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Boa noite, povo!

Batendo palmas e dançando dentro de um vestido de tecido simples, estampado de flores azuis e amarelas, ela entrou na sala e roubou a atenção de todos. Havia uma luz intensa e nítida ao seu redor, como se algum spot de luz houvesse iluminado a personagem principal de uma peça que acabava de começar. Era ela a personagem. Só que não havia teatro, nem spots, nem mágica. “Em algum lugar, em uma dobra do tempo muito longe daqui, existe uma estrela com o seu nome e ela brilha em contagem regressiva até o dia em que você tomará seu lugar”. Foi o que ela me disse.

Dançava como se estivéssemos em um grande baile, uma festa animadíssima, mas a música que tocava só ela ouvia, a energia da pista de dança só era sentida por suas pernas e os pés, que deslizavam com habilidade, exibiam uma lista de passos decorados que ninguém mais sabia executar. Era uma bronca, essa dança dela! Quem mais estava na sala comigo? Sem perceber, comecei a perder a noção do entorno, como se aos poucos, conforme evoluía no dançar, ela me separasse do resto para dar um recado particular.

Em dado momento passei a me questionar se ela era uma só ou se havia alguma chance de serem duas, doze, duzentas ou número maior. Sentia a presença de muita gente na sala, todos sabendo dançar um ritmo que nunca fora apresentado a mim. As cores do vestido e a leveza do tecido desenhavam cenários surreais, como se fossem mapas de destinos que eu deveria visitar em algum momento entre esse evento inusitado e o fim dos meus dias. Que tipo de medo é o sentimento de não querer saber uma novidade que estão prestes a nos contar? Eu não sabia se queria saber, mas tinha certeza de que aquelas mulheres, aquela mulher, queria ou queriam me dizer algo.

Veio ao meu encontro, me abraçou com braços fortes, me puxou de encontro ao seu peito quente e acolhedor e entrou para dentro dos meus olhos. Eu via o que ela queria me mostrar. Mesmo que fosse de fora, me sentia um observador participante de cenas que nunca ocorreram na minha vida conhecida. Mesas enormes com comidas que nunca provei estavam tomadas de pessoas enormes e importantes vestidas de forma exuberante. Por algum motivo eu sabia que eram importantes. Líderes de alguma coisa? Sábios? Gente que ainda não tinha involuído de alguma forma? Senti uma extrema vontade de sorrir.

“Boa noite, povo!”, eu disse em saudação, sem palavras, porque nesse banquete as conversas se davam de outro jeito. Alguém sem rosto tocou minha testa e então me separei do corpo. Me vi parado olhando para a enorme mesa, a dançarina do vestido florido logo atrás de mim, em uma postura muito semelhante à minha e a cena acontecia sem minha interferência. Ouvi uma música, como um grande coral muito bem ensaiado e senti meu corpo pesar uma tonelada. Desmanchei no chão e senti minha cabeça se chocar contra algo duro e frio. Quando recobrei a consciência ainda eram 10h da manhã e tinha um dia inteiro para viver. O tampo da mesa do trabalho tinha a marca da minha testa. Eu sabia que não tinha sido um sonho e senti vontade de perguntar a mim mesmo onde eu estive. “Você deu um pulo em casa, mas já voltou”, respondi a mim mesmo.

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Hoje eu não vou voltar para casa, amor

Essa é minha última transmissão. Depois dessa, nada mais será dito, escrito ou pensado por mim. Estou acabando, findando minha participação, recitando as últimas linhas do meu monólogo e as cortinas já estão prestes a fechar. Serei novamente pó de estrela, essa matéria mágica que forma e deforma todos nós. Sei que parece clichê, mas daqui de cima tudo que eu penso em dizer é que a Terra é incrivelmente azul, mesmo com toda a poluição e a porção de decisões erradas que a gente tem tomado com as florestas. É incrivelmente azul, tão próxima, tão segura, mas eu não volto mais. Hoje eu não vou voltar para casa, amor. A seguir está todo o conjunto de coisas que eu consegui pensar em contar, mas como o ar está acabando e o frio é alucinante, pode ser que algo me escape à memória e fique perdido no espaço eternamente… assim como eu.

Número 1! Você tem bafo. Eu sei, deveria ter começado com alguma coisa mais romântica ou importante, mas você vai seguir em frente e seu novo namorado pode merecer uma namorada que não tem cheiro de repolho na boca. Vá ao médico, veja isso e seja feliz, esse cheiro não combina com a sua aparência.

Número 2! Eu nunca quis ficar com a sua amiga Ana. Eu sei que você sempre teve ciumes dela e sempre tentou me fazer ficar longe, mas a verdade é que a Ana nunca me interessou. Claro, ela me interessou como uma pessoa legal, assim como todo mundo que te paga cerveja, fala das suas bandas favoritas e te faz rir, mas foi só.

Número 3! Suas pintinhas no rosto são sexy. Não faça tratamentos, não use ácidos, não vá ao dermatologista com ar de preocupada, porque elas são perfeitas. Não acredite nas pessoas que dizem que é um problema ter pintas escuras e claras juntas. Problema, no seu caso, seria não tê-las assim exatamente como são.

Número 4! Sua mãe dá em cima de mim. Eu sei que você não vai acreditar, mas isso não me importa na atual situação. Quando você ler isso eu já vou estar vazio, mas sua mãe sempre me lançou olhares estranhos. Uma vez, naquele churrasco na casa do seu tio em Limeira, ela passou a mão na minha bunda e me chamou para subir as escadas, mas eu fugi assustado. Cuidado com ela e seus novos parceiros.

Número 5! Você é linda. Eu sei que você sabe que é bonita, não é difícil perceber isso, mas eu precisava dizer do meu jeito. Você é linda quando não tenta ser bonita. Você fica sensual e sexy quando está com os olhos pretos, a boca pintada e o cabelo arrumado, mas linda, daquele jeito simples e perfeito, você só fica quando está normal. Tente permanecer comum e você será bonita para sempre.

Número 6! Acredite no seu trabalho e invista nele. Pode parecer papo de fã só porque sou seu namorado, ou era, mas você precisa saber que é muito boa. Às vezes nem todo mundo vai acreditar em nós, nem todos vão nos dizer que estamos no caminho certo, mas temos de fazer o que nos dá a sensação de trabalho bem feito. Você é boa e isso basta. Eu não gastaria meus últimos momentos de vida dizendo isso se não fosse verdade.

Número 7! A Vanessa, aquela sua amiga, não é boa gente. Não sei como dizer em palavras o que eu sinto, mas tenho certeza de que você não vai perder muito se afastando dela. Eu sei que ela é sua melhor amiga, que você provavelmente vai correr para ela e chorar dias e dias quando souber do que me aconteceu, mas ela não é boa. Quando ela passa a energia das coisas acaba, o cachorro fica triste, as flores ficam meio velhas e eu me sinto mal. Sentia mal.

Número 8! Eu te amei todos os dias, mas meu amor sempre foi mais forte enquanto você estava longe. Nem sempre eu percebi o quanto minha vida dependia da sua, mas toda vez que você sumia ou a gente ficava afastado parecia muito óbvio que você era a mulher da minha vida. Vou morrer sabendo que você é a mulher da minha vida e tenho sorte por isso. Pouca gente tem certeza de que encontrou o verdadeiro amor.

Número 9! Um segredo: quando se está perto da morte é possível ver um pouquinho do lado de lá. Quando é claro e garantido que a morte é inevitável a gente vê, como se fosse uma imagem borrada num filme antigo, o que vem pela frente. Por isso não fique preocupada com o futuro. Faça as coisas agora e esqueça o resto, não vai adiantar nada. Meu próximo turno, ou o lugar para onde eu vou, não tem nada a ver com o que eu achei que aconteceria com a minha vida. Pensar no futuro é perda de tempo.

Número 10! Pra ser clichê vou acabar aqui. Não tinha nada para escrever depois do nono item, então só queria dizer que, nesse momento, tenho mais dois minutos de ar e vou gastá-los cantando aquela música que você gosta e olhando a sua foto. Seu rosto vai ficar indelével, assim como a minha maneira desafinada e infantil de cantar “Eu preciso dizer que te amo”. O espaço vai guardar a gente pra sempre. Te amo.

“Quando a gente conversa, contando casos, besteiras…”

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A casa

Eu queria um sofá de três lugares com assentos largos e encostos macios e confortáveis, com aquela coisa de puxar para frente e poder esticar as pernas. Queria uma mesa amarela para ficar colada na parede da copa, pelo lado da sala, para colocar um vaso de flores ou uma besteirinha qualquer para alegrar a cena. Quero decorar a casa com cenas. Na parede oposta à cozinha gostaria de ter muitos quadros, de tamanhos, molduras e temas diferentes. Arte, essa droga tão perfumada que eu sempre respirei, vai ter lugar na casa. Talvez uma mini estante para lembranças, coisas importantes de serem lembradas, fotos nossas, fotos de todos nós e de nós dois. Não sei nada sobre a televisão, sobre a estante, sobre o rack ou qualquer coisa que simule móveis assim. Estou preocupado com outras coisas. Cadeiras confortáveis, uma luminária no canto para fazer o cômodo ficar aconchegante em dias de luz apagada. Coisas assim. Cenas assim.

Quero poder cozinhar as receitas que aprendi de outras vidas, sentir cheiros de pratos que eu nunca executei e partir em busca de habilidades ainda inexploradas. Vou deixar o violão pendurado ali por perto da sala, para o caso de ter uma ideia de música enquanto tô esperando o bolo crescer, ou acompanhando o cozimento dos legumes. Quem sabe eu não escrevo um livro novo sentado de frente para a varanda, vendo o sol abaixar no fim do sábado enquanto ainda não é hora de sair pra encontrar os amigos, ou enquanto eles ainda não chegaram. E quero beber e fazer brindes, fazer planos e fazer festas, fazer graça e fazer juras de amor. Quero rir, beber, comer, dormir e acordar rindo de novo. Quero coisas simples, sem formalidades, sem protocolos, sem cenas armadas, sem obrigações, só a verdade. Uma casa de verdade, com pessoas de verdade, sentimentos e emoções de verdade.

Quero um cômodo para iluminar com luzinhas pisca-pisca mesmo quando não for Natal. Quero colocar meu narguilé no centro e sentar em roda com meus amigos para falar de nada, fazer nuvens de fumaça e planos pro futuro. Quero poder ver no teto um universo inteiro nas minhas tarde de devaneios, quando não me dá vontade de falar. Quero jogar baralho, fazer barulho, dar um mergulho e dormir em paz. Uma casa é um lar ou um lar é uma casa? E quem trazemos para nossa casa é nossa família ou família é quem já estava dentro? Quem se importa? Quero dormir passando frio e acordar morrendo de calor. Quero desejar bom dia com bafo de noite longa e cara de pugilista em sexto round. Quero fazer café da manhã e derramar tudo a caminho do quarto. Quero fazer café da manhã e conseguir chegar até o quarto. Quero sentir o cheiro que nossas coisas têm quando estão juntas. Quero acender minhas velas para os orixás e fazer minhas mandingas pra quando as coisas balançarem demais. Quero ser eu nesse espaço de nós dois.

E quando chegar sexta-feira, quero que seja pela porta da sala que os melhores amigos estejam entrando. Que fumem na sacada. Que peguem a cerveja na geladeira. Que troquem de canal furiosamente e indecisos. Que soltem gargalhadas descontroladas. Que briguem pelo resultado da partida de buraco. Que assistam ao jogo enquanto nós ficamos entediados. Que estejam ao redor. Se existe uma função dos amigos, acima de qualquer outra que possa existir, é a de nos proteger. São eles que fazem com que a vida se estique um pouco mais e é por isso que nossa casa será deles também. No fim, quando todo mundo for embora, quero deitar e sentir minha companhia de todo dia ao meu lado e sorrir para a grande sorte que a vida me deu. É uma grande sorte ter um lugar para chamar de meu lugar. É uma sorte maior ainda poder chamá-lo de nosso.

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Você marcava minha vida!

A pasta de dente aberta no armário do banheiro; a escova enfiada no copo com as cerdas para baixo; o chão todo molhado fora do tapete, a tampa da privada abaixada; o chuveiro pingando com o registro mal fechado; uma calcinha encharcada pendurada nele; a toalha embolada sobre o trilho do box; uns bolos de cabelo enrolados na tampa do ralo; a porta entreaberta; e o cheio de creme hidratante. O quarto revirado; umas roupas jogadas no pé da cama; o carpete com marcas de pés molhados; a toalha molhada umedecendo o lençol; um sutiã pendurado no puxador da porta do armário; cheiro de desodorante de bambu; perfume de gente que viajou pra fora; meias de algodão encardidas na sola e um cinto de estrelas prateadas de metal. Você marcava minha casa inteira.

Uns fios de cabelo compridos presos no braço do sofá e nas almofadas; o controle da TV jogado no chão com as teclas para baixo e a tampa do compartimento de pilhas sumida sabe-sela onde; a tela mostrando algum programa idiota com o volume no mudo; a janela aberta com as cortinas balançando; umas folhas de árvore vindo de lá de fora; a cadeira fora do alcance da mesa; uns livros jogados pelo chão; uma revista de mulher pelada virando páginas descontrolada ao vento e um bolinho de papéis de bala 7 Belo no pé da poltrona. Uma bolsa vomitando coisinhas de mulher e cosméticos no corredor; uma calcinha preta mínima jogada no chão; um pé de chinelo na porta da cozinha e uma mancha de esmalte azul no carpete. Você marcava minha casa inteira.

A pia cheia de louça até a tampa; pratos sujos de chocolate derretido; copos de requeijão com cheiro de champanhe; garrafas e mais garrafas de bebidas sobre a bancada; suco de laranja esparramado pelo chão, cascas de frutas entupindo a tampa do lixo; a janela aberta, escancarada pra caralho; a geladeira zoneada; coisas abertas e apodrecendo no compartimento dos frios; farelo de bolacha e pão francês sobre a borda da pia e um pote de margarina cheio jogado dentro do saco de lixo reciclável. Uma garrafa de amaciante aberta derramando no tanque; a máquina de lavar com a tampa para cima; meia dúzia de roupas emboladas e sujas no fundo; o varal todo arrebentado; a escada de alumínio e a caixa de ferramentas jogadas no chão e um martelo jogado sobre a tábua de passar roupa. Você marcava minha casa inteira.

Mas o que ficou mesmo gravado, para mim, foi o dia que abri a porta do apartamento e encontrei você jogada no chão, toda vomitada no hall, na frente da porta do elevador, vestindo pantufas, calça de couro, jaqueta e sutiã. Seu cabelo fedia a leite azedo, suas mãos todas sujas de terra ou carvão, não sei, e seu rosto sujo de alguma coisa marrom difícil de definir. Eu lembro de ficar alguns segundos petrificado, te olhando, mas quando percebi que seu peito se mexia no ritmo de uma respiração percebi que não tinha sido dessa vez. Passei a chave na porta, pulei seu corpo largado e entrei no elevador pra ir trabalhar. A vida segue, você sabe, e tava foda arrumar a bagunça que você fazia. Mas as suas calcinhas eu guardei.

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Pequenas Alegrias Coletivas

Tenho o costume de saber valorizar os momentos e seus significados na minha vida, mas nem sempre conto para as pessoas que estão dividindo essas cenas comigo o quão feliz eu estou por estar ali. São coisas simples, tão simples que beiram o bobo, o banal, mas são dessas coisas que são feitos os dias bons. São detalhes açucarados, coisas sem importância pra quase ninguém, mas eu guardo e estimo esses momentos como se tivessem peso de ouro. São o que eu chamo de “PAC”, Pequenas Alegrias Coletivas. Eu sou um cara meio coletivo, gosto das coisas com os outros. Valorizo meus momentos e minhas criações solitárias, mas em geral gosto de estar com alguém, ou muitas pessoas, fazendo qualquer coisa. Trabalho em equipe!

Esses momentos geralmente não são compostos por muitas pessoas. Na verdade, quase todos são compostos por apenas mais uma pessoa, mas são bons. Por exemplo, quando eu encontro o Boca no trem e a gente não fala sobre nada. Fala sobre os amigos que sumiram, os amigos que reapareceram, sobre festas, sobre coisas que fizemos. Conversas banais, mas que têm um valor inestimável, mudam o meu dia. É como quando eu encontrava a Ana no metrô. A gente conversava sobre tudo, sempre ríamos altíssimo, todo mundo ficava prestando atenção nos nossos assuntos, eram sempre histórias engraçadas, lembranças filhas da puta da vida de alguém. Eu me divertia muito falando sobre nada com ela, assim como valorizo muito minhas conversas sobre nada com o Boca.

Muita gente me diz pra mudar pra São Paulo, morar mais perto do trabalho, mas um dos grandes motivos que me fazem continuar em Santo André é justamente a necessidade de pegar trem e metrô. Pode parecer contraditório, mas eu adoro esse trajeto. E as conversas são mais um motivo para continuar gostando. Curto muito quando encontro, bem raramente, o Fernando, e a gente vai conversando sobre fotografia, sobre trabalho, sobre viagens e quando vê a estação já chegou. Ele é um grande amigo, alguém que eu gostaria de encontrar mais, mas é isso que faz dessas conversas breves e esporádicas momentos tão valiosos. Gosto quando encontro a Natália e a gente vem conversando sobre azulejo com pintura hidráulica, restaurações de igreja, coisas bonitas construídas pelo mundo e tudo que a minha curiosidade em arquitetura possa me fazer perguntar e ela, pacientemente como sempre, responder.

Mas minha alegria não se restringe só ao metrô. Gosto quando tem reunião de negócios com meus amigos. É fantástico ter como sócios seus amigos, trabalhar parece festa. E gosto quando as reuniões são na casa da Laila, com narguile, cerveja e grandes ideias. Depois pego carona com o Gui ouvindo músicas em alta velocidade com o vento frio da noite se jogando pela janela. Gosto de andar de carro falando sobre um futuro bacana que a gente está projetando para o nosso negócio e isso realmente vale muito para mim. Gosto das conversas sobre teoria da conspiração na hora do almoço aqui no trabalho. Sinto prazer e saber que a gente não sabe de nada, que o depois da vida é tão X quando o antes dela e que existem outras pessoas tão interessadas quanto eu em saber o que é que tem quando chega o outro lado de lá. Me faz feliz.

Gosto quando a Juliana vem me buscar no trabalho. Parece que só de saber que ela está chegando metade do meu cansaço já vai embora. Temos criado rituais de valor em torno de coisas que a gente gosta de fazer e isso faz com que cada vez mais sejam memoráveis os nossos programas. Mas acho que a minha grande pequena alegria é quando a gente não faz nada, simplesmente nada e fica em casa juntos só pra ficar, só pra ver se alguém tem uma ideia melhor, mas nunca tem. Não é preciso um grande script para ser feliz com ela. Transportei isso para os meus dias e hoje vivo colecionando grandes alegrias em momentos em que as outras pessoas estão simplesmente vivendo, sem nada de muito mais significativo que isso.

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A festa

Da rua já dava para ver a sala toda acesa, com as cortinas amareladas na luz da lâmpada quente e umas sombras zanzando, um pessoal segurando coisas e tudo mais. Festa em casa. Abri o portãozinho da rua, daqueles baixinhos que só servem de enfeite, porque qualquer criança de menos de 1 ano de idade já seria capaz de abrir ou pular por cima sem muita dificuldade. Abri a porta e a primeira coisa que vi foi o panetone de 5 kg na mesa da sala, com uma vela de macumba fincada bem no meio, quase como uma estaca, e um senhorzinho de uns 250 anos sentado logo atrás daquele conjunto bizarro, esperando momento de acenderem o pavio.

Todos me olharam com uma cara estranha, como se eu tivesse chegado bem no meio de alguma coisa muito importante, mas logo voltaram a se concentrar na mesa de docinhos, quitutes e o puta panetone gigante no centro. A vela era vermelha da metade para baixo, preta da metade para cima e eu, por pura falta de vocabulário, paciência e conhecimento, repeti para mim mesmo, mentalmente: “isso é uma vela de macumba enfiada num panetone de Itu”, e saí da sala. Não fazia a menor ideia de quem era aquele senhor muito muito muito velho, mas meu avô não era, esse já morreu.

Cheguei na cozinha e tive aquela estranha sensação de estar sendo confundido com alguém, ou de ser reconhecido por alguém que te “carregou no colo” e agora não pode acreditar que você já tem pelos na cara, debaixo do braço, no saco, e ganha dinheiro trabalhando em algum lugar honesto. Uma mulher de cabelos pretos cacheados, tipo permanente dos anos 80, bem gordinha, daquelas que, segundo o médico, deveriam pesar 50 kg, mas estão beirando os 90 kg, me abraçou bem forte. Tinha aqueles braços de moças polenteiras, que ficam com os bíceps parecendo rochas e os tríceps parecendo uma rede de descanso pendurada em pilastras próximas demais.

Reencontrar parentes que você não lembrava ou não sabia que tinha é sempre um momento esquisito. Era sexta-feira, eu tinha acabado de chegar do trabalho e, de repente, estava rolando um aniversário suspeito com um monte de parentes desconhecidos e eu pude fazer toda essa análise do cenário enquanto era apertado pela moça gordinha. Na boa, cadê a minha mãe nessa porra? A gorda disse que eu cresci, disse que eu estava bonito, disse que não me via há muito tempo e depois chamou o marido, que me deu um aperto de mão mais forte do que o necessário, balançou meu braço mais forte do que o necessário e me disse que tinha me carregado no colo, mas que eu não ia lembrar. O casal, ela muito gorda, ele quase um palito de tão magro, estavam nitidamente alcoolizados e as outras pessoas na cozinha me olhavam com certo ar de vergonha e constrangimento.

Eu estava varado. Entrei no trabalho às 14h da quinta-feira e saí às 19h da sexta. Não estava raciocinando bem, não entendia o evento e nem conhecia as pessoas. De repente percebi que no rádio tocava o CD novo do Lulu Santos, só com versões do Roberto e do Erasmo e, por um segundo, senti uma nostalgia mórbida entrar por dentro do meu nariz. A casa tinha cheiro de leite de rosas. Subi as escadas e ao tentar entrar no meu quarto a porta estava trancada. Bati grosseiramente com a lateral do punho fechada e ouvi duas vozes femininas dizendo que já estavam quase prontas. Ótimo, minha mãe deve ter dado meu quarto pra alguém se fantasiar de gente bonita. O quarto dela também estava trancado, mas eu não precisei ser muito inteligente ou bater na porta para sacar o que estava rolando. Sexo!

Eu conhecia o som das molas da cama da minha mãe, já tinha transado naquela cama inúmeras vezes durante as viagens dela e, definitivamente, alguém estava mandando ver. Torci para não ser ela, mas a voz era realmente diferente. O cara dizia coisas como “quem é o pai? Fala pra mim quem é o pai aqui?” e a mulher respondia com a voz falhada e muito aguda, “é vocêêêêêêêíííííííííííííííí” como uma chaleira com a água já fervida. Vish. Saí dali sem questionar muita coisa. Quando desci as escadas todo mundo estava cantando parabéns. Mas era uma versão gringa. Não sabia se estava ouvindo direito, mas parecia alguma coisa europeia, um parabéns em russo, ou polonês, ou húngaro, mas no ritmo do parabéns brasileiro. Estava realmente complicado para mim.

O vovô agora usava óculos de sol e batia palmas e eu previa que a mão dele cairia a qualquer momento, mas não aconteceu. Quando ele finalmente soprou a vela, ao invés de a chama apagar, fez-se uma labareda colossal dentro da sala, como aquelas dos malabaristas de fogo, que foi ovacionada com muitos assovios, palmas e gritos, seguidos de um coral que batia palmas ritmadas gritando “dra-gão, dra-gão, dra-gão” e eu já não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Cadê minha mãe nessa porra? Fui procurá-la no quintal do fundo e tinha uma galera um pouco mais velha que eu tomando cerveja e comendo frango, um frango assado, estranhamente equilibrado num prato sobre uma baqueta de madeira muito bamba. Eles comiam com a mão e o tempo todos as garrafas pareciam escorregar. Um rapaz com fiapos de frango preso na barba me perguntou, ainda de boca cheia: “quer frango, brother?” e eu apenas saí.

Atravessei a cozinha onde o casal gordinho bebia shots de álcool Zulu 46% num copo de requeijão, passei pela sala onde agora todos dançavam em casais as músicas românticas do Roberto Carlos na voz carioca do Lulu Santos, e cheguei de volta até a frente da casa, onde o silêncio da rua parecia quase um milagre. De repente vi minha mãe, do outro lado da rua, no portão, conversando com uma amiga. Ela estava na nossa casa o tempo todo, mas eu não.

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Fuga: sucesso!

Fugiu porque era a hora, o momento estava ali, a oportunidade se tornou lei e então foi. E diz-se que fugiu porque é mais fácil entender, mas na verdade, só foi, porque não estava sendo procurado por ninguém, se não pela própria vida. Largou a rotina no meio, na quebra do tempo e foi, porque tinha pra onde ir, porque já sabia o destino e então seguiu na direção. Fugiu de si mesmo, talvez, mas diria para todo mundo que estava “indo ali” e voltava logo. Se voltasse, seria logo. Se voltasse. Mas não disse nada porque não precisou.

A pia ainda com louça do dia anterior, a tv ligada e a janela do banheiro aberta. Ficou tudo ali, como estava. A porta trancada por fora, os paços sumindo ao longe e tudo bem. Deixa pra lá, ninguém liga, ninguém paga as contas, não tem que explicar merda alguma. Um metrô, uma mochila, um livro e uma passagem pro ônibus que sai jajá. Ainda é quarta-feira. Uma quarta-feira em fuga, diriam, mas para ele não. Era só uma quarta-feira, daquelas que o coração não acelera, das que ninguém gargalha nem chora. Um dia de nada, pra ir pro nada sem falar nada pra ninguém.

As luzes na rodoviária, as luzes na cidade, as luzes dos cabelos das moças do guichê e as luzes do mundo que mudavam o rumo da história que lia. No livro estava escrito assim: “Eram azuis, eu acho, mas sob o efeito da luz foram escurecendo, verdes, castanhos, pretos. Quando ficaram bem pretos, saí à rua” e interrompeu a leitura para embarcar. As horas estavam ali, no relógio do teto e o tempo não mente para viajantes, um depende do outro o tempo todo. Se não fossem as viagens, para que haveríamos de contar o tempo, não é mesmo?

Poltrona da janela, 40 lugares, 13 passageiros, umas 6 horas de viagem. Depois de sair da cidade a estrada escurece o interior do coletivo ao ponto de apenas os carros no sentido contrário conseguirem iluminar os contornos das várias poltronas vazias. O livro já não era tão necessário, ouviu música para fermentar ideias e, só porque podia, repetiu inúmeras vezes apenas uma única faixa. Ouvia Dd Stewart no sugestivo título de Silly Boy,  com distorção na voz cantando sensualidades e desenhando linhas neon na escuridão da estrada roubando estrelas a cada curva. Viagens.

Três da manhã, desperto de um sono torto e dolorido, os primeiros passos no horizonte, no “B”, depois da linha que saia do ponto “A”. Um endereço num pedaço de papel, um táxi, “R$ 28,50, moço”, um telefonema, “Juro, não é mentira nem piada, avisa que você me conhece e me deixa entrar, eu viajei pra caralho, rs” e o portão moveu-se. Era quinta-feira, mas a madrugada não tem dia. Toda madrugada é o mesmo dia. Todo dia, durante a madrugada, é o ontem e o amanhã, porque o hoje, entre meia-noite e cinco da manhã, não existe. Era alguma coisa entre 3h e 4h da manhã, uma quinta-feira estava vindo, o frio já estava lá e a porta se abriu. Ele nitidamente calmo e contente, ela confusa e sonolenta: “Oi… o que você tá fazendo aqui?”, ela perguntou, com bom humor duvidoso.

A resposta não veio. Mas veio o braço dele ao redor da cintura dela, um beijo inesperado que não encontrou nenhuma resistência e ela, já mole do recém interrompido sono, se deixou acalmar no corpo frio de quem vinha de fora. Era a primeira vez que se beijavam, a primeira vez que falavam assim, na mesma língua. A porta algum espírito fechou, a mochila ficou no chão, o quarto se descolou da casa e a sala tornou-se o mundo. A luz apagou porque tinha que apagar, o telefone ligou, sozinho, para o trabalho e avisou, fingindo voz de doente, que não iria hoje. No escuro bem escuro, deitados no sofá, beijando tão lentamente que pareciam ler um braile alheio, na língua do outro, numa história sem pressa de acabar, evoluindo pra sexo, sono, beijos, sexo, sono, beijos, num ciclo lento, erótico e sensual. Fuga bem sucedida!

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Quem não atira, não dança

Na minha terra sempre foi assim. Tem que saber das coisas da vida, do girar do mundo e tem que saber atirar. A felicidade vem da segurança e isso a gente só consegue na base da bala. Matando um leão por dia, um vizinho por hora, derrubando e sambando de felicidade. Lá sempre foi assim e acredito que se hoje, meio que por acaso, eu tropeçar e cair lá, vou perceber que nada mudou. Não muda porque funciona e em time que ganha a gente não mexe.

Aposta-se uma vida em troca de outra e perde-se duas por não saber jogar. Tinha gente que ficava órfão antes mesmo de nascer, pois chegava ao mundo para dançar com a aposta já feita. Era assim todo dia, até morrer quase todo mundo e o jogo começar a se tornar familiar, simples e as vitórias começarem a vir. A vida é como o quintal da minha antiga casa, que crescia todo dia, engolindo a casa dos outros, derrubando as cercas e os murados pra se esticar até onde os olhos enxergavam. A gente sentava na varanda, todos o Braz, e assistíamos ao final do dia o quintal “enlarguecer”, como dizia a minha avó.

A gente ria, deixava tomar conta de tudo, arriscando causar briga com os vizinhos, com os outros moradores, com os outros sobrenomes, mas ninguém sentia medo. A gente dançava, se é que você me entende. Lá em casa todo mundo sempre viveu na beira da saia, de passinho em passinho, sem coreografia, sem ensaio, só dançando em paz. A paz, essa coisa branca e bonita que todo mundo quer, mas ninguém reconhece quando já a tem, só vinha porque a gente sabia dançar bem, muito bem.

Sendo assim, era de se esperar que todos fossemos bons de bala. E eramos ótimos! Matávamos um problema por dia, uma saudade por hora, um desejo por minuto e vivíamos rindo e deitando cartuchos vazios pelas varandas e terrenos da casa. Nossa família, indivisível como os dois lados de uma moeda, atirava a esmo, acabando com os outros existentes, com os nomes que a gente ouvia só ao longe e íamos crescendo nosso espaço, nosso mundinho “Brazeano” até o quintal virar o próprio mundo e a propriedade perder autoridade.

É o mal de crescer-se demais. Perde-se o controle dos pedaços menores, mas importantes. E aí a gente dançava, para rir a falta de controle, a bagunça, a anarquia e a desordem. Qual é o Braz que não admira a desordem? A gente seguia atirando no horizonte, m,atando o Sol pra trazer a Lua e continuava a festa ao redor da fogueira, num lugar onde as estrelas iluminam os caminhos que a pessoa deve seguir na vida, para no fim, virar estrela guia também.

A moral da história da casa que não se contentava em estar no centro era a de que, para sorrir, era preciso se arriscar e que, para correr riscos, era preciso saber morrer, como quem perde no jogo hoje paga ganhar amanhã. Meus parentes nasciam todos os dias e ninguém duvidava de ninguém. O sangue vale mais que a palavra e a conversa era feita no solado das sandálias. Eu ficava na porta, esperando o mundo se esticar e dar a volta no planeta até chegar pelos fundos, nos varais da casa e se acalmar para todos dormirem. A gente atirava pra todo lado, perdendo e ganhando tudo, mas crescendo todos os dias.

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O circo no quarto

Por cima dos móveis da sala só copos, latas, garrafas e lixo. Lixo de festa, papéis estranhos, coisas amassadas, embalagens, e sujeira esparsa, acumulada, enfeiando a decoração. Cervejas, vodcas, combinados, vinhos, espumantes, frizantes, algumas solitárias garrafas d’água e uma ou duas latas de Coca-Cola. Da vermelha, com açúcar, pra misturar a vida, a noite, tudo num copo só e mandar para dentro. O tapete meio jogado no canto, o chão de madeira riscado de salto, de vidro quebrado, de pista de dança improvisada em festa sem controle.

No corredor pro quarto o aparador estava cheio de nada. Tudo que tinha em cima foi embora. Ou tiraram, ou caiu e se misturou com o resto da bagunça, não se sabe. Dois pés de ferro ligados a um tampo de vidro fixado na parede, manchas arredondadas de líquidos secos e sujeira. Na porta da frente, o lavabo, uma marca de mão suja no meio do batente. Suja de alguma coisa marrom, ou vermelha. Vinho, sangue, terra, tanto faz. Passou ali e deixou a marca. Passando pela porta uma montanha de papéis empilhados no cento de lixo, uma pia um pouco vomitadinha, assim, no canto, de leve, de bêbado que tentou lavar a merda mas não teve muito empenho.

Mais pra frente, na segunda porta, o quarto de hospedes. Acabado. A cama de solteiro está só o estrado, com o lençol todo embolado num canto, o colchão meio em baixo, meio em cima da armação e uma porção de objetos aleatórios no chão. O controle da TV, um cinzeiro virado, alguns porta retratos com fotos de viagens minhas, um monte de flores de plástico, uma furadeira sem broca, alguns copos, latas e uma bolsa de mulher que não me animei a investigar. Na parede, inusitadatamente bem escrito, numa caligrafia feminina, delicada, feita a batom cor de rosa, um recado. “Fui chupada aqui” e uma seta apontando para a cama sem colchão. Bom pra ela, acho.

Lá no fundo do corredor a porta do quarto, do meu quarto. Dentro, um cômodo nitidamente mais organizado que o resto da casa. A cama, de casal, está pelada, com o colchão sem lençol, cobertor ou coisa que a cubra. No chão um par de sutiãs de cores diferentes, um vestido, um pedaço de pano retorcido que adivinhei ser uma calcinha minúscula e o resto até que estava inteiro. O telefone do criado mudo foi para o chão, o abajour estava milagrosamente inteiro, nada escrito na parede, umas três ou quatro garrafas perto da parede, copos e um par de pernas jogadas do outro lado, depois da cama. Fui até lá e um corpo de mulher jovem dormia jogado entre o edredom que deveria estar sobre a cama.

“Bom dia”, desejei a ela, que estava acordando com a minha presença. A voz saiu rouca, grave, seca e o copo d’água na minha mão era um sinal de que o corpo precisava descansar. Ela se virou para mim, com os cabelos escuros grudados na cara, bagunçados e sem formato e percebeu que estava sem roupa nenhuma. Se cobriu assustada, me olhou de novo, olhou para o quarto, ao redor, para si mesma e perguntou da outra. “Foi embora, deixou um sutiã e você…”, e sorri, porque não tinha outra cara para fazer diante de alguém que foi deixado para trás. Durante alguns segundos ela ficou parada, em silêncio, como se recuperasse memórias de muito longe, até me olhar com um rosto muito sério e temeroso perguntando o que a gente tinha feito ali. “Pra resumir, foi como ter um circo dentro do quarto!” e saí pra ela poder assimilar.

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Te amo e te mato (meio)

De repente a casa está linda, do jeitinho como se diz que deve ser uma casa saudável. O chão de madeira tem cor e brilho de madeira, as paredes estão limpas, lisas e fortes. A cozinha está mobiliada e tem frutas na fruteira, pão no armário e ovos na geladeira. Tem coisa pra caralho na geladeira, na verdade. Tenho uma empregada! É, precisei de alguém para cuidar dos assuntos que não me dizem respeito, como a minha vida, por exemplo. Dona Cida cuida de mim como uma mãe, comprando as coisas no sacolão toda terça-feira, lava minhas roupas, recolhe as toalhas jogadas, arruma os móveis nos lugares onde eles merecem ficar e limpa tudo.

Não trabalho mais, dei sorte de aqueles alugueis todos terem dado certo. Estou vivendo de renda, pagando as contas e vivendo sem luxo, mas sem lixo. Os cinco cômodos dessa casa nunca viram tanta organização e limpeza como agora. Não que você fosse uma mulher desleixada, mas é que a Dona Cida sabe fazer tudo de um jeito que parece que ninguém mais poderia fazer melhor. Nem você.

Em compensação, você fazia muitas coisas que a minha fiel empregada jamais fará. Você me fazia feliz, por exemplo, de um jeito puro e calmo, como se fosse aquela calma das músicas felizes dos Los Hermanos. Também me trazia aquela euforia que dá vontade de dançar, de rir, de gargalhar e depois de tirar a roupa, deitar na grama e transar pra gozar uma vez só, sem extravagância, sem cinematografismos, sem putaria. Só uma trepada gostosa, com muito corpo, muita saliva, muita coisa escorrendo e pouca invenção. Nunca vou poder sentir essas coisas sem você aqui.

A questão não é nem o fato de não poder comer a Dona Cida, que é casada, já passou dos 50 há muitos anos e não tem a menor vontade de ter relações comigo, assim como eu com ela. O caso é que, depois de você, mesmo que eu conheça mil outras garotas, nenhuma vai me parecer muito mulher. É que depois dessa fábula que a gente viveu, ninguém parece muito real, de carne e osso, com sentimentos sinceros e firmes. Se eu trepo com alguém, fico pensando no que foi que a empregada preparou pro jantar, o que é que vai passar no Telecine Premium amanhã às 22 horas, como é que está o problema do vazamento do banheiro do apartamento da Rua das Margaridas, que a imobiliária me ligou pra avisar. Fingi um orgasmo, esses dias, e não foi nenhum pouco estranho.

As mulheres pensam que só elas fingem orgasmo, mas eu quero saber qual é a moça que tem habilidade suficiente pra saber, no escuro, se o cara gozou ou se é só a lubrificação da camisinha que está ali pendurada. Homem também finge, lógico que finge. Eu não sabia, juro que não. Mas depois de você fiquei profissional. Coitadas, as meninas não têm culpa que você me largou, que eu não consegui superar e que, por mais que façam anal giratório com inversão de posição oblíqua, eu não vou sentir nada. Deixa elas irem pra casa em paz, tranquilas, talvez satisfeitas e me deixarem com a minha frustração de ter de viver uma vida que não tem mais graça.

Tenho ódio de você em momentos como esse. Penso que o mundo estaria de um formato diferente se nada disso tivesse acontecido. Me imagino como o pior cara do mundo, mesmo tendo a barba feita, um corpo ok, uma conta bancária segura e uma casa confortável. O sentimento é mesmo uma máscara de pregos. Você sente uma coisa que, na verdade, te fere até o talo, pra depois sumir e você ter de curar as cicatrizes sozinho, na raça. Te odeio por esse sofrimento, pela coragem de largar uma vida planejada e perfeita, por me deixar sem pensar que eu poderia morrer, perder o ar, perder as pernas e ficar só o pó sem você.

São essas contradições, tipo te amar e te matar, no mesmo segundo, que têm me ocupado a cabeça todos os dias.

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