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Calípso [3/3]

Durante a noite sonhei com ela. Sonhei que vinha voando, com asas enormes e me pegava pelos ombros, como uma águia e me levava para voar. Aí me jogava de lá de cima e eu, depois de me assustar com a queda livre também voava, batendo asas e vendo o mundo junto dela. Dizem que quando a gente sonha que voa quer dizer que o corpo está tendo um orgasmo químico. Não duvido. Acordei bem cedo, lá do outro lado do quarto podia ver o contorno de alguém debaixo do cobertor. Era Calípso, aproveitando do benefício de não ter sonhado comigo, provavelmente. A todo momento eu pensava no que ela tinha me dito: “eu sou duas”, e tentava decifrar a brincadeira.

Saí atrás de comida e voltei mais rápido do que pretendia. Quando cheguei ao quarto ela ainda dormia, mas me ouviu entrar. Virou-se dura e seca na cama para ficar de frente para mim, me olhou sem sorrir e eu nunca a tinha visto tão morena. “Oi…” me disse, lá de longe, como se tivesse brigado comigo, ou como se ainda estivéssemos na fase das apresentações formais. Levantei e fui até ela, mas por medo ou desconfiança, não sentei em sua cama. Fiquei no colchão ao lado, sentado, com os cotovelos apoiados no joelho e olhando para ela. “Bom dia, dormiu b…” e antes que eu terminasse a minha pergunta ela me interrompeu. Me perguntou se eu já sabia “delas” e fiquei confuso por um segundo, até responder que sim, sem saber ao certo se estávamos falando da mesma coisa.

“Pela sua cara você me comeu ontem, não foi? Olha, nada pessoal, mas isso não vai acontecer comigo, quer dizer, com ESSA versão de mim. Desculpa” e eu fiquei imóvel, como se não tivesse me abalado, quando por dentro eu desmanchava como um sorvete no forno. Ela se levantou e passou por mim fria e desinteressada, sincera, na verdade. Ao olhar sua figura caminhando para a porta percebi que era mais corpuda, tinha mais curvas, uma bunda maior, e comecei a acreditar que, talvez, só na minha imaginação, Calípso fosse duas mulheres dentro de uma só. Rapidamente me lembrei do dia em que chegou, que conversamos por horas e, no dia seguinte mal me conhecia. E no dia seguinte a este, acordou me amando, me convidando para passarmos o dia junto e transou comigo. E no meio da noite o cabelo foi escurecendo e sem motivo não quis dormir comigo. E hoje acordara como se fosse outra. “Meu Deus!” disse, arregalando os olhos ao máximo com o corpo arrepiado.

Saí para a rua para respirar alguma coisa que parecesse normal. As bicicletas de Berlim pareciam normais, o frio parecia normal, as pessoas pareciam normais e o Sol era bem normal, esquentando pouco, iluminando absurdos. Instintivamente caminhei pelos mesmos lugares onde passamos no dia anterior, lembrando dos comentários que ela fazia, das brincadeiras e de como eu gostava de ouvi-la falar, ouvir português numa terra distante, na voz mais linda, com o cheiro mais interessante e exótico do mundo. Eu a queria de volta e sabia, mesmo que com algumas dúvidas, que no dia seguinte ela estaria lá. Esse era o plano!

Forcei para que o tempo passasse. Li livros e revistas, tomei incontáveis cafés, almocei comendo lentamente, esticando a duração de coisas rápidas para o dia sumir. De tanto caminhar, cansei, e de tanto cansar, voltei para o albergue e decidi que dormiria logo para acordar logo e encontrá-la novamente. Não passava das seis da tarde quando cheguei ao quarto vazio. Sobre o meu travesseiro, um bilhete: “Não fica bravo, você é gato! Bjs Cali.” Não consegui definir meu sentimento ao ler aquilo, mas mantive o plano de dormir cedo. Enquanto o sono não vinha fiquei planejando como seria quando eu acordasse, o que eu diria a ela e o que faríamos juntos. Estaria disposto a viver assim, dia triste, dia feliz, pro resto da vida se fosse preciso. No meio das ideias, apaguei.

De repente acordei ouvindo passos de salto alto caminhando no quarto. A outra tinha chegado sabe-se lá de onde. Não acendeu a luz e no escuro permaneceu. Pela pouca iluminação que vinha da janela pude vê-la repetir o mesmo ritual do outro dia. Tirava as peças de roupa, uma a uma, até ficar só de calcinha e depois vinha o pijama. Mas dessa vez não. Manteve o sutiã, a calcinha e não pegou pijama, não se deitou, não guardou as roupas no chão nem arrumou a cama. Ela veio até mim. Fingi que não estava vendo mas era impossível não reparar que o corpo era muito diferente, o formato e até o comprimento do cabelo eram diferentes. Era outra mulher.

“Não precisa fingir que não está me vendo”, disparou, antes de se sentar semi nua na cama ao lado. Eu olhei para ela ainda sustentando o teatro e me esforçando para não olhar para o seios que, com certeza, estavam muito maiores, sem nenhuma dúvida. “Preciso perguntar uma coisa”, disse olhando diretamente para mim e nesse momento foi impossível não sentir o cheiro de álcool de dentro de sua boca. Eu fiz um movimento com a cabeça pedindo que continuasse falando e ela, sem dizer nenhuma palavra, subiu na minha cama e se ajoelhou sobre mim, assim com  a “minha” Calípso fez quando transamos na noite anterior. Acho que era a posição preferida de ambas, não sei.

Tirou o sutiã e a minha certeza se confirmou. Seios novos, corpo novo, cabelo mais cumprido, tudo diferente. Enquanto eu admirava aquele corpo perfeito ela se deitou sobre mim, assim como fez a outra quando me contou que era duas. Veio com a boca alcoólatra bem perto do meu ouvido e disse: “Tem marcas de dente no meu seio esquerdo…”, e apontou para uma porção de marcas vermelhas no próprio corpo, ainda quase colado em mim. “Foi você, ontem?” completou a pergunta, me olhando feroz, com a testa franzida e a respiração acelerada. “Foi…” respondi, e sorri, porque já não dava para levar aquilo tudo muito a sério. Então ela saiu de cima de mim, ficou ao lado da cama e abaixou a calcinha, sem pensar, sem pudor, sem crise. Voltou para a cama, agora completamente nua e bêbada, e impôs: “Então me mostra como é que foi”, e me beijou o beijo mais intenso de toda a minha vida. Eu amava Calípso, fosse ela quem fosse.

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Calípso [2/3]

Naquela noite não conversamos muito. Era estranha a sensação de falar com alguém que você conhece, mas que não faz a menor ideia de quem você é. Mesmo sem falar, lá de longe, dá última cama do quarto, ela conseguia a  minha atenção. Ignorando completamente a minha presença, trocou de roupa sem pudores ou dúvidas. Tirou as botas, a jaqueta preta, depois os brincos e o colar, depois o relógio, depois a outra peça de roupa que estava por baixo, depois o cinto, a calça apertada, que deu mais trabalho do que o resto, e vestindo quase nada se agachou próxima à mala para achar peças que, depois, reconheci ser um pijama. Adormeci antes de apagarem as luzes.

Nessa noite não sonhei. Mergulhei num sono preto e pesado, a ponto de acordar no dia seguinte sem nem lembrar da existência de Calípso. Fiquei um tempo acordado olhando o estrado da cama de cima, vazia e arrumada. Pensei sobre a cidade, sobre a viagem, sobre voltar para casa e sobre como era difícil ouvir e entender o alemão das ruas. De repente entendi, sem qualquer dificuldade, um “bom dia” feminino vindo de lá de longe. Animado, cortes e interessado. Toda a paixão desaparecida que o sonho pesado me proporcionara agora escorria descarada pelos meus olhos, boca e poros. Não me lembro se respondi, mas me apressei em sentar na cama e ela, encostada na parede do lado de lá, me olhava e sorria, como quem espera uma reação qualquer.

“Você tá linda”, foi a primeira coisa que eu disse. Não era bem o planejado, até porque nem tinha um plano, mas foi o que deu pra dizer, o que saiu. Ela sorriu um riso curto, daqueles que significam mais do que aparentam. Levantou-se da cama e caminhou descalça sem me olhar. Quando passou pela porta disse, em inglês, que ia escovar os dentes. Eu ainda fiquei uns segundos ali, setado na borda da cama, olhando para o quarto vazio paralisado, pensando porque é que não disse “bom dia” e nada mais. De repente reconheço o som da escova de dente e a vejo reentrar no cômodo. Tem um escovar frenético, ritmado, daqueles que parecem que vão voar os dentes. Sentou-se na outra cama, de frente para mim, com um batom de espuma branca ao redor da boca, o rosto amassado, os cabelos loiros presos para cima e ficou me olhando. Depois de algum tempo, “tô linda mesmo?” perguntou em tom sério e dessa vez quem sorriu foi eu.

Era linda de qualquer maneira, mesmo assim, sem maquiagem, nem modas, nem defesas. Tinha um rosto claro, limpo, como se fosse dourada, amarela, loira por inteiro ou algo assim. Não conseguia disfarçar meu enorme interesse em tentar ver por dentro da gola larga do pijama como era seu corpo, o que tinha por dentro, mas não conseguia. Depois me disse com a escova ainda dentro da boca que eu deveria ficar ali, que voltaria logo, e quando levantou-se percebi que seus peitos se desenhavam com perfeição por baixo do pano. Sem sutiã, sem gravidade, só perfeição e genética. Quando voltou estava animada, falante, me contando coisas, conversando, apontando os peitos para todas as direções e me chamando para ir com ela. “Eu vou!”, não sei onde, nem quando, nem para quê. Mas eu vou.

Saí para escovar os dentes e lavar a cara. No espelho meu rosto era um misto de esperança com derrota plena. Voltei em tempo recorde e ela já estava com outra roupa. Saímos em busca de um café da manhã e não sei se por provocação, ou por instinto, mas ela se agarrou no meu braço e aos olhos de quem passava eramos um casal. Eu queria ser um casal com Calípso, o homem de Calípso, fazer parte da vida dela. Ao menos fazia parte daquele dia, fazia ela rir, fazia companhia a ela e a fazia pensar que, no fundo, talvez, as pessoas valem a pena. Passamos o dia, a tarde e o comecinho da noite completamente juntos, fisicamente juntos, segurando mãos, abraçados, encostados e eu não tinha a menor dúvida de que estava apaixonado.

Bebemos um monte de cerveja quente, ficamos breacos e inconsequentes e, como se fosse um desejo mútuo que nasce em corpos separados, nos beijamos. Mas um beijo com cara de convite, com cara de “era uma vez…”, começo de história. No táxi de volta para o albergue ela me parecia o corpo mais confortável e quente que eu poderia encontrar. Puxava meus cabelos, lambia meu pescoço, errava minha boca e tacava a língua no meu queixo, no meu rosto e a gente se lambia rindo, como se estar com tesão um pelo outro fosse mais brincadeira do que coisa séria. Quando chegamos no quarto já não tinha mais segredo e ela arrancou a blusa de uma vez, ajoelhou-se em cima de mim puxando minha camiseta, mas, de repente parou. Me olhou, sorriu, se abaixou gentil até colar o corpo no meu e sussurrou no meu ouvido. “Preciso te contar um segredo… eu sou duas!” e gargalhamos juntos, para voltarmos aos beijos loucos, à alucinação de estar junto e permanecer assim.

Enquanto transávamos eu não pensava em nada além do que sentia e via. Os peitos, os mesmos de antes, lindos, pequenos e firmes, agarrados ao corpo sem se abalarem com ritmo ou intensidade. Os cabelos, agora menos loiros, mais escuros, cobrindo um sorriso enorme de uma boca quase louca. Não sei dizer se durou dez minutos, dez horas, dez vidas, mas parecia não acabar nunca e eu dava graças a Deus por aquilo. No silêncio, depois, agarrado a ela num encaixe perfeito, perguntei, agora em tom de seriedade, sobre o que tinha me confidenciado antes de tudo. “Você é duas mesmo?”, perguntei, como se “ser dois” fosse uma coisa comum e banal no nosso mundo. “Sou!”, respondeu, tirando os pés da cama e indo dormir sozinha, sorridente, pelada, úmida e quente. “Foi bom ter vocês…” eu disse, antes de me virar e dormir.

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