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Paciência

Dai ele me disse que tinha uma ideia foda. “Cara, tive uma ideia foda!” e eu fiz cara de quem estava pronto para ouvir, enquanto pensava “cara, você é um idiota”, e fingia ouvir alguma coisa sobre qualquer assunto totalmente desinteressante para mim. Eu estava completamente tomado por uma irritação agressiva, quase incontrolável, que me fazia odiar qualquer coisa. Acima de tudo, eu odiava gente que tinha “ideia foda” a cada cinco minutos. Esse tipo de grande ideia não aparece assim, igual mosca na carne do almoço. Isso demora. Eu tinha bebido um pouco, estava meio puto com o mundo, com o trabalho, com o calor, com a época do ano, com a porra toda.

Depois meu tempo acabou, levantei e saí andando, assim, do nada mesmo, como se tivesse sido chamado por alguém, ignorando qualquer assunto, fingindo que estava sentado sozinho. Ele ficou lá, falando sobre sua “ideia foda” para ninguém, perdido nas próprias grandes criações de merda. Eu já não aguentava mais. Se ficasse mais um segundo teria enfiado a mão dentro da cara dele, de frente, um murrão no dente da frente, certeiro e ridículo. Saí, foi melhor, mais civilizado e, mesmo tendo deixado ele falando sozinho, sem dar qualquer sinal de despedida ou educação, não me pareceu tão desrespeitoso.

Tinha umas quatro minas completamente chapadas na porta. Eu queria sair, elas queriam conversar, e uma delas tinha um pouquinho de pó branco ao redor de uma das narinas. Estávamos num café e a gente podia, com muita imaginação e ingenuidade, fingir que tinha voado açúcar na cara daquela doida. Mas não, ela estava doida de coca. Coca mesmo, sem mistura, sem nada além. Os olhos abertos, uma conversa de frases curtas e gestos duros, com risadas agudas e estridentes. Eu queria sair, elas queriam conversar na frente da porta, e minha paciência acabou. “Sai”, disse, honesto e justo, sem compaixão, mas sem grosseria em exagero. As minas abriram caminho com olhares de reprovação e caras de desgosto. A última bocejou falsamente e disse “aff, que preguiça de gente grossa” e eu senti, por um segundo, um suave cheiro de merda misturada com cigarro saindo da boca dela.

A rua estava cheia de gente, meu bolso vazio e eu bravo porque não importava quanto tempo passasse, o café no Fran’s Café continuava uma merda. Iniciei um diálogo nervoso e desconexo comigo mesmo, mentalmente, pensando sobre o motivo pelo qual eu voltava àquele lugar péssimo. “Não tem nada bom”, eu dizia. “Mas as pessoas sempre marcam encontros na porra do Fran’s”, ponderava. “Sem dúvida é o pior lugar da cidade!”, reclamava. “Sem dúvida, o pior e mais caro!”, completava. Seguia conversando comigo e concordando que não vale a pena tomar café no Fran’s Café. Não vale a pena ir lá sóbrio, nem bêbado, nem fumado, nem cheirado, nem injetado, nem de jeito nenhum. Era um dos piores lugares para se gastar tempo de vida.

Tinha gente que amava o Fran’s. O chocolate quente do Fran’s. Os salgados deliciosos do Fran’s. O ambiente aconchegante e sofisticado do Fran’s. O cheiro de café torrado do Fran’s. Mas tudo bem. Ninguém é obrigado a concordar com os gostos alheios. Eles amavam. Eu odiava. Para alguém o atendimento não é tão ruim. Para alguém os preços não são tão abusivos. Para alguém os pratos são realmente deliciosos. Já encontrei multidões que ama o Fran’s, amam de verdade, de querer voltar, de ir todo dia, de achar que ali as ideias fluem, que dá pra marcar reunião de trabalho, de faculdade, de gangue, de qualquer coisa no Fran’s. Eu não.

E a vida seguia seu curso natural, virando esquinas, fumando em lugares escuros e chegando tarde no trabalho. Depois passaram três dias. Conheci uma garota na livraria, ela queria o mesmo livro que eu e só tinha um exemplar no estoque. Aquelas coisas de filme que nunca acontecem na vida real. Aconteceu na vida real. A gente conversou um pouco, ela me deu um telefone, eu liguei no dia seguinte, a gente foi jantar e beber alguma coisa alcoólica na parte boêmia da cidade e demos beijos etílicos. Dois dias depois ela me disse que queria me ver, saímos de novo, bebemos bastante, ela me chamou pra dormir na casa dela e ficamos juntos. No dia seguinte, de manhã, ela disse que queria tomar um café e, sem perceber, fui conduzido ao lugar que eu menos gosto no planeta.

A gente continua se vendo quase todo dia, dormindo junto, bebendo bastante, fumando alguns cigarros, fumando alguns baseados, indo para festas estranhas, rindo das pessoas que se vestem como babacas da moda, pensando em ter um cachorro, indo ver filmes de gente desconhecida e peças de teatro com atores desconhecidos, lendo livros do mesmo autor, comendo comidas estranhas, fazendo novos amigos, ensinando coisas novas uns aos outros, tendo tempo para fazer planos, dando risadas, concordando que a vida é mais divertida a dois, concordando que a vida é mais leve a dois, concordando que a gente fica menos irritado a dois, sacando que a gente fica menos ranzinza quando estamos a dois e sendo felizes na medida do possível. Enquanto isso o Fran’s Café continuava servindo o pior capuccino da cidade. E ela amava ir lá. Paciência.

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EU A QUERIA MAIS QUE TUDO NO MUNDO (PARTE 2)

Demorei alguns segundos para perceber que estava tocando uma música. Ela tinha ligado o celular em alguma espécie de caixa de som high-tech que eu tinha achado que era um banco no chão. Largou as roupas todas pelo chão, estirou os pés sobre a mesinha de centro e ficou dançando como quem está sozinho no último lugar do mundo antes do apocalipse. Ela queria que eu a visse, mas não queria se sentir observada. “Dance como se ninguém estivesse olhando” eu pensei, tentando traduzir os olhos fechados dela, os braços pairando descontrolados no ar e os cabelos estapeando o rosto por todos os lados. Mesmo estando completamente nua a cena parecia muito mais sensual pelos movimentos do que pela falta de roupas. Ela parecia gostar mais do próprio corpo do que qualquer homem que um dia – inclusive eu – tivesse admirado seus formatos.

Ela, vez em quando, me olhada e sorria, enquanto eu continuava paralisado de pé, de costas para a janela gigante, olhando um absurdo de mulher dançar para mim. Em determinado momento ela desceu da mesa, envolveu meu pescoço com delicadeza usando os longos e longilíneos braços que tinha, enquanto me beijava com calma e calor, fazendo, pela primeira vez, o tesão vencer a embriagues. Depois do beijo ela pegou minha mão e me guiou até uma espécie de poltrona grande e sem braços. Me mandou abrir as pernas, ficou em pé na minha frente e me ordenou que a tocasse. “Me alisa!”, ela disse, imperativa e simples assim. Eu corria os dedos pela curva firme e infinita de sua cintura, desenhava o contorno de seu umbigo seco e tímido perdido numa imensidão chapada de uma barriga em forma de tábua. Ela era uma sombra escura e sensual se arrepiando com a minha exploração minuciosa e, com um pouco de atenção, eu podia ver a pelugem quase invisível que cobria toda sua pele se arrepiar.

Depois de algum tempo passeando com as mãos por seu corpo, ela se virou, sentou-se em meu colo com as costas pesadamente coladas em meu peito e, agarrada às minhas duas mãos, guiou-me pelos lugares em seu corpo que eu não podia ver. “Me faz gozar!”, ordenou novamente, enquanto apertava uma de minhas mão em um dos seios, guiando a outra para o meio das coxas abertas e apoiadas sobre os meus joelhos. Era um jogo. Demorei a perceber porque estava bêbado demais, perdido demais na escuridão do apartamento que só me mostrava contornos iluminados pela cidade além do vitrô imenso da parede oposta. Não precisava, mas fiz questão de fechar os olhos para sentir com as mãos o que, de qualquer maneira, eu não teria como ver. Ela ofegava se movimentando descontroladamente, arranhando meus braços e me dando sinais do que fazer para cumprir a ordem que me fora dada. Eu tinha de fazê-la gozar.

Um grito, uma súbita contração dos músculos e a mulher que se oferecia ao além no meu colo agora fechava-se rumo ao seu próprio centro, enquanto eu ouvia sua voz e seus gemidos saírem de uma boca de dentes cerrados com força. Levantou-se mole e me chamou para levantar junto. Sem perguntar nada ou avisar, puxou minha camiseta para fora do corpo, abriu minha calça, abriu o zíper da minha calça, tirou qualquer pano que pudesse me cobrir e ficou um tempo me olhando. Me olhava como quem mata curiosidade, como quem lê uma notícia importante. Eram olhos de “humm, é assim que você se parece!” e por alguns instantes me senti extremamente invadido. Ao contrário dela, ser observado sem pudor não me deixava excitado.

Nos beijamos durante algum tempo, trocando carícias delicadas e lentas. São momentos como esse que mostram que a vida é feita para degustar, e não simplesmente engolir. Eu sentia sua respiração quente, suas mãos lisas percorrendo meus braços, seus pelos pubianos roçando em mim e não tinha nenhuma pressa de passar para qualquer outro tipo de contato. “Eu sempre quis fazer isso”, sussurrou em meu ouvido, antes de desgrudar de mim e caminhar para a janela. Abriu as duas lâminas de vidro para os lados, deixando entrar uma rajada mortal de vento gelado no apartamento. Com os vidros abertos a cidade continuava silenciosa, com seus sons feios de buzinas e pessoas abafados pelo com do vento violento. A visão dela debruçada na janela olhando o horizonte se misturava com a própria cidade iluminada e, sem querer, me senti com sorte e feliz: eram duas versões do paraíso, cada uma com seu brilho.

Ela me olhou por cima dos ombros, sem se virar, e me chamou para me juntar a ela. “Eu sempre quis fazer isso, mas pensando bem, só faria sentido fazer isso com você. Você dá valor pras coisas importantes!”, disse. Eu não fazia a menor ideia do que ela queria dizer, nem do que era o “isso” a que ela se referia. Mais uma vez sem avisar, mantendo sua postura submissamente controladora, ajoelhou-se no chão de frente para mim, se colocando entre mim e a visão da noite mais impressionante que eu já tivera na vida. “Esquece de mim, pode se perder”, e decidiu que seria dessa maneira que terminaríamos a noite. Eu me segurava no parapeito e perdia o olhar no horizonte, vendo luzes amarelas pegando fogo, flashes estourando em todas as direções, contornos e linhas disformes no além e um conteúdo de caixas pretas e altas perdendo o foco, enquanto ela sugava de dentro de mim, lenta e antropofagicamente, qualquer coisa que ela julgava muito importante para que aquele momento desse certo. Eu nunca mais me recuperei daquela noite e antes mesmo de entender, eu já estava acordando largado no sofá da sala, com ela me olhando da janela, sorrindo e me dizendo que tinha acabado. “A gente não tem mais nada pra fazer um com o outro…”, e eu não pude nem contra argumentar.

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Eu a queria mais que tudo no mundo (parte 1)

Nos primeiros dois meses era só admiração, como se eu tivesse conversando com algum famoso cuja carreira me inspirasse ou alguém da música cujos discos eu cansei de ouvir e, de repente, estava falando comigo sobre como foi o dia, sobre amenidades e contando tudo sobre o mundo da fama, sobre o lado de lá, sobre como as coisas realmente funcionam. Eu era fã dela! Mas como não era famosa, nem prestigiada, nem ninguém muito mais importante que a maioria dos que vivem no mundo, comecei a perceber que a vida, até em seus movimentos mais simples, pode ser incrivelmente interessante. Ela era incrível e interessante, o tempo todo.

Depois de um tempo a intimidade cresceu e eu já não achava a vida dela coisa de outro mundo. Era incrível, mas era possível. Era uma coisa que eu não vivia, mas conseguia acompanhar como quem assiste a um filme baseado em fatos reais, ou quem lê um livro biográfico um pouco suspeito. Era muita emoção, muita mudança, muita novidade o tempo todo. Foi mais ou menos nessa época que eu comecei a pensar que talvez eu estivesse cagando para o quão legal era a rotina dela. Eu queria mesmo era saber dela, que atitudes tomaria, aonde iria, o que faria e foda-se se tinha ido viajar, se estava trabalhando muito, se estava desempregada, se estava de pé ou sentada. Foda-se, eu queria saber o que ela pensava, quais eram seus medos, seus planos e seus desejos. De repente passei a desejar ser um de seus desejos.

Aí a gente passou a falar menos de coisas externas e as conversas se tornaram cada vez mais íntimas. Não falávamos de trabalho, falávamos de sonhos. Não falávamos de amigos, falávamos de segredos. Não falávamos de cidades, falávamos de restaurantes. Não falávamos de amor, falávamos de sexo. Trouxemos toda a universalidade pra dentro de uma caixinha de fósforos e ficávamos cavucando nossos sentimentos a fundo, cheios de perguntas e histórias complexas enquanto os dias passavam como eram e como sempre foram. A vida já não parecia tão impressionante. A dela ou a minha, tanto fazia. O mundo real foi substituído por suposições e achismos absurdos que preenchiam todo o tempo que a gente passava conversando.

Depois que chegamos a esse ponto, meio sem querer, ela começou a se interessar pela minha vida. Porque não tinha muitos eventos, nem muito dinheiro, nem muito glamour, mas exatamente por isso era tão intensa. Ela se interessava por sentimentos como a sensação de liberdade em caminhar à noite, de madrugada, vendo gente pelada correndo pelas ruas. Ela se interessava pelas vezes em que segurei a respiração mais tempo do que o saudável e fiquei vendo cores trocadas e formas imaginárias enquanto voltava a respirar. Ela queria saber de onde eu tirava ideias pra escrever, pra desenhar, pra fotografar, pra  fazer músicas, pra ser eu. Ela queria se jogar dentro da minha vida e, de repente, ela desejava fazer parte de mim, nem que fosse por algumas horas, só por alguns instantes.

“Quer ir pra minha casa?” ela me perguntou, uma vez, quando estávamos tomando café e conversando sobre como é que faz pra lidar com a morte de alguém que você nunca conheceu, mas sempre quis conhecer. O assunto, naquele momento, pareceu uma justificativa honesta para não perder a chance. A gente podia morrer, do nada, e viveríamos nessa eterna dúvida. “Quero!” respondi, sorrindo nervosamente. Depois disso o medo tomou conta de mim, assim como dela também, porque a conversa começou a ficar estranha até dar lugar a um silêncio incômodo e agudo. “A gente precisa encher a cara!”, ela disse e eu concordei, afastando a xícara e buscando ao redor um lugar onde pudéssemos comprar garrafas, doses, coisas alcoólicas em geral.

Encontramos um bar e levamos uma garrafa de pinga vagabunda. Na metade do caminho abrimos a tampa para cheirar e nunca mais paramos de beber. Virávamos doses puras que faziam o estômago querer devolver tudo a todo momento. Era noite, fazia frio, não tinha ninguém na rua e a gente gargalhava alto de nervoso e de bebedeira. Nos beijamos cheios de erotismo dentro do elevador e, pensando agora, nosso beijo parecia mais um conjunto de lambidas mútuas que erravam – e muito – o alvo. Lambendo os rostos um do outro, deslizando as mãos por tudo quando é lugar, até atingir o andar. Quando ela girou a chave do apartamento eu vi a janela enorme para a cidade noturna me hipnotizando. Fiquei um tempo indeterminado perdido no horizonte até me virar e dar de cara com ela completamente nua, de pé sobre a mesa de centro, me olhando e sorrindo: “eu quero que você me admire antes de qualquer coisa”, e me mandou sentar no sofá.

Dali pra frente eu comecei a viver uma das noites mais sexualmente intensas da minha vida…

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Doládelá

Eu dei uma sumida de dois dias – e sumir é coisa séria, pode acreditar. Troquei essas linhas de letras firmes e sempre direcionadas da esquerda pra direita pelas faixas intermitentes da estrada, farol alto na contra mão é falta de respeito, estrelas pra cima, olhos de gato para baixo, e meus olhos fechados para ver além. Fui pra outro lugar, um lugar que fica doládelá da estrada, no fim das placas de quilometragem, lá depois de onde as coisas perdem a pressa, onde o ritmo é outro, o cheiro é outro, a temperatura é outra e as pessoas, definitivamente, são bem diferentes.

Fui pra um lugar onde o relógio funciona em dissonância com o sol e a lua. “De manhã” é meio dia, toma-se café da manhã às 13h, almoço só depois das 18h, jantar lá pras 23h30 e dormir, dormir mesmo, é só às 6h da manhã. Nesse lugar as conversas são intuitivas, como se as palavras não precisassem ser ditas até o fim: “péguess negócií pra mim, pfavô”. Lá é sempre hora de festejar, sempre hora de beber, sempre hora de se juntar com alguém, ir para algum lugar, fazer alguma coisa. Mesmo que pontualidade não seja muito importante, os compromissos e a presença física sempre são.

Tem coisas curiosas – pra não dizer hilárias – doladelá. Por exemplo, as caçambas de entulho. Em qualquer lugar do mundo elas são amarelas, para se destacarem e não serem atingidas por ninguém. Mas lá não, lá algumas são vermelhas, outras já mais velhas, marrons, e ninguém liga se elas vão ficar perigosamente invisíveis durante a noite. Não importa, o que importa é estarem bonitas. Até porque, no trânsito, ninguém corre, todo mundo tem tempo de sobra pra chegar nos lugares, afinal, o relógio é só detalhe. Lá o motoqueiro almoça, come bem, depois abre uma lata de cerveja e sai pilotando pela cidade, guiando em marcha lenta, bebendo cerveja e apreciando a paisagem que se apresenta de frente ao guidão. Está tudo bem, não tem problema beber e dirigir moto. Lá não tem problema.

Come-se ridiculamente bem doladelá. É possível comer o que der vontade, beber o quanto quiser e voltar para casa com dinheiro para o pão do dia seguinte. Tudo é muito gostoso, muito bem feito e muito barato. Além disso, se você não quiser sair para comer, pode ficar tranquilo, todo nativo sabe cozinhar. E cozinhar bem! Na terra da culinária farta, o restaurante árabe é self-service e oferece, ao lado do tabule e do kibe cru, uma porção de kani e uma travessa bem servida de frango à parmegiana, seguida de uma mesa com feijão tropeiro e mandioca frita. Tudo bem, sério!

Um único limão faz um copo de suco de meio litro. Dois limões, dos que eles usam lá, fazem uma limonada pra cinco brothers. É tudo farto. As mulheres são fartas de beleza, de ousadia e de vaidade. A maioria não é muito farta de roupa e os vestidos curtíssimos são empregados até nas tarefas mais banais, como ir ao mercado ou atravessar a cidade para visitar o médico. Sempre bem arrumadas, sempre bonitas, sempre atentas. Doladelá ainda tem gente preocupada em manter praças bonitas, ainda tem o coreto, ainda tem anúncio no encosto dos bancos de descanso nas calçadas e a praça de frente à igreja continua sendo um dos lugares mais agitados da cidade.

Lá não tem zona azul, não tem parkimetro e são raros os estacionamentos. Carro para onde der pra parar, desde que não seja na frente do portão de ninguém. Mas se não tiver carro, não tem problema, de bicicleta ou a pé é possível ir para todos os lugares. Todos mesmo, da maior festa da cidade à casa do namoradinho novo. É daqueles lugares que o moleque, no começo da adolescência, sobe no morro – porque toda cidade assim tem um morro – assiste o por do sol puro, sem nuvens nem faixa de poluição, e depois aponta a mão aberta em direção à cidade toda iluminada, espalmada no horizonte, e tem a certeza de que “a cidade toda cabe numa mão só” e depois ri de si mesmo. Só existem 10 edifícios, nenhum com mais de 20 andares e o aeroporto só recebe monomotores e aviões de pulverização.

Doladelá aquela tristeza e preguiça que a gente sente depois do almoço chama-se “banzo”. O que aqui a gente chama de perseguida, xana, xota, prexeca ou qualquer outra variação, lá chama-se apenas “tico”. A soda, que vem em garrafinhas de vidro com a simpática alcunha de “Sodinha”, na verdade, é feita de abacaxi, não de limão, como espera-se que uma soda seja. Nesse lugar de coisas muito novas e, ao mesmo tempo, tão tradicionais, a felicidade se esconde nas coisas simples e pequenas. E eu voltei, porque como disse Projota, “não há lugar melhor no mundo que o nosso lugar”, mas trouxe um pouco de lá comigo. A gente sempre traz, né…

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As coisas que pulsam

(esse texto é um exercício fantasiado de texto, ok?)

Em pé, descalça com os pés no chão de madeira, o horizonte das luzes no fundo escuro do céu é o limite. Os cabelos muitos pretos, muito compridos e vivos como cobras, sobrevoam os ombros, as costas e vão para trás a cada nova rajada de vento que entra pela janela. Ela ali, procurando com os olhos uma das luzinhas que faça alguma diferença. Mas não faz. São todas iguais. Sempre iguais. Assim como o vento, os cabelos e os cigarros. E fuma, para ter certeza de que este é exatamente idêntico ao anterior.

É o vigésimo nono, alto pra caralho e, por isso, olhar para o horizonte é um exercício de caça constante. Não se vê a forma das coisas exatamente quando se está nessa altura. Então são só luzes se movendo, construindo um cenário estático tão dinâmico que fica difícil de descrever. Afinal, você nunca percebeu que as luzes dos postes pulsam como as estrelas no céu? Deveria ter percebido isso há alguns anos, no mínimo. Quando você nasceu a iluminação de rua já pulsava firme, amarela, em lâmpadas de mercúrio.

As coisas pulsam para se mostrarem vivas, porque o morto não pulsa, porque não respira, porque não sangra, porque nada é. E se é, só pode ser morto mesmo. A ponta alaranjada do cigarro, que a gente estupidamente chama de brasa, mas não é, pulsa porque, vivo que é, o tabagismo precisa sugar a vida de quem o fuma. As estrelas, clássicas, pulsam porque vivem, simples assim. O coração pulsa porque quer nos manter vivos e os pulmões pulsam porque quer nos manter fumando. Vamos nessa linha de raciocínio e fica difícil aceitar que as luzes da cidade não pulsam. Pulsam porque querem nos cegar, se fosse para ver, de verdade, viveríamos no escuro, com as pupilas dilatadas, vendo os contornos granulados de tudo e todos.

Mas não. Era só uma janela na altura das coxas, num prédio bem alto e com mobílias antigas, com um corpo seco, um rosto quase feio de tão magro, e uma camiseta parecida com uma camisola, sobre um corpo que não vestia mais nada, nem perfume, por baixo. Era um cômodo vazio, só com janelas, paredes e chão, sem móveis nem lâmpada, nem quadros nem outra serventia além da que lhe cabia: ter a melhor vista da cidade. No canto, porém, tinha um cara, um outro rapaz muito magro, tão magro quanto a própria magreza pode ser. Ele fumava com o cigarro no canto da boca e dedilhava um violão com tanta delicadeza que os sons e as notas musicas tinham de se atirar, sozinhas, para fora do instrumento, em direção ao além, pois ele não parecia querer propagar sua música para ninguém.

E a cena era essa, com ela peladássa, com os bicos dos peitos quase rasgando a camiseta(sola), os cabelos malucos voando, ondulados, sem parar por todo o cômodo, com ele sentado no canto, tocando para si mesmo, ouvindo notas que ninguém mais ouvia, e tudo pulsando. O cigarro de ambos, o coração de ambos, o pulmão de ambos, a cidade de ambos, as estrelas de ambos, a vida de ambos, até que chegou a hora de parar. E desligaram a chave, apertaram o botão vermelho, digitaram o código de segurança, ou qualquer outra coisa apocalíptica, e tudo se apagou. A Lua tava com sono, foi dormir cedo, as estrelas foram embora também, os cigarros queimaram até o filtro e a cidade ficou sem energia.

Foi nessa escuridão que tanto ele, quanto ela, perceberam, pela primeira vez, que não estavam sozinhos ali. É que as vezes a gente vê tanta coisa, a vida e as luzes pulsam tanto, que a gente fica cego para o que realmente importa e está perto, fisicamente falando. Foi desse jeito, e por isso, que acabou a cena toda.

Fim, um beijo pra você, leitor(a)!

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Na vontade

Tem coisa que a gente sente antes mesmo de acordar. Vem uma sensação estranha durante o sonho e quando os olhos abrem o sentimento já está lá. Pode ser uma coisa simples e comum, como vontade de ir ao banheiro, ou sede, ou fome. Outras vezes são vontades mais complicadas, como saudades de alguém, de algum lugar, de alguma coisa, e hoje ela acordou assim. Com uma vontade que não finda, que não se engana, que cresce dentro e vai saindo pra fora, pelos poros, arrombando os buracos e se desfazendo no colchão, molhando tudo, escorrendo pelo chão do quarto, deslizando pra sala, pra cozinha, pro elevador, pra dentro do carro, pra todo lugar.

Acordou pensando, mas não quis aceitar. Levantou da cama com a cabeça amarrada nos cabelos, foi ao banheiro, sentou-se no vaso e sentiu, tensa e concentrada, a vontade sólida que se abatia. “Nossa, acordei na vontade…” solta, com a voz ainda rouca e falhada, olhando o azulejo colorido da parede oposta no banheiro. Se levanta, escova os dentes, caminha sem rumo pela casa, volta ao banheiro, tira a roupa, entra no chuveiro e, no instante em que a água quente toca os ombros, sente que talvez ali, naquele momento, a vontade passe. Mas não passa. Não há dedo, nem chuveiro, nem escova que faça acabar.

Depois das roupas, da comida e do relógio vai caminhando para a porta e, por descuido, deixa as chaves caírem no chão. “Ahh, que merdaaa”, briga, como se tivesse alguém ouvindo, como se fosse o fim do mundo, como se fosse para tanto. Mas não era. É que acordou “na vontade” e continuava na mesma. O dia se arrasta, o calor aumenta, os problemas não se resolvem e ela não produz nada. Se incomoda com a obsessão e se repreende, bloqueia pensamentos, cansa músicas, fala com as pessoas sem ter assunto nenhum, só para ocupar o espaço da “vontade”, sem sucesso. “Quem foi que disse que mulher não pensa em sexo?”, se pergunta retoricamente. Ela, hoje, pensa o tempo todo.

Na hora do almoço, quase como uma piadinha, ou coisa sem valor, diz pras amigas de trabalho que está “na vontade” e ri, pra quebrar o gelo. Elas também riem, contam suas técnicas, algumas até dizem que já recorreram a uns dez minutos de paz no banheiro da empresa, mas ninguém leva muito a sério, ninguém tem uma solução confiável. Acaba o suco, acaba a comida, acaba o tempo, acaba a paciência e tudo vai ficando pior. As horas se arrastam, o calor aumenta, o cabelo é enorme, a nuca começa a suar, o meio dos peitos começa a suar, as mãos começam a suas e depois tá tudo molhado, tá tudo quente, tá tudo fora de controle.

De volta pra casa o mundo parece pegar fogo. As luzes apagas para não esquentar mais a casa, um chuveiro gelado que até complica a respiração, muitos dedos, muito tempo, muitas imagens e nada, nenhum remédio para o sintoma que não se mostra, se esconde lá no fundo, lá dentro, bem guardado esperando a maneira certa de abandonar o posto. Baixinho, quase que só com os lábios, repete uma mesma frase sentada no chão do box, tomando um banho gelado de causar hipotermia, pelada e largada, sem chance de mais nada. Vai repetindo a frase no meio do silêncio, apertando os dentes, com raiva, confusa, e se levanta, pelada e molhada, lavando a casa toda, deslizando no chão liso, passando pela porta, pelo corredor, entrando no quarto, escancarando a janela de uma vez, tomando uma rajada de vento frio no peito, arrepiando cada pelinho do corpo, pra botar a cabeça pra fora e gritar do 9º andar: “EU QUERO DAAAAAAARRR!!!”, até acabar o ar.

Depois disso, sem forças nem esperanças, foi só o eco no horizonte que respondeu.

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Leia Caio Fernando Abreu

Logo que surgiu um sopro de chance de voltar para São Paulo, de voltar a morar e habitar aquela loucura, tratei de caçar meu livro – inacabado – de crônicas do Caio Fernando Abreu. E digo “morar” porque quando se trabalha em um lugar como aquele, dá-se o sangue até o talo, ou pede-se a dispensa. Não existe um ser que trabalhe em São Paulo sem passar mais tempo na labuta do que em casa. Sendo assim, mora-se no trabalho e visita-se o lar.

E o livro do Caio F. Abreu vem como a cereja do bolo no meio de todas as possibilidades que esse retorno anuncia. Eu antes odiava o cara, mas odiava porque fui obrigado a odiar. Por causa das frases soltas no twitter, por causa da melosidade recortada maldosamente de dentro dos textos, por causa da fama estranha e por causa de toda a merda que fizeram com a obra dele. Eu era daqueles que dizia “Caio Fernando de cu é rola” e saia andando porque conversar sobre autor é como conversar sobre música, futebol, política e aborto.

Depois de um tempo percebi que odiar autores é uma puta de uma besteira. O cara tem uns dez livros publicados, sei lá quantos ensaios, não sei quantas peças de teatro e roteiros co-escritos com outras pessoas e ainda tinha saco para trabalhar em jornal diário. Tem que ser foda pra fazer tudo isso e, pensando assim, não dava mais pra continuar odiando o brother do “que seja doce!”, então mudei. No fim, depois de ouvir o aviso da Suellen de que “Caio F. Abreu não é isso que vocês estão lendo na internet” decidi me dar uma chance de gostar. E gostei.

Suellen sabia das coisas. Caio, mesmo morto pra caralho, ainda sabe. E sabe mais sobre viver em São Paulo do que qualquer outra pessoa. Por isso, quando caiu no meu colo – e caiu mesmo – a chance de voltar pra megalópole da zona, meus instintos voltaram a procurar “A vida gritando nos cantos” para me lembrar de como São Paulo era maluca nos anos 80, como ainda é maluca nos anos 2010. Tô com saudade de lá, do metrô de lá, das cores de lá, da criatividade que baba dos prédios, das janelas, das vitrines e dos copos de café. E depois da chegada do Starbucks, bota café aí…

Em tempos de estar na merda e estar no paraíso com a mesma frequência é sempre bom ler, assistir, escutar gente que sabe exatamente onde é que a gente está se metendo. Eu conheço. “Morei lá” de dezembro de 2008 até setembro último. Passei muita coisa, conheci muita rua com grafite bacana, vi muito panfleto com mensagem sacada, encontrei muito lambe-lambe colado em placa alta pra cacete e comprei livros que tinha um cheiro mais valioso do que o próprio conteúdo. Eu amo, porque não amar São Paulo é como dizer que o Rio de Janeiro é feio. E não é, apesar de tudo!

Mas se você não ama, é porque não conhece. E se você pensou “é claro que eu conheço, mas não amo mesmo assim” é porque só conhece a parte ruim. Tudo no mundo tem uma parte ruim. As pessoas lindas podem ser chatas, os filmes incríveis podem ter trilhas sonoras ruins, os discos mais legais podem ter capas horríveis, tudo tem uma parte ruim. Mas no fim, as pessoas lindas ainda são muito lindas, os filmes incríveis ainda são muito incríveis, os discos legais ainda são muito legais e São Paulo, mesmo sendo uma merda de um puteiro de gente maluca, é linda e interessante mesmo assim.

Por isso, caso você esteja indo para São Paulo, para estudar, trabalhar, morar, comer alguém, ou tomar café, recomendo de coração: leia Caio Fernando Abreu!

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