estou no chão, mole, entregue, com as meias pinicando e o cabelo sem formato. Nunca conheci um homem que me fizesse sentir dessa maneira, uma intensidade absurda, a vontade de gritar antes do primeiro beijo, a tremedeira sem controle, os arrepios que duram meses. Troquei meu medo da morte pelo medo que sinto quando ele chega. É uma sensação tão animal, tão primitiva e tão clara que nunca fui capaz de saber o que me amedronta. O medo que sinto dele já nasceu comigo, ou talvez antes de mim.

Às vezes, quando eu desperto durante a madrugada enquanto ele dorme, abro a porta do quarto e vou para fora ver o céu. Sempre que a gente transa eu fico com vontade de ver o céu, olhar as estrelas, a lua, respirar o vento frio da noite. Até hoje, com ele, tenho orgasmos em forma de galáxias e sinto como se minha alma estivesse mordendo alguém. Almas são capazes disso? A vida parece pequena perto de toda a intensidade que ele me traz. Meus poros se abrem a ponto de fazer minha pele arder e eu suo ofegante do começo ao fim, me sentindo esgotada e vazia durante horas. Ele leva embora algo de dentro mim. Algo profundo, sem nome e insubstituível. Sinto a existência se dobrando quando acaba.

Quanto tempo dura um sonho acordado? Me espanta a força física, a resistência, a determinação, não há cansaço capaz de fazê-lo parar, súplica suficiente que o detenha. Eu bebo água, olho para o relógio no criado mudo e volto, porque quando ele está aqui minha vida não pertence mais a mim. Eu não sou minha caso ele esteja por perto. Eu mudaria de nome para tê-lo todos os dias. Derrubaria minha árvore genealógica e usaria sua madeira para construir um castelo para nossos sonhos. No fim, quando ele coloca a roupa e anuncia a partida, tenho vontade de morrer. Meus antepassados se grudam a mim e me seguram nesse mundo numa tentativa de não me perder dentro dos meus próprios desejos. Na última vez ele deixou o dinheiro no mesmo cinzeiro de sempre, me beijou e, segurando meu rosto muito próximo do seu, penetrando meu olhar com seus olhos de morte, me disse que mudaria minha vida.

“Eu vou mudar a sua vida!”, ele disse. É o sonho de todas as meninas aqui da boate, mas eu tirei a sorte grande. Eu acho…

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