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EU A QUERIA MAIS QUE TUDO NO MUNDO (PARTE 2)

Demorei alguns segundos para perceber que estava tocando uma música. Ela tinha ligado o celular em alguma espécie de caixa de som high-tech que eu tinha achado que era um banco no chão. Largou as roupas todas pelo chão, estirou os pés sobre a mesinha de centro e ficou dançando como quem está sozinho no último lugar do mundo antes do apocalipse. Ela queria que eu a visse, mas não queria se sentir observada. “Dance como se ninguém estivesse olhando” eu pensei, tentando traduzir os olhos fechados dela, os braços pairando descontrolados no ar e os cabelos estapeando o rosto por todos os lados. Mesmo estando completamente nua a cena parecia muito mais sensual pelos movimentos do que pela falta de roupas. Ela parecia gostar mais do próprio corpo do que qualquer homem que um dia – inclusive eu – tivesse admirado seus formatos.

Ela, vez em quando, me olhada e sorria, enquanto eu continuava paralisado de pé, de costas para a janela gigante, olhando um absurdo de mulher dançar para mim. Em determinado momento ela desceu da mesa, envolveu meu pescoço com delicadeza usando os longos e longilíneos braços que tinha, enquanto me beijava com calma e calor, fazendo, pela primeira vez, o tesão vencer a embriagues. Depois do beijo ela pegou minha mão e me guiou até uma espécie de poltrona grande e sem braços. Me mandou abrir as pernas, ficou em pé na minha frente e me ordenou que a tocasse. “Me alisa!”, ela disse, imperativa e simples assim. Eu corria os dedos pela curva firme e infinita de sua cintura, desenhava o contorno de seu umbigo seco e tímido perdido numa imensidão chapada de uma barriga em forma de tábua. Ela era uma sombra escura e sensual se arrepiando com a minha exploração minuciosa e, com um pouco de atenção, eu podia ver a pelugem quase invisível que cobria toda sua pele se arrepiar.

Depois de algum tempo passeando com as mãos por seu corpo, ela se virou, sentou-se em meu colo com as costas pesadamente coladas em meu peito e, agarrada às minhas duas mãos, guiou-me pelos lugares em seu corpo que eu não podia ver. “Me faz gozar!”, ordenou novamente, enquanto apertava uma de minhas mão em um dos seios, guiando a outra para o meio das coxas abertas e apoiadas sobre os meus joelhos. Era um jogo. Demorei a perceber porque estava bêbado demais, perdido demais na escuridão do apartamento que só me mostrava contornos iluminados pela cidade além do vitrô imenso da parede oposta. Não precisava, mas fiz questão de fechar os olhos para sentir com as mãos o que, de qualquer maneira, eu não teria como ver. Ela ofegava se movimentando descontroladamente, arranhando meus braços e me dando sinais do que fazer para cumprir a ordem que me fora dada. Eu tinha de fazê-la gozar.

Um grito, uma súbita contração dos músculos e a mulher que se oferecia ao além no meu colo agora fechava-se rumo ao seu próprio centro, enquanto eu ouvia sua voz e seus gemidos saírem de uma boca de dentes cerrados com força. Levantou-se mole e me chamou para levantar junto. Sem perguntar nada ou avisar, puxou minha camiseta para fora do corpo, abriu minha calça, abriu o zíper da minha calça, tirou qualquer pano que pudesse me cobrir e ficou um tempo me olhando. Me olhava como quem mata curiosidade, como quem lê uma notícia importante. Eram olhos de “humm, é assim que você se parece!” e por alguns instantes me senti extremamente invadido. Ao contrário dela, ser observado sem pudor não me deixava excitado.

Nos beijamos durante algum tempo, trocando carícias delicadas e lentas. São momentos como esse que mostram que a vida é feita para degustar, e não simplesmente engolir. Eu sentia sua respiração quente, suas mãos lisas percorrendo meus braços, seus pelos pubianos roçando em mim e não tinha nenhuma pressa de passar para qualquer outro tipo de contato. “Eu sempre quis fazer isso”, sussurrou em meu ouvido, antes de desgrudar de mim e caminhar para a janela. Abriu as duas lâminas de vidro para os lados, deixando entrar uma rajada mortal de vento gelado no apartamento. Com os vidros abertos a cidade continuava silenciosa, com seus sons feios de buzinas e pessoas abafados pelo com do vento violento. A visão dela debruçada na janela olhando o horizonte se misturava com a própria cidade iluminada e, sem querer, me senti com sorte e feliz: eram duas versões do paraíso, cada uma com seu brilho.

Ela me olhou por cima dos ombros, sem se virar, e me chamou para me juntar a ela. “Eu sempre quis fazer isso, mas pensando bem, só faria sentido fazer isso com você. Você dá valor pras coisas importantes!”, disse. Eu não fazia a menor ideia do que ela queria dizer, nem do que era o “isso” a que ela se referia. Mais uma vez sem avisar, mantendo sua postura submissamente controladora, ajoelhou-se no chão de frente para mim, se colocando entre mim e a visão da noite mais impressionante que eu já tivera na vida. “Esquece de mim, pode se perder”, e decidiu que seria dessa maneira que terminaríamos a noite. Eu me segurava no parapeito e perdia o olhar no horizonte, vendo luzes amarelas pegando fogo, flashes estourando em todas as direções, contornos e linhas disformes no além e um conteúdo de caixas pretas e altas perdendo o foco, enquanto ela sugava de dentro de mim, lenta e antropofagicamente, qualquer coisa que ela julgava muito importante para que aquele momento desse certo. Eu nunca mais me recuperei daquela noite e antes mesmo de entender, eu já estava acordando largado no sofá da sala, com ela me olhando da janela, sorrindo e me dizendo que tinha acabado. “A gente não tem mais nada pra fazer um com o outro…”, e eu não pude nem contra argumentar.

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Eu a queria mais que tudo no mundo (parte 1)

Nos primeiros dois meses era só admiração, como se eu tivesse conversando com algum famoso cuja carreira me inspirasse ou alguém da música cujos discos eu cansei de ouvir e, de repente, estava falando comigo sobre como foi o dia, sobre amenidades e contando tudo sobre o mundo da fama, sobre o lado de lá, sobre como as coisas realmente funcionam. Eu era fã dela! Mas como não era famosa, nem prestigiada, nem ninguém muito mais importante que a maioria dos que vivem no mundo, comecei a perceber que a vida, até em seus movimentos mais simples, pode ser incrivelmente interessante. Ela era incrível e interessante, o tempo todo.

Depois de um tempo a intimidade cresceu e eu já não achava a vida dela coisa de outro mundo. Era incrível, mas era possível. Era uma coisa que eu não vivia, mas conseguia acompanhar como quem assiste a um filme baseado em fatos reais, ou quem lê um livro biográfico um pouco suspeito. Era muita emoção, muita mudança, muita novidade o tempo todo. Foi mais ou menos nessa época que eu comecei a pensar que talvez eu estivesse cagando para o quão legal era a rotina dela. Eu queria mesmo era saber dela, que atitudes tomaria, aonde iria, o que faria e foda-se se tinha ido viajar, se estava trabalhando muito, se estava desempregada, se estava de pé ou sentada. Foda-se, eu queria saber o que ela pensava, quais eram seus medos, seus planos e seus desejos. De repente passei a desejar ser um de seus desejos.

Aí a gente passou a falar menos de coisas externas e as conversas se tornaram cada vez mais íntimas. Não falávamos de trabalho, falávamos de sonhos. Não falávamos de amigos, falávamos de segredos. Não falávamos de cidades, falávamos de restaurantes. Não falávamos de amor, falávamos de sexo. Trouxemos toda a universalidade pra dentro de uma caixinha de fósforos e ficávamos cavucando nossos sentimentos a fundo, cheios de perguntas e histórias complexas enquanto os dias passavam como eram e como sempre foram. A vida já não parecia tão impressionante. A dela ou a minha, tanto fazia. O mundo real foi substituído por suposições e achismos absurdos que preenchiam todo o tempo que a gente passava conversando.

Depois que chegamos a esse ponto, meio sem querer, ela começou a se interessar pela minha vida. Porque não tinha muitos eventos, nem muito dinheiro, nem muito glamour, mas exatamente por isso era tão intensa. Ela se interessava por sentimentos como a sensação de liberdade em caminhar à noite, de madrugada, vendo gente pelada correndo pelas ruas. Ela se interessava pelas vezes em que segurei a respiração mais tempo do que o saudável e fiquei vendo cores trocadas e formas imaginárias enquanto voltava a respirar. Ela queria saber de onde eu tirava ideias pra escrever, pra desenhar, pra fotografar, pra  fazer músicas, pra ser eu. Ela queria se jogar dentro da minha vida e, de repente, ela desejava fazer parte de mim, nem que fosse por algumas horas, só por alguns instantes.

“Quer ir pra minha casa?” ela me perguntou, uma vez, quando estávamos tomando café e conversando sobre como é que faz pra lidar com a morte de alguém que você nunca conheceu, mas sempre quis conhecer. O assunto, naquele momento, pareceu uma justificativa honesta para não perder a chance. A gente podia morrer, do nada, e viveríamos nessa eterna dúvida. “Quero!” respondi, sorrindo nervosamente. Depois disso o medo tomou conta de mim, assim como dela também, porque a conversa começou a ficar estranha até dar lugar a um silêncio incômodo e agudo. “A gente precisa encher a cara!”, ela disse e eu concordei, afastando a xícara e buscando ao redor um lugar onde pudéssemos comprar garrafas, doses, coisas alcoólicas em geral.

Encontramos um bar e levamos uma garrafa de pinga vagabunda. Na metade do caminho abrimos a tampa para cheirar e nunca mais paramos de beber. Virávamos doses puras que faziam o estômago querer devolver tudo a todo momento. Era noite, fazia frio, não tinha ninguém na rua e a gente gargalhava alto de nervoso e de bebedeira. Nos beijamos cheios de erotismo dentro do elevador e, pensando agora, nosso beijo parecia mais um conjunto de lambidas mútuas que erravam – e muito – o alvo. Lambendo os rostos um do outro, deslizando as mãos por tudo quando é lugar, até atingir o andar. Quando ela girou a chave do apartamento eu vi a janela enorme para a cidade noturna me hipnotizando. Fiquei um tempo indeterminado perdido no horizonte até me virar e dar de cara com ela completamente nua, de pé sobre a mesa de centro, me olhando e sorrindo: “eu quero que você me admire antes de qualquer coisa”, e me mandou sentar no sofá.

Dali pra frente eu comecei a viver uma das noites mais sexualmente intensas da minha vida…

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Sensual e fictício

A porta fechada que era pra fingir que o mundo tinha parado de existir e tudo o que restava era aquele quarto. Os corpos tremendo de frio e tesão, cheios de pontas de dedos muito frias e narizes que pareciam bicos de gelo. No escuro, quase nada visível, quase nada pra ver e calma, uma extrema calma que descia dos cantos das paredes e lambia os pés da cama, as costuras e as franjas da cortina, os beiços do tapete e as nossas canelas.

De costas, apoiada na parede como quem acaba de ser pega pela polícia, me oferecia uma nuca lisa e comprida para eu beijar, lamber, morder e arranhar. Minha mão sumia por dentro dos cabelos, que se agarravam nos meus dedos e não largavam mais. Foi o primeiro começo de um par de pares de dias da gente se alisando como se tivéssemos mais intimidade que qualquer outra dupla no mundo, nos olhando sem roupas e sem defeitos, isentos de perfeição por opção e felizes com a nossa curiosidade.

Dias sentindo sua respiração quente ao redor da minha orelha, sua voz falhada e oscilante brotando do meio da escuridão e um calor concentrado que passava de mim pra você e depois voltava de novo, num ciclo de aquecimento natural quase imbatível. De dia ainda era escuro e a noite era 24h a dentro, mergulhada em todo tipo de troca de experiências e sensações. Eu passava meus dedos pelo seu rosto, desenhando o contorno da tua boca como um batom de festa, sentindo a ponta da tua língua surgindo por entre os dentes para fazer meu tato salgado receber as boas vindas do teu paladar voraz.

Beijos no olho, carinhos detrás da orelha, dedos entrelaçados debaixo de um sem número de cobertas, pelados e muito quentes, nos aproveitando um do outro para pura sobrevivência. Era tão sensual que chegava a doer ter que dormir. Fechava os olhos fora de controle desejando mais uma dúzia de noites muito bem gastas transando ao som de Los Hermanos, pedindo comida pelo telefone, bebendo vinho barato e usando a boca para beijar e lamber, mas quase nunca para falar.

Era tão erótico, tão intenso e, ao mesmo tempo, tão suave, que beirava a loucura, daquele tipo de sentimento que faz a gente pensar sobre largar o emprego, vender o apartamento e o carro, deixar o cachorro com a mãe e se mudar, de mala e cuia, de vez pra outro lugar. Tão bom, mas tão bom, mas tão bom, que não existia e, enquanto eu passava os dias desenhando uma fantasia cheia de delicadeza e sentimento, a vida real corria a passos largos acabando com toda a minha imaginação.

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Visita

Era noite, passava das onze, e alguém bateu palmas no portão. Imaginei ser alguém pedindo fora de hora, ou algum dono de um carro pouco competente pedindo um “empurrãozinho” e, por isso, levando em consideração a hora e o frio, ignorei. Mas depois de outras palmas ela gritou meu nome, e meu coração pulou pra fora da boca agitado, como um cachorro vira-latas hiperativo, foi pulando pela casa manchando tudo, parou na ponta e ficou balançando o átrio direito e batendo para mim. Tive que abrir.

“O portão está aberto”, e ela veio, caminhando encolhida, na minha direção. Abri caminho na porta e ela entrou direto, foi até o sofá, sentou-se e me olhou fixamente. Fechei a porta, sentei no outro sofá, do lado, fiquei olhando para o chão e um silêncio ensurdecedor tomou conta do ambiente por alguns minutos. Depois ela espirrou, eu disse “saúde” e junto com o “obrigada”, vieram uma porção de outras palavras, uma encavalada na outra, de uma vez. “Obrigadadesculpaaparecertãotardemaseuprecisavatefalarumascoisas” e depois respirou.

Fiz cara de quem estava prestando atenção e ela começou a dizer, em lista, uma porção de motivos pelos quais ela era mais mulher que as outras mulheres. Dias antes ela tinha aparecido com uma lista semelhante, mas era sobre o quanto ela gostava mais de mim do que as outras. Dessa vez a lista tinha um apelo sexual bem definido, explícito, e beirava a baixaria gratuita. “Porque eu chupo até o fim”, “porque eu gosto de fazer anal”, “porque eu mando bem por cima ou por baixo” eram alguns dos itens da listinha gente fina que ela montou.

Eu estava bem constrangido e assustado no final, mas ainda assim tentei parecer calmo e falar naturalmente. Depois de falar mais algumas coisas sobre não entender a minha posição, não sacar o que é que eu estava esperando, silenciou, me dando espaço para falar. “O que é que você quer?”, perguntei tentando ser o mais gentil possível, com uma voz baixa, calma e lenta. “Quero ser sua mulher!” ela respondeu, firme e rapidamente, quase como uma competição de perguntas e respostas. Expliquei que não era assim que as coisas funcionavam, que não é aparecendo na casa de alguém tarde da noite numa quarta-feira que se conquista um coração.

Ela pediu desculpas pelo horário, mas reafirmou que poderia me fazer o homem mais feliz do mundo. A gente não tinha ficado, nem se beijado, nem se tocado muito. Nosso contato mais íntimo tinha sido um abraço de despedida depois de um encontro com amigos. Mas ela achava que eu não tinha coragem de assumir um suposto amor escondido, só pelo fato de ela ser ex-namorada de um ex-colega de trabalho. “Você diz que não, mas eu sei que você escreve seus textos para mim”, disparou, no meio do silêncio, como o estouro de uma bomba. “Os textos sobre sexo, os que descrevem mulheres gozando, suando, gemendo e arranhando a suas costas, são todos para mim. A mulher que te chupa nos textos sou eu, que dá pra você nas orgias que você escreve sou eu, eu sei que sou eu, você escreve para mim o que não tem coragem de realizar”, e dito isso, levantou-se e começou a tirar a roupa, sem aviso prévio.

Estava vestida com um casaco de frio, bota, um vestido abaixo dos joelhos, uma meia calça e um cachecol. Antes que eu pudesse dizer algo o casaco e o vestido já tinham ido para a casa do caralho em algum lugar da sala e eu, diante de tamanha loucura, fiquei petrificado. Agora era ela de botas, meia calça preta escondendo uma calcinha preta discreta por baixo e um sutiã de uma cor próxima do roxo, mas que eu não consigo descrever muito bem. Desabotoou o sutiã e reparei inevitavelmente na firmeza e consistência do par de peitos que se apresentavam para mim. Não eram muito grandes, mas miraculosamente desafiavam as leis da gravidade apontando para o horizonte sem darem sinais de cansaço.

Quando ela ameaçou vir na minha direção para montar sobre o meu colo levantei rapidamente. Caminhei para trás amedrontado pensando em como fugir daquilo, enquanto ela falava sacanagens, invocava algum ser feroz e violento dentro de mim para comê-la “todinha, de todos os jeitos possíveis” e eu só pensava em como parar aquilo. Dei as costas e fui para a cozinha. Acendi a luz, apanhei uma leiteira bem grande e comecei a encher de água da torneira. Um chá, talvez, acalmasse aquela descontrolada. O reflexo dela atrás de mim, completamente nua, apareceu no vidro do vitrô por sobre a pia e meu reflexo imediato foi apanhar a leiteira e jogar a água sobre ela.

Foi uma cena um pouco ridícula, aquele aguaceiro batendo direto no peito dela, fazendo um som engraçado e depois se esparramando pelo chão. Ela deu um grito, depois achou que eu estava provocando e veio para cima de mim. Grudou a boca na minha enquanto puxava minhas mãos em direção à sua cintura e sua bunda. No meio do desespero empurrei-a com certa violência e ela se afastou. “O que foi? Porra, você não me acha gostosa? Você não me acha bonita? Impossível, todos os caras me desejam!” e antes que pudesse retomar seu ataque eu gritei, talvez bem mais alto que o necessário. “Puta que pariu, você é burra ou o quê? Você ainda não percebeu que eu sou gay? Gay, tipo, totalmente gay, sem dúvidas, sem recaídas, sem fugir da linha. Gay mesmo, de namorar com homem e tal! Você não percebe?”

Ela se ajoelhou, chorou e ali ficou, enquanto eu, mais uma vez, não fazia a menor ideia do que fazer…

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Suor

Ela dava voltas na pista, uma porção delas, incontáveis para mim. Meio dia, calor, muito calor e eu na sombra, acompanhando só com o movimento dos olhos, as voltas que ela dava pra lá e pra cá. Foi assim que tudo começou. Eu olhava porque era curioso, porque corria sozinha, no pior horário e sem fazer manha. Primeiro comecei a pensar no motivo daquilo, se realmente era necessário, porque ela já tinha o corpo que as mulheres estavam buscando, já tinha o formato que as revistas queriam vender. Sofria de graça, na minha cabeça.

Mas eu gostava de ver. Chegava perto das onze horas, com um shortinho grudado que, no fim da corrida, parecia mais uma calcinha grande, um cabelão preto preso liso e as vezes camiseta, às vezes não, e eu não entendia o critério, mas torcia sempre pelo mínimo de pano possível. Depois comecei a ficar na grade, vendo ela passar bem perto, concentrada, forte, linda e morena. O cabelo preto tinha tudo a ver com a cor quase jambo da pele, e eu comecei a me preocupar muito mais em observar os movimentos, os balanços, do que a corrida em si. Até que um dia ela me viu.

Bem na minha frente, como se fosse predestinado, caiu o iPod no chão. Ela teve intensão de parar, mas ao invés disso, continuou, talvez para pegar na próxima volta, já que naquela pista ela era solitária todo dia. Mas eu fui antes. Pulei a grade, apanhei o aparelho no chão e fiquei esperando ela chegar, com o braço esticado, como quem entrega a garrafa d’água para o primeiro colocado da corrida. “Vem, vem, vem comigo…” veio gritando, de longe, sorrindo e eu já entorpecido com a vista daquela mulher vindo na minha direção, fui.

Passou voando e eu fui atrás, correndo rápido, enquanto ela diminuía o ritmo lentamente até ficar ao meu lado. Entreguei o aparelho, ela agradeceu, tocou as minhas costas e quando menos esperei já estava completando uma volta. Abandonei-a na corrida, cansado, ofegante e feliz. Daquele dia em diante eu sempre ficava na grade, e ela sorria para mim, eu sorria para ela. Aí comecei a levar uma garrafa d’água. Quando ela começava a fazer caretas eu estendia o braço, ela pegava a garrafa e devolvia na outra volta, quase vazia. Gritava “você é um anjooo…” e passava voando, suando em bicas, firme, rígida, seca e marrom.

Eu, moleque de tudo, tinha sonhos eróticos com aquela mulher. Por isso nunca ficava até o fim das voltas. Quando percebia que estava se preparando para encerrar o treino eu ia embora, caminhando por portas e entranhas do clube e ela só me via no outro treino. Às vezes, raramente, ela não ia. E eu ficava na grade olhando a pista vazia, lembrando do subir e descer de suas curvas, do pendular do cabelo e do sorriso largo. Ela sofria com prazer e eu sentia prazer em vê-la sofrer. Eramos um par sadomasoquista diferente.

Um dia, de surpresa, ela parou de correr na minha frente. Fiquei petrificado, não tive como fugir e meu coração acelerou a um ritmo alucinante. Ela veio com todos os seus trinta e poucos anos na minha direção e se apoiou na grade à minha frente. Com o tronco abaixado, apenas as mãos apoiadas, ela pingava o suor do rosto no chão e ofegava barulhenta. Nesse dia saiu da pista, veio até mim e me abraçou. Eu, com meus dezesseis ou dezessete, já era mais alto, e só pude abraçá-la de volta.

Enquanto estávamos ali, grudados, senti seu suor me encharcar a camisa, o ombro e uma parte do pescoço. Sentia, inevitavelmente, um cheiro azedo misturado com perfume doce que suspeitei ter surgido do movimento dos braços levantados colocados ao redor do meu pescoço. Eu respirava fundo absorvendo o máximo daquele cheiro. Quando ela me soltou, sorrindo, disse que eu era a melhor platéia que ela podia ter, e depois me deu um beijo no rosto, na ponta dos pés segurando a minha cabeça, antes de ir embora.

Ela, se acabando em suor, molhou a lateral do meu rosto na hora do beijo. Instintivamente passei a mão e provei do gosto. Um sal tão amargo e forte que me fez querer lambê-la toda, num absurdo imaginário de dar-lhe banho com a língua, seca-la com a boca dos pés à cabeça, morrendo de desidratação e sentindo os cheiros que desodorantes e perfumes jamais conseguiriam disfarçar. Depois daquele dia eu não queria mais saber dos sorrisos, dos peitos firmes, da bunda redonda e dura, do abdome seco ou dos cabelos muito pretos. Dali em diante meu desejo era um só: sonhava em lamber suas axilas suadas para descobrir o gosto salgado, azedo e sensual daquela pele colorida.

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“Se for pra morrer, que seja trepando”

Pro fim do mundo ela queria só sexo e algumas garrafas de vodca. Se fosse o fim mesmo, se fosse fogo, água, escuridão, oblívio, qualquer aniquilação, não restaria ninguém para usufruir dos estoques de comida, nem de armas, nem de nada. Se viesse mesmo o fim, a galope, a nado, voando, ou num sopro de briza do mar, não haveria estoque suficiente para nada. Então decidiu diferente: “Se for pra morrer, quero que seja trepando!”

Dentro de casa o estoque alimentício era basicamente duas dúzias de garrafas de bebidas alcoólicas, rótulos coloridos, formulações diversas e tamanhos variados. Copos por todo o apartamento, luzes de natal presas com fita crepe na sanca, cortinas amarradas para o alto, janelas escancaradas e a Lua iluminando o que dava, lá do lado de fora. Se fosse acabar, que o fim viesse de vista panorâmica, em um ambiente aconchegante e animado.

O figurino para o fim do mundo deu mais trabalho. Decoração é simples, todo mundo gosta de velas, luzes de natal, tecidos compridos e garrafas com design sensual. Mas a roupa não é tão banal assim. Como é que se escolhe a roupa da morte? Que tecido você escolheria para ir para o caixão com você? E se não houvesse caixão? E se não houvesse nada depois do fim? O traje perfeito para a festa seria o mais simples. “Vestirei brincos, pulseiras, um belo colar e perfume. Apenas!”, definiu.

Na lista de convidados só os melhores e os piores. Medianos não merecem um lugar na última festa. As melhores amigas, as mais fiéis, as mais bonitas, as mais animadas. Os melhores amigos, os mais excêntricos, os mais carinhosos, os mais atenciosos e os mais inteligentes. Os ex-namorados, as amantes dos ex-namorados, os inimigos, as inimizades, as mulheres mais invejosas, os caras mais cafagestes. Todos, os melhores e os piores, juntos para morrerem no mesmo lugar.

Às 23h chegaram todos, juntos, como se fossem uma família só, uma única excursão para o apocalipse. Foram entrando, deixando as roupas pelos cantos, largando sapatos, vestidos, camisas e lingeries por todo lado. A fila que se esticava pelo corredor cumprimentava a anfitriã com um beijo na boca, de língua, apaixonado e sincero. Homens e mulheres, todos a beijaram da maneira mais honesta que podiam, como se fosse um presente em troca do convite. Com o apartamento cheio o lugar tomou cara de festa. Todos nus, bebendo mais do que deveriam, conversando sobre o fim do mundo, sobre o fim de tudo e sobre quem queriam comer ao redor.

De repente as luzes de natal se apagaram, o vento apagou as velas, a música silenciou e a Lua, enorme e azulada, se tornou a única iluminação do lugar. Então ela gritou: “É o fim!” e todos levantaram seus copos e taças, aos gritos, sorrindo largamente e desejando um “Feliz Fim de Mundo” para o resto dos que estavam ali. Sem aviso prévio começaram os beijos, as mãos e grupos e pares se formaram aleatoriamente. Ela caminhava pelos cômodos escolhendo integrantes já ocupados para se dirigirem ao quarto com ela. Afinal, a anfitriã pode escolher com quem quer passar seus últimos minutos de vida.

Ao fechar a porta o quarto continha, além dela, seis rapazes e duas garotas. Eles se entreolharam, fizeram a matemática rápida dos grupos e se atacaram como se iniciassem uma briga. Os ponteiros giravam muito rápido e a cada minuto do tempo normal duas horas corriam no tempo dos relógios. Eram gritos, urros, sussurros e gemidos misturados entre vozes que não se calavam mais. Todas as combinações foram exploradas, todos os descansos ignorados, todos as piores perversões executadas repetidas vezes até atingirem a exaustão.

No tempo normal a experiência já passava de seis horas de duração, sem interrupção, enquanto, no relógio da parede, o mês já tinha mudado. Jogada no chão ao pé da cama, como se fosse um cadáver de olhos abertos, ela tentava se lembrar de como aquilo tudo tinha valido a pena. Mas ainda estava viva, estava pensando, estava vendo a Lua lá fora, estava vendo os outros respirando lentamente ao seu redor e sentia o cheiro do próprio perfume misturado a outros oito odores distintos.

Então tentou se levantar. As pernas moles não respondiam da maneira esperada, os braços já não sustentavam o peso do corpo e uma ardência incômoda fazia com que suas virilhas e tudo que era pele ao redor parecesse pegar fogo. Depois de muitas tentativas ficou de pé e caminhou até a janela. Cambaleante, ela viu o mundo escuro, iluminado por algumas chamas esparsas e uma Lua imensa no céu. Tentou pensar sobre o que estava acontecendo, mas antes que pudesse concluir qualquer coisa, um braço de homem a agarrou pela cintura e a arremessou de volta para cima da cama.

Quando a visão formou o cenário do quarto novamente percebeu que a porta estava aberta e muitos dos outros convidados caminhavam em sua direção. Vários homens e mulheres cercaram a cama olhando seu corpo desfalecido misturado nos lençóis e sorriram. Uma garota quebrou o silêncio e começou a gargalhar. Os outros a seguiram, levantando novos copos com novas bebidas. A mesma garota subiu na cama, abriu lentamente as pernas daquele corpo quase sem ação e concluiu: “o mundo ainda não acabou, querida!” e a orgia tomou forma novamente, mas dessa vez, concentrada em uma única pessoa.

Ela sentia línguas lambendo suas pernas, seus dedos, dentes mordendo suas coxas, seus mamilos, mãos puxando seus cabelos, seus braços, dedos procurando caminhos alternativos e, quando uma voz masculina sussurrou em seu ouvido que aquilo só acabaria quando o mundo acabasse junto ela respondeu com a última força que lhe restava: “Ainda bem que não vai acabar…” e nunca mais houve Sol na janela depois disso.

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