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Hoje eu não vou voltar para casa, amor

Essa é minha última transmissão. Depois dessa, nada mais será dito, escrito ou pensado por mim. Estou acabando, findando minha participação, recitando as últimas linhas do meu monólogo e as cortinas já estão prestes a fechar. Serei novamente pó de estrela, essa matéria mágica que forma e deforma todos nós. Sei que parece clichê, mas daqui de cima tudo que eu penso em dizer é que a Terra é incrivelmente azul, mesmo com toda a poluição e a porção de decisões erradas que a gente tem tomado com as florestas. É incrivelmente azul, tão próxima, tão segura, mas eu não volto mais. Hoje eu não vou voltar para casa, amor. A seguir está todo o conjunto de coisas que eu consegui pensar em contar, mas como o ar está acabando e o frio é alucinante, pode ser que algo me escape à memória e fique perdido no espaço eternamente… assim como eu.

Número 1! Você tem bafo. Eu sei, deveria ter começado com alguma coisa mais romântica ou importante, mas você vai seguir em frente e seu novo namorado pode merecer uma namorada que não tem cheiro de repolho na boca. Vá ao médico, veja isso e seja feliz, esse cheiro não combina com a sua aparência.

Número 2! Eu nunca quis ficar com a sua amiga Ana. Eu sei que você sempre teve ciumes dela e sempre tentou me fazer ficar longe, mas a verdade é que a Ana nunca me interessou. Claro, ela me interessou como uma pessoa legal, assim como todo mundo que te paga cerveja, fala das suas bandas favoritas e te faz rir, mas foi só.

Número 3! Suas pintinhas no rosto são sexy. Não faça tratamentos, não use ácidos, não vá ao dermatologista com ar de preocupada, porque elas são perfeitas. Não acredite nas pessoas que dizem que é um problema ter pintas escuras e claras juntas. Problema, no seu caso, seria não tê-las assim exatamente como são.

Número 4! Sua mãe dá em cima de mim. Eu sei que você não vai acreditar, mas isso não me importa na atual situação. Quando você ler isso eu já vou estar vazio, mas sua mãe sempre me lançou olhares estranhos. Uma vez, naquele churrasco na casa do seu tio em Limeira, ela passou a mão na minha bunda e me chamou para subir as escadas, mas eu fugi assustado. Cuidado com ela e seus novos parceiros.

Número 5! Você é linda. Eu sei que você sabe que é bonita, não é difícil perceber isso, mas eu precisava dizer do meu jeito. Você é linda quando não tenta ser bonita. Você fica sensual e sexy quando está com os olhos pretos, a boca pintada e o cabelo arrumado, mas linda, daquele jeito simples e perfeito, você só fica quando está normal. Tente permanecer comum e você será bonita para sempre.

Número 6! Acredite no seu trabalho e invista nele. Pode parecer papo de fã só porque sou seu namorado, ou era, mas você precisa saber que é muito boa. Às vezes nem todo mundo vai acreditar em nós, nem todos vão nos dizer que estamos no caminho certo, mas temos de fazer o que nos dá a sensação de trabalho bem feito. Você é boa e isso basta. Eu não gastaria meus últimos momentos de vida dizendo isso se não fosse verdade.

Número 7! A Vanessa, aquela sua amiga, não é boa gente. Não sei como dizer em palavras o que eu sinto, mas tenho certeza de que você não vai perder muito se afastando dela. Eu sei que ela é sua melhor amiga, que você provavelmente vai correr para ela e chorar dias e dias quando souber do que me aconteceu, mas ela não é boa. Quando ela passa a energia das coisas acaba, o cachorro fica triste, as flores ficam meio velhas e eu me sinto mal. Sentia mal.

Número 8! Eu te amei todos os dias, mas meu amor sempre foi mais forte enquanto você estava longe. Nem sempre eu percebi o quanto minha vida dependia da sua, mas toda vez que você sumia ou a gente ficava afastado parecia muito óbvio que você era a mulher da minha vida. Vou morrer sabendo que você é a mulher da minha vida e tenho sorte por isso. Pouca gente tem certeza de que encontrou o verdadeiro amor.

Número 9! Um segredo: quando se está perto da morte é possível ver um pouquinho do lado de lá. Quando é claro e garantido que a morte é inevitável a gente vê, como se fosse uma imagem borrada num filme antigo, o que vem pela frente. Por isso não fique preocupada com o futuro. Faça as coisas agora e esqueça o resto, não vai adiantar nada. Meu próximo turno, ou o lugar para onde eu vou, não tem nada a ver com o que eu achei que aconteceria com a minha vida. Pensar no futuro é perda de tempo.

Número 10! Pra ser clichê vou acabar aqui. Não tinha nada para escrever depois do nono item, então só queria dizer que, nesse momento, tenho mais dois minutos de ar e vou gastá-los cantando aquela música que você gosta e olhando a sua foto. Seu rosto vai ficar indelével, assim como a minha maneira desafinada e infantil de cantar “Eu preciso dizer que te amo”. O espaço vai guardar a gente pra sempre. Te amo.

“Quando a gente conversa, contando casos, besteiras…”

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A casa

Eu queria um sofá de três lugares com assentos largos e encostos macios e confortáveis, com aquela coisa de puxar para frente e poder esticar as pernas. Queria uma mesa amarela para ficar colada na parede da copa, pelo lado da sala, para colocar um vaso de flores ou uma besteirinha qualquer para alegrar a cena. Quero decorar a casa com cenas. Na parede oposta à cozinha gostaria de ter muitos quadros, de tamanhos, molduras e temas diferentes. Arte, essa droga tão perfumada que eu sempre respirei, vai ter lugar na casa. Talvez uma mini estante para lembranças, coisas importantes de serem lembradas, fotos nossas, fotos de todos nós e de nós dois. Não sei nada sobre a televisão, sobre a estante, sobre o rack ou qualquer coisa que simule móveis assim. Estou preocupado com outras coisas. Cadeiras confortáveis, uma luminária no canto para fazer o cômodo ficar aconchegante em dias de luz apagada. Coisas assim. Cenas assim.

Quero poder cozinhar as receitas que aprendi de outras vidas, sentir cheiros de pratos que eu nunca executei e partir em busca de habilidades ainda inexploradas. Vou deixar o violão pendurado ali por perto da sala, para o caso de ter uma ideia de música enquanto tô esperando o bolo crescer, ou acompanhando o cozimento dos legumes. Quem sabe eu não escrevo um livro novo sentado de frente para a varanda, vendo o sol abaixar no fim do sábado enquanto ainda não é hora de sair pra encontrar os amigos, ou enquanto eles ainda não chegaram. E quero beber e fazer brindes, fazer planos e fazer festas, fazer graça e fazer juras de amor. Quero rir, beber, comer, dormir e acordar rindo de novo. Quero coisas simples, sem formalidades, sem protocolos, sem cenas armadas, sem obrigações, só a verdade. Uma casa de verdade, com pessoas de verdade, sentimentos e emoções de verdade.

Quero um cômodo para iluminar com luzinhas pisca-pisca mesmo quando não for Natal. Quero colocar meu narguilé no centro e sentar em roda com meus amigos para falar de nada, fazer nuvens de fumaça e planos pro futuro. Quero poder ver no teto um universo inteiro nas minhas tarde de devaneios, quando não me dá vontade de falar. Quero jogar baralho, fazer barulho, dar um mergulho e dormir em paz. Uma casa é um lar ou um lar é uma casa? E quem trazemos para nossa casa é nossa família ou família é quem já estava dentro? Quem se importa? Quero dormir passando frio e acordar morrendo de calor. Quero desejar bom dia com bafo de noite longa e cara de pugilista em sexto round. Quero fazer café da manhã e derramar tudo a caminho do quarto. Quero fazer café da manhã e conseguir chegar até o quarto. Quero sentir o cheiro que nossas coisas têm quando estão juntas. Quero acender minhas velas para os orixás e fazer minhas mandingas pra quando as coisas balançarem demais. Quero ser eu nesse espaço de nós dois.

E quando chegar sexta-feira, quero que seja pela porta da sala que os melhores amigos estejam entrando. Que fumem na sacada. Que peguem a cerveja na geladeira. Que troquem de canal furiosamente e indecisos. Que soltem gargalhadas descontroladas. Que briguem pelo resultado da partida de buraco. Que assistam ao jogo enquanto nós ficamos entediados. Que estejam ao redor. Se existe uma função dos amigos, acima de qualquer outra que possa existir, é a de nos proteger. São eles que fazem com que a vida se estique um pouco mais e é por isso que nossa casa será deles também. No fim, quando todo mundo for embora, quero deitar e sentir minha companhia de todo dia ao meu lado e sorrir para a grande sorte que a vida me deu. É uma grande sorte ter um lugar para chamar de meu lugar. É uma sorte maior ainda poder chamá-lo de nosso.

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Suzana

O Túlio acelera o carro e liga o rádio. Estamos um pouco bêbados depois de seis garrafas de cerveja, ele está com a camiseta suja porque babou uma boa parte de uma dose de uísque que pedimos para começar e eu estou com os olhos inertes. A gente não tem o que conversar, é de noite e está chovendo fraco. As luzes se multiplicam nas gostas espalhadas pelo vidro e ele insiste em não ligar o limpador. Odeio a sensação de não conseguir ver o caminho. Abaixo o volume de uma música qualquer que esta tocando e digo a primeira coisa que me vem.

A Suzana não gosta de mim, cara.

Quem falou?

Eu tô dizendo.

Viagem sua…

Não é. E ela não gosta de você também.

O farol fecha e ele segura o volante com a duas mãos olhando longe. Suzana é namorada do Túlio. Uma filha da puta. Loira, peituda, imbecil e filha da puta. E não gosta de mim. Nem eu dela. Não temos assunto, então o ambiente permanece aéreo. Ele conheceu Suzana numa festa do trabalho. Na época ela tinha ido buscar bebida no bar e eles cruzaram o olhar. No dia seguinte já era namoro. A Suzana veio para a nossa turma de amigos pouco tempo depois, quando ele assumiu que gostava dela de verdade. Ela chupou metade dos nossos conhecidos em menos de um mês saindo com a gente. Era deprimente. A Suzana era filha da puta demais.

A Suzana é filha da puta demais, cara.

Não fala isso.

A Suzana é filha da puta e puta demais, cara.

Ele não diz nada. O farol abre e ele sai com calma, dirigindo como se não houvesse destino algum. Aumenta o volume do rádio e está tocando a música nova dos Titãs. Uma merda. A chuva aumenta e a noite parece ainda mais escura. Eu quero fumar um cigarro, mas não dá para abrir a janela e o Túlio não fuma. Um raio acerta o topo de um prédio e, por uma fração de segundo, vemos o edifício todo se iluminar de azul. É “dia dos homens” e, por isso, estamos rodando sozinhos. Não tenho namorada. Suzana não está com Túlio porque está bebendo com umas amigas. Ele disse isso.

Cadê ela?

Disse que ia beber com umas amigas.

Tá.

Tenho certeza de que não é a verdade. Meu amigo deprimido não tem a menor ideia de onde a namorada está. Ele faz uma curva e entra em uma rua congestionada. Há bares e casas noturnas nas duas calçadas e o mundo parece melhor do lado de fora do carro. Penso que Suzana é, provavelmente, a pior coisa que já aconteceu na vida do Túlio e digo isso a ele. Não há qualquer reação. Dez minutos depois estamos completamente travados no meio da rua congestionada com pessoas se divertindo, apesar da chuva, em bares diversos.

A Suzana trai você, cara.

Quem falou?

Eu tô dizendo.

Viagem sua…

Não é. Ela trai você desde sempre.

Por que você tá falando isso?

Porque eu sei.

Ele me olha com uma expressão indecifrável. Um minuto se passa e o trânsito não anda. Quero quebrar o silêncio, mas não consigo pensar em nenhum assunto melhor. Retomo.

Sou seu amigo. Você deveria arranjar alguém melhor que ela.

Não tem ninguém melhor.

Você acha, cara. A Suzana é filha da puta demais.

Como você sabe que ela me trai? Você tem provas?

Olha ali.

Aponto, pela janela do lado dele, um casal sentado em uma mesa na varanda coberta de um bar. Um cara forte está beijando uma garota loira com peitos imensos. É Suzana. Túlio desvia o olhar e volta a fitar o casal no segundo seguinte. O cara aperta os peito direito da moça sem nenhum pudor e sua mão não consegue agarrar tudo. Não existe mão no mundo que consiga pegar o peito inteiro da Suzana de uma vez.

Larga ela, cara. Ela é filha da puta demais.

Não é a Suzana. É parecida.

Caralho, cara… você precisa de alguma coisa melhor na vida. Olha lá.

Ele congela o olhar no carro da frente e as luzes de freio tingem a cena de vermelho. Penso que ele quer explodir, mas nada acontece. O trânsito anda um pouco, ele não reage. Quando penso em dizer algo ele vira o rosto para mim e abre a boca, mas nenhuma palavra sai de dentro dela. Seus olhos estão molhados e seus lábios formam uma figura estranha. Meu amigo chora. Não sei o que fazer e fico olhando para ele. Na cena ao fundo vejo Suzana beijando o pescoço do cara e ele com a mão deslizando por sua coxa até o contorno da bunda. Até um semi-cego conseguiria identificar Suzana ali. Ela é o ser humano mais filho da puta que eu conheço na Terra, nesse momento. Provavelmente não terei chance de conhecer alguém pior durante minha vida. Túlio está me olhando há algum tempo e então fala.

Ela é a mulher que eu amo, cara. Amo de verdade.

Penso que o amor é uma coisa horrível e não deve acontecer para ninguém. Sinto pena. O amor é uma coisa filha da puta e cruel, faz pessoas boas se comportarem como idiotas e elimina qualquer traço de auto-respeito que um ser humano pode ter. Odeio Suzana com todas as minhas forças como se ela fosse alguém que tivesse dado um soco na cara do Túlio em um bar. Eu entraria em uma briga pelo meu amigo. Mas não é uma briga. Não há nada a fazer com mulheres assim, o mundo as ama e as protege, concluo. Mulheres como Suzana. Naquele instante, para mim o amor parece feito só de coisas ruins. Me senti com sorte por não amar ninguém.

A Suzana não gosta de você, cara.

É – ele responde, e no mesmo instante tenho certeza de que mesmo assim ele a pedirá em casamento e será um homem infeliz enquanto for possível.

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Eu vou mudar a sua vida!

A porta abre e ele vem na minha direção com o olhar voraz de uma serpente. Se esgueira pelos cantos, atravessa o corredor ladeando os batentes de porta e a moldura da janela e não para mais. Quando chega ao quarto eu já estou no chão, mole, entregue, com as meias pinicando e o cabelo sem formato. Nunca conheci um homem que me fizesse sentir dessa maneira, uma intensidade absurda, a vontade de gritar antes do primeiro beijo, a tremedeira sem controle, os arrepios que duram meses. Troquei meu medo da morte pelo medo que sinto quando ele chega. É uma sensação tão animal, tão primitiva e tão clara que nunca fui capaz de saber o que me amedronta. O medo que sinto dele já nasceu comigo, ou talvez antes de mim.

Às vezes, quando eu desperto durante a madrugada enquanto ele dorme, abro a porta do quarto e vou para fora ver o céu. Sempre que a gente transa eu fico com vontade de ver o céu, olhar as estrelas, a lua, respirar o vento frio da noite. Até hoje, com ele, tenho orgasmos em forma de galáxias e sinto como se minha alma estivesse mordendo alguém. Almas são capazes disso? A vida parece pequena perto de toda a intensidade que ele me traz. Meus poros se abrem a ponto de fazer minha pele arder e eu suo ofegante do começo ao fim, me sentindo esgotada e vazia durante horas. Ele leva embora algo de dentro mim. Algo profundo, sem nome e insubstituível. Sinto a existência se dobrando quando acaba.

Quanto tempo dura um sonho acordado? Me espanta a força física, a resistência, a determinação, não há cansaço capaz de fazê-lo parar, súplica suficiente que o detenha. Eu bebo água, olho para o relógio no criado mudo e volto, porque quando ele está aqui minha vida não pertence mais a mim. Eu não sou minha caso ele esteja por perto. Eu mudaria de nome para tê-lo todos os dias. Derrubaria minha árvore genealógica e usaria sua madeira para construir um castelo para nossos sonhos. No fim, quando ele coloca a roupa e anuncia a partida, tenho vontade de morrer. Meus antepassados se grudam a mim e me seguram nesse mundo numa tentativa de não me perder dentro dos meus próprios desejos. Na última vez ele deixou o dinheiro no mesmo cinzeiro de sempre, me beijou e, segurando meu rosto muito próximo do seu, penetrando meu olhar com seus olhos de morte, me disse que mudaria minha vida.

“Eu vou mudar a sua vida!”, ele disse. É o sonho de todas as meninas aqui da boate, mas eu tirei a sorte grande. Eu acho…

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O peito se abre de bom grado para a passagem de quem se ama

Ela encostava a testa na minha, me olhava nos olhos, enrolava os dedos nos meus e dizia “eu nunca vou te largar, eu nunca vou te largar, eu nunca vou te largar” e me beijava em seguida. Dizia três vezes porque acreditava que era assim que tinham de ser as palavras com valor e não podia ser diferente. As coisas com ela tinham esses misticismos, tudo tinha significado, toda ação, por mais simples que fosse, tinha algo mágico por trás. Ela tinha amigos assim também, mas eu não conseguia me apegar a rituais tão complexos. Eu dizia “eu te amo” uma vez só, mas de todo o coração, ela acreditava e a gente vivia feliz.

Quando viajávamos ela abria o vidro e colocava a cabeça para fora do carro para sentir os cabelos balançando sem controle. Se estava terminando o dia, naquela hora em que o pôr do sol é mais amarelo que a própria cor amarela, ela conseguia fazer as árvores dobrarem igual borracha. A gente ia passando e as árvores do canto da estrada prestavam reverência a nós, como quem diz “boa tarde e boa viagem” a um novo turista. Eu não me cansava de vê-la fazendo isso e ela não se importava de repetir quantas vezes eu pedisse. Eu trabalhava como fotógrafo e ela era dançarina em uma casa noturna. Sabe aquelas moças lindas que dançam dentro de gaiolas a noite toda? Esse era o emprego que ela tinha.

A gente andava com uma turma de mais uns oito amigos. Foi a junção de alguns dos meus com alguns dos dela, até porque não se consegue manter todas as amizades quando a vida de solteiro acaba. Eu tinha amigos moderninhos, viajados, cheios de histórias para contar, guarda-roupas abarrotados de calças skinny e camisas xadrez, enquanto ela andava com o pessoal das artes, gente alternativa ao extremo e eu não conseguia me enturmar muito bem com a maioria deles. Tinha um rapaz que voava. Ele trabalhava fazendo malabares e servindo mesas em uma das casas onde ela dançava. Tinha o cabelo branco, mesmo não tendo mais que vinte anos, servia drinks com perfeição e era capaz de subir até o topo de um prédio flutuando. Fechava as mãos com bastante força, rangia os dentes e, de repente, o corpo estava no ar. A gente aplaudia, ele sorria e caia em seguida, mas há quem diga que já viu ele pular de uma janela do oitavo andar e chegar ao chão com suavidade.

Eu e ela decidimos morar juntos depois de alguns meses namorando e a vida ficou do jeito que eu queria. O bom humor reinava, tudo era interessante, a gente se envolvia em programas exóticos, fazia festas com temas engraçados, dividia amigos, sonhos, planos e juras de amor. Uma vez ela colocou a mão no meu peito e o braço atravessou até o outro lado. No espelho era possível ver a mão dela abrindo e fechando, fazendo graça, saindo pelas minhas costas, e disse que essa era a prova de que meu amor era verdadeiro. “O peito se abre de bom grado para a passagem de quem se ama”, ela me explicou. Um dia, depois de acordar no meio da noite com uma sede atroz, percebi que ela sonhava com beijos. Sua boca fazia movimentos de quem beijava e era beijada por alguém e tive certeza de que ela me amava. Num golpe só, varei seu peito com a mão firme e senti o macio do colchão do outro lado. Ela sangrou até a morte, me olhando com os olhos arregalados como quem é pego de surpresa e pede desculpas na falta de ter uma coisa melhor pra dizer.

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Amores de festa de sábado à noite

Estava quente no quarto, era domingo, daqueles domingos que não têm absolutamente nada de especial, que o céu está azul e ensolarado, mas ninguém quer ir ao parque, nem tomar um sorvete, nem dar uma volta de bicicleta, nem nenhum clichê de domingo. Mais ou menos uma da tarde, por aí, uma cama de solteiro insuficiente para os dois, insuficiente até mesmo para um solteiro sozinho, e o calor visceral do ar, do sol e dos corpos semi-suados tentando dormir grudados naquele bafo sufocante.

Nenhum carinho, nenhum beijo de “bom dia meu amor”, nada. Não era amor, não era especial, não era nada demais. Ele passou por cima dela como se pulasse uma mureta, caminhou até o banheiro e por instinto fechou a porta à chave. O rosto no espelho, inchado, amassado, com olheiras e sem brilho. Água, muita água, água sem parar, um oceano de água doce da torneira para as mãos, das mãos para o rosto, do rosto para o espírito e do espírito para o ralo seco da pia. Escovou os dentes, olhou-se no espelho e gostou da nova cara: “bom dia!” disse, sorrindo para si e voltando para o quarto.

Ela estava acordada, com as costas oferecidas ao teto, os cabelos esparramados pelo travesseiro e vermelha. Gente de pele clara geralmente fica vermelha. Mesmo usando apenas calcinha, parecia estar tomada por um calor insolúvel e imutável. Sorriu para ele. Ele sorriu para ela e se beijaram comedidamente. Ele, com gosto de menta, ela, com gosto de guarda-chuva velho. É o mal de beijar pessoas recém acordadas. O encanto do “amanhecer ao teu lado” é aniquilado pelo cheio de podre da boca de quem bebeu, fumou, se drogou e dormiu logo em seguida. Ele tinha fumado, bebido, se drogado mais e dormido logo em seguida, mas acordou mais cedo e por isso não fedia mais. Nessas situações, dignidade é um sinônimo para gente limpa e saudável.

Ele se deitou sobre ela, com todo seu peso, com todos os seus ossos, músculos, pesos, pelos e poros. Passou a mão por baixo de seus ombros e agarrou com força os peitos dela, comprimidos contra o colchão, amassados como sua cara, como seus cabelos, como sua aparência toda. “Não, primeiro eu preciso tomar banho”, ela disse, e ele respeitou, a contra gosto, o senso de higiene mínima da moça. Balançando suas curvas suaves de mulher fora dos padrões de revista, segura e sensual, se jogou para dentro do banheiro como se fosse o seu próprio quarto. A cama de solteiro vazia e úmida, com o lençol todo amassado, vítima de uma noite de sono sem sexo, sem ações, sem emoção alguma. Drogados, bêbados e fodidos. Mortos. Deitados em uma cama, quase pelados, quase transando, quase gozando, mas só dormindo, recuperando vidas passadas em pesadelos péssimos.

Depois do banho ela saiu sem roupa. Já estava sem roupa antes, mas a ausência da calcinha dava um tom quase fraternal à cena. É estranho ver alguém pelado de cara, sem cerimônias, quando não foi você que tirou nenhuma das peças de roupa. Fica quase banal, nada sexy, nada erótico, só diário e simples. Mas ela foi na direção dele, meio seca, meio molhada, com os cabelos grudados na nuca, e durante alguns minutos se contentaram em apenas beijar o outro. Um beijo de verdade, sentindo o profundo gosto de pasta de dente, de boca quente com ar gelado, com ela acariciando os cabelos dele, com ele deslizando a mão pelos pontos molhados nas costas dela.

Daí, transaram um monte. Primeiro na cama, depois no chão, depois na sacada, depois no chuveiro de novo. Ele se cansou na segunda, ela foi quem forçou as outras duas. Homem quando não quer demora horas pra gozar e ela estava interessada nessa persistência, no martírio, naquela ardência que dá quando o sexo já passou do limite do saudável e normal, no quase sofrimento. Ela queria a câimbra, queria o suor abundante, a boca seca, a garganta arranhada dos gritos, dos urros, os dentes frios da boca ofegante e a pele toda vermelha, arranhada, estapeada, friccionada, gasta até o fim. Era já o fim da tarde, cinco, seis, sete horas. Céu escuro, fome aguda, bagunça instalada, desidratação suave. Eles deitaram mortos vivos de olho no teto sem dizerem mais nenhuma palavra. Coisa normal desses amores de festas de sábado à noite.

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Metamorfose

Se dissessem que era feliz, chorava de desgosto. Não queria, não combinava. O bom, mesmo que ruim, era estar na merda. Vivia cagada, fodida, sem vontade de porra nenhuma, mas destilando toda a elegância que a solidão e a tristeza têm. Depois escrevia coisas sobre o sentimento de vazio que se sente quando não se tem alguém, falava sobre vida e morte, futuro – ou quase isso – e lia muito. Lia como se fosse o que garantiria que sua vida ainda valeria a pena. Lia coisas antigas, muito novas, cheias de palavras desconhecidas e até em outras línguas. Lia e sofria, porque a vida nos livros sempre vai para algum lugar, nem que seja para a última página. A dela não se movia.

Tinha “Que o amor seja meu suco, meu soco e meu sulco, para que nasça e morra comigo” escrito no teto, bem sobre a cama, para se lembrar todo dia de que o motivo daquilo todo era o suco, o soco e o sulco. Amava tão desmedidamente que chegava a odiar o amor incontrolável que sentia. Tinha picos de ódio e aceitação. Por vezes passa dois dias sem comer, enrolada nas cobertas, cada vez mais quente, cada vez mais magra, cada vez mais cadáver. Fechava os olhos por muitas horas e permanecia imóvel, mas não dormia. Chorava um pouco, resmungava um pouco, sentia tristezas atrozes e continuava enrolada o mais apertado que podia. O corpo novo, cheio de energia acumulada, não conseguia dormir tanto, então vagava por pensamentos obscuros de olhos fechados, mas acordada, fosse dia ou noite.

Depois que se cansava do isolamento, virava totalmente na direção oposta e se despia de todo pano. Pegava o carro da mãe e dirigia de noite com os vidros abertos, passando um frio do caralho, usando a mesma camisola dos dois dias anteriores. Comia fast food comprada em drive-thru e pedia bebidas enormes, refrigerantes de litros sorvidos em canudinho, milkshakes que vinham em copos do tamanho de seu antebraço e ia engordando tudo que perdera em dois dias de água e sonhos. Comia doces sem controle, abria latas de leite condensado em casa e comia todo o conteúdo com o dedo. Tornava-se uma voraz devoradora de açúcares e gorduras e não tinha hora para parar.

No dia seguinte pegava o carro e comprava bebida em lojas de conveniência e se obrigava a beber sozinha. Dirigia misturando tudo, ouvindo músicas adolescentes em volumes acima do aceitável para o horário e voltava para casa mais acabada do que havia saído. Então sentia-se enojada pelo cheiro de sujo do próprio corpo e tomava banho com as luzes apagadas. Era sempre um show à parte.

Levava uma garrafa de qualquer coisa para o chuveiro, botava a música pra dentro, fechava a porta e ficava debaixo da água quente embaçando tudo que não podia ver. Bêbada até o talo, fazia danças sensuais imaginando as stripers americanas daqueles filmes B. Rebolava fazendo carões que ninguém poderia enxergar, esfregava-se na parede, alisava o próprio corpo da maneira mais vulgar possível e continuava dançando, rodando, tomando cabelada na cara sem saber de onde vinham. Esquecia por algum tempo das desilusões da vida, do amor e do mundo e lembrava-se só dos prazeres que sentira nos raros momentos bons que os homens puderam lhe proporcionar.

Como não podia manter o equilíbrio de botar uma perna para cima e segurar o corpo com a outra, sentava-se no chão e usava a escuridão e a imaginação para formar as melhores transas do mundo. Masturbava-se com violência, intervalando gemidos e goles de álcool, gozando descontrolada e quase apagando com pressão baixa. Secava o corpo como se ainda estivesse se exibindo para alguém, ignorava os cabelos molhados e voltava ao quarto como se não houvesse dia e noite, nem semanas, nem horários. Era uma brecha no tempo que ela dedicava para a auto-cura. Dormia pelada, jogada de qualquer jeito por cima das cobertas e sentia a cama girar como um espeto de churrasco fixo numa televisão de cachorro. Ela era a galinha assando ali.

Quando acordava queria morrer. Vomitava horrores, não se conformava com a intensidade das dores de cabeça, do corpo, não entendia os arranhões no peito, nas coxas e se recusava a aceitar que tinha feito aquilo sozinha sem motivo algum. Sentia-se mal, ficava deprimida, não sabia o que fazer, não ficava de pé, nem deitava, nem sentava, nem falava com ninguém. Passava algumas horas inerte, fazendo gestos aleatórios e falando palavras desconexas. Quando não aguentava mais a fome e a dor, saía, sentava na cozinha e a mãe cuidava de preparar algo com cara de comida de gente doente. Ficaria três dias nessa paz consigo mesma, usando roupas normais, indo à faculdade, tentando ter amigos e levando uma vida normal. No quarto dia se recolheria ao seu casulo novamente e a metamorfose recomeçaria do zero.

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Estaca 0,1

Ela me olhava quando eu não estava olhando. E quando me via atento ao caminho, olhando para frente, pensava em quanto me queria para si. Mas eu me virava e ela disfarçava, fingia estar olhando depois de mim, pela janela, lá fora, e eu fingia não perceber a mentira. O carro quentinho, mas a chuva e o frio batendo cartão do lado de fora e o destino era qualquer lugar. Era pretexto, só pra ficar junto, só para poder olhar para mim.

Tinha aqueles vícios de gente que não consegue aceitar que gosta de alguém, tipo ter fantasias sexuais e, quando se dá conta de com quem está fantasiando, mudar o personagem sem mudar o desejo. Me falava sobre outros caras, me pedia para dar opinião, aparecia nas festas acompanhada e eu, sempre ali, fingia que não me afetava vê-la com alguém. Talvez eu a quisesse tanto quanto ela me queria, mas de um outro jeito.

Ouvi esses dias, vendo um filme babaca na televisão, que é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo, mas que é impossível estar apaixonado por mais do que uma pessoa por vez. É assim que a gente escolhe quem vai ficar com a gente, e quem vai caçar outro coração pra habitar. Mas ela negava isso. Eu negava isso. E nesses dias em que a gente “tinha” que se ver para falar de alguma coisa, para planejar alguma coisa, a gente fingia que ninguém queria ninguém.

Às vezes ela aparecia no telefone me falando que estava sozinha, perdida, me pedindo para buscá-la em algum lugar, na casa de alguém, na festa em algum lugar. Eu sempre ia. Não porque me preocupava, mas porque era uma chance de aproveitar seu estado fragilizado e me colocar ou pouquinho mais pra dentro, só para ganhar espaço, para ser a primeira opção na alegria e na tristeza. Eu a queria tanto, mas tanto, que nem sabia disso.

Um dia não ligou, simplesmente apareceu. O porteiro deixou subir sem avisar, era quase 2h da manhã, eu estava sozinho, vendo qualquer coisa na televisão, sem vontade de ir para lugar nenhum. A campainha soou no apartamento escuro e eu dei um pulo que case me custou a vida. Fui até a porta sem ter a menor ideia de quem poderia ser, mas torcendo para encontrá-la do outro lado da porta. E quando a luz do corredor tocou meu rosto, os lábios dela tocaram os meus. E foi ficando, de vez, curtindo aquelas magias estranhas que envolvem os primeiros beijos em alguém.

Pediu para ficar, me convidou para ir para a minha própria cama, fez questão de ficar em cima de mim enquanto tirava a roupa e enquanto fazia isso ficou me olhando o tempo todo, sem desviar nem um segundo, descontando todas as vezes que me olhava sem que eu pudesse saber. Quando já não faltava quase nada para tirar, atirou-se ao meu lado na cama, olhou para mim com o canto do olho, como fazia sempre e me disse que era minha, daquela noite em diante, para fazer o que eu quisesse, “por toda a eternidade”.

De repente o frio do quarto não era mais páreo para sua presença e o calor que emanava poderia abrir fogo em todas as coisas ao redor. As luzes se apagaram como mágica e as costas dela se fizeram de cama para mim. Era uma daquelas transas que definem o destino da vida de duas pessoas dali em diante. E ela, covarde e burra, decidiu dizer que estava bêbada, que não sabia o que tinha feito, quando acordou pelada na minha cama, no dia seguinte. Estava decidida a lançar todo o progresso fora por causa de uma dúvida, ou um punhado de medos infantis.

Tem gente que prefere o jogo à vitória, e voltamos à estaca “0,1”, que é quase igual à estaca zero, com a diferença de que você já começou aquilo antes e, mesmo sem ter tido sucesso, está prestes a começar novamente.

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Um ano de coisas boas

Não é difícil encontrar gente escrevendo sobre o que é que faz da vida essa experiência tão intensa que todos nós sentimos diariamente. Tem gente que acha que a vida é feita de vontades e realizações, outros dizem que a vida é feita da satisfação em buscar e adquirir conhecimento. Outros dizem que o bom da vida é juntar dinheiro, comprar coisas, viajar o mundo, desfrutar de luxo e fartura. Sinceramente? Acho que a vida de cada um é feita de alguma coisa e essa coisa, na verdade, é tão pessoal que muitas vezes nem pode ser explicada ou partilhada.

Mesmo assim, colocando alguns extras e tirando alguns outros pontos, tem algumas sensações ou ocasiões que, na minha opinião, fazem parte da vida de todo mundo. Mas não são simplesmente parte. Trabalhar, comer, pagar contas e dormir são coisas que fazem parte da vida de todo mundo, mesmo assim, não são essas situações que constroem o valor da vida. Acho que determinados acontecimentos, simples ações banais que carregam em si uma enorme carga emocional e sensível, são o verdadeiro recheio desse hamburguer delícia que chamamos de “nossa vida”.

Acho que entre um pico de alegria, como ver nascer um filho, conseguir uma promoção bacana no trabalho ou ganhar na loteria, e um pico de tristeza, como a morte de alguém especial, a perda do emprego dos sonhos ou um período financeiro delicado, o que compõe a vida são pequenos prazeres. Momentos de alívio e alegria, curtos, quase invisíveis, mas que dão liga aos dias e fazem a dura jornada de “estar vivo” valer a pena e, muitas vezes, parecer divertida. E quando digo pequenos prazeres e alívios, quero dizer exatamente isso, na forma mais simples que se pode dizer.

A vida é feita de pequenas alegrias, como cagar no próprio banheiro e limpar a bunda com um papel higiênico macio. A vida é feita de momentos em que você enfia a mão nos bolos e encontra uma nota de R$20, que não é uma fortuna, mas que já muda o destino do almoço. A vida é feita de encontrar amigos na rua, sem querer e ter tempo suficiente para falar um pouco, dar abraços e marcar de se ver no fim de semana. A vida é feita de vezes que você diz “vamos marcar de se ver” e isso realmente acontece. A vida é feita de ter sensibilidade e calma para acompanhar o descer do sol alaranjado dessa época de frio, seja no meio do mar, no meio do mato ou no meio dos prédios.

São coisas simples, cotidianas, que a gente adora, mas não se dá conta disso racionalmente. A vida é, acima de tudo, estar bem consigo mesmo e ter tempo para perceber-se em paz. Dormir na sexta-feira sabendo que sábado não é preciso acordar com nenhum despertador. É ir viajar sabendo que tem dinheiro para despesas extras, que dá para ficar uns dois dias a mais se der vontade e saber que a meteorologia está jogando a favor dos seus planos. A vida é assistir os programas de fofoca e culinária na TV aberta, de tarde, e realmente aprender alguma coisa que você possa cozinhar e adquirir alguma informação útil que possa lhe render algumas risadas na mesa do bar com seus amigos. Ah, sim! A vida é a mesa do bar com os seus amigos, mesmo que você não esteja mais bebendo.

Para mim, além de todos esses detalhes bonitinhos e agradáveis que compõem a vida, uma coisa é fundamental: ter alguém. E nesse momento estou falando de mim, Daniel Ferreira Braz, o autor. Estou cercado, atolado, soterrado de amigos, até a tampa, que gostam de cair na bagunça, de ter mil mulheres, ou de ter mil noites solitárias achando que amanhã conseguirão uma mulher. Eu tenho meus momentos, mas no geral sou do tipo de homem que precisa de uma mulher só, mas muito presente, segura de si, que bate o pé, afirma o ponto de vista que tem e não se abate pela minha pouca sanidade e pela minha quase nula constância de pensamento. Sou do tipo de cara que gosta mesmo de comprar presentes fora de época, que elogia a roupa, que comenta da unha, que quer abrir a garrafa de água ou a tampa da maionese, ignorando qualquer conceito feminista, positivo ou negativo, que algumas pessoas possam ver em atos assim.

Hoje, dia 6 de junho de 2013, faz um ano que eu tenho alguém pra contar minhas ideias malucas. A vida é feita disso também, ao menos a minha. Ter pra quem dizer dos planos que eu fiz, dos sonhos que eu tenho, das vontades que me dão e dos desejos que eu quero dividir. A vida, essa a dois, juntinho, para mim, é ir ao cinema na hora do almoço e escolher qualquer coisa, só pelo prazer de ter uma surpresa, seja ela boa ou ruim. A vida com ela é saber que, se tiver frio, a gente tem um ao outro pra se esquentar, ver um filme, comer alguma coisa com muita gordura trans e açúcar, ficar junto, dormir, acordar, comer mais e ver o dia passar. Se tiver calor, temos companhia para ir à piscina, à praia, ao parque. Se estiver nublado temos um ao outro para caçar o que fazer, jogar baralho, chamar amigos, tornar o dia mais bonito. A minha vida é feita de dizer que estou dolorido da academia e ganhar massagem, é feita de dez minutos de indecisão e ideias repetidas quando alguém pergunta “onde vamos comer?”, é a certeza de que se for pra ir até a casa do caralho, a única coisa que ela vai dizer é que precisa passar no posto para abastecer. São coisas simples, mas importantes, que preencheram esses doze meses que passaram desde que eu a conheci.

Continuo apreciando a mesa do bar com os meus amigos. Continuo achando sublime cagar no meu próprio banheiro e limpar a bunda com um papel de folhas triplas. Continuo sabendo olhar o pôr-do-sol, nem que seja de dentro da janela do meu quarto. Continuo gostando de ver televisão sozinho, também adoro achar dinheiro em bolsos de roupas, também gosto de tudo que todo mundo gosta. A diferença é que eu sei que a minha vida também foi recheada de um monte de momentos de pequenos prazeres e alívios, só que vividos a dois, e isso não tem preço. Por isso, se eu puder te dar uma dica com tudo isso, é apenas o seguinte: saiba reconhecer quando uma pessoa realmente especial aparece na sua vida. Às vezes é o recheio mais sensacional que o seu hamburguer pode ter e você, desatento, acaba repetindo o velho x-burguer mirrado e frio de todo dia.

Obrigado por tudo Juh. Você é o melhor recheio que a minha vida poderia ter tido nesses doze meses. Eu amo você!

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Visita

Era noite, passava das onze, e alguém bateu palmas no portão. Imaginei ser alguém pedindo fora de hora, ou algum dono de um carro pouco competente pedindo um “empurrãozinho” e, por isso, levando em consideração a hora e o frio, ignorei. Mas depois de outras palmas ela gritou meu nome, e meu coração pulou pra fora da boca agitado, como um cachorro vira-latas hiperativo, foi pulando pela casa manchando tudo, parou na ponta e ficou balançando o átrio direito e batendo para mim. Tive que abrir.

“O portão está aberto”, e ela veio, caminhando encolhida, na minha direção. Abri caminho na porta e ela entrou direto, foi até o sofá, sentou-se e me olhou fixamente. Fechei a porta, sentei no outro sofá, do lado, fiquei olhando para o chão e um silêncio ensurdecedor tomou conta do ambiente por alguns minutos. Depois ela espirrou, eu disse “saúde” e junto com o “obrigada”, vieram uma porção de outras palavras, uma encavalada na outra, de uma vez. “Obrigadadesculpaaparecertãotardemaseuprecisavatefalarumascoisas” e depois respirou.

Fiz cara de quem estava prestando atenção e ela começou a dizer, em lista, uma porção de motivos pelos quais ela era mais mulher que as outras mulheres. Dias antes ela tinha aparecido com uma lista semelhante, mas era sobre o quanto ela gostava mais de mim do que as outras. Dessa vez a lista tinha um apelo sexual bem definido, explícito, e beirava a baixaria gratuita. “Porque eu chupo até o fim”, “porque eu gosto de fazer anal”, “porque eu mando bem por cima ou por baixo” eram alguns dos itens da listinha gente fina que ela montou.

Eu estava bem constrangido e assustado no final, mas ainda assim tentei parecer calmo e falar naturalmente. Depois de falar mais algumas coisas sobre não entender a minha posição, não sacar o que é que eu estava esperando, silenciou, me dando espaço para falar. “O que é que você quer?”, perguntei tentando ser o mais gentil possível, com uma voz baixa, calma e lenta. “Quero ser sua mulher!” ela respondeu, firme e rapidamente, quase como uma competição de perguntas e respostas. Expliquei que não era assim que as coisas funcionavam, que não é aparecendo na casa de alguém tarde da noite numa quarta-feira que se conquista um coração.

Ela pediu desculpas pelo horário, mas reafirmou que poderia me fazer o homem mais feliz do mundo. A gente não tinha ficado, nem se beijado, nem se tocado muito. Nosso contato mais íntimo tinha sido um abraço de despedida depois de um encontro com amigos. Mas ela achava que eu não tinha coragem de assumir um suposto amor escondido, só pelo fato de ela ser ex-namorada de um ex-colega de trabalho. “Você diz que não, mas eu sei que você escreve seus textos para mim”, disparou, no meio do silêncio, como o estouro de uma bomba. “Os textos sobre sexo, os que descrevem mulheres gozando, suando, gemendo e arranhando a suas costas, são todos para mim. A mulher que te chupa nos textos sou eu, que dá pra você nas orgias que você escreve sou eu, eu sei que sou eu, você escreve para mim o que não tem coragem de realizar”, e dito isso, levantou-se e começou a tirar a roupa, sem aviso prévio.

Estava vestida com um casaco de frio, bota, um vestido abaixo dos joelhos, uma meia calça e um cachecol. Antes que eu pudesse dizer algo o casaco e o vestido já tinham ido para a casa do caralho em algum lugar da sala e eu, diante de tamanha loucura, fiquei petrificado. Agora era ela de botas, meia calça preta escondendo uma calcinha preta discreta por baixo e um sutiã de uma cor próxima do roxo, mas que eu não consigo descrever muito bem. Desabotoou o sutiã e reparei inevitavelmente na firmeza e consistência do par de peitos que se apresentavam para mim. Não eram muito grandes, mas miraculosamente desafiavam as leis da gravidade apontando para o horizonte sem darem sinais de cansaço.

Quando ela ameaçou vir na minha direção para montar sobre o meu colo levantei rapidamente. Caminhei para trás amedrontado pensando em como fugir daquilo, enquanto ela falava sacanagens, invocava algum ser feroz e violento dentro de mim para comê-la “todinha, de todos os jeitos possíveis” e eu só pensava em como parar aquilo. Dei as costas e fui para a cozinha. Acendi a luz, apanhei uma leiteira bem grande e comecei a encher de água da torneira. Um chá, talvez, acalmasse aquela descontrolada. O reflexo dela atrás de mim, completamente nua, apareceu no vidro do vitrô por sobre a pia e meu reflexo imediato foi apanhar a leiteira e jogar a água sobre ela.

Foi uma cena um pouco ridícula, aquele aguaceiro batendo direto no peito dela, fazendo um som engraçado e depois se esparramando pelo chão. Ela deu um grito, depois achou que eu estava provocando e veio para cima de mim. Grudou a boca na minha enquanto puxava minhas mãos em direção à sua cintura e sua bunda. No meio do desespero empurrei-a com certa violência e ela se afastou. “O que foi? Porra, você não me acha gostosa? Você não me acha bonita? Impossível, todos os caras me desejam!” e antes que pudesse retomar seu ataque eu gritei, talvez bem mais alto que o necessário. “Puta que pariu, você é burra ou o quê? Você ainda não percebeu que eu sou gay? Gay, tipo, totalmente gay, sem dúvidas, sem recaídas, sem fugir da linha. Gay mesmo, de namorar com homem e tal! Você não percebe?”

Ela se ajoelhou, chorou e ali ficou, enquanto eu, mais uma vez, não fazia a menor ideia do que fazer…

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