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Paciência

Dai ele me disse que tinha uma ideia foda. “Cara, tive uma ideia foda!” e eu fiz cara de quem estava pronto para ouvir, enquanto pensava “cara, você é um idiota”, e fingia ouvir alguma coisa sobre qualquer assunto totalmente desinteressante para mim. Eu estava completamente tomado por uma irritação agressiva, quase incontrolável, que me fazia odiar qualquer coisa. Acima de tudo, eu odiava gente que tinha “ideia foda” a cada cinco minutos. Esse tipo de grande ideia não aparece assim, igual mosca na carne do almoço. Isso demora. Eu tinha bebido um pouco, estava meio puto com o mundo, com o trabalho, com o calor, com a época do ano, com a porra toda.

Depois meu tempo acabou, levantei e saí andando, assim, do nada mesmo, como se tivesse sido chamado por alguém, ignorando qualquer assunto, fingindo que estava sentado sozinho. Ele ficou lá, falando sobre sua “ideia foda” para ninguém, perdido nas próprias grandes criações de merda. Eu já não aguentava mais. Se ficasse mais um segundo teria enfiado a mão dentro da cara dele, de frente, um murrão no dente da frente, certeiro e ridículo. Saí, foi melhor, mais civilizado e, mesmo tendo deixado ele falando sozinho, sem dar qualquer sinal de despedida ou educação, não me pareceu tão desrespeitoso.

Tinha umas quatro minas completamente chapadas na porta. Eu queria sair, elas queriam conversar, e uma delas tinha um pouquinho de pó branco ao redor de uma das narinas. Estávamos num café e a gente podia, com muita imaginação e ingenuidade, fingir que tinha voado açúcar na cara daquela doida. Mas não, ela estava doida de coca. Coca mesmo, sem mistura, sem nada além. Os olhos abertos, uma conversa de frases curtas e gestos duros, com risadas agudas e estridentes. Eu queria sair, elas queriam conversar na frente da porta, e minha paciência acabou. “Sai”, disse, honesto e justo, sem compaixão, mas sem grosseria em exagero. As minas abriram caminho com olhares de reprovação e caras de desgosto. A última bocejou falsamente e disse “aff, que preguiça de gente grossa” e eu senti, por um segundo, um suave cheiro de merda misturada com cigarro saindo da boca dela.

A rua estava cheia de gente, meu bolso vazio e eu bravo porque não importava quanto tempo passasse, o café no Fran’s Café continuava uma merda. Iniciei um diálogo nervoso e desconexo comigo mesmo, mentalmente, pensando sobre o motivo pelo qual eu voltava àquele lugar péssimo. “Não tem nada bom”, eu dizia. “Mas as pessoas sempre marcam encontros na porra do Fran’s”, ponderava. “Sem dúvida é o pior lugar da cidade!”, reclamava. “Sem dúvida, o pior e mais caro!”, completava. Seguia conversando comigo e concordando que não vale a pena tomar café no Fran’s Café. Não vale a pena ir lá sóbrio, nem bêbado, nem fumado, nem cheirado, nem injetado, nem de jeito nenhum. Era um dos piores lugares para se gastar tempo de vida.

Tinha gente que amava o Fran’s. O chocolate quente do Fran’s. Os salgados deliciosos do Fran’s. O ambiente aconchegante e sofisticado do Fran’s. O cheiro de café torrado do Fran’s. Mas tudo bem. Ninguém é obrigado a concordar com os gostos alheios. Eles amavam. Eu odiava. Para alguém o atendimento não é tão ruim. Para alguém os preços não são tão abusivos. Para alguém os pratos são realmente deliciosos. Já encontrei multidões que ama o Fran’s, amam de verdade, de querer voltar, de ir todo dia, de achar que ali as ideias fluem, que dá pra marcar reunião de trabalho, de faculdade, de gangue, de qualquer coisa no Fran’s. Eu não.

E a vida seguia seu curso natural, virando esquinas, fumando em lugares escuros e chegando tarde no trabalho. Depois passaram três dias. Conheci uma garota na livraria, ela queria o mesmo livro que eu e só tinha um exemplar no estoque. Aquelas coisas de filme que nunca acontecem na vida real. Aconteceu na vida real. A gente conversou um pouco, ela me deu um telefone, eu liguei no dia seguinte, a gente foi jantar e beber alguma coisa alcoólica na parte boêmia da cidade e demos beijos etílicos. Dois dias depois ela me disse que queria me ver, saímos de novo, bebemos bastante, ela me chamou pra dormir na casa dela e ficamos juntos. No dia seguinte, de manhã, ela disse que queria tomar um café e, sem perceber, fui conduzido ao lugar que eu menos gosto no planeta.

A gente continua se vendo quase todo dia, dormindo junto, bebendo bastante, fumando alguns cigarros, fumando alguns baseados, indo para festas estranhas, rindo das pessoas que se vestem como babacas da moda, pensando em ter um cachorro, indo ver filmes de gente desconhecida e peças de teatro com atores desconhecidos, lendo livros do mesmo autor, comendo comidas estranhas, fazendo novos amigos, ensinando coisas novas uns aos outros, tendo tempo para fazer planos, dando risadas, concordando que a vida é mais divertida a dois, concordando que a vida é mais leve a dois, concordando que a gente fica menos irritado a dois, sacando que a gente fica menos ranzinza quando estamos a dois e sendo felizes na medida do possível. Enquanto isso o Fran’s Café continuava servindo o pior capuccino da cidade. E ela amava ir lá. Paciência.

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Deixa a menina transar!

Isso é coisa de gente que não soube se emocionar na adolescência. Eu me lembro que com 20 anos eu não tinha medo de nada a não ser da morte prematura, do sofrimento e da solidão. Felizmente nenhum dos três me atingiu. Só deus sabe a alegria que me dava ficar na rua com gente que me diziam ser “ruim”, vendo como viviam, o que pensavam e o que os fazia parecer tão não-recomendáveis. Eram todos ótimos, cheios de boas histórias e tão destemidos como eu. Foi dessa época que nasceu meu namoro eterno com a noite, minha admiração pelo barulho, pela bagunça e pela efervescência da juventude. Afinal, não se é jovem para sempre!

Hoje vejo gente da minha idade que não soube se divertir, que não soube se entregar, podando a moçada que quer descobrir o mundão lá fora. “Leave them kids alone!” Imagino o quão babaca cresce alguém que não pôde experimentar o melhor da adolescência. Eu nunca seria capaz de encarnar a caretice de brigar e dar lição de moral em alguém que comete os mesmos erros que eu cometia. Isso é coisa de quem não viveu, não se fodeu, não aprendeu e quer ser dono da verdade. Sabem nada… assim como todos nós.

Me preocupo muito em conseguir chegar a tempo de dizer “meu chapa, eu fiz assim e deu merda”, para não me sentir omisso. Mas a vida é feita de escolhas e vale muito mais apontar as opções do que obrigar alguém a escolher a que você julga ser a certa, sem explicar o motivo ou deixar que se arrependam sozinhos das escolhas que fazem. Dar o próprio exemplo funciona, eu juro! É o caso da mãe que diz pros filhos que tais coisas não são certas, mas que deixa que cada um deles entenda sozinho o motivo daquilo. Fui criado na base do “escolha o certo” e não do “escolha o que eu disser para você escolher”, e isso fez toda diferença.

O menino não pode fumar porque faz mal. Porque vicia. Porque estoura os pulmões. Mas se ele quiser fumar, nem um milagre vai fazê-lo desistir da ideia, perder a curiosidade e deixar pra lá. Ser jovem tem tudo a ver com aprender na marra, comprovar empiricamente, sentir na pele e decidir só depois. Deixa o menino fumar, uma hora ele decide se aquilo é bom ou não. A mocinha não pode sair de roupa curta porque é coisa de vagabunda. Porque aparece a bunda. Porque vai perder o respeito. Porque não vai arranjar um cara legal. Deixa ela! Vai ver, dentro do tubinho preto curtíssimo dela, quem sabe, ela perceba o que é o preconceito, o que são valores sociais idiotas e quais são as verdadeiras mentiras que as pessoas contam. Talvez ela encontre um namorado que goste das roupas dela, talvez ela descubra que o que importa é se sentir confortável e talvez um dia ela sinta frio e decida sair com algo maior. Mas deixe a mocinha decidir sobre o próprio corpo, as próprias roupas, a própria aparência e sobre a própria vontade.

Não pode beber porque é coisa de marginal, porque acaba com o homem, porque mulher de verdade não fica bêbada. Que grandes merdas a juventude ouve “da gente”, não? Os caras dão de frente com os pais bebaços de caipirinha na feijoada de domingo, com a família, mas não podem fazer o mesmo na baladinha de sábado com os amigos novos. A gente envelhece e começa a ficar cego para o quão hipócritas são nossas opiniões. Cinco anos atrás ninguém gostaria de ser censurado como censuramos os jovens de agora. Deixa os caras aprenderem com a vida: melhor aprendizado não há.

Aí a menina fica cansada da infância e decide dar uma olhada no que é que tem pra lá do playground, pra lá do condomínio, pra lá dos muros da escola. Aí a menina descobre que fumar maconha é legal de vez em quando, mas sozinha ela percebe que fica meio lenta e decide que não é bom fumar sempre. Aí a menina descobre que cerveja é ruim, mas é bom. Que álcool é divertido, e depois do primeiro porre, sozinha, sem bronca nem sermão, aprende que tudo tem limite e que agora ela já sabe até onde pode ir. Aí a menina descobre que variedade é bom, diversidade é ótimo e começa a beijar os menininhos do colégio, depois os amigos das amigas, depois o irmão mais velho da outra amiga e depois começa a descobrir que tipo de homem a atrai. Depois ela aprende que sentir prazer dá vontade de dar prazer e que dar prazer também dá prazer. E quando a vida vai caminhando para ela aprender todo o resto, uma porção de jovens-velhos se sentem na obrigação de intervirem, de salvar a moça, de impedir que ela seja uma “puta”. Quanto “20 e poucos anos” envelhecido precocemente, meu deus. Na boa, ensina que camisinha é lei e deixa a menina transar!

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Os verbos e o tempo deles

– atenção passageiros, não entrem em pânico! Isto é apenas um exercício.

Eu queria sair de casa com um maço de cigarros no bolso, um dinheiro no banco, algum lugar pra ir e, depois disso, não ter mais planos fixos. Eu sairia fumando um atrás do outro, caminhando ao encontro dos meus amigos, os mesmos de antes, os velhos amigos, e a gente ia passar algum tempo conversando, falando sobre a vida, lembrando das mesmas coisas boas, as memórias que voltam sem nunca cansar. A gente ia rir disso, daquilo, lembrar de coisas que não acontecem mais e depois decidiríamos ir a uma festa. Sempre tem uma festa!

O vento gelado entrando pela janela iria me trazer um sentimento de nostalgia macio e confortável. Seria como um daqueles alarmes sutis que a vida às vezes soa para nós, avisando que é hora de olhar a cena de fora, se colocar em terceira pessoa e perceber quanta sorte temos de viver determinados instantes com certas pessoas. Iria estar tocando The XX, dois carros, nove pessoas, amigos e amigos dos amigos, gente de sempre, gente a conhecer, numa noite dessas de começo de inverno, todo mundo fumando, gastando a juventude em larga escala a cada baforada. Tudo bem, ainda temos tempo.

Luzes de postes, faróis na outra pista estão vindo, letreiros, promoções, avisos… “Gasolina 2,899”. A gente entra na conveniência, é um Shell. Alguns ficam do lado de fora rindo, falando no telefone, fumando os últimos cigarros, enquanto eu e os outros estamos comprando coisas. Doze latas de cerveja, uma garrafa de vinho, quatro Marlboros Light e um Trident preto. Saio sorridente e sou atingido na cara por uma rajada de vento frio contrastante com o calor de dentro da loja. Distribuo as latas, fico com uma, acendo um cigarro e trago com força, sopro para cima desenhando uma coluna de fumaça no céu escuro. São quase onze da noite, eu quero tudo ao mesmo tempo e antes que alguém possa me impedir, beijo a garota que está ao meu lado. Eu não a conheço.

Enquanto minha língua dançava dentro da boca dela, ao fundo, ouvia uivos e gritos, como se um beijo assim, no meio da noite, fosse coisa nova. Não era, ou não deveria ser. Depois disso voltamos para os carros. Agora eu tinha alguém para me abraçar e não fumava mais. Ocupava a boca com beijos e carícias, ansioso pela festa, pela bagunça e por partilhar isso com alguém. Eu via a cidade noturna, segurava a mão dela, olhava seus cabelos balançando com o vento e pensava sobre como a vida era boa. A vida é boa!

Luzes roxas e verdes. Uma pista redonda, muita gente, cerveja por quatro reais no bar e consumação mínima de vinte e cinto pra cada homem, dez para as meninas. O paraíso em forma de balada. Beijos, olhares, sensações e gostos, muitos deles. Eu, ela, uma garrafa para cada um e o mundo todo ao redor. Dez beijos, treze apertões na cintura, duas mordidas na nuca e uma lambida na orelha. Placares, palavras, promessas e uma vontade incontrolável e crescente, em ambos. Duas horas, um sem número de apertos, arranhões, mordidas e lambidas. “Time to go!”

O táxi levou vinte minutos para chegar, e foram os minutos mais lentos da vida. O caminho até o hotel parecia longo, mesmo sendo há alguns quarteirões de distância. Levaria segundos no nosso mundo, dias no deles. O celular avisaria os amigos onde a gente estava, ninguém precisava estar preocupado. Foi intenso, simbólico e memorável. Drogas, álcool e uma porção de vontades estranhas, tipo aqueles desejos de rasgar a pessoa e entrar dentro, morar dentro, virar um só. Eu não fazia a menor ideia de quanto tempo ficamos agarrados, mas isso não era nem um pouco importante. O dia clareou. Acordei. Estou no meu quarto, uma mina com 24 anos nas costas, na madrugada de uma segunda-feira, tremendo, congelado, enquanto você ficava sem saber direito quanto tempos verbais tem nesse texto e pensando que, até agora, o protagonista, sem motivo, deveria ser um homem. Mas não era. Não iria ser!

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As coisas que pulsam

(esse texto é um exercício fantasiado de texto, ok?)

Em pé, descalça com os pés no chão de madeira, o horizonte das luzes no fundo escuro do céu é o limite. Os cabelos muitos pretos, muito compridos e vivos como cobras, sobrevoam os ombros, as costas e vão para trás a cada nova rajada de vento que entra pela janela. Ela ali, procurando com os olhos uma das luzinhas que faça alguma diferença. Mas não faz. São todas iguais. Sempre iguais. Assim como o vento, os cabelos e os cigarros. E fuma, para ter certeza de que este é exatamente idêntico ao anterior.

É o vigésimo nono, alto pra caralho e, por isso, olhar para o horizonte é um exercício de caça constante. Não se vê a forma das coisas exatamente quando se está nessa altura. Então são só luzes se movendo, construindo um cenário estático tão dinâmico que fica difícil de descrever. Afinal, você nunca percebeu que as luzes dos postes pulsam como as estrelas no céu? Deveria ter percebido isso há alguns anos, no mínimo. Quando você nasceu a iluminação de rua já pulsava firme, amarela, em lâmpadas de mercúrio.

As coisas pulsam para se mostrarem vivas, porque o morto não pulsa, porque não respira, porque não sangra, porque nada é. E se é, só pode ser morto mesmo. A ponta alaranjada do cigarro, que a gente estupidamente chama de brasa, mas não é, pulsa porque, vivo que é, o tabagismo precisa sugar a vida de quem o fuma. As estrelas, clássicas, pulsam porque vivem, simples assim. O coração pulsa porque quer nos manter vivos e os pulmões pulsam porque quer nos manter fumando. Vamos nessa linha de raciocínio e fica difícil aceitar que as luzes da cidade não pulsam. Pulsam porque querem nos cegar, se fosse para ver, de verdade, viveríamos no escuro, com as pupilas dilatadas, vendo os contornos granulados de tudo e todos.

Mas não. Era só uma janela na altura das coxas, num prédio bem alto e com mobílias antigas, com um corpo seco, um rosto quase feio de tão magro, e uma camiseta parecida com uma camisola, sobre um corpo que não vestia mais nada, nem perfume, por baixo. Era um cômodo vazio, só com janelas, paredes e chão, sem móveis nem lâmpada, nem quadros nem outra serventia além da que lhe cabia: ter a melhor vista da cidade. No canto, porém, tinha um cara, um outro rapaz muito magro, tão magro quanto a própria magreza pode ser. Ele fumava com o cigarro no canto da boca e dedilhava um violão com tanta delicadeza que os sons e as notas musicas tinham de se atirar, sozinhas, para fora do instrumento, em direção ao além, pois ele não parecia querer propagar sua música para ninguém.

E a cena era essa, com ela peladássa, com os bicos dos peitos quase rasgando a camiseta(sola), os cabelos malucos voando, ondulados, sem parar por todo o cômodo, com ele sentado no canto, tocando para si mesmo, ouvindo notas que ninguém mais ouvia, e tudo pulsando. O cigarro de ambos, o coração de ambos, o pulmão de ambos, a cidade de ambos, as estrelas de ambos, a vida de ambos, até que chegou a hora de parar. E desligaram a chave, apertaram o botão vermelho, digitaram o código de segurança, ou qualquer outra coisa apocalíptica, e tudo se apagou. A Lua tava com sono, foi dormir cedo, as estrelas foram embora também, os cigarros queimaram até o filtro e a cidade ficou sem energia.

Foi nessa escuridão que tanto ele, quanto ela, perceberam, pela primeira vez, que não estavam sozinhos ali. É que as vezes a gente vê tanta coisa, a vida e as luzes pulsam tanto, que a gente fica cego para o que realmente importa e está perto, fisicamente falando. Foi desse jeito, e por isso, que acabou a cena toda.

Fim, um beijo pra você, leitor(a)!

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A mágica e a decadência do cigarro

Hoje, no site do Casal sem Vergonha (http://www.casalsemvergonha.com.br) tem um texto meu sobre cigarro, relacionamento, os prós e os contras de fumar e de ficar com quem fuma. Como eles me disseram, por mais que eu seja muito contra, não posso condenar os fumantes, então o texto lá gira em torno do bom-senso e das políticas da boa vizinhança dentro dos casais para que o cigarro não faça tanto estrago.

Mas quem me conhece pessoalmente sabe que minha tolerância é bem baixa. Nunca disse para os meus amigos que eles deveriam parar, ou fiquei incentivando gente fumante a entender o quanto isso faz mal. Não precisa! Todo fumante sabe que está fazendo muito mal a si mesmo. O que eu sempre exigi foi no mínimo um pingo de respeito, o tal do “bom-senso” e entre os meus amigos sempre fui atendido na medida do possível. Afinal, sempre fui minoria vencida.

Mas não posso dizer que não concordo também com o lado icônico e romantizado do cigarro. Aquela coisa da elegância, do glamour de fumar, sempre me atraiu. Acabou que não me fez um fumante, mas um admirador de figuras que fumam com certa beleza. Por isso, aproveitando a maioria de amigos fumantes que me cerca, ano passado fiz um livro virtual sobre meus amigos fumantes e sobre como é a relação DELES com o cigarro.

Impressionantemente percebi que muito fumante é mais escravo do que apreciador. Por isso o nome do livro é MEU [PIOR] MELHOR AMIGO, afinal, o cigarro ajuda e atrapalha na mesma proporção, todo fumante. Não publiquei, não vende em banca e etc, simplesmente por falta de gente que acredite no projeto. Mas tudo bem, isso é o de menos. O importante é ele existir! Por isso, aproveitando a deixa do CSV, gostaria de te mostrar o meu livro. Você pode vê-lo em alta definição neste link: http://issuu.com/danielbraz/docs/meupiormelhoramigo, assim vocês podem ler as entrevistas e etc. Caso alguém pergunte, fui eu que fiz tudo, fotografias, diagramação, entrevistas e edição. Deu trabalho, mas valew muito e serviu para me tornar um pouco mais tolerante…

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E fumava…

Fumava, fedia a cigarro o dia todo, coçava o saco o dia todo e ficava na janela o dia todo. Magro como um pau, branco como um pão tirado do forno antes da hora, com os cabelos já na altura dos ombros, pretos e sebosos, um bigode desgrenhado e cheio de falhas, uma tatuagem bem deformada no antebraço esquerdo. Um dia fora uma água, hoje era uma mancha, como um câncer de pele ou uma queimadura. Era um homem feio, pouco cheiroso e fumava.

Caminhava pela casa de quatro cômodos como quem não vence o tédio. No andar de baixo um boteco fantasiado de padaria e lanchonete, em cima, a casa, ele, um chão de tábuas de madeira clareadas quimicamente e só. Bebia café em copo americano, fumava um cigarro depois do outro, com calma, mas sem pausas, ficava de calças jeans e cinto, sem camisa e sem calçados, olhando para as janelas abertas e vendo os dias passarem. O dinheiro só vinha, ninguém sabe como, mas vinha. Todo fim de mês ele caia na conta, vindo de alguma fonte e ele gastava tudo com comida mínima, muito cigarro, pó de café e prostitutas. Adorava prostitutas, não era muito bonito e fumava.

Pelo bairro tinha fama de ser roludo. Teve até uma história sobre uma putinha novinha, talvez adolescente, que não aguentou e foi embora sem cobrar. Era um ritual com hora e dia marcado. Toda segunda, quarta e sexta-feira, por volta das duas da tarde, aparecia uma moça de aparência duvidosa tocando a campainha na porta lateral do boteco. Todo mundo já sabia o que era. Quando a moça subia as janelas se fechavam, para abrirem três horas depois, quando viam-na saindo. Não tinha preferências. Eram gordas, velhas, negras, brancas, magras, jovens, altas, sérias, coloridas, baixas. Contratava todas sem preconceitos. Era comedor de puta, sem preconceitos, branco e fumava.

De noite, se não estivesse muito frio ou chovendo, deixava a janela da sala aberta, apagava as luzes de dentro da casa e no silêncio da escuridão, depois do boteco já ter baixado as portas, tocava violino para as estrelas. Ficava lá, tocando muito bem, diga-se de passagem, olhando para o mundo adormecendo, fumando pelo canto da boca e dedilhando o instrumento por horas. Ninguém mandava parar porque era bom mesmo, mas mesmo que mandassem, ele não pararia. Era o tipo que namora a noite, que curte seu próprio momento e aquilo era importante. Era músico virtuoso, amante das estrelas e fumava.

Um dia decidiu tomar banho durante horas. Avisou o boteco que a água da caixa ia acabar, entrou no chuveiro com cinco sabonetes, muitos vidros de xampu e só saiu quando já tinha lua no céu. Ficou cheiroso, com cabelos levemente enrolados como se fosse um vocalista de banda indie, fez a barba e o bigode e de repente pareceu bem menos feio. Plantou flores nas jardineiras das janelas, que andavam cheias de terra e poeira. Ligou pra uma prostituta inédita, como sempre e transou de janelas abertas, deixando a vizinhança assustada com os gritos e urros da moça durante a tarde toda. Naquele dia a moça não foi embora e ele não tocou violino. Era limpo, cabeludo, bom de cama e fumava.

No dia seguinte a mesma moça gritou durante todo o dia. No fim da tarde ouvia-se apenas o ranger dos móveis, o som do chão, mas ela, já rouca, não emitia som algum. Durante a noite eles foram vistos na janela, nus, se beijando e olhando para o céu. Ela ficava olhando para as estrelas, ele apontava cada uma e explicava coisas sobre o céu, o espaço, os signos, o amor, a paixão e a morte. Ela sorria, colava seu corpo ao dele e se sentia protegida. Ele segurava o cigarro entre os dedos indicador e médio e apontava constelações, falava de poesia e música clássica, antes de tragar e contar mais. Era romântico, inteligente, atencioso e fumava.

Um dia ele morreu. Morreu feio, cabeludo, de bigode, sem camisa, com o pau comprido esticado sobre a barriga seca, mole, cinza, com as flores morrendo nas janelas, com a casa uma zona, com o telefone sem tocar, com a campainha sem ninguém para apertar, sem ninguém por perto. Passou a noite sem violino, passou a madrugada sem estrela, sem lua, sem horizonte e signo. Passou a semana sem dar as caras, morto no chão da sala, esticado e ninguém soube de nada, ninguém soube nem seu nome. Morreu sozinho, no escuro, tossindo igual um idiota, fodendo tudo ao redor, com dor e sem ar. Morreu feio, pouco cheiroso, adorando prostitutas, livre de preconceitos, branco, músico, amante de astrologia,  sendo bom de cama, tomando banho todo dia, com os cabelos já passando dos ombros, romântico, inteligente, cheio de atenção para dar e fumando. Na verdade morreu só porque fumava, o resto só servia para mantê-lo mantinha vivo, mesmo…

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