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Boa noite, povo!

Batendo palmas e dançando dentro de um vestido de tecido simples, estampado de flores azuis e amarelas, ela entrou na sala e roubou a atenção de todos. Havia uma luz intensa e nítida ao seu redor, como se algum spot de luz houvesse iluminado a personagem principal de uma peça que acabava de começar. Era ela a personagem. Só que não havia teatro, nem spots, nem mágica. “Em algum lugar, em uma dobra do tempo muito longe daqui, existe uma estrela com o seu nome e ela brilha em contagem regressiva até o dia em que você tomará seu lugar”. Foi o que ela me disse.

Dançava como se estivéssemos em um grande baile, uma festa animadíssima, mas a música que tocava só ela ouvia, a energia da pista de dança só era sentida por suas pernas e os pés, que deslizavam com habilidade, exibiam uma lista de passos decorados que ninguém mais sabia executar. Era uma bronca, essa dança dela! Quem mais estava na sala comigo? Sem perceber, comecei a perder a noção do entorno, como se aos poucos, conforme evoluía no dançar, ela me separasse do resto para dar um recado particular.

Em dado momento passei a me questionar se ela era uma só ou se havia alguma chance de serem duas, doze, duzentas ou número maior. Sentia a presença de muita gente na sala, todos sabendo dançar um ritmo que nunca fora apresentado a mim. As cores do vestido e a leveza do tecido desenhavam cenários surreais, como se fossem mapas de destinos que eu deveria visitar em algum momento entre esse evento inusitado e o fim dos meus dias. Que tipo de medo é o sentimento de não querer saber uma novidade que estão prestes a nos contar? Eu não sabia se queria saber, mas tinha certeza de que aquelas mulheres, aquela mulher, queria ou queriam me dizer algo.

Veio ao meu encontro, me abraçou com braços fortes, me puxou de encontro ao seu peito quente e acolhedor e entrou para dentro dos meus olhos. Eu via o que ela queria me mostrar. Mesmo que fosse de fora, me sentia um observador participante de cenas que nunca ocorreram na minha vida conhecida. Mesas enormes com comidas que nunca provei estavam tomadas de pessoas enormes e importantes vestidas de forma exuberante. Por algum motivo eu sabia que eram importantes. Líderes de alguma coisa? Sábios? Gente que ainda não tinha involuído de alguma forma? Senti uma extrema vontade de sorrir.

“Boa noite, povo!”, eu disse em saudação, sem palavras, porque nesse banquete as conversas se davam de outro jeito. Alguém sem rosto tocou minha testa e então me separei do corpo. Me vi parado olhando para a enorme mesa, a dançarina do vestido florido logo atrás de mim, em uma postura muito semelhante à minha e a cena acontecia sem minha interferência. Ouvi uma música, como um grande coral muito bem ensaiado e senti meu corpo pesar uma tonelada. Desmanchei no chão e senti minha cabeça se chocar contra algo duro e frio. Quando recobrei a consciência ainda eram 10h da manhã e tinha um dia inteiro para viver. O tampo da mesa do trabalho tinha a marca da minha testa. Eu sabia que não tinha sido um sonho e senti vontade de perguntar a mim mesmo onde eu estive. “Você deu um pulo em casa, mas já voltou”, respondi a mim mesmo.

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Skinny Love

Ela dançando na sala, as luzes apagadas e o abajour do canto iluminando só os contornos dos móveis. Poucos móveis porque sempre gostei de andar pelos cômodos, gosto de passar pelos lugares e sentir os pés tocando cada pedaço de chão da casa, então não perdi tempo comprando tapetes, aparadores, mesinhas e coisas do gênero, que na verdade só servem para atrapalhar o caminho. Um sofá comprido, pra uns 10 lugares, tomando conta do canto da sala. Na ponta, um abajour de tripé, na parede três linhas de prateleiras com quadros, fotos e livros. No chão um móvel com um aparelho de som e algumas esculturas sem importância. Na parede oposta à do sofá, duas poltronas marrons de tecido macio olhavam para a varanda, enquanto, nas costas delas, duas cadeiras pretas pintadas com tinta fosca olhavam para o centro da sala vazio e reluzente. Ali estava ela.

Dançava com as pernas juntas, balançava a cintura de um lado para o outro, dobrava os joelhos delicadamente e fazia movimentos aéreos com os braços ao redor do corpo, enquanto movia a cabeça em trancos ríspidos fazendo a cabeleira flutuar no ar. Sentado em uma das cadeiras, ocupando uma das mãos com um copo generoso, assistia àquela dança sensualmente hipnotizante como se fosse um evento sobrenatural. Não parecia sensato ou mesmo possível que alguém tivesse aquele corpo. Na sombra amarronzada misturada com o brilho amarelo da luz uma porção de curvas inéditas se apresentava em movimentos curtos, contidos e perturbadores. “Slide, slide, slide … lose yourself to dance”, dizia a música que tocava, e ela deslizava pelo chão de cimento queimado liso, vestindo apenas meias pretas que se seguravam folgadamente às suas coxas.

Os cabelos eram compridos e lisos, vivos, balançando de um lado para o outro, quase com vida própria, e ela sorria – eu ao menos imaginava que sorria, já que não via muito bem seu rosto – enquanto dançava perdidamente pela minha sala. Eu bebia a goles curtos e suaves, sem descolar os olhos e observando as curvas. Mais do que curvas, eu observava a sombra que elas formavam, os contornos e os desenhos que produziam naquele corpo inédito. Essa é a melhor palavra para definir o corpo daquela garota: inédito. Eu nunca vira alguém com um corpo daqueles sem roupa ao vivo. Só em fotos de revistas, coisas de internet e afins, mas na vida real não havia encontrado nada parecido. Depois ela veio roçar as pernas duras em minhas coxas e sentar no meu colo, inesperadamente pesando menos que uma pluma. Eu passava o copo gelado pelo meio de suas costas e sentia sua pele se arrepiar por inteiro, dos pés à cabeça, enquanto ela passava a língua atrás da minha orelha.

No dia seguinte acordei sem me lembrar que estava acompanhado. Apenas ao olhar para o cabelão misturado com o lençol foi que me recordei da dança, dos copos, do sexo, dos gritos, das risadas, da sacada, da mesa da cozinha, das acrobacias e todo o resto. Tinha sido uma noite muito louca, para definir o mínimo. Ela dormia calma, respirando lentamente e eu, agora amparado pela luz do dia, olhava hipnotizado para seu corpo. Uma menina de 20 e poucos anos, um rosto lindo e delicado, um braço rebelde tatuado quase até o cotovelo e um corpo raro, de formas difíceis de encontrar e mais ainda de manter. Tomei banho e quando voltei ela estava se vestindo, deixando claro que as roupas lhe sobravam em muitos dedos por todos os lados do corpo. Ela me sorriu um riso tímido e eu retribuí na mesma medida. Era a garota mais magra que eu já tinha visto na vida.

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Quem não atira, não dança

Na minha terra sempre foi assim. Tem que saber das coisas da vida, do girar do mundo e tem que saber atirar. A felicidade vem da segurança e isso a gente só consegue na base da bala. Matando um leão por dia, um vizinho por hora, derrubando e sambando de felicidade. Lá sempre foi assim e acredito que se hoje, meio que por acaso, eu tropeçar e cair lá, vou perceber que nada mudou. Não muda porque funciona e em time que ganha a gente não mexe.

Aposta-se uma vida em troca de outra e perde-se duas por não saber jogar. Tinha gente que ficava órfão antes mesmo de nascer, pois chegava ao mundo para dançar com a aposta já feita. Era assim todo dia, até morrer quase todo mundo e o jogo começar a se tornar familiar, simples e as vitórias começarem a vir. A vida é como o quintal da minha antiga casa, que crescia todo dia, engolindo a casa dos outros, derrubando as cercas e os murados pra se esticar até onde os olhos enxergavam. A gente sentava na varanda, todos o Braz, e assistíamos ao final do dia o quintal “enlarguecer”, como dizia a minha avó.

A gente ria, deixava tomar conta de tudo, arriscando causar briga com os vizinhos, com os outros moradores, com os outros sobrenomes, mas ninguém sentia medo. A gente dançava, se é que você me entende. Lá em casa todo mundo sempre viveu na beira da saia, de passinho em passinho, sem coreografia, sem ensaio, só dançando em paz. A paz, essa coisa branca e bonita que todo mundo quer, mas ninguém reconhece quando já a tem, só vinha porque a gente sabia dançar bem, muito bem.

Sendo assim, era de se esperar que todos fossemos bons de bala. E eramos ótimos! Matávamos um problema por dia, uma saudade por hora, um desejo por minuto e vivíamos rindo e deitando cartuchos vazios pelas varandas e terrenos da casa. Nossa família, indivisível como os dois lados de uma moeda, atirava a esmo, acabando com os outros existentes, com os nomes que a gente ouvia só ao longe e íamos crescendo nosso espaço, nosso mundinho “Brazeano” até o quintal virar o próprio mundo e a propriedade perder autoridade.

É o mal de crescer-se demais. Perde-se o controle dos pedaços menores, mas importantes. E aí a gente dançava, para rir a falta de controle, a bagunça, a anarquia e a desordem. Qual é o Braz que não admira a desordem? A gente seguia atirando no horizonte, m,atando o Sol pra trazer a Lua e continuava a festa ao redor da fogueira, num lugar onde as estrelas iluminam os caminhos que a pessoa deve seguir na vida, para no fim, virar estrela guia também.

A moral da história da casa que não se contentava em estar no centro era a de que, para sorrir, era preciso se arriscar e que, para correr riscos, era preciso saber morrer, como quem perde no jogo hoje paga ganhar amanhã. Meus parentes nasciam todos os dias e ninguém duvidava de ninguém. O sangue vale mais que a palavra e a conversa era feita no solado das sandálias. Eu ficava na porta, esperando o mundo se esticar e dar a volta no planeta até chegar pelos fundos, nos varais da casa e se acalmar para todos dormirem. A gente atirava pra todo lado, perdendo e ganhando tudo, mas crescendo todos os dias.

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Esses caras não sabem nada sobre essas meninas

Esses caras não sabem nada sobre essas meninas. Não sabem porque escolheram não saber, preferiram a segurança do raso, do simples, da opinião superficial nascida de duas ou três cenas suspeitas que viram em festas, casadas com umas fotos de ângulos depreciativos e mais uma meia dúzia de boatos que nunca poderão ser comprovados. Uma porção de caras que olha pra essas meninas sentindo a falsa segurança de saber exatamente quem são, o que pensam, como erram, quais são seus desejos, suas fraquezas e seus pontos fortes. Acreditam serem superiores por possuírem informações particulares sobre elas, mas que, na verdade, não dizem nada sobre ninguém.

Esses caras não sabem nada sobre essas meninas. Têm opiniões tão distorcidas que, em alguns comentários aleatórios que ouvi, tive dúvidas sobre quem estavam falando. Às vezes penso que eles se esquecem que elas saem para a rua, fazem o que quiserem fazer, mas depois voltam para casa. Uma casa normal, com mãe, com pai, com irmão, com beijinho na careca do vovô no final de semana, com lasanha, com cachorro, com viagem de ano novo, com um monte de coisa de gente comum. Tem cara que pensa que essas meninas nasceram dentro de uma balada, só vivem de festa, funk, black e goró. Porra, que absurdo pensar que todo mundo é tão vazio quanto eles são.

Esses caras não sabem nada sobre essas meninas. Isso acontece porque o ciclo de relacionamento com elas é mínimo, repetitivo e superficial. Eles as conhecem e, de cara, se interessam no caminho para entrarem debaixo de suas saias. Depois eles se sentem frustrados diante das negativas e começam a julgá-las por suas roupas, porque dançam, porque bebem, porque ficam bebaças ou porque fumam demais. Não importa, tudo será defeito, mesmo que não seja. Depois, diante do “foda-se” pra esse monte de absurdos, eles começam a criar histórias, verdadeiros mitos incríveis sobre coisas que elas supostamente fizeram, como fizeram, com quem fizeram e, claro, sempre tem muito sexo e pouca testemunha nesses depoimentos. Se fizeram ou não, ninguém sabe, mas caso seja verdade, nunca foi feito com quem espalhou a história.

Esses caras não sabem nada sobre essas meninas. E não sabem mesmo! Pica nenhuma! Nem o nome, porque apelido hoje vale mais do que R.G. Não sabem porque não conseguem conversar, não têm assunto que prenda uma mulher sentada por mais de cinco minutos. É sempre a mesma merda, com os mesmos históricos, as mesmas piadas, o mesmo bla bla bla eterno sobre as mesmas pessoas. Esses caras não perguntam nada inteligente, não falam da faculdade ou do emprego delas (porque talvez nem pensem que elas têm algum trabalho), não perguntam sobre gostos pessoais, não emplacam alguma conversa com reflexão, nem que seja sobre um filme que passou esses dias na TV. Eles simplesmente não se interessam por elas como pessoa, só como diversão, como enfeite, como paisagem. Elas são bem mais que isso, pode apostar!

Esses caras não sabem nada sobre essas meninas. Eles não fazem ideia de quanto elas estudam, trabalham e se esforçam para crescerem profissionalmente. Eles nem imaginam que debaixo daquelas roupas provocantes, daqueles sorrisos espalhafatosos, das danças sensuais, existe uma mulher que também quer ter filhos, também quer ter uma família e também quer alguém que queira abraçá-las antes de dormir. Elas também gostam de chocolates e flores, também gostam de conversar sobre investimentos, dinheiro, carreira, planos pro futuro e até futebol, por que não? Eles não pensam que essas meninas têm sentimentos e que deve ser foda saber que um monte de gente fala absurdos falsos sobre elas. Essas meninas são mais profundas do que tudo isso.

Esses caras não sabem nada sobre essas meninas. Não sabem o quanto elas podem ser amáveis, românticas, dóceis e meigas se forem tratadas como merecem. Eles não sabem como podem ser sensuais dormindo, como pode ser divertido passar a tarde na sala de casa comendo besteira e vendo os programas ruins na televisão ao lado delas. Eles não sabem sobre suas preferências, nenhuma delas, mas poderiam se surpreender caso começassem a aprender mais. Eles não sabem que elas sabem de cinema, que ouvem samba de roda, que têm tradições familiares sólidas, que são vegetarianas, que não têm pai, que têm irmão mais novo, que têm uma porção de medos bobos que jamais aparecem. Elas são tão incríveis, cheias de segredos e virtudes, que quase não dá pra acreditar. Elas sabem de seus próprios valores, eles não.

Esses caras não sabem nada sobre essas meninas e não dão o mínimo valor para as pérolas e diamantes que têm diante de si. Se perdem admirados em uma figura atraente e esquecem de lembrar que todo mundo é um universo a ser explorado. Esquecem que dançar no pole dance não deixa ninguém mais burro ou menos interessante. Esquecem que beber mais que um homem não deixa mulher nenhuma menos bonita e nem sem valor. Esquecem que não sabem de nada pensando saberem tudo e que esse tipo de preconceito nunca dá certo. Esses caras vão saber alguma coisa sobre essas meninas quando um homem de verdade sair da caixa, passar por cima do monte de merdas “que o povo conta” e mergulhar nesse monte de mini universos fascinantes. Eles vão saber quando um amigo contar que essas meninas são incríveis, que estão felizes ao lado delas e que, mais cedo ou mais tarde, iria aparecer a pessoa certa. Elas aparecem certas para os caras certos!

Mas esses caras não sabem nada sobre essas meninas e isso é um problema só deles.

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