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O peito se abre de bom grado para a passagem de quem se ama

Ela encostava a testa na minha, me olhava nos olhos, enrolava os dedos nos meus e dizia “eu nunca vou te largar, eu nunca vou te largar, eu nunca vou te largar” e me beijava em seguida. Dizia três vezes porque acreditava que era assim que tinham de ser as palavras com valor e não podia ser diferente. As coisas com ela tinham esses misticismos, tudo tinha significado, toda ação, por mais simples que fosse, tinha algo mágico por trás. Ela tinha amigos assim também, mas eu não conseguia me apegar a rituais tão complexos. Eu dizia “eu te amo” uma vez só, mas de todo o coração, ela acreditava e a gente vivia feliz.

Quando viajávamos ela abria o vidro e colocava a cabeça para fora do carro para sentir os cabelos balançando sem controle. Se estava terminando o dia, naquela hora em que o pôr do sol é mais amarelo que a própria cor amarela, ela conseguia fazer as árvores dobrarem igual borracha. A gente ia passando e as árvores do canto da estrada prestavam reverência a nós, como quem diz “boa tarde e boa viagem” a um novo turista. Eu não me cansava de vê-la fazendo isso e ela não se importava de repetir quantas vezes eu pedisse. Eu trabalhava como fotógrafo e ela era dançarina em uma casa noturna. Sabe aquelas moças lindas que dançam dentro de gaiolas a noite toda? Esse era o emprego que ela tinha.

A gente andava com uma turma de mais uns oito amigos. Foi a junção de alguns dos meus com alguns dos dela, até porque não se consegue manter todas as amizades quando a vida de solteiro acaba. Eu tinha amigos moderninhos, viajados, cheios de histórias para contar, guarda-roupas abarrotados de calças skinny e camisas xadrez, enquanto ela andava com o pessoal das artes, gente alternativa ao extremo e eu não conseguia me enturmar muito bem com a maioria deles. Tinha um rapaz que voava. Ele trabalhava fazendo malabares e servindo mesas em uma das casas onde ela dançava. Tinha o cabelo branco, mesmo não tendo mais que vinte anos, servia drinks com perfeição e era capaz de subir até o topo de um prédio flutuando. Fechava as mãos com bastante força, rangia os dentes e, de repente, o corpo estava no ar. A gente aplaudia, ele sorria e caia em seguida, mas há quem diga que já viu ele pular de uma janela do oitavo andar e chegar ao chão com suavidade.

Eu e ela decidimos morar juntos depois de alguns meses namorando e a vida ficou do jeito que eu queria. O bom humor reinava, tudo era interessante, a gente se envolvia em programas exóticos, fazia festas com temas engraçados, dividia amigos, sonhos, planos e juras de amor. Uma vez ela colocou a mão no meu peito e o braço atravessou até o outro lado. No espelho era possível ver a mão dela abrindo e fechando, fazendo graça, saindo pelas minhas costas, e disse que essa era a prova de que meu amor era verdadeiro. “O peito se abre de bom grado para a passagem de quem se ama”, ela me explicou. Um dia, depois de acordar no meio da noite com uma sede atroz, percebi que ela sonhava com beijos. Sua boca fazia movimentos de quem beijava e era beijada por alguém e tive certeza de que ela me amava. Num golpe só, varei seu peito com a mão firme e senti o macio do colchão do outro lado. Ela sangrou até a morte, me olhando com os olhos arregalados como quem é pego de surpresa e pede desculpas na falta de ter uma coisa melhor pra dizer.

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Ela mora sozinha

A pia cheia, suja, uma porção de panelas amontoadas junto com canecas de café, o fundo seco, rançoso, fedido. A casa era quase um cenário de vídeo clipe de música moderna. Tudo meio cinza, nublado, colorido com um opaco quase cult. Na cozinha, ali onde eu estava, os objetos pareciam significar mais do que realmente eram. Uma xicrinha branca com a borda manchada de batom cor-de-rosa me dava mil ideias. Ao lado, meio amassado, um maço de Marlboro vermelho com três cigarros e um bic verde pequeno socados dentro. Um saco de polvilho vazio e amassado, cheio de farelos no fundo e ao redor. Que porra de pia, cacete!

A geladeira fedia, como era de se esperar naquele cenário. Mas não fedia a geladeira, ou a arroto, como de costume. Fedia a podre, como se alguma coisa animal estivesse morta ali dentro. Na porta, uma dúzia de ovos suspeitos me olhavam com descrédito e um deles, o da ponta, exibia uma generosa rachadura, de onde eu supus sair uma parte do cheiro horrível que emanava dali. Nas prateleiras uma caixa de leite que eu não quis nem encostar, um grupinho de potes de conservas bem feias e alguma coisa amarrada em uma sacola plástica. Nas prateleiras de baixo, mais ou menos a mesma coisa, e no fundo, no lugar onde as pessoas chamam de “gaveta das verduras”, diversas garrafas de bebida, todas meio bebidas, descansavam deitadas e felizes emanando um odor azedo característico.

O congelador não tinha muito para me oferecer. Era um refrigerador antigo, daqueles que nunca ouviram falar em “frostfree” e, ao puxar a porta superior, todo o refrigerador veio na minha direção. Congelado! Completamente congelado. Depois de insistir um pouco, consegui abrir e vi alguns pedaços de carne vermelha e frango completamente envoltos por uma fina camada de gelo, quase como neve, cercados por paredes de gelo que ultrapassavam os 10 cm de espessura. A lâmpada que iluminava o compartimento simplesmente não existia, o gelo tinha quebrado, congelado e apagado há muito tempo.

A mesa estava cheia de sacos de pão marrons. Uns 40, no mínimo, sem brincadeira. Era uma montanha de sacos, a maioria com um pão só dentro. Eram pães metamorfoseados, já tinham deixado de servir de alimento há muitos dias e agora poderiam incorporar algum tipo de tacape indígena, munição de estilingue e até, quem sabe, reforço para os dentes de diamante de uma perfuratriz de metrô. Eram duros como mármore, nocivos até mesmo para os dentes de um tubarão, imagina para um ser humano. Soterrada sob os sacos, uma fruteira vazia de frutas, com algumas contas, papéis, clipes, fósforos queimados, um durex, um anel, um elástico de dinheiro e uma pilha Rayovac vazando.

Eu, pelado, recém acordado, olhava ao meu redor, vendo cortinas e vidros podres, enferrujados e comidos pelo tempo, não entendia direito como as coisas chegavam naquele estado. Mais para frente o fogão exibia uma camada de molho de tomate seca tão bem encrustada que por alguns segundos pensei ser uma customização feita com tinta. Era um lixão em formato de casa. Tinha cheiro de coisa viva morando e morrendo debaixo de alguma outra coisa escura e úmida. Era nojento, triste, desencorajador e insalubre. Quando, de repente, ouvi o som de pés caminhando pelo chão duro, batendo calcanhares e quando olhei ela estava vindo na minha direção com o cabelo bagunçado mais lindo do mundo, um sorriso desconcertado e a minha camiseta, que no corpo dela parecia um vestido fora de moda.

Ela parou na entrada do cômodo, me olhou, eu abri os braços de leve, como quem pergunta o que está acontecendo e ela disse que a “moça que limpa” tinha faltado e aquela bagunça era de uns 5 dias. Percebi que ela realmente achava que iria me convencer com aquilo, mas a sujeira, o cheiro e o lixo estavam ali há, no mínimo, meses. Um par de meses. Meus pés parados no chão de piso branco, gelado, meu pau amolecido e envergonhado, meu umbigo apontando para o dela e ao redor o universo de uma casa degradada por uma garota que mora sozinha. “Eu achava que mulheres morando sozinhas eram sempre organizadas”, disparei, quase séria. Ela sorriu tímida e finalizou a conversa: “é, tá um pouco ruim… mas eu vou dar uma geral. Só não usa o banheiro, ok?” e eu ri, porque não consegui imaginar o que tinha dentro dele. No fim das contas a gente viveu mais 2 anos na mesma bagunça, sem lavar um copo sequer!

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Amores de festa de sábado à noite

Estava quente no quarto, era domingo, daqueles domingos que não têm absolutamente nada de especial, que o céu está azul e ensolarado, mas ninguém quer ir ao parque, nem tomar um sorvete, nem dar uma volta de bicicleta, nem nenhum clichê de domingo. Mais ou menos uma da tarde, por aí, uma cama de solteiro insuficiente para os dois, insuficiente até mesmo para um solteiro sozinho, e o calor visceral do ar, do sol e dos corpos semi-suados tentando dormir grudados naquele bafo sufocante.

Nenhum carinho, nenhum beijo de “bom dia meu amor”, nada. Não era amor, não era especial, não era nada demais. Ele passou por cima dela como se pulasse uma mureta, caminhou até o banheiro e por instinto fechou a porta à chave. O rosto no espelho, inchado, amassado, com olheiras e sem brilho. Água, muita água, água sem parar, um oceano de água doce da torneira para as mãos, das mãos para o rosto, do rosto para o espírito e do espírito para o ralo seco da pia. Escovou os dentes, olhou-se no espelho e gostou da nova cara: “bom dia!” disse, sorrindo para si e voltando para o quarto.

Ela estava acordada, com as costas oferecidas ao teto, os cabelos esparramados pelo travesseiro e vermelha. Gente de pele clara geralmente fica vermelha. Mesmo usando apenas calcinha, parecia estar tomada por um calor insolúvel e imutável. Sorriu para ele. Ele sorriu para ela e se beijaram comedidamente. Ele, com gosto de menta, ela, com gosto de guarda-chuva velho. É o mal de beijar pessoas recém acordadas. O encanto do “amanhecer ao teu lado” é aniquilado pelo cheio de podre da boca de quem bebeu, fumou, se drogou e dormiu logo em seguida. Ele tinha fumado, bebido, se drogado mais e dormido logo em seguida, mas acordou mais cedo e por isso não fedia mais. Nessas situações, dignidade é um sinônimo para gente limpa e saudável.

Ele se deitou sobre ela, com todo seu peso, com todos os seus ossos, músculos, pesos, pelos e poros. Passou a mão por baixo de seus ombros e agarrou com força os peitos dela, comprimidos contra o colchão, amassados como sua cara, como seus cabelos, como sua aparência toda. “Não, primeiro eu preciso tomar banho”, ela disse, e ele respeitou, a contra gosto, o senso de higiene mínima da moça. Balançando suas curvas suaves de mulher fora dos padrões de revista, segura e sensual, se jogou para dentro do banheiro como se fosse o seu próprio quarto. A cama de solteiro vazia e úmida, com o lençol todo amassado, vítima de uma noite de sono sem sexo, sem ações, sem emoção alguma. Drogados, bêbados e fodidos. Mortos. Deitados em uma cama, quase pelados, quase transando, quase gozando, mas só dormindo, recuperando vidas passadas em pesadelos péssimos.

Depois do banho ela saiu sem roupa. Já estava sem roupa antes, mas a ausência da calcinha dava um tom quase fraternal à cena. É estranho ver alguém pelado de cara, sem cerimônias, quando não foi você que tirou nenhuma das peças de roupa. Fica quase banal, nada sexy, nada erótico, só diário e simples. Mas ela foi na direção dele, meio seca, meio molhada, com os cabelos grudados na nuca, e durante alguns minutos se contentaram em apenas beijar o outro. Um beijo de verdade, sentindo o profundo gosto de pasta de dente, de boca quente com ar gelado, com ela acariciando os cabelos dele, com ele deslizando a mão pelos pontos molhados nas costas dela.

Daí, transaram um monte. Primeiro na cama, depois no chão, depois na sacada, depois no chuveiro de novo. Ele se cansou na segunda, ela foi quem forçou as outras duas. Homem quando não quer demora horas pra gozar e ela estava interessada nessa persistência, no martírio, naquela ardência que dá quando o sexo já passou do limite do saudável e normal, no quase sofrimento. Ela queria a câimbra, queria o suor abundante, a boca seca, a garganta arranhada dos gritos, dos urros, os dentes frios da boca ofegante e a pele toda vermelha, arranhada, estapeada, friccionada, gasta até o fim. Era já o fim da tarde, cinco, seis, sete horas. Céu escuro, fome aguda, bagunça instalada, desidratação suave. Eles deitaram mortos vivos de olho no teto sem dizerem mais nenhuma palavra. Coisa normal desses amores de festas de sábado à noite.

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EU A QUERIA MAIS QUE TUDO NO MUNDO (PARTE 2)

Demorei alguns segundos para perceber que estava tocando uma música. Ela tinha ligado o celular em alguma espécie de caixa de som high-tech que eu tinha achado que era um banco no chão. Largou as roupas todas pelo chão, estirou os pés sobre a mesinha de centro e ficou dançando como quem está sozinho no último lugar do mundo antes do apocalipse. Ela queria que eu a visse, mas não queria se sentir observada. “Dance como se ninguém estivesse olhando” eu pensei, tentando traduzir os olhos fechados dela, os braços pairando descontrolados no ar e os cabelos estapeando o rosto por todos os lados. Mesmo estando completamente nua a cena parecia muito mais sensual pelos movimentos do que pela falta de roupas. Ela parecia gostar mais do próprio corpo do que qualquer homem que um dia – inclusive eu – tivesse admirado seus formatos.

Ela, vez em quando, me olhada e sorria, enquanto eu continuava paralisado de pé, de costas para a janela gigante, olhando um absurdo de mulher dançar para mim. Em determinado momento ela desceu da mesa, envolveu meu pescoço com delicadeza usando os longos e longilíneos braços que tinha, enquanto me beijava com calma e calor, fazendo, pela primeira vez, o tesão vencer a embriagues. Depois do beijo ela pegou minha mão e me guiou até uma espécie de poltrona grande e sem braços. Me mandou abrir as pernas, ficou em pé na minha frente e me ordenou que a tocasse. “Me alisa!”, ela disse, imperativa e simples assim. Eu corria os dedos pela curva firme e infinita de sua cintura, desenhava o contorno de seu umbigo seco e tímido perdido numa imensidão chapada de uma barriga em forma de tábua. Ela era uma sombra escura e sensual se arrepiando com a minha exploração minuciosa e, com um pouco de atenção, eu podia ver a pelugem quase invisível que cobria toda sua pele se arrepiar.

Depois de algum tempo passeando com as mãos por seu corpo, ela se virou, sentou-se em meu colo com as costas pesadamente coladas em meu peito e, agarrada às minhas duas mãos, guiou-me pelos lugares em seu corpo que eu não podia ver. “Me faz gozar!”, ordenou novamente, enquanto apertava uma de minhas mão em um dos seios, guiando a outra para o meio das coxas abertas e apoiadas sobre os meus joelhos. Era um jogo. Demorei a perceber porque estava bêbado demais, perdido demais na escuridão do apartamento que só me mostrava contornos iluminados pela cidade além do vitrô imenso da parede oposta. Não precisava, mas fiz questão de fechar os olhos para sentir com as mãos o que, de qualquer maneira, eu não teria como ver. Ela ofegava se movimentando descontroladamente, arranhando meus braços e me dando sinais do que fazer para cumprir a ordem que me fora dada. Eu tinha de fazê-la gozar.

Um grito, uma súbita contração dos músculos e a mulher que se oferecia ao além no meu colo agora fechava-se rumo ao seu próprio centro, enquanto eu ouvia sua voz e seus gemidos saírem de uma boca de dentes cerrados com força. Levantou-se mole e me chamou para levantar junto. Sem perguntar nada ou avisar, puxou minha camiseta para fora do corpo, abriu minha calça, abriu o zíper da minha calça, tirou qualquer pano que pudesse me cobrir e ficou um tempo me olhando. Me olhava como quem mata curiosidade, como quem lê uma notícia importante. Eram olhos de “humm, é assim que você se parece!” e por alguns instantes me senti extremamente invadido. Ao contrário dela, ser observado sem pudor não me deixava excitado.

Nos beijamos durante algum tempo, trocando carícias delicadas e lentas. São momentos como esse que mostram que a vida é feita para degustar, e não simplesmente engolir. Eu sentia sua respiração quente, suas mãos lisas percorrendo meus braços, seus pelos pubianos roçando em mim e não tinha nenhuma pressa de passar para qualquer outro tipo de contato. “Eu sempre quis fazer isso”, sussurrou em meu ouvido, antes de desgrudar de mim e caminhar para a janela. Abriu as duas lâminas de vidro para os lados, deixando entrar uma rajada mortal de vento gelado no apartamento. Com os vidros abertos a cidade continuava silenciosa, com seus sons feios de buzinas e pessoas abafados pelo com do vento violento. A visão dela debruçada na janela olhando o horizonte se misturava com a própria cidade iluminada e, sem querer, me senti com sorte e feliz: eram duas versões do paraíso, cada uma com seu brilho.

Ela me olhou por cima dos ombros, sem se virar, e me chamou para me juntar a ela. “Eu sempre quis fazer isso, mas pensando bem, só faria sentido fazer isso com você. Você dá valor pras coisas importantes!”, disse. Eu não fazia a menor ideia do que ela queria dizer, nem do que era o “isso” a que ela se referia. Mais uma vez sem avisar, mantendo sua postura submissamente controladora, ajoelhou-se no chão de frente para mim, se colocando entre mim e a visão da noite mais impressionante que eu já tivera na vida. “Esquece de mim, pode se perder”, e decidiu que seria dessa maneira que terminaríamos a noite. Eu me segurava no parapeito e perdia o olhar no horizonte, vendo luzes amarelas pegando fogo, flashes estourando em todas as direções, contornos e linhas disformes no além e um conteúdo de caixas pretas e altas perdendo o foco, enquanto ela sugava de dentro de mim, lenta e antropofagicamente, qualquer coisa que ela julgava muito importante para que aquele momento desse certo. Eu nunca mais me recuperei daquela noite e antes mesmo de entender, eu já estava acordando largado no sofá da sala, com ela me olhando da janela, sorrindo e me dizendo que tinha acabado. “A gente não tem mais nada pra fazer um com o outro…”, e eu não pude nem contra argumentar.

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Eu a queria mais que tudo no mundo (parte 1)

Nos primeiros dois meses era só admiração, como se eu tivesse conversando com algum famoso cuja carreira me inspirasse ou alguém da música cujos discos eu cansei de ouvir e, de repente, estava falando comigo sobre como foi o dia, sobre amenidades e contando tudo sobre o mundo da fama, sobre o lado de lá, sobre como as coisas realmente funcionam. Eu era fã dela! Mas como não era famosa, nem prestigiada, nem ninguém muito mais importante que a maioria dos que vivem no mundo, comecei a perceber que a vida, até em seus movimentos mais simples, pode ser incrivelmente interessante. Ela era incrível e interessante, o tempo todo.

Depois de um tempo a intimidade cresceu e eu já não achava a vida dela coisa de outro mundo. Era incrível, mas era possível. Era uma coisa que eu não vivia, mas conseguia acompanhar como quem assiste a um filme baseado em fatos reais, ou quem lê um livro biográfico um pouco suspeito. Era muita emoção, muita mudança, muita novidade o tempo todo. Foi mais ou menos nessa época que eu comecei a pensar que talvez eu estivesse cagando para o quão legal era a rotina dela. Eu queria mesmo era saber dela, que atitudes tomaria, aonde iria, o que faria e foda-se se tinha ido viajar, se estava trabalhando muito, se estava desempregada, se estava de pé ou sentada. Foda-se, eu queria saber o que ela pensava, quais eram seus medos, seus planos e seus desejos. De repente passei a desejar ser um de seus desejos.

Aí a gente passou a falar menos de coisas externas e as conversas se tornaram cada vez mais íntimas. Não falávamos de trabalho, falávamos de sonhos. Não falávamos de amigos, falávamos de segredos. Não falávamos de cidades, falávamos de restaurantes. Não falávamos de amor, falávamos de sexo. Trouxemos toda a universalidade pra dentro de uma caixinha de fósforos e ficávamos cavucando nossos sentimentos a fundo, cheios de perguntas e histórias complexas enquanto os dias passavam como eram e como sempre foram. A vida já não parecia tão impressionante. A dela ou a minha, tanto fazia. O mundo real foi substituído por suposições e achismos absurdos que preenchiam todo o tempo que a gente passava conversando.

Depois que chegamos a esse ponto, meio sem querer, ela começou a se interessar pela minha vida. Porque não tinha muitos eventos, nem muito dinheiro, nem muito glamour, mas exatamente por isso era tão intensa. Ela se interessava por sentimentos como a sensação de liberdade em caminhar à noite, de madrugada, vendo gente pelada correndo pelas ruas. Ela se interessava pelas vezes em que segurei a respiração mais tempo do que o saudável e fiquei vendo cores trocadas e formas imaginárias enquanto voltava a respirar. Ela queria saber de onde eu tirava ideias pra escrever, pra desenhar, pra fotografar, pra  fazer músicas, pra ser eu. Ela queria se jogar dentro da minha vida e, de repente, ela desejava fazer parte de mim, nem que fosse por algumas horas, só por alguns instantes.

“Quer ir pra minha casa?” ela me perguntou, uma vez, quando estávamos tomando café e conversando sobre como é que faz pra lidar com a morte de alguém que você nunca conheceu, mas sempre quis conhecer. O assunto, naquele momento, pareceu uma justificativa honesta para não perder a chance. A gente podia morrer, do nada, e viveríamos nessa eterna dúvida. “Quero!” respondi, sorrindo nervosamente. Depois disso o medo tomou conta de mim, assim como dela também, porque a conversa começou a ficar estranha até dar lugar a um silêncio incômodo e agudo. “A gente precisa encher a cara!”, ela disse e eu concordei, afastando a xícara e buscando ao redor um lugar onde pudéssemos comprar garrafas, doses, coisas alcoólicas em geral.

Encontramos um bar e levamos uma garrafa de pinga vagabunda. Na metade do caminho abrimos a tampa para cheirar e nunca mais paramos de beber. Virávamos doses puras que faziam o estômago querer devolver tudo a todo momento. Era noite, fazia frio, não tinha ninguém na rua e a gente gargalhava alto de nervoso e de bebedeira. Nos beijamos cheios de erotismo dentro do elevador e, pensando agora, nosso beijo parecia mais um conjunto de lambidas mútuas que erravam – e muito – o alvo. Lambendo os rostos um do outro, deslizando as mãos por tudo quando é lugar, até atingir o andar. Quando ela girou a chave do apartamento eu vi a janela enorme para a cidade noturna me hipnotizando. Fiquei um tempo indeterminado perdido no horizonte até me virar e dar de cara com ela completamente nua, de pé sobre a mesa de centro, me olhando e sorrindo: “eu quero que você me admire antes de qualquer coisa”, e me mandou sentar no sofá.

Dali pra frente eu comecei a viver uma das noites mais sexualmente intensas da minha vida…

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Só não eu

Eu queria ser como ela. Queria ser uma mulher assim, desse jeitinho dela, ou desse jeitão, sei lá como definir. Só sei que queria ser igual. Às vezes acho que, em algumas coisas, ela é mais mulher que todo mundo, é mais fêmea mesmo, sabe? Ela é a mulher que a maioria das mulheres gostaria de ser, ou, ao menos, gostariam de ter um pedaço, de roubar uma qualidade, um traço. É a forma perfeita, o modelo ideal. É a mulher que Eu gostaria de ser.

Eu queria ter a coragem dela. Lembro do rosto dela, das expressões na cara, daquelas que a gente não consegue forjar, que vêm naturalmente a cada nova emoção. Lembro da expressão de desespero confiante quando surgia um problema, lembro de como se mantinha fria, focada, séria e lisa diante das situações mais malucas. Eu queria ter aquela frieza, aquele sangue gelado, a rapidez de raciocínio e o peito pra segurar a bronca na hora que desse tudo errado.

Eu queria ter o corpo dela. Eu lembro das outras meninas comentando como ela era certinha, como tinha as coisas todas no lugar, como suava a camisa para ter um corpo bonito. Eu não queria suar, mas queria ter aquele corpo. Aquela barriga lisinha, bonita igual das modelos que fazem propaganda de iogurte ou absorvente. Aqueles pernões duros e femininos, sem moleza, sem músculos marcados, do jeito que eu sempre sonhei. Queria aqueles peitos do tamanho exato pro corpo, sem silicone, sem truque de roupa, sem mágica. Era o corpo que eu pedi pra Deus, só que nela.

Eu queria ter aquele apartamento, aquela família, aquela calmaria. Queria ter todo aquele tempo, toda aquela disposição, todas aquelas possibilidades. Eu queria ter aquela cama, aquelas roupas, aqueles perfumes, aquelas lingeries e aquele namorado pra tirar todas elas de mim, na marra. Queria o namorado pra bagunçar a cama, pra lamber o perfume dos meus pulsos, pra jogar as roupas pelo chão e pra acordar naquele quarto, naquele apartamento, comigo. Eu queria aquele cara pra mim, pra me amar de verdade, me querer até o último fio de cabelo, e eu, dentro dela.

Eu queria aquele autoconhecimento. Queria saber guiar, saber o que é que funciona, saber o caminho das pedras e ter o mapa sempre à mão. Queria gozar em todas, um monte de vezes, mordendo os lábios, gemendo no ouvido dele, arranhando aquelas costas, sentindo o peso dele sobre mim e sabendo dizer exatamente o que é que ele deveria fazer em seguida. Eu queria me conhecer assim como ela se conhece. Queria me sentir confiante no inverno, cheia de blusas, no verão, só de shortinho e camiseta e de madrugada, vestindo só pulseira, brinco e perfume. Queria aquela sensibilidade.

Eu queria tudo dela. A cor dos olhos, o timbre da voz, a bunda dura, as panturrilhas malhadas, os sapatos legais, as saias e os vestidos que funcionam em qualquer situação, a confiança, a certeza, a capacidade de persuadir, os amigos fiéis, os contatos importantes, o salário generoso, as viagens paradisíacas, a casa bem decorada, o namorado gostoso, os orgasmos múltiplos nas noites de sexta-feira, nas noites de sábado e nas manhãs de domingo, o amor correspondido, a vida mansa, os dias de folga e um futuro pela frente. Eu queria ser mulher como ela, sê-la, sei lá. Eu só queria não ser uma mulher como eu, mas não sei o motivo.

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