Por que não montar um escritório na praia?

O título desse texto é uma pergunta séria, apesar de soar um pouco utópica ou irônica. Estava conversando com a Laila, amiga e sócia, sobre como tem me assustado a situação em que se encontra a nossa economia. Não estávamos falando exatamente sobre economia, nem PIB, nem outra coisa profunda sobre as finanças do país, mas sim sobre como isso tudo afeta a nossa vontade de morar na praia. É que a gente da Geração Y (nascidos entre 1980 e meados dos anos 1990) tem um desejo voraz de criar coisas próprias, imaginar, inventar, construir, monetizar, multiplicar e vender. É a geração com o maior número de gente corajosa o suficiente para abandonar os patrões e se jogar no obscuro, incerto e desconhecido mundo do “negócio próprio”. Somos a geração do “quero ser meu próprio chefe”, mas acontece que não tá dando certo.

No fundo, o que a gente queria mesmo era morar na praia, viver numa boa, fazer festa, curtir a vida adoidado e não se preocupar com mais nada, mas isso é utopia demais. Então o negócio é abrir uma empresa onde você pode “empregar seu talento” e fazer as coisas “do seu jeito” e ser o seu “próprio chefe” para fazer as mudanças acontecerem. Tem tanta paulada nesse caminho que dá até uma deprezinha de leve, mas ok, ainda dá, com muita coragem e raça, para abrir uma empresa e ganhar dinheiro com ela. Nessa ideia romântica a gente não pensa que pode dar errado, que pra viver de pança pro ar na praia a gente vai precisar ganhar um bom dinheiro, que provavelmente a gente vai ficar estressado, doente e desacreditar no projeto umas duas mil vezes e nem em outros pedregulhos no caminho.

Em algum momento no meio dessa viagem rumo à independência e à construção de um império inabalável baseado nas nossas grandes ideias, percebi que a gente faz uma curva muito grande. Temos que trabalhar, ganhar dinheiro, enriquecer e envelhecer para, só depois, viver nossas vontades mais primárias, como passar uns cinco dias sem olhar pro relógio nem uma vez, surfando de manhã e de tarde, comendo açaí, grelhando peixe na churrasqueira e tomando suco de manga ou cerveja. Eu trabalho com internet, os clientes da agência para quem eu trabalho investem suas verbas para estarem na internet. A Laila também trabalha na internet, numa empresa que cria plataformas de e-commerce para outras empresas. O namorado dela também trabalha na internet, programando sites e desenvolvendo páginas. Sendo assim, por que a gente ainda está na cidade? A internet pode ir conosco até a praia.

Eu adoro dinheiro, de verdade, assim como muita gente gosta. Não é problema gostar de dinheiro, isso não me torna pior ou menos confiável que ninguém, mas eu gosto de muitas outras coisas também. Gosto de paz, de dias tranquilos, de dias e mais dias sem nenhum compromisso e isso não existe assim tão fácil. Então, se der, quero fazer um pouco disso enquanto ainda sou jovem, não quero esperar o tempo passar. Ficar na cidade esperando o mundo melhorar para montar minha empresa que, um dia, vai me permitir viver dias assim, é pegar o caminho mais longo. Não há nada de honroso em escolher o caminho mais longo sem necessidade. A gente devia usar essa nossa cabeça boa, cheia de ideias que dão dinheiro, que vão nos deixar ricos, que vão nos fazer felizes e famosos, para bolar uma coisa bem mais simples como morar na praia, por exemplo.

Como montar um escritório na praia e começar a ganhar dinheiro de lá? A gente vai dar um jeito.

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Se não fossem feitas de estrelas, do que seriam as paredes?

– baseado em acontecimentos desse mundo.

As paredes se desfazendo em cascatas de estrelas, todas espalhadas pelo chão, ao redor já não sobrava muita coisa, não tinha mais aquele quadro da moça nua se cobrindo com um pano, nem o vaso de cacto, nem aquele violão bacana que encantava todo mundo. Existem momentos da vida que, mesmo sem ninguém contar, a gente sabe que são os últimos. Sempre dá pra saber quando é a última vez que a gente vai ver ou fazer uma coisa. O medo da solidão é como um mensageiro que vem entregar o telegrama avisando que alguém morreu, mas ele mesmo não tem culpa da morte. “O medo nunca é culpado do mal que nos causa”, pensei.

Depois são sempre os mesmos roteiros, árvores sem folhas, todas tortas, animais sonolentos, finais de tarde acinzentados e uma vontade de quebrar tudo. Se fosse para destruir a casa, começaria pela televisão. Nos filmes sempre parece, ao protagonista, ser gratificante destruir a tela com algum programa passando, telejornais, no meio de uma fala importante do William Bonner, por exemplo. “Israel intensificou o ataque aéreo nesta tarde de” PLAU, CRAAASH!!! E lá se vai a televisão em milhares de pedacinhos de vidro, todos mortos ou agonizando, espalhados pelo mesmo chão que antes estava tomado de estrelas de parede. “Se não fossem feitas de estrelas, do que seriam as paredes?”, pensei.

Os cabelos vão ficando estranhos com o tempo. É engraçado perceber que, quanto mais triste se é, pior é o aspecto dos cabelos. Os dele já iam caindo na frente da vista, opacos fios castanho escuro, alguns ensebados, sem vida, como se fossem um anúncio para quem o visse de longe. “Sofre-se aqui”, anunciam os cabelos aos transeuntes. Lê-se cartas antigas, cartões de aniversário, postais de países muito frios, fotografias recortadas de jornais de folhas amiúdes, todo tipo de música triste e tecido macio. As lembranças doem mais do que a própria dor. É como curar cortes com palha de aço, secar sangramentos com panos cheios de gasolina. A labirintite que se sente é a nossa tontura ou o mundo acelerando fora de controle? Ele não sabia. “Sabe-se muito pouco sobre as nossas dúvidas”, pensei.

No resumo da ópera, coitado, era só uma vontade, só um plano, só uma ideia e, sem querer, acabou sendo real. É perigoso quando nossas vontades se realizam. Era um cara, uma noiva, uma carreira, uma família e uma menina, um cabelo macio, um par de olhos curiosos, pouco mais de quinze anos, meia dúzia de palavras que ninguém ouviu e uma porção de beijos proibidos. A quem estamos magoando enquanto estamos sendo felizes? Se o arrependimento pesasse iam precisar de uma balança bem grande onde ele pudesse descansar suas memórias. Apesar do que dizem, aprende-se muito pouco enquanto se está ensinando. “Vai saber que tipo de história vão contar sobre mim um dia”, pensei.

Me deu dó desse cara, no fim das contas.

“Me deu dó desse cara”, escrevi.

 

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Me responde

Fodeu, mas a gente dá um jeito, tudo bem. Depois a gente vê isso, a gente pensa no que vai fazer, se vai viajar pra algum lugar ou tirar férias. A gente pode até ir para a casa daquela sua tia que mora no interior e tem aquela pousada. Depois a gente pode alugar um carro e entregar lá pra Minas, longe, outra cidade, outros ares, vai ser bom pra nós.

A gente pode passar uns dias perto de Vermelho Velho e depois ir para o deserto, ou para a floresta, você escolhe, pode escolher. Depois talvez a gente construa uma cabana, passe uns meses, podemos comer fruta, treinar aquela coisa de só comer vegetais crus, sabe? Nada de carne, nada de cozinha, nada de complicado. Vamos ser naturais, que tal, o que você acha, heim?

A gente pode deixar a poeira baixar, ver o Ano Novo sem fogos dessa vez, ficar juntos na chuva e no sol, sentir o vento dobrar as árvores e chamar o mundo todo, aquele conhecido e ao alcance dos nossos olhos, de lar. Nosso lar vai ser o mundo todo, rei e rainha da nossa própria parte do mundo. Vamos decretar que todo fim de tarde vai ser roxo, laranja e rosa, com as árvores desenhadas de sombra ao fundo e tudo bem no resto do planeta.

Depois, se a gente ver que tá virando bicho, pode tentar voltar para a cidade, morar de frente pro mar, tomar banho de sal todo dia, limpar a alma, lavar o corpo e tomar o dia e a noite como relógio. Viver sem calendário, sem regra, sem lei, pelados, bonitos e saudáveis, do jeito que a gente sempre sonhou. Você sempre sonhou isso, não sonhou? Eu sei que sonhou. Então, a gente pode viver tudo isso. A gente tem todo o tempo do mundo, vamos vomitar tempos, criar tempos com as mãos e a vida nunca vai acabar.

Quando a gente decidir ser eterno tudo vai ficar bem. Não vai ter mais motivo pra fugir, nem se esconder, nem sentir medo, nem envelhecer, porque ficar velho é morrer um pouco a cada dia e quem é eterno é imortal. As mesmas cores dentro dos olhos, os mesmos sabores de fruta, os cheiros da pele limpa com água de rio e a vida perfeita. Vai ser lindo, calma, vai ficar tudo bem, mas agora me responde de novo: você tem certeza que tá grávida? Me responde…

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Velas para memórias

A janela aberta, um frio absurdo entrando e abraçando tudo no quarto com aquela calma que só o inverno tem, a luz apagada, a cidade acesa como sempre e eu bebendo já o oitavo copo, chorando as mesmas perdas de sempre. As velas escorrendo suas ceras como pedaços de um pano que se forma aos poucos, esparramando ao redor, secos, duros e foscos, como vestidos de noiva que se formam debaixo do fogo. Eu sempre acendo velas para as coisas que não voltam mais. Lembro que quando era criança ficava feliz com o breu da falta de energia no bairro e todo mundo acendia velas para tentar enxergar a casa. Eu sempre achava que a luz podia nunca mais voltar e a ideia me agradava absurdamente.

Hoje acendo velas para coisas como pessoas, fotografias, músicas, cheiros e momentos. Momentos, principalmente. Tenho flashes de coisas que vivi e lamento profundamente por não conseguir fazer com que essas memórias durem mais do que uns poucos segundos. Hoje já estou no décimo primeiro copo e continuo olhando o quarto, a pouca escuridão que as luzes de fora deixam que se forme, meus dedos, minhas mãos e isso me faz ficar pequeno. Sinto uma implosão, como se minhas emoções saíssem pelos olhos, pela pele ou por onde for, e voltassem de volta para dentro. Sinto uma tristeza e uma saudade sem tamanho, sem medida e sem nome. São saudades acumuladas todos esses anos, inclusive de coisas que nem sei direito se são dessa vida ou de outra mais antiga.

Penso sobre como a existência deve ser, coloco uma música do tipo que se ouve durante reflexões assim e sinto o mundo todo se arrepiar, apertado assim como eu, crescendo por trás das paredes, pelo outro lado das janelas, expandindo, vibrando, me mostrando que eu não sou o único com velas acesas essa noite. Todo mundo, no escuro e sozinho, tem coisas a sentir falta, a rezar por, a desejar de volta. De tempos em tempos decido abrir as garrafas da casa e me jogar num poço de lembranças que insistem em passar rápido demais durante a queda. Queda livre nas próprias imagens pode matar, sabia? Ainda mais assim, já no décimo terceiro copo e sem sono algum.

Então, quando vem o refrão, forte, gordo e intenso eu me deixo cair de joelhos no tapete, sinto a dor do impacto e penso vagamente no barulho que deve ter feito no andar de baixo. Tenho vontade de sussurrar músicas que não sei a letra, confessar segredos a anjos desempregados, beijar estátuas, abraçar sombras e dormir agarrado a um monte de vidas que já passaram, minutos que escorreram e horas que já foram deitar. Acender velas para lembranças no escuro é chamá-las de volta, todas, num grito só, num eco longo e agudo, como se a cada prece, cada pequena frase antiga dita, uma carta chegasse a um momento que ficou no passado o convidando para um jantar no presente. Não sei se a comida vai dar pra todo mundo, mas bebida sempre tem. Já é meu décimo sexto copo e eu estou só começando. Tem tanta coisa pra lembrar…

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O peito se abre de bom grado para a passagem de quem se ama

Ela encostava a testa na minha, me olhava nos olhos, enrolava os dedos nos meus e dizia “eu nunca vou te largar, eu nunca vou te largar, eu nunca vou te largar” e me beijava em seguida. Dizia três vezes porque acreditava que era assim que tinham de ser as palavras com valor e não podia ser diferente. As coisas com ela tinham esses misticismos, tudo tinha significado, toda ação, por mais simples que fosse, tinha algo mágico por trás. Ela tinha amigos assim também, mas eu não conseguia me apegar a rituais tão complexos. Eu dizia “eu te amo” uma vez só, mas de todo o coração, ela acreditava e a gente vivia feliz.

Quando viajávamos ela abria o vidro e colocava a cabeça para fora do carro para sentir os cabelos balançando sem controle. Se estava terminando o dia, naquela hora em que o pôr do sol é mais amarelo que a própria cor amarela, ela conseguia fazer as árvores dobrarem igual borracha. A gente ia passando e as árvores do canto da estrada prestavam reverência a nós, como quem diz “boa tarde e boa viagem” a um novo turista. Eu não me cansava de vê-la fazendo isso e ela não se importava de repetir quantas vezes eu pedisse. Eu trabalhava como fotógrafo e ela era dançarina em uma casa noturna. Sabe aquelas moças lindas que dançam dentro de gaiolas a noite toda? Esse era o emprego que ela tinha.

A gente andava com uma turma de mais uns oito amigos. Foi a junção de alguns dos meus com alguns dos dela, até porque não se consegue manter todas as amizades quando a vida de solteiro acaba. Eu tinha amigos moderninhos, viajados, cheios de histórias para contar, guarda-roupas abarrotados de calças skinny e camisas xadrez, enquanto ela andava com o pessoal das artes, gente alternativa ao extremo e eu não conseguia me enturmar muito bem com a maioria deles. Tinha um rapaz que voava. Ele trabalhava fazendo malabares e servindo mesas em uma das casas onde ela dançava. Tinha o cabelo branco, mesmo não tendo mais que vinte anos, servia drinks com perfeição e era capaz de subir até o topo de um prédio flutuando. Fechava as mãos com bastante força, rangia os dentes e, de repente, o corpo estava no ar. A gente aplaudia, ele sorria e caia em seguida, mas há quem diga que já viu ele pular de uma janela do oitavo andar e chegar ao chão com suavidade.

Eu e ela decidimos morar juntos depois de alguns meses namorando e a vida ficou do jeito que eu queria. O bom humor reinava, tudo era interessante, a gente se envolvia em programas exóticos, fazia festas com temas engraçados, dividia amigos, sonhos, planos e juras de amor. Uma vez ela colocou a mão no meu peito e o braço atravessou até o outro lado. No espelho era possível ver a mão dela abrindo e fechando, fazendo graça, saindo pelas minhas costas, e disse que essa era a prova de que meu amor era verdadeiro. “O peito se abre de bom grado para a passagem de quem se ama”, ela me explicou. Um dia, depois de acordar no meio da noite com uma sede atroz, percebi que ela sonhava com beijos. Sua boca fazia movimentos de quem beijava e era beijada por alguém e tive certeza de que ela me amava. Num golpe só, varei seu peito com a mão firme e senti o macio do colchão do outro lado. Ela sangrou até a morte, me olhando com os olhos arregalados como quem é pego de surpresa e pede desculpas na falta de ter uma coisa melhor pra dizer.

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Trem da madrugada

Era noite, eu já estava viajando há doze anos e o trem acabava de partir. Tem um grande erro na nossa cabeça quando imaginamos viagens de trem sem nunca ter efetivamente viajado sobre trilhos: as cabines. A gente vê nos filmes aqueles trens com cabines e portinhas fechadas, mas a verdade é que hoje esses trens são minoria. O comum é viajar em vagões com cadeiras um pouco mais confortáveis do que as de trens normais, mas só um pouco, e sem divisórias entre passageiros. O trem moderno é como um avião grudado no chão. Eu lembro que a ferrovia seguia por cima de uma ponte muito alta e lá em baixo passava um rio. Ao redor do rio as casinhas acesas, alguns barcos, a vida acontecendo e eu assistindo.

O ser humano, seja quem for, se transforma em um diretor de cinema fazendo um vídeo-clipe da própria vida no momento em que dá de cara com uma janela, movimento, o próprio reflexo lá fora e alguma música. Meu ipod estava carregado e preparado para as próximas seis horas de viagem, eu imaginava um filme viral mostrando a minha viagem com muitos ângulos difíceis e modernos. Na verdade, tirando a música e a imaginação, somos só nós fitando a noite sem ter mais nada pra dizer. Ninguém viajava ao meu lado, nem à minha frente, de modo que apoiei as pernas na cadeira vazia e tentei relaxar. Viajar sozinho nos traz uma sensação estranha de extrema liberdade e e claustrofobia, como se, de repente, essa liberdade tivesse nos feito achar o mundo pequeno demais para todos os planos que ainda temos a cumprir.

As luzes apagaram, acho que já passava das onze da noite e tive a estranha sensação de estar vivendo algo importante. Via como se o trem fosse uma linha longa e preta cortando a própria escuridão. Eu fazia parte daquilo e estar sentado naquele vagão quase vazio me fazia sentir responsável por alguma coisa, como se fosse necessário explicar a beleza do escuro viajando por dentro do breu, cheio de gente dormindo, jantando e sonhando dentro dele. Esse escuro, sólido e barulhento, me levava para uma cidade onde as coisas estavam ficando complicadas. Ao menos para mim. Eu achava, naquele momento, que era uma grande coisa estar num trem apagado viajando durante a noite, mas na verdade era uma banalidade sem fim. Todos os dias três locomotivas diferentes levando centenas de passageiros em seus vagões faziam o mesmo trajeto noturno. Eu estava tentando romantizar a coisa mais simples do planeta: andar de trem.

Só que fazia isso porque realmente queria que fosse algo épico. Queria chegar do outro lado transformado, como quem renasce ou surge sabendo mais coisas do que sabia antes de partir. Um dia saí para pedalar, estava inspirado, tinha acabado de assistir Forrest Gump e queria ver o que tinha além dos lugares onde eu costumava ir. Depois voltei para casa e desejei crescer rápido para poder viajar, ter a vista que eu quisesse e ver o mundo como ele é do outro lado. Dei um beijo na minha mãe, acenei para o meu pai e saí para trabalhar. Eu tinha pedido demissão dois dias antes. Apanhei a mala na garagem, escondida debaixo de uma toalha velha e fui para a casa da minha namorada. Fizemos sexo, ficamos deitados a tarde toda e eu disse que ia voltar para casa. Nos beijamos sem amor e eu fui para a rodoviária. Peguei um ônibus, outro, peguei carona, corri algum tempo, aliviei o peso da mala, troquei por uma mochila, morei em alguns lugares, passei a viver com outras pessoas, conheci uma moça que me deu dinheiro pelo simples motivo de ter me achado simpático, vi alguns países, conheci algumas línguas, tive a chance de morrer uma centena de vezes e depois entrei naquele trem para voltar para casa. Era noite, eu estava com medo, o vagão estava escuro e eu não tinha mais para onde ir.

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Apaga essa luz, mano!

Acendem a luz e eu não consigo escrever. Tem alguma coisa de vampiro de quinta categoria em mim porque tudo o que é no claro não funciona muito bem. Lembro quando tinha uns 15 anos que minha mãe viajou durante um feriado e me deixou em casa sozinho com liberdade para ir para onde eu quisesse. Passei cinco dias sem abrir as janelas nem as cortinas, só saí uma vez, de noite, para comprar comida. Não sei criar na claridade. É como se o dia fosse feito para executar coisas, lembrar, falar, comer, fazer e viver. Quando acaba a luz natural é hora de parar e criar, deixar as ideias saírem pra passar, como cachorros presos em coleiras muito longas.

Acabaram de acender a luz aqui. Olhei o relógio, são 18h46, hoje é terça-feira, o Brasil ganhou ontem, se classificou para as oitavas de final, eu bebi duas cervejas enquanto assistia ao jogo na casa de uma amiga que mora perto daqui e depois chegou hoje, o dia de trabalhar o dia todo. Entrei às 9h35. Meu horário é às 10h. Tem trabalho demais pra fazer quando a semana anterior é cheia de pausas e feriados e a que começa tem jogo da seleção brasileira. É foda trabalhar, às vezes. Penso em ganhar na mega-sena, ficar rico, morar num catamarã por uns 20 dias e depois gastar tudo. Penso nisso enquanto trabalho, porque tem coisa pra caralho pra fazer e a vida corre.

De dia não dá pra parar pra escrever. Note que a distância entre esse texto e o último é de muitos dias, porque meu momento criativo nunca está disponível para a escrita. Tenho bebido bem pouco. Quanto menos bebo, menos sinto aquela euforia absurda que nos faz pensar que tudo vai dar certo ou errado, sem meio termo. Era dessa euforia que eu costumava tirar textos. Agora não bebo mais e quando venho criar perco tempo pensando no que vou escrever. Escrever tem se tornado difícil ultimamente. Trabalhar também. Emagrecer, então, até perdi a vontade de tentar. Mas é que acenderam a luz no fim do dia e eu ainda não tinha pensado em nada bom pra falar.

18h51. Ainda estou pensando em alguma coisa pra escrever. Botei Arctic Monkeys pra tocar. Sabe aquela nova, “Why’d You Only Call Me When You’re High?”, então, é essa. Na música já são três da manhã e rola uma discussão sobre porque uma pessoa só liga pra outra quando está bêbada. Será que agora, sem beber, eu tenho que esperar até três da manha pra ter uma ideia do que escrever? Tem sido foda ser criativo. Fico pensando em coisas muito incríveis para escrever quando estou no metrô, ou tomando café na padaria, ou caminhando para pegar o ônibus. Mas quando tenho essas ideias não consigo anotar, é de dia, é luz solar, e nessa situação eu não crio nada. Fica difícil assim, né? Eu sei.

São 18h56, já não faço a menor ideia de qual era a ideia inicial. Arctic tocando no repeat, a mesma música, sempre a mesma e eu tentando escrever algo. A tela branca, o teclado brilhante e bonito, cheio de marcas de coisas que passaram aqui antes de mim. Vai dar a hora de ir embora e essa tela ainda está branca. Tem uma romantização escrota sobre o momento do branco, a tela branca, o cursor piscando. É puta babaquice isso aí. Quando eu estava na faculdade de jornalismo o povo teorizava milhares de vezes sobre como vencer o bloqueio, o branco, como finalmente ligar as mãos para fazê-las baterem as teclas em formarem o pão de cada dia, mas é tudo mentira. Tem que cumprir o currículo, preencher o espaço das aulas, dar motivo pro povo pagar quatro anos de uma coisa que poderia ser aprendida em dois. Enfim, não tem drama em relação ao branco. É só apagar a porra da luz que sai, pode apostar!

Tô indo embora, valeu, obrigado mesmo viu. Beijo, amanhã eu tento escrever alguma coisa, hoje não saiu.

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Pós-festa

As paredes com marcas de mãos sujas, o chão grudento e encardido, mesmo nas partes onde havia carpete no lugar de piso. Os copos de plástico jogados pelo jardim e pela sacada, garrafas boiando na piscina e pedaços de papel impossíveis jogados por todos os cantos. Tinham rasgado a cortininha da janela da cozinha e uma das cadeiras estava só com três pernas. A quarta, pelo estado pontiagudo da madeira, tinha sido arrancada com violência. Na árvore, quase como uma cena de filme adolescente americano, uns dez rolos de papel higiênico se cruzavam e enrolavam nas folhas. Eu não fazia a menor ideia de como faria para limpar aquilo, nem de onde tinha saído tanto papel. Será que as pessoas levam rolos de papel nas bolsas e mochilas quando vão para alguma festa, só para o caso de ter uma árvore dando sopa por perto?

A sala estava fedendo a vinho azedo. O tapete estava manchado de amarelo na ponta e, pelo cheiro, estava mais para vômito do que para bebida. O sofá estava ligeiramente deslocado do eixo e uma porção de copos e garrafinhas de vidro ocupavam os móveis, a estante, o entorno da televisão e uma parte do chão. O lavabo de baixo tinha vômito pra todo lado. Alguém passou bastante dos limites e conseguiu vomitar próximo ao teto ao redor do batente da porta, pelo lado de dentro. Se não fosse minha casa eu daria parabéns pela façanha. A pia estava tomada por uma pasta cor de salmão, seca, fosca e fedorenta. A privada não estava muito diferente e o chão de piso branco parecia ter sido frequentado por alguém carregando um pincel de tinta preta pingando sem parar. Como as pessoas conseguem sujar tanto os sapatos em uma festa?

Subindo as escadas os pés disputavam espaços nos degraus com copos e garrafas. No topo havia um frasco de perfume vazio, aquilo me perturbou um pouco, mesmo sem saber o motivo. O corredor repetia o roteiro de garrafas, frascos, copos, latas, coisas que sujam, mãos pretas nas paredes e líquidos sem identidade absorvidos e espalhados por todos os lados. O quarto dos meus pais não abriu quando forcei a maçaneta: bom sinal. Achei que nem estando trancado ele seria poupado. O banheiro do corredor de cima estava um pouco melhor que o de baixo. Estava sujo, bagunçado e a porta de plástico duro do box estava com uma rachadura enorme, mas não fedia a vômito. A tampa da privada estava torta e o cesto de lixo estava povoado por uma montanha de papéis, além de umas três ou quatro camisinhas. Sexo no banheiro da festa, que original. Uma das camisinhas no lixo era vermelha, estava amarrada na boca e eu fiquei pensando: quem, hoje em dia, ainda se preocupa em dar o nó para a camisinha não vazar no lixo? E quem é que comprava camisinha com sabor? Afinal, ainda tinha gente que chupava os outros com camisinha?

No final do corredor meu quarto estava do jeito que eu deixei quando acordei. A cama meio bagunçada, as persianas fechadas desenhando listras perfeitas no chão e os objetos mais ou menos no lugar. Meu quarto se salvou da destruição em massa que o resto da casa enfrentou na noite anterior. Saiu quase ileso, na verdade. O jardim, com um pouco de música, um bom café da manhã e disposição eu conseguiria limpar em umas três horas. A cozinha, em um pouco menos de tempo. A sala e o banheiro, com dedicação, não levariam nem sequer uma hora. Recolher os copos e garrafas levaria uns trinta minutos, no máximo, e as tapeçarias e coisas quebradas eram facilmente laváveis na lavandeira da esquina ou trocáveis, sem grandes gastos. Eu conseguiria arrumar a casa inteira com uma dose extra de força de vontade, mas não fazia a menor ideia de onde eu ia tirar coragem de lavar o cheiro do seu perfume que ficou impregnado no meu travesseiro. Essa questão eu ainda não resolvi.

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Isso os filmes não contam

Ficava com os pés juntos, os dedos contraídos, sentada no canto da sala enquanto a televisão muda passava as cenas sem parar. Passava horas assim, separada do mundo, fazendo parte de alguma outra realidade, longe daqueles sofás, do tapete e dos ácaros que o tapete adotou como seus. Vivia no além mar das ideias abstratas sobre coisas sem nome. Gostava de pensar que ficar ali, agarrada a si mesma, lhe dava poderes de passar a história do filme da própria vida para frente e para trás. Fechava os olhos e se imaginava formada na faculdade, logo depois com a barriga enorme e tendo filhos e mais filhos como uma coelha muito fértil. Imaginava que mulheres, para serem felizes, deveriam parir aos montes, um filho atrás do outro, e pensava que as mães que botavam gêmeos no mundo eram pessoas de sorte. Achava que ter filhos era a realização do que se conhecia por felicidade, ou algo bem próximo disso.

Imaginava que, no passado, tinha sido mais esperta, aprendido as coisas mais rápido, perdido menos tempo fazendo lições de casa inúteis e tinha conseguido convencer os pais a comprarem um cachorro. Se hoje não tinha um cachorro era óbvio que o motivo estava ligado a algum fracasso no passado. Na curta vida de apenas dez anos ela já conseguia encontrar muitos pontos a serem mudados, mas passava a maior parte do tempo desenhando e montando o que seria o melhor futuro que uma pessoa poderia ter. Um belo marido, uma casa grande, os filhos aos montes e muitos cachorros, um de cada raça e tamanho. Teria também um avião, porque já tinha aprendido que aeroportos são muito chatos e seria necessário ter uma maneira mais prática de visitar a Disney quando chegassem as férias. Um avião cor-de-rosa resolveria tudo.

Seus desejos eram simples, pareciam inevitáveis que se realizassem e tudo o que era necessário era crescer. Esperar o tempo levar o tempo que precisa para que as coisas cresçam, tomem forma e se configurem em um conjunto de realizações de vida que nós mesmos planejamos. Nossa vida, para ela, era como um bolo que simplesmente precisava crescer e mais nada. Só ser bolo já bastava. Queria coisas de criança fantasiando vida de adulto. Sem limites de custos, dinheiro, distâncias, dificuldades e riscos. Queria o avião, o carro, o marido, as crianças, os cachorros, a grama verde, a casa enorme, a piscina em forma de coração, a cozinha com um armário só para doces, uma cama elástica no meio da sala, um esconderijo secreto por detrás de uma estante de livros e uma porção de dias felizes e ensolarados para poder curtir tudo isso. Bastava uma vida perfeita. Já estava bom se fosse assim, perfeita.

Era com esse tipo de fantasia que ela sonhava nas horas que passava agarrada às próprias pernas no canto da sala. Mas o mundo real sempre cobrava sua parcela de atenção. Então se levantava e se sentia incomodada com a falta de amigos, com a estranheza do mundo e com a sensação de não pertencimento que sentia ao confrontar a vida da qual fazia parte. Uma garota de dez anos que entorta colheres com o olhar nos momentos de medo, quebra vidros quando chora, abre chama com as mãos quando se zanga e ouve o pensamento alheio em situações de vergonha tem muito mais sonhos e desejos que uma criança comum. Os filmes, os quadrinhos e os desenhos sempre mostram gente assim vivendo uma vida de heroísmo, saindo na rua como intocáveis, esbanjando seus poderes contra a polícia, contra monstros, contra o mal. Quanta besteira. Só mostravam coisas absurdas, totalmente desconexas com a realidade de quem tinha aquelas habilidades. Os filmes não mostravam, acima de tudo, o quão frustrante era para uma garota assim tentar dar o primeiro beijo em um colega da escola. Essa parte os filmes não contam.

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Simpatia

Ela tinha dentes grandes meio amarelados, só os de baixo, e parecia um pouco desconfortável com o próprio corpo, como se tivesse vestido uma roupa que não lhe servia. Uma roupa de corpo. Os cabelos castanhos secos como as cerdas das vassouras velhas e vagabundas compradas na feira aos domingos, a roupa bagunçada num corpo que não lhe servia e a pele doente. Tinha marcas vermelhas na pele, pontos, como espinhas, erupções diversas, espalhadas pela cara, pescoço e colo. Constelações de doenças de pele. Olhava com os olhos fixos para a janela, assistia a vida do lado de fora e se incomodava com o corpo que não lhe vestia confortável. Era magra, tinha peitos de tamanhos diferentes, mas igualmente magros. Usava um sutiã que os apertava ainda mais e desenhavam uma estrutura invasora por debaixo da roupa fina. Parecia não ter peitos, só um sutiã apertadíssimo agarrado ao tronco com bojos de espessuras diferentes. Eram peitos díspares, os dela, assim como seus olhos, um sempre mais aberto que o outro, e seus dentes de baixo. Tinha dentes brancos em cima, amarelados em baixo.

Sentada sobre a mesa da cozinha com as pernas cruzadas ela olhava a janela. As sobrancelhas marcadas no rosto branco, a pele pálida cravejada de revoltas e estresses, o queixo anguloso projetado um pouco para frente, o osso maxilar forte e largo e as orelhas furadas com brincos discretos ganhando espaço no meio dos cabelos sem vida. Cabelos marrons da cor de palha morta e velha deixada na chuva. As unhas comidas e machucadas nas pontas dos dedos grudados em umas mãos ossudas e magras quase como a dos mortos, só que mais geladas. Eram mãos de faca, com dedos afiados como lâminas e gelados como aço. Ela cortava coisas com aquelas mãos, inclusive a própria carne, cutucando feridas, coçando o pescoço com violência e espremendo marcas que se transformam em feridas horríveis. Apesar de sentada sobre o tampo da mesa, nunca fora calma ou quieta. Incorporava a revolta ali, de pernas cruzadas, fixando a vida além da janela fechada.

O dia cinza como o resto do carvão no fim da festa, frio, úmido e cruel. Dias cinzas e frios são cruéis porque acabam com a esperança das pessoas, drenam o ânimo até quase beirararem a depressão, mas ela gostava assim. Gostava de dias tristes e cruéis porque era triste e cruel. Trise com o mundo. Cruel consigo mesma. A cozinha quente tomada pelo calor da panela no fogo e ela sentada sobre a mesa. Cozinhava. Uma panela prateada enorme estava posta sobre o fogão com as quatro bocas acesas e a água dentro borbulhava sem parar, vigorosa e urgente. Bolhas são sempre urgentes, vivendo no limite da morte presas em sua redonda fragilidade aquática. Cozinhava um sapato preto.

No dia em que se sentou com os peitos apertados a um sutiã disforme, o corpo esquálido e branco, cravejado de marcas e feridas, com as unhas e as laterais dos dedos comidas até a carne, estava cozinhando um sapato preto. Olhava a janela e o além dela, imaginando os passos de alguém em algum outro lugar fora da vista da casa. Sentada com calças velhas e pés descalços sobre o tampo marrom da mesa, ostentando cabelos de cerdas de vassoura vagabunda, cor de leite coalhado, dentes de cores diferentes e vestindo um corpo que não lhe cabia, ela abriu mão da própria juventude. Entregou tudo a uma corujaescura que passara por lá mais cedo. Porque todo mundo sabe que o diabo é uma coruja escura que passa cedo na casa das gentes. Ofereceu beleza, energia, libido, viço e 20 anos de idade para uma simpatia besta. Quase uma galinha preta gorda, só que coruja, só que demônio, só que do além. Acreditava estar cozinhando o corpo do ex afogando seu sapato em água quente. É de maldade que as pessoas fazem isso. Essas pragas nunca têm fim. Só começo.

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