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Aquela mulher!

Eu admirava aquela mulher. Entrava louca na empresa, toda vestida de amarelo, e gritava baixarias para quem quisesse ouvir. Mandava a secretária calar a boca com um simples “vai chupar rola, piranha” e seguia caminhando para dentro dos corredores. Quando passava na frente da sala de reuniões gargalhava alto, abria a porta e dava de frente com uma porção de homens alinhados e vestidos, regularmente, de preto. “E aí seus broxas?” gritava. Alguns riam, outros se sentiam ofendidos escondidos por trás de seus rostos impassíveis. Era a verdadeira dona, a que goza do poder sem limites, a que faz o que quer e paga para ver que vai se opor.

Eu invejava aquela mulher. Usava só uma cor, sempre amarelo, reluzindo nas paredes brancas de todo o andar, com saltos altos, rugas, maquiagem demais e um cabelo amarelo claramente tingido. Era ela, sem dúvidas. Não se escondia, não fazia pose, não queria ser algo que agradaria os demais. Era original do dedão do pé ao último fio de cabelo pintado. Apertava o peitão das meninas que voltavam de férias com silicone e as chamava de “rainha da espanhola”, acariciava os estagiários com rostos mais bonitos e avisava que “se bobear eu ainda sento nessa sua pica fedendo a leite Ninho, seu moleque” e depois saia rindo. Era uma espécie de Dercy Gonçalves dos negócios imobiliários.

Eu respeitava aquela mulher. Depois de fazer seu show de entrada, sentava em sua mesa e fazia ligações em alto e bom som. Fechava contratos mais rápido que qualquer um, tinha grandes ideias, fazia leitura dinâmica em dez jornais de quatro línguas diferentes. Depois ligava para a secretária, que segundo os fofoqueiros, ganhava mais que o vice-presidente da empresa, e a insultava com carinho. “Ei, sua putinha arreganhada, pede pra Neuza do café me trazer uns dez cappuccinos que hoje eu tô de foder!” e a menina, uma morena de pele caramelada que falava baixo e caminhava com as pernas juntas, sorria e providenciava o que era pedido. Dizia-se que o salário alto era para evitar que botasse a chefe no pau, mas alguns diziam que era só faxada e que as duas se davam muito bem, apesar do gênio da velha.

Eu me espelhava naquela mulher. Ela pegava táxi e pagava com boquete, só porque era imoral e proibido. A sociedade não gostava de mulheres de mais de 60 que ainda se sentiam atraentes. Morava em uma cobertura enorme e fazia orgias com garotos de programa sub-20. Chamava outras amigas endinheiradas e, como ela mesma dizia algumas vezes, botavam “as aranhas pra levar vara” durante um final de semana inteiro. Dobrava advogados, juízes, políticos, médicos, artistas, figurões da televisão, concorrentes e qualquer outra figura de poder que se colocasse em seu caminho. Principalmente se fossem homens. Era incisiva, rápida, eficaz e infalível. A verdadeira mulher de sucesso, exemplo para todas as outras moças do escritório e uma ameaça para todos os homens, inclusive eu e meus colegas de setor.

Eu gostava muito daquela mulher. Sonhava com o dia em que poderia conversar com ela sobre negócios, aprender um pouco, absorver sua energia, decifrar sua acidez precisa e me tornar um cara melhor. Mas um dia, por obra do acaso, pegamos o elevador juntos e ao perceber que eu ia para o mesmo andar, me questionou sobre qual o meu setor. “Contábil”, respondi, sorrindo muito e, provavelmente, fazendo cara de babaca. Ela então segurou meu queixo com força, olhou para o meu rosto bem de perto, depois virou minha cabeça de lado, para me olhar de perfil, puxou um catarro acumulado lá no fundo da garganta e escarrou na minha bochecha direita. “Faça essa barba. Sua cara está parecendo o saco de um velho babão!”, gritou, em seguida a porta abriu e ela saiu gritando e insultando outras pessoas. Desde então eu tenho ódio daquela mulher!

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