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Escolhas, só escolhas!

Você pode escolher as coisas. É ótimo ter opções, ter liberdade de escolha, mas muitas vezes a gente se esquece disso e decide por impulso, pressionado por alguém ou simplesmente escolhe qualquer coisa porque não prestou atenção no potencial da situação. A gente pode escolher beber dois litros de água por dia, ou pode beber dois litros de cerveja. Uma escolha vai te hidratar e te deixar neutro. A outra vai te deixar animado e eufórico, mas desidratado e confuso. Escolhas, cara!

A gente pode escolher viver a vida toda juntando dinheiro, tentando ser rico e levando uma boa vida. Ou a gente pode gastar todo dinheiro que a gente ganha sendo feliz aos poucos, em pílulas, mas com gente boa e bonita, gente que nos faz bem. Uma escolha vai te tornar uma pessoa estressada com muito dinheiro para comprar uma cama gigante, dormir confortavelmente e usufruir de algum luxo enquanto não estiver trabalhando. A outra vai te tornar uma pessoa de condições financeiras instáveis, vai ter mês que a corda vai apertar legal, você talvez não tenha uma cama tão gigante, nem viva com luxo, mas vai ter histórias para contar, gente boa pra ouvir e uma sensação estranha de estar caminhando para alguma coisa melhor num futuro promissor. São escolhas!

A gente pode escolher chamar as moças de princesas e vadias, chamar os rapazes de gatinhos e galinhas, podemos tentar fazer sexo como os filmes pornôs, podemos viver tentando aparentar sermos sexualmente muito bem resolvidos, tentando mostrar pro mundo que a gente transa bem, e muito, e goza sempre, e muito, e que fio terra é coisa de viado, e que dar o cu é coisa de mulher vagabunda, e que ter pau grande é a única maneira de comer alguém e que ter peitos lindos é a única maneira de ser desejada. Ou então a gente pode escolher só transar, fazer o que dá vontade, conhecer gente nova, coisas novas, posições novas, sensações novas, outras maneiras de gozar, misturar as maneiras velhas com as novas, entender um pouco mais sobre Kama Sutra, sobre vibradores, sobre óleos, géis, massagens, beijos, carinhos, texturas e figuras e sermos felizes sexualmente sem dizer nada a ninguém, sem julgar nem ser julgado por ninguém, só relaxando e gozando em looping infinito. São escolhas!

A gente pode escolher fazer uma faculdade foda de entrar, foda de sair, mas que vai gerir um lindo, gorducho e fofuxo diploma que vai te garantir um emprego em uma empresa que pague bem, que tenha escritórios modernos pintados de branco com uma porção de gente sabida das coisas fazendo o dinheiro girar enquanto dorme pouco, enche o rabo de café, vive com dor nas costas, vive doente, mas tá ganhando bem, tá enchendo o pai de orgulho e tá fazendo valer os anos de árduas noites em claro estudando. Ou você pode descobrir o que te faz feliz, pensar um pouco mais sobre isso, vestir uma camiseta, uma roupa confortável, sentar no sofá e começar a bolar o plano sobre de que maneira ganhar dinheiro com isso. Você pode pensar em atividades que te interessem e talvez nem sejam tão rentáveis, mas que vão te permitir viver, respirar, namorar, ter amigos, construir uma carreira e, quem sabe, até ganhar alguma grana. São escolhas!

A gente pode escolher ir andando, ir de bike, ir de ônibus ou ir de carro. Ou então foda-se, a gente nem vai e decide fazer outras coisas. São escolhas. A gente pode decidir dar só uma lembrancinha, ou dar flores, ou dar flores e um urso, ou dar uma roupa bacana, ou dar todo o seu salário numa loja e realmente impressionar. Ou então foda-se, a gente pode fazer um jantar, comprar um vinho que alguém te jurou que não tem gosto de inferno e fazer um amorzinho gostoso no fim da noite. São escolhas! A gente pode viajar para o interior, ou pode ir pra praia, ou vai pro meio da Amazônia, ou se joga pra Buenos Aires, ou vai pra Disney, ou vai pro Rajastão. Ou então foda-se, a gente pega umas cervejas, umas comidinhas delícias feitas na casa dos amigos e vai pro parque jogar baralho, tocar violão e ver o sol abaixando atrás dos prédios. São escolhas!

Então, sabendo disso, sabendo que você tem escolha, que você pode realmente decidir sobre a sua vida, pelo amor de tudo que é mais sagrado para você: não culpe os outros pelo que não deu certo. Combinado? A gente é foda, brother… a gente vai conseguir e vai ser feliz em larga escala!

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Eu prometo!

Depois de tudo você vai ajoelhar em qual altar? Vai pedir perdão pra quem? No fim não tem mais nada a dizer, é só pegar as coisas, juntar os panos de bunda e ir pra vida, pro mundo, pra aquilo que dá medo e não tem forma nem cor. Seja bem-vindo ao futuro incerto. Não tem perdão que garanta vida próspera, nem sorte verde, nem felicidade larga. Vai se ajoelhar pra que, então?

Todo mundo tem suas próprias cruzes pra carregar e não é vergonha nenhuma dizer que está difícil, contar pro mundo que tá doendo, que tá pesado pra caralho. A vida é boa porque não é fácil, se não seria banal, bunda, qualquer coisa. Você vai se arrepender das coisas que pareciam boas e não eram, vai se amaldiçoar por algumas escolhas que geraram desconforto, vai pedir para voltar, vai pedir para ficar, vai pedir para nem ir e, no fim, é a vida mesma que está tomando forma.

O acaso mora ao lado, um pouco pra frente da porta da sala, ali pelo corredor, uns dois apartamentos pra direita. O acaso também paga R$650 de condomínio, também achou a nova cor do portão da garagem uma merda, também busca cartas quando chega do trabalho e também pede pizza quando está chovendo. Saber que não sabemos nada dá medo, mas é melhor assim do que viver na ilusão de que estamos no controle. Não controlamos nada, nunca. A vida é só o palco.

Tem dia que não dá pra segurar e a alma chora por dentro, daquele jeito dolorido e quente, sufocante, silêncio de desespero e gritos de fuga. Se tem uma coisa barulhenta nesse mundo é a alma alheia. A nossa, infelizmente, só a gente não consegue ouvir! A dos outros conta tudo pra gente, sem filtro, sem pudor nenhum. A alma alheia revela raiva, medo, tristeza, solidão, desconfiança, alegria, amor, desejo, pavor e devoção. A nossa não nos diz nada, nunca.

Mas tudo bem. Sempre “tudo bem” porque se não dá para mudar, não adianta brigar na base de murro em ponta de faca. Tudo bem, a gente sofre, se fode, se cansa, mas curte uns momentos legais. A gente ainda tem amigos engraçados, ainda tem lugares incríveis para conhecer, ainda tem doces inacreditáveis da padaria do centro. A gente ainda tem um dinheirinho pra curtir umas coisas que a gente gosta, ainda tem aquela festa no fim de semana, ainda consegue trepar gostoso e gozar forte e, acima de tudo, mesmo que não seja sempre, ainda consegue ser feliz.

A gente vai sobreviver. Eu prometo!

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Tuas meninas estão assustadas e perdidas

Falta tempo para que elas possam crescer. A evolução do mundo, o jeito como a sociedade cria suas crianças e a maneira como a televisão e a Internet fazem tudo parecer lindo, livre e fácil tornou esse amadurecimento uma tarefa quase impossível. Quem é que quer ter responsabilidades, se interessar por coisas complexas e tentar manter o controle num mundo onde jovens de dois ou três anos de diferenças são considerados geração X, Y, Z Alpha, e uma porção de outros nomes que só servem para vender, usar, lavar e plantar ideias pagas. As crianças vão nascer com códigos de barra para não precisarem ter nomes nem sobrenomes para honrarem.

As tuas meninas estão perdidas agora, sem você. Enquanto te tinham aqui eram as melhores, as mais seguras de si e escondiam todos os problemas que têm em casa e com o mundo dentro das bolsas gigantes, dos batons rosas demais e das roupinhas descoladas. De onde é que vem a opinião dessas meninas? Muito me admira que consigam ouvir as músicas que ouvem. O rap não é macio para quem vive uma realidade alienada, mas para elas parece uma espécie de ponte, um link que as puxa de volta para a vida que têm quando estão vivendo no mundo de fantasia que sonham em tornar permanente.

Não é bonito, nem inteligente, viver se escorando na força de uma pessoa só, mas que opção elas tinham? Se uma se escorasse na outra seriam uma meia dúzia de varetas frouxas enfiadas na areia esperando que, durante a queda, as outras a segurassem. Acredito, por experiência própria, que a vida de verdade está na rua. O caráter de uma pessoa e suas qualidades são formadas em casa, na infância, mas quando chega a adolescência e o sentimento de liberdade é que todos esses valores são postos à prova. Tuas meninas encontraram em você todo o reforço para as qualidades que elas gostariam de ter, mas não desenvolveram. Não só isso. Você trouxe a elas a segurança contra o medo que toda menina jovem tem quando vê o mundo de verdade: homens de verdade.

Me lembro bem, muito bem, com cores, sons e cheiros, do dia que conheci todas, numa paulada só. Elas pareciam as meninas mais sabidas do mundo. Sabiam como me olhar, como falar comigo, como me desmontar e como saber que tipo de gente eu era. Eu tinha sido apresentado por você, trazido por você, não tinham porque terem o pé atrás comigo. Sendo assim, vieram com tudo. “Você fala bem, é bem articulado!”, “o que você faz da vida? Tem cara de profissão séria!”, “que perfume você usa? É muito bom!”, “o seu sorriso é contagiante” e dai por diante. Me perguntaram numa mesa, no primeiro momento em que fiquei sozinho com elas, sem você, de onde a gente se conhecia, se eu era solteiro e o que ia fazer mais tarde. Alguém tinha ensinado isso a elas, não era possível estar ali no meio de gente que beirava os recém 18 recebendo o tipo de cantada que recebo de mulheres de quase 40. Elas tinham uma confiança que não era delas, parecia um teste, como se falassem coisas esperando uma reação automática, tentando adivinhar o que iria acontecer. Mas você ensinou mais do que “o que fazer”. Acho que o que elas aprenderam com você foi o “como não me foder”. Não tinham compromisso com o sucesso, e sim com a não derrota.

E acho que isso valia pra tudo. Não perdiam ninguém! Para moleques metidos a sabidos. Não perdiam para outras meninas, ex-namoradas, ficantes e gente de fora. Não perdiam para cobranças do mundo, roupas, vontades, costumes e até religião. Sempre se sentiram donas das próprias ações. Claro, desde que você estivesse por perto. Agora você não está e eu perdi o interesse por todas elas. Até nas fotos, onde a gente finge sorriso, dá pra ver que tem alguma coisa errada. Elas estão perdidas, assustadas, fazendo coisas que acham que você diria que era o certo a se fazer, mas sem nunca terem certeza de nada. Vai ser bom para elas, apesar de agressivo, esse processo de amadurecimento pelas próprias ações. Vão ser mulheres com opinião própria quando você voltar.

Mas se eu pudesse dar um palpite, diria que hoje em dia estão se arriscando menos, jogando menos e confiando menos. Devem estar com medo de não terem para quem pedirem conselho na hora que bater a dúvida se devem ou não transar com fulano, ou se deveriam ou não ficarem com aquele cara que tem namorada, ou até coisas mais simples, como por exemplo, qual o programa das quintas-feiras à noite. Acho que hoje, se eu encontrasse qualquer uma delas, não teria de responder nenhuma pergunta. Elas não teriam coragem de questionar nada, absolutamente nada. Tuas meninas estão perdidas e encontrando o caminho por conta própria, o que é bom, mas não acredito que só isso, que só essa imersão na vida real, vá torná-las independentes. Você criou essa dependência, e agora vai ter que desmamar, uma a uma, todas as essas crianças que você transformou em falsas mulheres.

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