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A casa

Eu queria um sofá de três lugares com assentos largos e encostos macios e confortáveis, com aquela coisa de puxar para frente e poder esticar as pernas. Queria uma mesa amarela para ficar colada na parede da copa, pelo lado da sala, para colocar um vaso de flores ou uma besteirinha qualquer para alegrar a cena. Quero decorar a casa com cenas. Na parede oposta à cozinha gostaria de ter muitos quadros, de tamanhos, molduras e temas diferentes. Arte, essa droga tão perfumada que eu sempre respirei, vai ter lugar na casa. Talvez uma mini estante para lembranças, coisas importantes de serem lembradas, fotos nossas, fotos de todos nós e de nós dois. Não sei nada sobre a televisão, sobre a estante, sobre o rack ou qualquer coisa que simule móveis assim. Estou preocupado com outras coisas. Cadeiras confortáveis, uma luminária no canto para fazer o cômodo ficar aconchegante em dias de luz apagada. Coisas assim. Cenas assim.

Quero poder cozinhar as receitas que aprendi de outras vidas, sentir cheiros de pratos que eu nunca executei e partir em busca de habilidades ainda inexploradas. Vou deixar o violão pendurado ali por perto da sala, para o caso de ter uma ideia de música enquanto tô esperando o bolo crescer, ou acompanhando o cozimento dos legumes. Quem sabe eu não escrevo um livro novo sentado de frente para a varanda, vendo o sol abaixar no fim do sábado enquanto ainda não é hora de sair pra encontrar os amigos, ou enquanto eles ainda não chegaram. E quero beber e fazer brindes, fazer planos e fazer festas, fazer graça e fazer juras de amor. Quero rir, beber, comer, dormir e acordar rindo de novo. Quero coisas simples, sem formalidades, sem protocolos, sem cenas armadas, sem obrigações, só a verdade. Uma casa de verdade, com pessoas de verdade, sentimentos e emoções de verdade.

Quero um cômodo para iluminar com luzinhas pisca-pisca mesmo quando não for Natal. Quero colocar meu narguilé no centro e sentar em roda com meus amigos para falar de nada, fazer nuvens de fumaça e planos pro futuro. Quero poder ver no teto um universo inteiro nas minhas tarde de devaneios, quando não me dá vontade de falar. Quero jogar baralho, fazer barulho, dar um mergulho e dormir em paz. Uma casa é um lar ou um lar é uma casa? E quem trazemos para nossa casa é nossa família ou família é quem já estava dentro? Quem se importa? Quero dormir passando frio e acordar morrendo de calor. Quero desejar bom dia com bafo de noite longa e cara de pugilista em sexto round. Quero fazer café da manhã e derramar tudo a caminho do quarto. Quero fazer café da manhã e conseguir chegar até o quarto. Quero sentir o cheiro que nossas coisas têm quando estão juntas. Quero acender minhas velas para os orixás e fazer minhas mandingas pra quando as coisas balançarem demais. Quero ser eu nesse espaço de nós dois.

E quando chegar sexta-feira, quero que seja pela porta da sala que os melhores amigos estejam entrando. Que fumem na sacada. Que peguem a cerveja na geladeira. Que troquem de canal furiosamente e indecisos. Que soltem gargalhadas descontroladas. Que briguem pelo resultado da partida de buraco. Que assistam ao jogo enquanto nós ficamos entediados. Que estejam ao redor. Se existe uma função dos amigos, acima de qualquer outra que possa existir, é a de nos proteger. São eles que fazem com que a vida se estique um pouco mais e é por isso que nossa casa será deles também. No fim, quando todo mundo for embora, quero deitar e sentir minha companhia de todo dia ao meu lado e sorrir para a grande sorte que a vida me deu. É uma grande sorte ter um lugar para chamar de meu lugar. É uma sorte maior ainda poder chamá-lo de nosso.

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VOCÊ PRECISA CONHECER (pt.1) – Os irmãos Barscevicius

– Essa é uma série de 5 posts que fala sobre pessoas desse mundo. Tudo é factual.

 

A gente já é amigo há um tempo. Não me lembro direito quem eu conheci primeiro, mas nossa amizade sempre seguiu em ondas e picos. Alguns meses acabo, sem querer, saindo mais com um, outros meses saio mais com o outro, mas a constante é que ter os dois juntos no mesmo lugar é difícil. Se você perguntar eles vão dizer que não, que isso é viagem, mas todo mundo sabe que eles quase nunca saem juntos. Na verdade eles não estão juntos em quase nenhum momento. Várias vezes, para falar com os dois, tive que ligar em números de celular diferentes porque um não sabia se o outro estava em casa. Eles moram no mesmo apartamento e o quarto dos dois é separado por um corredor de no máximo dois metros de comprimento. Puta que pariu.

Um é o Guilherme. O outro, mais velho, é o Fernando. Mas eu nunca sei as idades nem a diferença de idade de um pro outro. Deve ser coisa de um ano, dois, no máximo. Nós temos muitos amigos em comum, muitos mesmo, mas de uns tempos pra cá a distância cresceu tanto que conseguimos não fazer a menor ideia de quem são as pessoas que estão andando com um ou com o outro. Um deles é meu sócio, o outro já foi meu parceiro de banda, já briguei com ambos, já vivi momentos ímpares com ambos e já me enfiei em conversas eternas com ambos a ponto de saber que quase nada neles é igual. Nem a aparência é igual de um pro outro. Gênios completamente diferentes, hábitos, gostos, opiniões, tudo diferente. Nunca conheci irmãos tão heterogêneos.

O Fernando é mais loiro. A cada seis meses o cabelo dele tem um formato diferente e não sei se existe uma lógica para as mudanças. É um dos caras mais talentosos e pacientes no que diz respeito a aprender e dominar instrumentos de corda. É um dos violonistas mais criativos com quem eu já toquei e até hoje temos músicas que só ele sabe tocar. Se eu pudesse enumerar três hábitos característicos que o definem eu citaria o violão em primeiro lugar! Em segundo vêm os livros. O carro dele vive cheio de livros, sempre ciência, teorias, físicos, pensadores, a puta que pariu a quatro e talvez por isso ele tenha jeito de sabe tudo. Ele é o sabe tudo. E discutir com ele é tão chato e inútil quanto ensinar uma pomba a passar roupa. Além dos estudos e da música, sem dúvida, a maneira imbecil de dirigir é o terceiro hábito mais marcante no Fernando. Quando a minha vida está parecendo monótona de mais eu marco algum programa com o Fê pra sentir medo de morrer. Ir daqui até a praia ou daqui até a esquina tem sempre a mesma chance de morte quando ele tá no volante. E ele adora isso! Uma figura…

O Guilherme é o menos loiro, o mais novo. Ele escolhe como vai cortar o cabelo de acordo com a namorada que ele tem. Teve uma época, uns anos atrás, em que ele namorava uma menina péssima que, além de não gostar de nós, não gostava que ele tivesse cara de gente. O Guilherme andava por aí com um cabelo comprido de mendigo que dava até dó. Hoje tá bem melhor, tanto no nível de simpatia da namorada quanto no nível de higiene capilar. Ele é o entusiasmo em pessoa. É meu sócio porque não poderia ser outra pessoa, e foi meu parceiro em muitos outros momentos especiais. Não posso dizer que é o melhor violonista que eu conheço, mas tem sempre violão no porta malas do carro dele. Também não posso dizer que é o cara que mais lê, mesmo tendo títulos impressionantes no quarto. O Gui bebe igual uma esponja. Esse talvez seja o principal hábito característico dele: o cara não tem limites no copo. Ele também já tentou ser guitarrista, baterista, produtor de música eletrônica e, só por coincidência, também dirige igual um animal, apesar de o risco de morte ser um pouco menor.

Eu gosto desses caras num nível avançado, e já faz tempo. É bom tê-los como amigos, mesmo que raramente eu possa usufruir da minha amizade com os dois nas mesmas ocasiões. Tenho aprendido muito sobre paciência, irmandade, respeito e cooperação nesses anos em que a gente divide mesas de bar, banco de carro e acordes de violão. Os irmãos Barscevicius são incríveis… você precisa conhecer!

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Pequenas Alegrias Coletivas

Tenho o costume de saber valorizar os momentos e seus significados na minha vida, mas nem sempre conto para as pessoas que estão dividindo essas cenas comigo o quão feliz eu estou por estar ali. São coisas simples, tão simples que beiram o bobo, o banal, mas são dessas coisas que são feitos os dias bons. São detalhes açucarados, coisas sem importância pra quase ninguém, mas eu guardo e estimo esses momentos como se tivessem peso de ouro. São o que eu chamo de “PAC”, Pequenas Alegrias Coletivas. Eu sou um cara meio coletivo, gosto das coisas com os outros. Valorizo meus momentos e minhas criações solitárias, mas em geral gosto de estar com alguém, ou muitas pessoas, fazendo qualquer coisa. Trabalho em equipe!

Esses momentos geralmente não são compostos por muitas pessoas. Na verdade, quase todos são compostos por apenas mais uma pessoa, mas são bons. Por exemplo, quando eu encontro o Boca no trem e a gente não fala sobre nada. Fala sobre os amigos que sumiram, os amigos que reapareceram, sobre festas, sobre coisas que fizemos. Conversas banais, mas que têm um valor inestimável, mudam o meu dia. É como quando eu encontrava a Ana no metrô. A gente conversava sobre tudo, sempre ríamos altíssimo, todo mundo ficava prestando atenção nos nossos assuntos, eram sempre histórias engraçadas, lembranças filhas da puta da vida de alguém. Eu me divertia muito falando sobre nada com ela, assim como valorizo muito minhas conversas sobre nada com o Boca.

Muita gente me diz pra mudar pra São Paulo, morar mais perto do trabalho, mas um dos grandes motivos que me fazem continuar em Santo André é justamente a necessidade de pegar trem e metrô. Pode parecer contraditório, mas eu adoro esse trajeto. E as conversas são mais um motivo para continuar gostando. Curto muito quando encontro, bem raramente, o Fernando, e a gente vai conversando sobre fotografia, sobre trabalho, sobre viagens e quando vê a estação já chegou. Ele é um grande amigo, alguém que eu gostaria de encontrar mais, mas é isso que faz dessas conversas breves e esporádicas momentos tão valiosos. Gosto quando encontro a Natália e a gente vem conversando sobre azulejo com pintura hidráulica, restaurações de igreja, coisas bonitas construídas pelo mundo e tudo que a minha curiosidade em arquitetura possa me fazer perguntar e ela, pacientemente como sempre, responder.

Mas minha alegria não se restringe só ao metrô. Gosto quando tem reunião de negócios com meus amigos. É fantástico ter como sócios seus amigos, trabalhar parece festa. E gosto quando as reuniões são na casa da Laila, com narguile, cerveja e grandes ideias. Depois pego carona com o Gui ouvindo músicas em alta velocidade com o vento frio da noite se jogando pela janela. Gosto de andar de carro falando sobre um futuro bacana que a gente está projetando para o nosso negócio e isso realmente vale muito para mim. Gosto das conversas sobre teoria da conspiração na hora do almoço aqui no trabalho. Sinto prazer e saber que a gente não sabe de nada, que o depois da vida é tão X quando o antes dela e que existem outras pessoas tão interessadas quanto eu em saber o que é que tem quando chega o outro lado de lá. Me faz feliz.

Gosto quando a Juliana vem me buscar no trabalho. Parece que só de saber que ela está chegando metade do meu cansaço já vai embora. Temos criado rituais de valor em torno de coisas que a gente gosta de fazer e isso faz com que cada vez mais sejam memoráveis os nossos programas. Mas acho que a minha grande pequena alegria é quando a gente não faz nada, simplesmente nada e fica em casa juntos só pra ficar, só pra ver se alguém tem uma ideia melhor, mas nunca tem. Não é preciso um grande script para ser feliz com ela. Transportei isso para os meus dias e hoje vivo colecionando grandes alegrias em momentos em que as outras pessoas estão simplesmente vivendo, sem nada de muito mais significativo que isso.

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Um brinde à juventude eterna!

De repente ontem, dia 12 do 12, eu fiz 25 anos. E sentado na ponta de uma mesa com 15 cadeiras me permiti ficar em silêncio olhando alguns fiéis amigos bebendo boa bebida, comendo boa comida, mostrando dentes jovens, brancos, cabelos cheios de vida e olhos ainda brilhantes e vivos. A juventude é um orgasmo duradouro que a gente, insaciáveis ingratos, tenta esticar ainda mais. A mesa comprida, esticada à minha frente e eu, só eu, sentado na ponta olhando tudo, ouvindo os talheres batendo na porcelana dos pratos, os copos surrando o tampo de madeira. Era a vida acontecendo ali, naquele momento.

Dificilmente me permito olhar a vida acontecer sem interferir. Mas nesses dias mágicos, místicos, vale a pena. Existe um dia no ano, e no meu caso foi ontem, em que você recebe votos de gente que diz para o cosmos que você merece ser feliz. Gente que joga sentimentos no ar e deseja que você tenha sucesso, muitos amigos, amor, dinheiro, felicidades mil e muitas outras coisas boas. Metade são desejos vazios que não têm poder algum. A outra metade se divide entre gente que gosta de você e gente que realmente tem sentimentos relevantes por você. Juntando esses dois grupos dá pra angariar uma carga positiva considerável.

Foi o que eu fiz.

Mas numa mesa daquela, com gente daquele calibre, o que paira no ar vai além de boas energias e desejos honestos. Ao contrário da festa impessoal que fiz ano passado (90 pessoas bêbadas, eufóricas e entorpecidas dando trabalho), neste ano escolhi o melhor lugar para levar as melhores pessoas. Chamei só os que vibram comigo, como eu, e os que realmente se importam. Sentado na ponta da mesa levantando meu copo e agradecendo a presença de todos, desejando para mim e para eles o dobro do que desejaram para o meu aniversário, senti os fios que ligam o tempo à realidade se afrouxarem e naquele momento, mesmo que nenhum deles tenha percebido, eu vi o mundo parar.

Não existe nada que cause mais dobras temporais do que um brinde sincero, com sentimentos na ponta de taças, copos, garrafas, latas e gestos. Sons de vidro batendo, sorrisos, corações acelerados e felicidade verdadeira descendo pela garganta de todos com bolhas de gás carbônico e açúcar industrializado misturado com frutas, álcool e água congelada. A vida se estica quando você troca a euforia e a loucura por um ambiente aconchegante e intimista, onde as conversas são audíveis, onde os rostos se parecem com o que eles realmente são, sem maquiagens em demasia, sem penteados falsos, sem gente fora de controle. Sentado ao lado da minha mulher, dos meus sócios, de grandes faces e de grandes pessoas o mundo parece uma eterna festa da realeza.

Olhando todo mundo ali absorvi mais coisas positivas do que em qualquer outra situação. É nobre estar em um lugar onde pessoas se sentam à sua mesa simplesmente pelo prazer de atenderem a um convite seu. Faz bem para a alma, para o espírito e acalma tudo o que é ruim. Não há espaço para negatividade em uma mesa onde se come bem, onde se bebe bem, onde se ri, onde se está cercado de pessoas bem intencionadas e onde, ao fazer uma breve análise da alma de cada um, temos certeza de que estamos jovens ainda. Mais do que à idade, a juventude está ligada a estados de espírito e, sendo assim, quanto mais mesas de jantares de aniversário eu colecionar, mais jovem me tornarei.

Um brinde a todos nós!

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Um vídeo com os segundos mais valiosos do mundo

Um vídeo com os segundinhos mais preciosos dessa vida. Tenho pensado muito nisso, em segredo, nas últimas semanas. Várias vezes me peguei viajando, pensando em cores e paisagens, perdido em ideias por muito tempo, até ser cortado pela voz da minha namorada com a pergunta de sempre: “o que foi?” e eu sorrio e digo que não é nada, que estava só pensando. Não é nada mesmo, mas vai ser. É um projeto daqueles que a gente começa sem saber como fazer, sem ter o conhecimento, nem a estrutura, mas mesmo assim, seguimos em frente.

Nos últimos 10 meses tenho sentido um movimento natural e involuntário ao meu redor, envolvendo a minha vida e a vida de terceiros. Olhando para trás, para o segundo semestre de 2011 e o primeiro de 2012, nenhuma vida poderia ter sido mais incrível do que a nossa. Nossa, minha e dos meus amigos, os melhores que se pode ter. E digo sem abrir mão de nenhuma briga, de nenhum episódio de falsidade, sem apagar nenhuma memória de como a gente brigou, discordou, se traiu, se matou, chorou e se doeu junto. Mas somos pessoas, somos ruins e bons por natureza, na medida certa, na hora certa. A gente erra, acontece.

Mas amigos são amigos e eu sinto falta dos meus. E eles sentem falta dos deles também. Eramos tão grandes, tanta gente, tanto telefone pra lembrar, tanto nome para colocar na lista, que as vezes ficava difícil ser amigo de verdade, fazer parte da vida, entender os sentimentos, contar e ouvir segredos, dar o ombro a quem precisa. Mas a gente estava junto e isso bastava, ao menos para mim. Quantos casais a gente não formou e destruiu, quantas viagens a gente não planejou e esqueceu de tirar do papel, quantas outras a gente nem planejou e já foi vivendo aos trancos e barrancos. Os lugares que a gente viu ninguém mais vai ver como nós.

Até pensei em citar os nomes de todos, mas eu ia acabar esquecendo de muitos, então me reservo ao direito de só falar dos que me ocorreram agora e de alguns líderes. Sim, líderes, porque toda turma tem um chefe, um cara que decide, que responde a pergunta “pra onde a gente vai?” e não adianta viver de ilusão e dizer que não era assim, todo grupo tem um líder. A gente tinha vários! A gente, o nosso grupo, a nossa bagunça mal organizada, se é que havia alguma organização, tinha muitos líderes. E eu sinto falta desses, e dos outros, os que não se impunham, mas também não ficavam omissos, que eram todo o resto. Eu sinto falta dos rostos, das histórias, dos cheiros e das vozes de Natálias, de Guilhermes, Fês, masculinos e femininas, de Bruno, de Henrique, de Vicentes e Vinícius, plurais ou singulares, de Kauês, de Karens, de Karlas, e todos os outros Ks que por ventura existiram. De Juliana Rainha, eterna “dona do rolê”, de gente que não aparece mais, como Luiz, como Jamile, como Mameli, que nunca mais volta.

A gente existiu como grupos que existem fadados a acabar e eu sempre soube. Todo mundo sempre soube. A gente dizia “olha o tamanho desse rolê. Isso não vai durar”, e durou o que deu. O que a gente aguentou. E aí depois uns sumiram, outros casaram, outros se foderam, outros fugiram, e outros vieram para limpar a bagunça que a gente deixou pra trás. Separou tudo, rejuntou tudo e nessa parede de azulejos de cores mil nunca mais vai ter simetria. Eu acho. Nunca vi um grupo se juntar, se reerguer, porque as vidas seguem, florescem e mudam, e aí o encaixe já não rola mais.

Por isso, assim como fiz alguns anos atrás, quando escrevi “A incrível história de todos nós” – num surto de uma saudade incontrolável de Mário, Ruivo, Hola, Marcela, Juh e Fê – uma música que nasceu já contando o que não existia mais, queria uma maneira de guardar no infinito as memórias das pessoas que viveram esses 12 meses das mais absurdas fábulas que uma juventude pode viver. Assim como o projeto do livro dos fumantes, que muitos – pra não dizer quase todos – participaram, quero poder usar a carinha de vocês mais uma vez. Só que agora não vai ser só para mim, vai ser por e para todos nós. Quero prender alguns segundos de nós, sem fala, sem pose, sem filtro, só o real, num vídeo com cara de máquina do tempo.

Um vídeo, uma música, as pessoas certas nos lugares de sempre, no Poli de sempre, no Espeto de sempre, ou no que restou da memória dele, nas casas de sempre, nos carros de sempre, com os mesmos sorrisos, os mesmos violões e as mesmas vontades. A gente não ficou tão diferente assim, vai? Acho que o que acontece é que a euforia simplesmente acabou, as drogas já não são novidades, as bebidas já não impressionam e as festas já não estão lotadas de “nós”, e sim de “eles”, outras galeras, outros amigos, outros rolês. Então, só pra lembrar do que já não existe mais, hoje, oficialmente, eu convoco todo mundo (e vocês sabem BEM quem é e quem não é) pra me emprestar uns segundos da vida. Eu vou ser, literalmente, eternamente grato!

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O bom da vida!

Logo eu, que passei tanto tempo reclamando da falta de momentos livres, da falta de criatividade e da falta de novidade, me peguei afogado em pensamentos abstratos demais. No meio desse monte de relíquias modernas descobri que às vezes a gente sabe exatamente, mesmo que por um curto espaço de tempo, tudo o que precisamos para sermos felizes.

O bom da vida está por aí, jogado nas mesas de bar, nos pães com manteiga na chapa na padaria da esquina, nos carros que trafegam lentamente num congestionamento fora de hora no meio da semana. O bom da vida está em todo lugar: a gente só não vê porque o estado de espírito não nos deixa. Mas tudo bem, mais cedo ou mais tarde todo mundo se pega vivendo um momento de felicidade espontânea e cai na real de que é muito mais simples do que pensamentos. Ser feliz custa pouco, às vezes, quase nada!

O grande barato da vida está em resolver grandes problemas durante a madrugada só porque estava ocupado demais durante o dia fazendo o que dava mais prazer. A felicidade veio me pegar em uns momentos inexplicáveis, tipo quando estava carregando a caixa do meu novo violão pelo meio da rua em pleno horário de rush, ou quando estava batucando um tamborim desafinado num churrasco de gente pouco conhecida. São simplicidades que trazem tudo que é complexo consigo.

O bom da vida está em encontrar uma rádio de black music no som do motel e transar ouvindo Emicida, ou poder ficar pelado conversando sobre a vida sem se preocupar com o tempo, com o dinheiro, com o sentido ou com o conteúdo, só focar no momento. Descobri que é possível dar mais risadas em momentos sérios do que durante grandes shows de humor. É da maneira ridiculamente séria com que nós tratamos os cretinos que nascem as situações realmente hilárias. A gente valoriza cada coisa/gente sem valor…

A parte legal das coisas está escondida no momento da flexibilidade de opiniões e ações. Naqueles microsegundos em que decidimos nos sujeitar a alguma coisa que nos parecia negativa, ou a interagir com determinada realidade que não nos é familiar é que estão as grandes descobertas da vida. A felicidade é se sentir confortável saindo da zona de conforto. Ousar, permitir, intuir e aceitar são coisas que vêm junto com descobrir, apreciar, admirar e absorver.

Ouvir uma música que você não gosta pode ser a chance de descobrir novos gêneros. Conhecer pessoas das quais você nunca foi com a cara é uma ótima chance de fazer novos amigos. Admitir pontos fracos e defeitos que você passou a vida escondendo pode ser uma ótima maneira de aliviar tensões. Ser você, acima de tudo, ainda supera qualquer tipo de subterfúgio e fingimento de socorro. As pessoas gostam do que é real, o fake a gente já vê nos livros e cinemas.

O barato da vida está em olhar pro lado e sorrir, olhar para trás e sorrir, imaginar o futuro e sorrir e fechar os olhos sem precisar desmanchar o sorriso. O barato da vida é barato mesmo, às vezes custa o preço de uma passagem de ônibus, ou uma garrafa de cerveja, ou o ingresso do cinema. Não é fortuna, não é figurino, não é conteúdo de copo, nem de bolsa, nem de caixa. A felicidade é o tipo de coisa que preenche o ambiente de nada, só de sensações.

As partes mais legais da vida ainda são de graça, por mais que  estejamos cada vez mais mergulhados em objetivos que envolvem algum tipo de lucro monetário. As melhores coisas estão dentro das fotografias, das mensagens de texto, dos e-mails e das ligações telefônicas. Nada que é feliz está preso numa loja, ou exposto em uma vitrine, ou sendo oferecido na televisão. O importante é o que você vai fazer com aquilo! O que é feliz está sendo dividido o tempo todo com quem você gosta, com outras pessoas felizes e é isso o que importa, mas a gente só percebe isso quando consegue um pouco de liberdade.

Essa sim é coisa rara e difícil de ter, mas a gente se vira, não é? A gente se vira, pode apostar!

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Chora que chora

“Chora que chora, novinha chora!”

Tocava alto no carro ocupado pela lotação máxima permitida. Eu, já meio breaco, repetia a todo instante, quase gritando, na tentativa de superar o volume do rádio, que aquela música era MPB. Eu tinha certeza disso, mas parecia ser o único que pensava assim. Eu pensava nas praias do Rio de Janeiro, pensava em Caetano Veloso, Chico Buarque e Tom Jobim. Aquele funk, naquele momento, com aquelas pessoas, me pareceu extremamente sensível, forte, atual e delicado. Me emocionou. Mesmo!

“Chora que chora, novinha chora!”

Ele disse no ouvido dela “faz um filho comigo” e a gente riu. Uma frase dessas, num contexto diferente, é coisa que mata alguém do coração. Mas não, ali nada mataria ninguém. Tinha sol, tinha vento, tinha amigos, tinha música, tinha bebida e a gente nem se dava conta de que se alguém chamasse de “festa” não haveria como discordar. Mas não era festa. Era um dia comum, como se o que é comum não fosse especial. Era muito especial.

“Chora que chora, novinha chora!”

Não tinha ninguém triste, nem preocupado, nem incomodado com alguma coisa. Eu segurava minha garrafa de cerveja, olhava ao redor, a paisagem deteriorada na mistura de mato com concreto, asfalto e chapas de aço e sorria. Eu sorria largo e às vezes uma frase qualquer, uma brincadeira boba, me fazia gargalhar. Era um daqueles momentos sublimes e raros que a gente tem que parece que o mundo todo ficou mais leve, mais simples de entender e se viver. Eu estava vivendo plenamente ali.

“Chora que chora, novinha chora!”

Me sentia extremamente confortável. Ouvia os versos, a batida que nem existia, a não ser por uma voz em loop que simulava sons de tambor e pensava em violão, acordes sofisticados e vocais macios. Para mim era das melodias mais tranquilas e aceitáveis do mundo. Estava completamente tranquilo com aquela música, como se ouvisse mesmo a trilha sonora do calçadão de Copacabana ou como se dividisse o banco de trás de um carro com Gal Costa quase gorfando e Nara Leão tatuada com um piercing no nariz.

“Chora que chora, novinha chora!”

Eu me apaixonaria o tempo todo, por qualquer coisa ou pessoa, qualquer sorriso ou abraço, qualquer voz ou perfume. Existem estados de felicidade tão abstratos e intensos que acabam por alterar percepções importantes sobre preferências pessoais, princípios, conceitos firmados e opiniões perenes. Qualquer um muda de ideia sobre qualquer assunto quando está mergulhado em alegria, satisfação e calma. A calma transforma o homem.

“Chora que chora, novinha chora!”

Me sussurrava no ouvido os versos de um poema tão banal e bonito quanto a própria vida real. Eu respirava fundo, soltava o ar misturado com gás de cerveja e hálito de cevada enquanto o planeta girava mais lentinho só pro dia não acabar tão rápido. Eu conhecia pedaços de planetas que caiam na Terra e se transformavam em gotas de suor. Eu ria muito, olhava tudo com ares de turista, aproveitava cada sabor e momento e ouvida a música do céu. Vinha do céu de algum lugar que não era ali.

“Chora que chora, novinha chora!”

Sentado na sarjeta fazendo declarações de amor para olhos embriagados me enxergando duplamente, me sentindo animado e deixando explícito que eu queria mesmo estar ali. Abraçaria assassinos, beijaria crianças sujas, dançaria com mulheres gordas e fotografaria com indígenas, mas não tinha coragem de chegar perto de quem eu queria chegar. Eu olhava o corpo dos semelhantes, olhava o rebolado das meninas, as curvas que Deus lhes deu e pensava que ali ninguém chorava. Nem eu, nem as novinhas, nem as velhinhas, nem ninguém.

“Chora que chora, novinha chora!”

Era música popular brasileira! Tinha passinho, caras e bocas, ritmo e objetivo. Eu só queria estar lá: o lugar nenhum com todo mundo!

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