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Metamorfose

Se dissessem que era feliz, chorava de desgosto. Não queria, não combinava. O bom, mesmo que ruim, era estar na merda. Vivia cagada, fodida, sem vontade de porra nenhuma, mas destilando toda a elegância que a solidão e a tristeza têm. Depois escrevia coisas sobre o sentimento de vazio que se sente quando não se tem alguém, falava sobre vida e morte, futuro – ou quase isso – e lia muito. Lia como se fosse o que garantiria que sua vida ainda valeria a pena. Lia coisas antigas, muito novas, cheias de palavras desconhecidas e até em outras línguas. Lia e sofria, porque a vida nos livros sempre vai para algum lugar, nem que seja para a última página. A dela não se movia.

Tinha “Que o amor seja meu suco, meu soco e meu sulco, para que nasça e morra comigo” escrito no teto, bem sobre a cama, para se lembrar todo dia de que o motivo daquilo todo era o suco, o soco e o sulco. Amava tão desmedidamente que chegava a odiar o amor incontrolável que sentia. Tinha picos de ódio e aceitação. Por vezes passa dois dias sem comer, enrolada nas cobertas, cada vez mais quente, cada vez mais magra, cada vez mais cadáver. Fechava os olhos por muitas horas e permanecia imóvel, mas não dormia. Chorava um pouco, resmungava um pouco, sentia tristezas atrozes e continuava enrolada o mais apertado que podia. O corpo novo, cheio de energia acumulada, não conseguia dormir tanto, então vagava por pensamentos obscuros de olhos fechados, mas acordada, fosse dia ou noite.

Depois que se cansava do isolamento, virava totalmente na direção oposta e se despia de todo pano. Pegava o carro da mãe e dirigia de noite com os vidros abertos, passando um frio do caralho, usando a mesma camisola dos dois dias anteriores. Comia fast food comprada em drive-thru e pedia bebidas enormes, refrigerantes de litros sorvidos em canudinho, milkshakes que vinham em copos do tamanho de seu antebraço e ia engordando tudo que perdera em dois dias de água e sonhos. Comia doces sem controle, abria latas de leite condensado em casa e comia todo o conteúdo com o dedo. Tornava-se uma voraz devoradora de açúcares e gorduras e não tinha hora para parar.

No dia seguinte pegava o carro e comprava bebida em lojas de conveniência e se obrigava a beber sozinha. Dirigia misturando tudo, ouvindo músicas adolescentes em volumes acima do aceitável para o horário e voltava para casa mais acabada do que havia saído. Então sentia-se enojada pelo cheiro de sujo do próprio corpo e tomava banho com as luzes apagadas. Era sempre um show à parte.

Levava uma garrafa de qualquer coisa para o chuveiro, botava a música pra dentro, fechava a porta e ficava debaixo da água quente embaçando tudo que não podia ver. Bêbada até o talo, fazia danças sensuais imaginando as stripers americanas daqueles filmes B. Rebolava fazendo carões que ninguém poderia enxergar, esfregava-se na parede, alisava o próprio corpo da maneira mais vulgar possível e continuava dançando, rodando, tomando cabelada na cara sem saber de onde vinham. Esquecia por algum tempo das desilusões da vida, do amor e do mundo e lembrava-se só dos prazeres que sentira nos raros momentos bons que os homens puderam lhe proporcionar.

Como não podia manter o equilíbrio de botar uma perna para cima e segurar o corpo com a outra, sentava-se no chão e usava a escuridão e a imaginação para formar as melhores transas do mundo. Masturbava-se com violência, intervalando gemidos e goles de álcool, gozando descontrolada e quase apagando com pressão baixa. Secava o corpo como se ainda estivesse se exibindo para alguém, ignorava os cabelos molhados e voltava ao quarto como se não houvesse dia e noite, nem semanas, nem horários. Era uma brecha no tempo que ela dedicava para a auto-cura. Dormia pelada, jogada de qualquer jeito por cima das cobertas e sentia a cama girar como um espeto de churrasco fixo numa televisão de cachorro. Ela era a galinha assando ali.

Quando acordava queria morrer. Vomitava horrores, não se conformava com a intensidade das dores de cabeça, do corpo, não entendia os arranhões no peito, nas coxas e se recusava a aceitar que tinha feito aquilo sozinha sem motivo algum. Sentia-se mal, ficava deprimida, não sabia o que fazer, não ficava de pé, nem deitava, nem sentava, nem falava com ninguém. Passava algumas horas inerte, fazendo gestos aleatórios e falando palavras desconexas. Quando não aguentava mais a fome e a dor, saía, sentava na cozinha e a mãe cuidava de preparar algo com cara de comida de gente doente. Ficaria três dias nessa paz consigo mesma, usando roupas normais, indo à faculdade, tentando ter amigos e levando uma vida normal. No quarto dia se recolheria ao seu casulo novamente e a metamorfose recomeçaria do zero.

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Açaí da vida

Nos primeiros sintomas reconhecíveis, o que acontece é aprender a se portar em solidão. Fazer as coisas sozinho, fazer companhia a si mesmo e ser suficiente. Come-se só. Caminha-se só. Fala-se só. Sonha-se só e acorda-se só. Inevitavelmente mergulhado num fim de assunto, nascendo naquele silêncio constrangedor pra vida toda. Começa-se o dia assim. Solidão de manhã.

Depois da tristeza, o choro e o caos, a calma vem tomar o ambiente. Aí vem a falsa compreensão, a aceitação e a calmaria. As coisas não parecem tão ruins, nem tão duras de se viver. Ao redor tudo parece estar voltando para o lugar, como se fossem coisas da vida voltando de uma balada, indo dormir cada uma na sua própria cama, sem bagunça, sem confusão. É o famoso “baixar da poeira”, sabe? Poeira tomando assento.

E depois dessa calma, que infelizmente dura pouco e tem cara de alucinação, vem uma loucura quase alucinógena. A gente pensa coisa que ninguém disse, fica imaginando possibilidades impossíveis como praticamente reais e vai misturando as coisas sérias às quais deveríamos nos agarrar com um monte de besteiras e maluquices. Rajada de vento. Bagunçando tudo den’dicasa e den’da cabeça e do coração.

A gente de repente ouve o barulho da mensagem chegando no celular, no Facebook e não tem nada lá. Essa loucura, com todas as coisas fora do lugar começam a trazer vozes e dizeres que ninguém nos disse. Nossa mente fabrica uma outra realidade, onde todo mundo nos quer dizer algo, onde todas as coisas apitam e chacoalham por nós. Som de assombração.

De repente tudo o que é preciso é sanidade. E ela que nos falta. Toda vez que o pensamento se alinha e as palavras voltam a se endireitar, no meio da razão, do pensamento lógico, o coração vem destruindo tudo, amolecendo todo o chão e tirando o alicerce. Coração sangrando toda palavra sã. Não sobre nada para se agarrar! Para ele, mesmo com toda a dor, ainda vale a pena o amor, a entrega, a loucura a dois e a viagem ao centro do que ninguém conhece. A paixão, puro afã!

Não há uma só pessoa que saiba explicar o que é a intensidade da paixão, pra onde é que vai o nosso orgulho, o amor próprio, quando estamos no meio desse turbilhão. No início pensamos ter encontrado a mágica do mundo, o enigma do milênio, um místico clã de sereia. Depois as coisas começam a desmoronar, ir mal, perderem a cor e a forma, como um castelo de areia contra o tempo. No fim só sobra o desejo da vingança, o rancor, a dor visceral e a fúria, ira de tubarão. Tudo uma grande ilusão, com certeza.

“O Sol brilha pra todos”, diriam, antes de dizer que tudo se ajeita e que vai ficar tudo bem. Na verdade, o Sol brilha por si. E por mais ninguém. A gente só se aproveita dele, mas ele não o faz por nossa causa. E aí, quando cai a ficha, estamos sozinhos mesmo, nem o Sol está ligando, e os dias começam a entrar nos eixos. E vamos saindo, aniversário de amigo, exposição de arte, show de banda alterna, e até coisas mais simples, tipo, bicicleta, passeio no parque, açaí. A vida, de carrasca passa a ser nossa guardiã, nos dá calma para ouvir o som dos pássaros, do vento, o zum de besouro. Nos tornamos um imã de coisas boas novamente.

Passam os dias, aprece outra pessoa, outros dias, outros planos, outros sorrisos, outras viagens, outros amigos, outras roupas, outros restaurantes, outros parques, outras ideias, outras posições, outras sensações, outras cores, outras vontades, outros planos, outros destinos, outra textura, outro sabor, outros olhos, outra voz, outros coração e, de repente, do fundo da escuridão, podemos cantar, junto com o Djavan, que “branca é a tez da manhã“, e vivermos felizes.

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