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É impossível ser perfeito

É difícil pra mim, porque se tem duas coisas com as quais eu nunca lidei bem, essas coisas são a perfeição e a eternidade. Ficava difícil, desde criança, aceitar que alguma coisa poderia ser para sempre, imutável, sempre ali, existindo, sendo, fazendo seja lá o que for. A palavra “sempre” é tão abstrata que a gente nem percebe o quanto usa, e usa além da conta. Eu lembro que desde moleque eu ouvia aquela música da Cássia Eller com o Nando Reis, “Relicário”, que eu sempre gostei, me lembra minha mãe e tudo mais. Mas tem uma parte em que se diz “eu trocaria a eternidade por esta noite” e puts, canto com um certo receio, como se estivesse engolindo seco. Não dá, ninguém troca a eternidade por uma coisa só, até porque, a eternidade é inédita pra todo mundo.

Mas tudo bem, porque esse conceito de eternidade fica para outro dia, outro bar. O problema é que o conceito da perfeição, esse sim, não me abandona. Durante muitas fases da minha vida me peguei assustado, ou decepcionado, me perguntando porque é que eu não acertei. A gente acerta a maioria das vezes, é um fato, mas ficam na memória só os fracassos. E eu pensava neles o tempo todo. Hoje em dia a cobrança deu uma mudada. Até porque, quando se é moleque, você tem que comparecer às reuniões de família, estudar bonitinho, ir bem nas provas, não repetir de ano e, no geral, você é perfeito. Mas nem isso eu consegui porque, apesar de nunca ter repetido, ia mal pra cacete nas matérias de exatas e passava na base da macumba, mandinga, simpatia, promessa e tudo quanto é coisa divina. Minha 8ª série foi, de fevereiro a dezembro, na base da crendice e da fé no além, porque olha, só por Deus mesmo!

Depois você cresce um tanto e aí se torna quase impossível ser perfeito. Porque você tem que ser responsável, mas ter hábitos de quando você era criança, como ficar sempre perto da família, coisa que ninguém faz muito bem. Depois espera-se que você não beba, enquanto você já tem um drink preferido, já sabe que vodca, cachaça e saquê são coisas bem diferentes e está vomitando todo fim de semana. Depois espera-se que você não se meta em confusão, enquanto você já decorou os jargões policiais de tanto tomar enquadro. No final espera-se que, já que está tudo perdido, que ao menos você não use drogas, enquanto você já sabe como é a viagem de maconha, de lança-perfume, de mescalina, de ecstasy, de LSD, de cocaína, de cogumelo, de lírio e de fita. Nenhum adolescente consegue ser perfeito.

Mas quando passa a fase das experimentações e dos exageros a gente dá uma acalmada, tenta arranjar um emprego legal, que nos dê algum dinheiro sem nos tirar muito da vida, arranja alguém pra dividir o tempo, namora, namora muito, fica junto pra caralho, depois decide que está sério e aí vira um relacionamento, que pode ser namoro mesmo, ou noivado, ou casamento, ou só morar junto, que é o casamento sem a parte chata e cara. Então é hora de você ser perfeito novamente, e você, assim como nas outras fases da vida, vai falhar. Acredite, você vai falhar!

Você vai falhar porque às vezes é bom cuidar só de si mesmo, porque você vai ter ideias que não podem ser realizadas a curto prazo porque agora você tem responsabilidades a dois, porque você vai querer iniciar projetos que precisam ser feitos durante uma intensa imersão de solidão e, dali pra frente, você não vai mais ficar sozinho, ou é o que se espera. Você vai falhar porque vai falar o que quer, porque tem horas que os filtros que mantém a política da boa vizinhança vão falhar também e você vai ter opiniões racistas, atitudes preconceituosas, pensamentos inapropriados e isso tudo vai culminar em palavras e ações que vão te foder. Você não vai mais ser o filho perfeito, nem o amigo perfeito, nem o namorado perfeito, nem você mesmo vai se achar tão bom quanto costumava ser. Vai duvidar das suas certezas, vai querer pensar sobre porque é que é tão difícil agradar, porque é que as coisas estão sempre do lado oposto ao que você escolheu e, por fim, vai se perguntar porque é tão difícil acertar sempre. Você, você, você, você, você, você e de repente vai parecer que não tem mais ninguém no mundo.

Depois vai ficar claro que a autocrítica mata o ser humano à partir do momento em que ele deixa de enxergar os erros dos outros e passa a ver só os próprios. Ninguém é perfeito, as pessoas não te agradam o tempo todo, suas expectativas também são frustradas diversas vezes, você também esperava mais do seu trabalho, assim como seu chefe esperava mais de você. Seus familiares foram tão ausentes quanto você foi, seus amigos disseram, fizeram e pensaram tantas merdas e traições quanto você, seu parceiro também te magoou, também disse coisas que você não gostou, também decepcionou, frustrou, não atendeu às suas expectativas e, mesmo assim, a vida seguiu em frente. Então relaxa, aceita, fuma um cigarro, mesmo que você não seja um fumante, ou, se preferir, troque por um porre de pinga pura, tomado num copo de café, e depois se levante contra o mundo.

Eles não são perfeitos, cara, nunca foram, são péssimos, tão ruins quanto o resto de todo mundo. Você não precisa se preocupar, é impossível ser perfeito… eu prometo!

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Limpeza da alma

Eu bebia para vomitar aos litros. Não escondia de ninguém, mas também não ficava pedindo atenção, querendo ser o rei da gorfada, o mestre do “passar mal” de bêbado. Esse era meu plano, simples, eficaz e primitivo: vomitaria tudo. Os outros diziam que eu bebia para esquecer, que era refúgio, que eu estava tentando esconder tudo que eu sentia atrás de garrafas e mais garrafas de álcool. Todos estúpidos, não sabiam de nada. Na verdade eu não escondia, nem fugia de nada. Estava metido até a tampa no meio dos meus fracassos e decepções, lembrando sempre de cada uma das minhas tristezas e bebendo para botá-las para fora. Esse era o plano: vomitar tudo de ruim que estava guardado dentro de mim.

Eu abria as pernas e apoiava as mãos na parede como se estivesse sendo revistado, mas era só o gesto de preparação para o exorcismo. Eu sentia que não aguentaria beber mais nenhuma gota, aí virava a garrafa direto na garganta, sem tocar os lábios, e sentia o fio de álcool descendo a garganta. Era como jogar um fósforo aceso numa câmara de gás. Voltava tudo na hora, no mesmo segundo, como uma explosão, eu vomitava tudo. Forçava o abdome e ia botando tudo pra fora, apoiado na parede, vendo uma porção de coisas acertarem, ou não, a privada. Geralmente eu botava pra fora fotografias e músicas, coisas que passavam fácil pela garganta, tinham formato amigável e amoleciam misturadas no suco gástrico. Mas às vezes vinha uma porção de frases, palavras, juras e sentimentos e esses, enormes como são, me faziam ter a sensação de que, mais dia menos dia, eu perderia a cabeça tentando vomitá-los.

Eu me esvaziava de lembranças e sentimentos para ver se conseguia viver em paz. É como uma garota que enfia uma escova de dentes no fundo da garganta para não engordar depois do almoço. Eu vomitava para não engordar o peso na consciência, os apertos no coração e a saudade, que já nasce obesa naturalmente. Às vezes eu tomava laxante. Misturava uma porção enorme do líquido cor de rosa com cerveja, que é diurética, e ficava no banheiro. Era o mais próximo que eu pude conceber fisicamente do que eu pensava ser a realização da palavra “purgatório”, mas sem precisar morrer. Nesses dias de limpeza pesada eu mandava embora as brigas. Essas eu cagava porque não queria nem ver como eram, que cor tinham e de que tipo foram. Eu as misturava com o produto de um desejo infinito de mijar a vida inteira, expelindo uma porção de crises de ciúme que ficaram em silêncio, cinismos que escondiam explosões de humor, mas que se resumiam a caras fechadas e sorrisos amarelos. A parte ruim eu deixava o corpo perder sem me mostrar.

Eu também derretia algumas coisas. Me trancava no quarto, ou viajava pra praia e tomava muito ácido. Ficava alucinado gritando uma porção de dores e tristezas. Berrava uma porção de coisas que eu deveria ter dito e não disse, uma porção de cosias que eu ouvi e não deveria ter ouvido, uma porção de coisas que eu vi e não deveria ter visto, uma porção de coisas que eu fiz e não deveria terem sido vistas por ninguém. Eu gritava os perdidos que eu dei. Gritava as vezes que fui traído. Gritava todos os dias em que fiquei sozinho pensando absurdos. Gritava as maiores frustrações do mundo. Depois eu começava a ficar sem voz, o corpo esquentava absurdos e eu suava. Suava litros, perdia água como quem abre as portas de uma barragem. Nessas eu suava as melhores coisas. Deixava sair pelos poros todas as vezes que eu disse que foi o melhor sexo da minha vida, todas as vezes que era a mulher da minha vida, todas as vezes que eu dizia que seria pra sempre e expurgava todas as coisas que eu queria que tivessem sido reais.

Ficava no canto, tremendo de ansiedade e euforia, suando muito, pela testa, pelos braços, pelas costas, pelos pés e deixando sair tudo que era lembrança boa. Eu suava as risadas dela e via as gotas escorrerem, suava as viagens, suava os rostos, as caretas, as coisas que me faziam rir, as piadas e ia esquecendo de tudo. Evaporava cada coisa boa e ia ficando leve, perdendo passados e memórias de coisas que nunca mais iam se repetir. Ficava muito louco, com as pupilas parecendo bueiros abertos e as lágrimas se juntavam com as gotas de suor. Eu chorava, bem de vez em quando, uma porção de coisas sérias, como imagens de parentes que eu queria trazer para a minha própria família, comidas que eu nunca mais vou comer, sensações, texturas, cores e sons que eu nunca mais vou ouvir. Eu chorava porque perder lembranças boas exige coragem e eu sempre fui covarde pras dores do coração e da alma. Lavar a alma é dolorido, cansa, dá trabalho e cobra cobra-se caro pelo serviço.

Depois de duas semanas eu estava limpo, uns cinco quilos mais magro, completamente doente e fraco. Delirava de desidratação, ficava perdido entre o que era dia e noite, sobre os dias da semana, os pagamentos que não vinham, os bichos púrpuras que quebravam as janelas, as flores que cresciam dentro do microondas, os cabelos presos na maçaneta da porta, as pulgas dos sofás da cozinha, o telhado da casa do cachorro, um cara que escovava os dentes antes de mim e deixava a pia toda suja de pasta, uma mina que ficava chupando a boca de um cano de escapamento velho sentada no quintal dos fundos, o carteiro que vendia um monte de balinhas estranhas pra molecada da região, a baleia que voava por cima da minha casa a cada quatro horas e trinta e sete minutos e muitas outras alucinações. Quanto estava tudo branco, como se fosse uma morte-viva, uma inconsciência planejada, eu me esquecia de lembrar de tudo que era de antes e me convencia de que o mundo era uma incerteza infinita, exceto por uma única coisa: “preciso me apaixonar por alguém”, e me jogava na morte outra vez.

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Coração de liquidificador

Junta 500 ml de leite semi-desnatado, três colheres de açúcar, cerejas a gosto, uma xícara bem servida de leite condensado, dois cubinhos de chocolate amargo, só pra dar a quebra, um coração partido, um nome macio de ouvir no escuro, umas duas ou três fotografias, coloridas, de preferência, um beijo de língua bem molhado e depois tampa. Bata na velocidade máxima, das que fazem o liquidificador quase pular pra longe. Deixe bater por, mais ou menos, três meses. Beba sem cerimônias!

Vai engolindo cada lembrança amarga, cada memória dolorida e sente o doce exagerado do resto dos ingredientes. Gostar de alguém é doce a ponto de dar ânsia, mas vicia e tem gosto de coisa que não dá pra comer uma só. Gostar de alguém é como comer pipoca. Você nunca vai parar de comer logo após mastigar o primeiro milho duro camuflado ali no meio da tigela. Vai doer o dente, vai se assustar com o estouro, vai ficar puto, mas vai continuar comendo outras, e outras e mais outras centenas de pipocas.

Dar o coração para alguém é mais ou menos por aí. A gente fica puto, dói, assusta, mas a gente nunca para. Aí a gente bota tudo num coquetel de coisas doces e engole as piores lembranças cuidadosamente cobertas e misturadas com sabores agradáveis e vai percebendo que o sofrimento de gostar também é doce. Sofrer por alguém é ruim como o inferno, mas tem seu prazer masoquista, seu sabor agridoce tão especial. Todo mundo um dia vai sentir o doce sabor do amargo da perda. Acontece com 100% dos seres humanos, mais cedo ou mais tarde.

Mas os caras são tudo uns imaturos filhos das putas! Não tão valendo um centavo. É um tal de esfolar o pau em qualquer buraco que não dá vontade de se apaixonar. Não existem companheiros, amigos, cúmplices, gente em quem se possa confiar. Não tem um que me passe segurança, que me mostre que o futuro ali vai ser diferente. São todos moleques com ereções que nunca terminam, comendo qualquer garota que aparece . Dá a impressão que nada é confiável, que nenhuma palavra é verdadeira e que depois que ele beijar meu pescoço, me arrancar uns arrepios e achar a chave do zíper da minha calça, nada mais de mim vai valer a pena. Não existe um pingo de respeito, nem um pingo de consideração. Encontram comigo no dia seguinte como se fossem amigos distantes e não se preocupam em parecerem gentis, ou ao menos respeitarem o que fizemos na noite anterior. Estão todos me olhando, estão todos rindo, ele contou pra todo mundo!

Mas as meninas são todas umas prostitutas! Não tão valendo um centavo. Num grupo de dez amigos a mesma menina já ficou com oito, está de casinho armado com mais um e o último é feio, se não teria pego também. E a história é diferente pra cada um, como uma atriz, uma falsária que nunca se comporta da mesma maneira e faz o jogo sempre diferente. Como é que você vai se apaixonar por uma menina que não sabe se quer só sexo, só amor, os dois de um cara só, nenhum dos dois de todos eles, porra nenhuma ou tudo junto. Jogam o discurso do sentimental desejo de fazer tudo certo e estragam meus sentimentos mais sinceros ficando com meus conhecidos, meus inimigos, desconhecidos anônimos e aparecendo macias, cheirosas e doces para perguntarem se eu estou bem. Eu não tô bem, tá todo mundo olhando pra mim, tá todo mundo rindo, ela já trepou com todo mundo!

É esse monte de coisa que fica amarga no fundo da garganta, que aperta o peito forte e faz com que as palavras comecem a sair meio truncadas, como soluços, como engasgos e tudo vai perdendo a razão de ser. Aí a gente vai pra cozinha, junta todos os ingredientes, tempera com um pouco de vodka, que é pra dar a liga, e joga o coração amargurado lá dentro. Faz o milagre da trituração e depois bebe tudo, meio litro de doçura e amargura na medida certa pra encher a forma de um coração novo, com histórias antigas pra servir de exemplo, mais preparado e maduro, mais ligeiro e agressivo. Pronto, está feito mais um coração pronto para ser entregue a alguém.

O problema é que toda vez que a gente bate mais um coração partido a gente acrescenta mais fotos, mais amargura, mais vodka, mais lembranças ruins e ele vai perdendo o vermelho tradicional junto com o sabor. O chocolate misturado com o músculo cinza e triste do velho coração vai tornando o caldo cada vez mais escuro e grosso, menos saboroso, mais amargo por natureza, menos doce, menos agradável, menos útil. Infelizmente as decepções amorosas estão nos tornando pessoas amargas e no futuro não muito distante todo mundo vai ter meio coração de cereja com leite condensado, meio vodka, papel, amargura e tristeza. A irresponsabilidade das pessoas com o sentimento alheio vai gerar um mundo de gente amarga e PhD em reconstruir corações com defeito.

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