Arquivo da tag: cachorro

Décimo sexto andar

“Fica comigo essa noite”, foi o que ela me disse quando eu já estava de frente com o elevador. Mais de três da manhã, mistura de sono com cansaço dentro de um copo de Eno e quando tenho coragem de partir ela me pede pra ficar. Agarrada ao batente da porta do apartamento, loira tingida, sorrindo sonolenta e eu tentando me manter racional. Recitei um livro que ela disse que estava lendo: “mais difícil que ficar, era partir”, e sorri. A porta dupla de metal se abriu e entrei no cubículo espelhado com destino ao térreo. “T”, é o que dizem os elevadores que levam visitas a caminho de suas casas.

O caminho de cima a baixo começou no décimo sexto andar. Odeio a sensação de descer de andares muito altos. Fico pensando no vazio do poço do elevador, a distância fatal de onde a cabine está em relação ao chão e não consigo me livrar daquelas cenas de filme quando o elevador despenca piscando as luzes e a cena acaba com um black total. Black total é a morte, pode crer. No décimo primeiro andar o elevador parou. A porta abriu e um senhor entrou com um cachorro no colo. Era um daqueles cachorros brancos, pequenos, parecia tão velho quanto o dono. Ele me deu boa noite e pensei em comentar que talvez o melhor seria dizer “bom dia”, mas economizei palavras.

Continuamos descendo e o cachorro dormia profundamente nos braços do idoso. Parecia querer acordar, mas falhava em todas as tentativas. Paramos no sétimo, mas não havia ninguém para entrar. Talvez tivesse tomado o outro elevador antes da nossa chegada. O senhor ao meu lado sugeriu essa hipótese e levantei as sobrancelhas em concordância. No terceiro andar o elevador diminuiu a velocidade e parou de novo. A porta abriu e não havia ninguém novamente. Nos olhamos e fizemos um movimento com a boca, inclinando a cabeça para o lado e erguendo os ombros, como quem diz “vai entender, né?!” e esperamos a porta se fechar.

Só então passei a me questionar o motivo de alguém tirar o cachorro de dentro do apartamento no meio da madrugada. Pensei que passear com um cachorro a essa hora era uma opção muito pouco provável, visto que o cachorro estava sem coleira e parecia imerso em um sono profundo. Profundo até demais para um cachorro. Talvez estivesse levando ao veterinário. Podia ser que o cachorro estivesse com a doença do sono, ou realmente morrendo, como me pareceu nos primeiros instantes em que a dupla entrou no elevador. Enquanto pensava sobre isso olhando fixamente os olhos fechados do animal, percebi que estávamos parados no segundo andar com as portas abertas. Ninguém, de novo.

O elevador, como já era esperado, parou no primeiro andar. Também já era esperado que não houvesse ninguém ali, então não havia. Pensei naquelas crianças filhas da puta que apertam os botões do elevador para atrapalhar quem está dentro. Não sei que tipo de prédio permite que crianças sozinhas corram pelos andares apertando botões sem que ninguém as veja. “Sinistro”, pensei. As portas se fecharam e a cabine desceu, finalmente, para o térreo. Pouco antes de o elevador parar, o homem dentro do elevador comigo olhou para o cachorro, que agora estava mole como uma bexiga d’água, dormindo profundamente e disse “tadinho, acho que agora morreu mesmo”, e olhou para mim com ar de tristeza.

No momento em que o desespero ia começar a me preencher de ideias absurdas para frases que pudesse comentar a morte do animal, as portas se abriram e ela estava lá. No hall, um tanto ofegante, metida dentro de uma camisola fina o suficiente para marcar todos os seus contornos, principalmente os mamilos rígidos por causa do frio, estava ela, loira, tingida, sorridente e um tanto surpresa por ter um homem dentro do elevador comigo. O velho e ela se olharam e falaram ao mesmo tempo: “ele é meu amigo”, disse ela, enquanto sua voz se misturava ao “ele era meu cachorro”, do homem. Ela pareceu não entender o que ele disse. Ambos se puseram a andar, o velho para fora, em direção à rua, e ela para dentro, em direção a mim. No meio do caminho ela alisou o cão morto e disse “que lindinho seu cachorrinho”, e sorriu na face desolada do homem. Subimos e eu passei mais três noites no décimo sexto andar.

Anúncios
Etiquetado , , , ,