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Suzana

O Túlio acelera o carro e liga o rádio. Estamos um pouco bêbados depois de seis garrafas de cerveja, ele está com a camiseta suja porque babou uma boa parte de uma dose de uísque que pedimos para começar e eu estou com os olhos inertes. A gente não tem o que conversar, é de noite e está chovendo fraco. As luzes se multiplicam nas gostas espalhadas pelo vidro e ele insiste em não ligar o limpador. Odeio a sensação de não conseguir ver o caminho. Abaixo o volume de uma música qualquer que esta tocando e digo a primeira coisa que me vem.

A Suzana não gosta de mim, cara.

Quem falou?

Eu tô dizendo.

Viagem sua…

Não é. E ela não gosta de você também.

O farol fecha e ele segura o volante com a duas mãos olhando longe. Suzana é namorada do Túlio. Uma filha da puta. Loira, peituda, imbecil e filha da puta. E não gosta de mim. Nem eu dela. Não temos assunto, então o ambiente permanece aéreo. Ele conheceu Suzana numa festa do trabalho. Na época ela tinha ido buscar bebida no bar e eles cruzaram o olhar. No dia seguinte já era namoro. A Suzana veio para a nossa turma de amigos pouco tempo depois, quando ele assumiu que gostava dela de verdade. Ela chupou metade dos nossos conhecidos em menos de um mês saindo com a gente. Era deprimente. A Suzana era filha da puta demais.

A Suzana é filha da puta demais, cara.

Não fala isso.

A Suzana é filha da puta e puta demais, cara.

Ele não diz nada. O farol abre e ele sai com calma, dirigindo como se não houvesse destino algum. Aumenta o volume do rádio e está tocando a música nova dos Titãs. Uma merda. A chuva aumenta e a noite parece ainda mais escura. Eu quero fumar um cigarro, mas não dá para abrir a janela e o Túlio não fuma. Um raio acerta o topo de um prédio e, por uma fração de segundo, vemos o edifício todo se iluminar de azul. É “dia dos homens” e, por isso, estamos rodando sozinhos. Não tenho namorada. Suzana não está com Túlio porque está bebendo com umas amigas. Ele disse isso.

Cadê ela?

Disse que ia beber com umas amigas.

Tá.

Tenho certeza de que não é a verdade. Meu amigo deprimido não tem a menor ideia de onde a namorada está. Ele faz uma curva e entra em uma rua congestionada. Há bares e casas noturnas nas duas calçadas e o mundo parece melhor do lado de fora do carro. Penso que Suzana é, provavelmente, a pior coisa que já aconteceu na vida do Túlio e digo isso a ele. Não há qualquer reação. Dez minutos depois estamos completamente travados no meio da rua congestionada com pessoas se divertindo, apesar da chuva, em bares diversos.

A Suzana trai você, cara.

Quem falou?

Eu tô dizendo.

Viagem sua…

Não é. Ela trai você desde sempre.

Por que você tá falando isso?

Porque eu sei.

Ele me olha com uma expressão indecifrável. Um minuto se passa e o trânsito não anda. Quero quebrar o silêncio, mas não consigo pensar em nenhum assunto melhor. Retomo.

Sou seu amigo. Você deveria arranjar alguém melhor que ela.

Não tem ninguém melhor.

Você acha, cara. A Suzana é filha da puta demais.

Como você sabe que ela me trai? Você tem provas?

Olha ali.

Aponto, pela janela do lado dele, um casal sentado em uma mesa na varanda coberta de um bar. Um cara forte está beijando uma garota loira com peitos imensos. É Suzana. Túlio desvia o olhar e volta a fitar o casal no segundo seguinte. O cara aperta os peito direito da moça sem nenhum pudor e sua mão não consegue agarrar tudo. Não existe mão no mundo que consiga pegar o peito inteiro da Suzana de uma vez.

Larga ela, cara. Ela é filha da puta demais.

Não é a Suzana. É parecida.

Caralho, cara… você precisa de alguma coisa melhor na vida. Olha lá.

Ele congela o olhar no carro da frente e as luzes de freio tingem a cena de vermelho. Penso que ele quer explodir, mas nada acontece. O trânsito anda um pouco, ele não reage. Quando penso em dizer algo ele vira o rosto para mim e abre a boca, mas nenhuma palavra sai de dentro dela. Seus olhos estão molhados e seus lábios formam uma figura estranha. Meu amigo chora. Não sei o que fazer e fico olhando para ele. Na cena ao fundo vejo Suzana beijando o pescoço do cara e ele com a mão deslizando por sua coxa até o contorno da bunda. Até um semi-cego conseguiria identificar Suzana ali. Ela é o ser humano mais filho da puta que eu conheço na Terra, nesse momento. Provavelmente não terei chance de conhecer alguém pior durante minha vida. Túlio está me olhando há algum tempo e então fala.

Ela é a mulher que eu amo, cara. Amo de verdade.

Penso que o amor é uma coisa horrível e não deve acontecer para ninguém. Sinto pena. O amor é uma coisa filha da puta e cruel, faz pessoas boas se comportarem como idiotas e elimina qualquer traço de auto-respeito que um ser humano pode ter. Odeio Suzana com todas as minhas forças como se ela fosse alguém que tivesse dado um soco na cara do Túlio em um bar. Eu entraria em uma briga pelo meu amigo. Mas não é uma briga. Não há nada a fazer com mulheres assim, o mundo as ama e as protege, concluo. Mulheres como Suzana. Naquele instante, para mim o amor parece feito só de coisas ruins. Me senti com sorte por não amar ninguém.

A Suzana não gosta de você, cara.

É – ele responde, e no mesmo instante tenho certeza de que mesmo assim ele a pedirá em casamento e será um homem infeliz enquanto for possível.

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Pequenas Alegrias Coletivas

Tenho o costume de saber valorizar os momentos e seus significados na minha vida, mas nem sempre conto para as pessoas que estão dividindo essas cenas comigo o quão feliz eu estou por estar ali. São coisas simples, tão simples que beiram o bobo, o banal, mas são dessas coisas que são feitos os dias bons. São detalhes açucarados, coisas sem importância pra quase ninguém, mas eu guardo e estimo esses momentos como se tivessem peso de ouro. São o que eu chamo de “PAC”, Pequenas Alegrias Coletivas. Eu sou um cara meio coletivo, gosto das coisas com os outros. Valorizo meus momentos e minhas criações solitárias, mas em geral gosto de estar com alguém, ou muitas pessoas, fazendo qualquer coisa. Trabalho em equipe!

Esses momentos geralmente não são compostos por muitas pessoas. Na verdade, quase todos são compostos por apenas mais uma pessoa, mas são bons. Por exemplo, quando eu encontro o Boca no trem e a gente não fala sobre nada. Fala sobre os amigos que sumiram, os amigos que reapareceram, sobre festas, sobre coisas que fizemos. Conversas banais, mas que têm um valor inestimável, mudam o meu dia. É como quando eu encontrava a Ana no metrô. A gente conversava sobre tudo, sempre ríamos altíssimo, todo mundo ficava prestando atenção nos nossos assuntos, eram sempre histórias engraçadas, lembranças filhas da puta da vida de alguém. Eu me divertia muito falando sobre nada com ela, assim como valorizo muito minhas conversas sobre nada com o Boca.

Muita gente me diz pra mudar pra São Paulo, morar mais perto do trabalho, mas um dos grandes motivos que me fazem continuar em Santo André é justamente a necessidade de pegar trem e metrô. Pode parecer contraditório, mas eu adoro esse trajeto. E as conversas são mais um motivo para continuar gostando. Curto muito quando encontro, bem raramente, o Fernando, e a gente vai conversando sobre fotografia, sobre trabalho, sobre viagens e quando vê a estação já chegou. Ele é um grande amigo, alguém que eu gostaria de encontrar mais, mas é isso que faz dessas conversas breves e esporádicas momentos tão valiosos. Gosto quando encontro a Natália e a gente vem conversando sobre azulejo com pintura hidráulica, restaurações de igreja, coisas bonitas construídas pelo mundo e tudo que a minha curiosidade em arquitetura possa me fazer perguntar e ela, pacientemente como sempre, responder.

Mas minha alegria não se restringe só ao metrô. Gosto quando tem reunião de negócios com meus amigos. É fantástico ter como sócios seus amigos, trabalhar parece festa. E gosto quando as reuniões são na casa da Laila, com narguile, cerveja e grandes ideias. Depois pego carona com o Gui ouvindo músicas em alta velocidade com o vento frio da noite se jogando pela janela. Gosto de andar de carro falando sobre um futuro bacana que a gente está projetando para o nosso negócio e isso realmente vale muito para mim. Gosto das conversas sobre teoria da conspiração na hora do almoço aqui no trabalho. Sinto prazer e saber que a gente não sabe de nada, que o depois da vida é tão X quando o antes dela e que existem outras pessoas tão interessadas quanto eu em saber o que é que tem quando chega o outro lado de lá. Me faz feliz.

Gosto quando a Juliana vem me buscar no trabalho. Parece que só de saber que ela está chegando metade do meu cansaço já vai embora. Temos criado rituais de valor em torno de coisas que a gente gosta de fazer e isso faz com que cada vez mais sejam memoráveis os nossos programas. Mas acho que a minha grande pequena alegria é quando a gente não faz nada, simplesmente nada e fica em casa juntos só pra ficar, só pra ver se alguém tem uma ideia melhor, mas nunca tem. Não é preciso um grande script para ser feliz com ela. Transportei isso para os meus dias e hoje vivo colecionando grandes alegrias em momentos em que as outras pessoas estão simplesmente vivendo, sem nada de muito mais significativo que isso.

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Estaca 0,1

Ela me olhava quando eu não estava olhando. E quando me via atento ao caminho, olhando para frente, pensava em quanto me queria para si. Mas eu me virava e ela disfarçava, fingia estar olhando depois de mim, pela janela, lá fora, e eu fingia não perceber a mentira. O carro quentinho, mas a chuva e o frio batendo cartão do lado de fora e o destino era qualquer lugar. Era pretexto, só pra ficar junto, só para poder olhar para mim.

Tinha aqueles vícios de gente que não consegue aceitar que gosta de alguém, tipo ter fantasias sexuais e, quando se dá conta de com quem está fantasiando, mudar o personagem sem mudar o desejo. Me falava sobre outros caras, me pedia para dar opinião, aparecia nas festas acompanhada e eu, sempre ali, fingia que não me afetava vê-la com alguém. Talvez eu a quisesse tanto quanto ela me queria, mas de um outro jeito.

Ouvi esses dias, vendo um filme babaca na televisão, que é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo, mas que é impossível estar apaixonado por mais do que uma pessoa por vez. É assim que a gente escolhe quem vai ficar com a gente, e quem vai caçar outro coração pra habitar. Mas ela negava isso. Eu negava isso. E nesses dias em que a gente “tinha” que se ver para falar de alguma coisa, para planejar alguma coisa, a gente fingia que ninguém queria ninguém.

Às vezes ela aparecia no telefone me falando que estava sozinha, perdida, me pedindo para buscá-la em algum lugar, na casa de alguém, na festa em algum lugar. Eu sempre ia. Não porque me preocupava, mas porque era uma chance de aproveitar seu estado fragilizado e me colocar ou pouquinho mais pra dentro, só para ganhar espaço, para ser a primeira opção na alegria e na tristeza. Eu a queria tanto, mas tanto, que nem sabia disso.

Um dia não ligou, simplesmente apareceu. O porteiro deixou subir sem avisar, era quase 2h da manhã, eu estava sozinho, vendo qualquer coisa na televisão, sem vontade de ir para lugar nenhum. A campainha soou no apartamento escuro e eu dei um pulo que case me custou a vida. Fui até a porta sem ter a menor ideia de quem poderia ser, mas torcendo para encontrá-la do outro lado da porta. E quando a luz do corredor tocou meu rosto, os lábios dela tocaram os meus. E foi ficando, de vez, curtindo aquelas magias estranhas que envolvem os primeiros beijos em alguém.

Pediu para ficar, me convidou para ir para a minha própria cama, fez questão de ficar em cima de mim enquanto tirava a roupa e enquanto fazia isso ficou me olhando o tempo todo, sem desviar nem um segundo, descontando todas as vezes que me olhava sem que eu pudesse saber. Quando já não faltava quase nada para tirar, atirou-se ao meu lado na cama, olhou para mim com o canto do olho, como fazia sempre e me disse que era minha, daquela noite em diante, para fazer o que eu quisesse, “por toda a eternidade”.

De repente o frio do quarto não era mais páreo para sua presença e o calor que emanava poderia abrir fogo em todas as coisas ao redor. As luzes se apagaram como mágica e as costas dela se fizeram de cama para mim. Era uma daquelas transas que definem o destino da vida de duas pessoas dali em diante. E ela, covarde e burra, decidiu dizer que estava bêbada, que não sabia o que tinha feito, quando acordou pelada na minha cama, no dia seguinte. Estava decidida a lançar todo o progresso fora por causa de uma dúvida, ou um punhado de medos infantis.

Tem gente que prefere o jogo à vitória, e voltamos à estaca “0,1”, que é quase igual à estaca zero, com a diferença de que você já começou aquilo antes e, mesmo sem ter tido sucesso, está prestes a começar novamente.

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Driver – O retorno (do inferno)

– levei seis anos para voltar a escrever sobre essa personagem –

Fazia alguns anos que a gente não se via. E digo “alguns” porque não consegui contar exatamente, mas posso sugerir uns sete, oito, mais ou menos. Da última vez que eu a vi ela estava beijando uma garota negra careca no canto da parede de uma festa em um apartamento na Augusta enquanto eu tentava me livrar daquele labirinto de gente bêbada e estranha, daquela música perturbadora e daquela luz roxa incansável. Fomos parar lá depois de uma semana cheia de problemas, pra ser discreto, com a polícia, com gente pior que a polícia, com amigos de infância e com gente que não tinha rosto. Eu jurei que nunca mais a procuraria e guardei apenas a imagem daqueles cabelos loiros platinados, quase brancos, curtos além da conta, lésbicos declarados, se agarrando com aquela moça que nem cabelos tinha. Nunca mais a gente se falou.

Mas como a vida não se contenta em surpreender, ela gosta de agir, meu celular acendeu numa noite de quinta-feira, agitado, como se fosse uma mensagem mais importante que as outras. Já na cama, já descansando, já calmo, já morto, li o seguinte, sem rodeio e cerimônias: “Voltei, me encontra amanhã às onze da noite naquela lanchonete dos chineses, descendo a Augusta – Centro, onde a gente costumava ficar. Beijo na bunda, gato!” Não quis acreditar, jurei ser engano e o número desconhecido me parecia mais piada do que realidade. Digitei uma mensagem despretensiosa perguntando quem tinha sido o remetente daquilo e antes de poder voltar a relaxar a tela se iluminou novamente, parando meu coração: “DRIVER!”, assim, preto, no fundo cinza claro do telefone, brilhando no LCD flutuando na escuridão. Seis letras e um ponto de exclamação. Sete símbolos, sete vidas, um problema só. Em forma de mulher.

Não consegui dormir direito. Fiquei lembrando das aventuras que a gente viveu, amizade incontestável, das vezes incontáveis que eu pensei, com ar de conformismo, que iria morrer, e quando apagava, vinha no sonho, como cenas de cortes de trailers de filmes de ação, o som dos pneus do carro, a lataria cinza escura reluzente, a boca de um batom muito vermelho e a sensação incômoda e intimidadora do vento frio cortando a pele entrando pela janela escancarada. Era como droga a companhia daquela menina. Quer dizer, na época era uma menina, fazendo tudo errado, retorcendo o mundo à sua maneira e me carregando junto, me matando de medo e me enchendo de orgulho. Eu amava continuar vivo depois de tudo e poder olhar pro lado e vê-la sorrindo para mim, segurando o volante excitada, eufórica, feliz por ter com quem dividir o momento.

A noite passou, a sexta-feira se arrastou tensa e no horário combinado eu estava lá. A luz branca fraca deixa aquele bar com cara de açougue mal higienizado e o fato de os chineses continuarem não manjando nada de português dá um toque de submundo àquela merda. Eu sempre odiei, mas ela gostava de ir lá porque “ninguém enche o saco e não tem fila pra entrar”. Deu quase meia-noite e eu estava sozinho, já na segunda garrafa grande de Brahma, quando ela entrou. Na minha cabeça tudo parou, foi como tomar um choque e ir bater na porta do céu, ver a vida acontecendo fora do corpo e depois voltar, ressuscitado por um milagre. Agora era uma mulher maravilhosa, com peitos que não estavam lá anos atrás, com cabelo suficiente para encher um coque no alto da cabeça e a mesma boca vermelha.

Entrou sorrindo com muitos dentes e me abraçou com força, sem dizer nada, num impacto fulminante de chocar de gentes. Ficamos algum tempo enrolados, sem falar, de olhos fechados fazendo força com os braços e sentindo o corpo falar todas as palavras que a gente não disse. Foi um momento tão feliz que sinto alegria em lembrar como se ainda estivesse ali, abraçando. Depois que nos soltamos ela sorriu para mim linda, nitidamente contente em me ver, passou a mão no meu rosto sentindo a minha barba, que também não estava na minha cara quando a gente se vivia. Sim, “se vivia”, porque estar com ela era como viver outra vida, ou como estar na minha vida e na dela ao mesmo tempo. “Vamos embora daqui, a gente precisa muito conversar!” e foi me puxando pela mão, só a tempo de eu jogar uma nota de R$20 no balcão e deixar o troco pra China.

O motivo pelo qual seu apelido era Driver vinha, obviamente, de seu notável talento ao volante e, para conversar com ela, conversar de verdade, ouvir seus segredos mais profundos e suas verdades incontestáveis, era preciso estar sentado dentro do carro, aquele cinza, caro, de pneus barulhentos e gastos do meu sonho. Eu lembrava tudo. Ele ficava guardado na garagem do Maksoud Plaza, ali do lado, onde ela morava. Como é que uma garota de 24 anos fazia pra morar em um dos hotéis mais caros de São Paulo é assunto pra outro dia, mas o fato era esse: carro no hotel, a gente caminhava até lá e depois nada mais era garantido, nem a própria vida. Mas logo que começamos a andar percebi que o caminho estava diferente. Não conversamos durante um bom tempo, subindo a Augusta de mãos dadas, como se fossemos um casal, indo em direção à Paulista.

Estávamos longe do hotel, longe do carro, longe do caminho de sempre e eu sabia que não teríamos uma conversa certa até estarmos os dois setados atrás de um motor. Quando paramos na calçada esperando para atravessar a principal avenida da cidade, me remoendo em dúvidas, perguntei: “a gente não vai pro Maksoud pegar o carro?” e ela sorriu agradecida por perceber que eu lembrava dos velhos tempos, antes de me surpreender: “mudei pro Hotel Tivoli… é mais discreto”, me disse, puxando meu braço para atravessarmos a faixa. Muitos anos mudam muitas coisas, o endereço e o preço das coisas, por exemplo. Foi aí que um estalo me ocorreu. Só então percebi que era ingenuidade minha continuar pensando no carro que ela dirigia quando tinha 17 anos. Com certeza,  na garagem nos guardava outra coisa.

Entramos pela recepção e um rapaz de roupa cinza e chapéu cumprimentou-a pelo nome, que eu já havia esquecido. “Boa noite, Dona Sabrina”, e ela retribuiu. Passamos pelo saguão largo do hotel, ao fundo, no bar, um jazz ao piano embalava a noite de gente velha e endinheirada. O elevador bilíngue nos levou até o subsolo e quando a porta se abriu ela voltou a sorrir. “Duvido que você adivinha qual é o meu carro!”, disparou, confirmando minha suspeita de que o modelo antigo já tinha virado história. No estacionamento não havia muito carros, dez, para ser exato. Os com cara de família eu descartei primeiro e fui narrando meus palpites em voz alta, enquanto caminhávamos pela garagem. “Não é o nem o XC 90 nem o V60, porque você odeia Volvo. Não é a Cayenne porque você gosta de esportivos. Também não é o Range Rover, pelo mesmo motivo”, e segui narrando.

Dos outros seis carros, dois eram comuns, um Omega e um Accord, que não combinavam com a cara dela, em cores muito idosas e sem personalidade. Outros dois eram do próprio hotel, adesivados com símbolos da Haganá. No fundo, nas últimas vagas, um Mustang Cobra Jet branco e um Lancer Evo X vermelho sangue. Poderia ser qualquer um dos dois, ambos eram perfeitos para ela. “Puts, não sei, pode ser qualquer um dos dois. Qual é o seu?” e ela, com a mesma boca vermelha cheia de dentes respondeu com desdém: “eu dirijo os dois!” e eu ri, porque soava quase surreal. As luzes do Mustang se acenderam, ele era o escolhido da noite. Entramos no carro e o cheiro de couro invadiu meu olfato. O ronco do motor na partida ecoou por toda a garagem e antes de sair da vaga ela confirmou que hábitos não mudam: o rádio tinha que estar ligado.

O telefone cravado em um dispositivo no console exibia a lista de músicas da noite e eu já sabia que as eletrônicas dominavam em larga maioria. Mas quando o primeiro som surgiu, a primeira nota musical era um baixo, com um chocalho e assobios seguidos de uma guitarra tímida e um bumbo calmo. “Isso é Black Keys? Cadê os ‘psy-trance’ que você ouvia?” e ela acelerou fazendo minha cabeça bater contra o encosto do banco. “Agora eu ouço rock também, e até canto!”, e gargalhou, avançando na direção da saída. Quando os pneus tocaram o asfalto da rua ela gritou o primeiro verso da música misturando a voz ao tradicional som dos pneus queimando borracha. “I wanted loooove” e saiu a toda, ignorando os carros que vinham, o farol amarelo, as pessoas que atravessavam e o mundo ao redor.

“Tighten Up” tocando no carro, o vento gelado ressecando a pele do rosto, uma loira platinada sentada no banco do motorista e uma vida inteira pra morrer. Ela tinha voltado e eu saberia muito em breve o motivo. “Depois dessa música a gente conversa”, ela disse. E eu esperei…

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Você também morre

A juventude tem uma mania cretina de achar que é imortal. Nada do que é ruim acontece com a gente. A gente não vai escorregar subindo nessa árvore, nem vai se machucar pulando dessa pedra, nem vai ser pego dirigindo bêbado, nem vai engravidar dando umazinha sem camisinha. A gente está acima dessas coisas todas, só que não.

Conheci gente que teve certeza de que não ia morrer, mas errou. Tem jovem que morre feio, de jeitos piores do que morreriam normalmente, só por se sentirem invencíveis. Carro é uma beleza. Tenho um ou dois amigos que me fazem ter noção do que é o verdadeiro “medo da morte” só de me darem uma carona do centro até em casa. Os caras não têm limites!

Tenho uma amiga que me disse uma vez o seguinte: “não sou controlada e forte o suficiente para não transar com o cara só porque não tem camisinha. Se eu já estou lá, sem roupa, pirando e o cara diz que não tem, desculpa, mas vai ter que me comer mesmo assim”, e eu, sentado do outro lado da mesa ouvindo isso, devia estar fazendo a maior cara de indignação do mundo. Mas ela não, porque ela não pega nenhuma doença, nem mesmo uma coceirinha de leve, que dirá engravidar.

A juventude tem uma mania estranha de negar que tem medo. Quem tem medo, tem, mas mesmo assim, vai e faz. É como se o fato de se cagar todo só de pensar em uma coisa não fosse motivo suficiente para ficar longe dela. A gente GOSTA de correr riscos e não precisa nem fingir. O futuro é que mostra que está tudo errado, mas como a vida é agora, como o importante é o momento presente, essa coisa de futuro não surte efeito algum.

Tem gente que bebe até cair, só para acordar no outro dia e pensar: “acho que eu exagerei”, e voltar a tudo na noite seguinte. Tem gente que arruma briga como se o mundo fosse feito só de gente que bate de mão fechada, que luta mano a mano e que tem honra de aceitar derrota. A gente bate nos outros sem lembrar que qualquer dúzia de notinhas compram um revólver sem registro. A gente se esquece que tem gente que nasceu pra matar e mata pra ser feliz. A gente se esquece de tudo quando é jovem.

Tem essa mania idiota de achar que não vai morrer, mas vai. Eu tenho sorte de nunca ter perdido gente muito próxima, amigos que não poderiam ser substituídos, mas sei que vou perder. Sei disso porque às vezes, bem de vez enquando, eu também lembro que não sou imortal, que também posso ser pego, que também sangro, que também posso me foder, mas é raro. É tão raro que até o dia que algo acontecer comigo, vou continuar acreditando que sou imortal, assim como você.

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Chuva, pó e a metáfora da vida

Três milhões e meio de gotas de chuva batendo contra o vidro do carro. Eu ouvia todas elas, sem perder nenhuma, como se fossem tambores inaudíveis aos ouvidos comuns, ou simplesmente batidas de um coração que não tem corpo. Era escuro o universo dentro do carro, das vistas que passavam pelas janelas molhadas pelos muitos pingos vindos do céu. Era noite, tinha calma e euforia e, de repente, tudo pareceu perfeito até mesmo para uma mentira bem contada. Estava bom demais pra ser verdade, mas ninguém precisou me beliscar: eu não duvidava da realidade daquilo tudo.

Uma mão gelada e outra quente, como se fosse obrigatório viver contradições do que é bom e ruim o tempo todo. Do lado de fora as ruas encharcadas, pessoas mal humoradas, vidas ruins, memórias vazias e uma porção de fumantes tristes aninhados sob toldos, guarda-chuvas e soleiras tentando alimentar seus vícios. Deprimente a noite fria com chuva em uma cidade grande. Dentro do carro só alegria, risadas sinceras, olhares cúmplices e uma porção de mini revoluções psicológicas acontecendo. É engraçado como às vezes, sem nem perceber, a gente perde uns medos bestas que não sabe nem de onde vieram, né?

As gotinhas grudadas no vidro, o tempo cristalizado do outro lado do mundo e eu, quase sempre calado, conversava comigo mesmo aos berros mentais, tentando entender o que estava acontecendo. Era o milagre da calma física, quando a gente não quer nem falar, nem ver, nem ouvir, nem entender: só se sente o que é de se sentir. E se não for de sentir a gente inventa! Inventa sentimentos, inventa impressões, inventa um universo inteiro só para que a nossa emoção não fique orfã de um lugar para chamar de seu. Eu quero mais é que meus sentimentos sem nome, sem forma e sem cor, fiquem em um lugar adequado, confortável e justo, pra que quando precisarem voltar, que voltem felizes, como eu os quero.

Mas entre o que é sentimento e o que é cena de filme, o meio todo é bem real e importante. Importante para mim que tenho que entender que nem tudo nessa vida é feito a moldes de fábrica ou peças de projetos pré-organizados e previsíveis. Eu quero dar de presente, se é que isso é possível, uma vida nova para os meus sentimentos. E é nessa noite, nessa escuridão pintada de amarelo, púrpura e verde, com luzes, eletricidade, raios e samba, que tudo vai mudar. No infinito particular das expressões trocadas em olhares, toques e gestos está escondido o mundo de verdade.

As gotinhas grudadas no vidro, eu grudado no banco, os pneus grudados no chão e o resto todo flutuando. Lá fora tudo era gás hélio e anti-matéria, fazendo as coisas levitarem, descolarem do chão, que também voava e depois, com o choque entre uns e outros, explodirem e virarem pó. As árvores de pó, pedras de pó, pessoas de pó, um mundo de pó para que a gente precisasse juntar, guardar numa urna e jogar na curva do rio, igual fazem com os cadáveres queimados. O cadáver do mundo antigo está se espalhando e se misturando no meio da chuva, na escuridão da noite urbana e eu, minhas mil ideias e todas as incertezas do mundo estamos de malas prontas, no banco do passageiro, seguindo dentro desse carro em qualquer direção, pra qualquer lugar, pra qualquer país.

Repetira palavras a noite inteira. Repetiria expressões a noite inteira. Repetiria repetições a noite inteira, mas na verdade eram só gotas, milhares delas, milhões aos montes, violentas e suicidas, se jogando de cabeça no vidro da frente enquanto a gente, só de bobeira, não prestava atenção em nada disso, contando uma piada ou fazendo uma graça e rindo da existência toda. A metáfora da vida é, justamente, estar vivo!

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