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A frieza é que me dá medo

Tenho medo de muita coisa nesse mundo, assim como muita gente também tem. “Não tenho medo de nada”, que grande mentira. Quem não tem medo de nada não faz a menor ideia do que é um diagnóstico de câncer, uma arma apontada pra cabeça, uma aranha armadeira sobre a pia do banheiro, um sequestrador sentado no sofá da sala ou um aviso de tubarão quando seu filho tá brincando no mar. Não sabe do que fala. Estamos cansados de saber que o medo é o que nos permite discernir sobre perigos e, assim, continuarmos vivos. Mas existem medos que não são tão fáceis de explicar. Um dos meus medos mais intensos e inexplicáveis é a frieza dos humanos em alguns momentos decisivos. Tenho medo da frieza das pessoas em alguns momentos.

Tenho medo da frieza do preso que confessa o assassinato sem baixar o olhar. Ele sabe que fez algo que não deveria ter feito, sabe que é irreversível, sabe que uma pessoa deixou de existir antes da hora por sua culpa, sabe que existe uma família em luto, sabe que existem amigos desconsolados, sabe que existe uma responsabilidade eterna e, mesmo assim, não se abala. Olha o juiz e confessa que matou. Olha o interrogador e diz que matou. Olha pro repórter e diz que matou. Passa por entre as pessoas e não abaixa a cabeça, não tenta esconder o rosto, não fica com a voz embargada, os olhos vermelhos, a pele branca. Simplesmente assume e pronto. Tenho medo.

Tenho medo da frieza de quem caminha pelo escuro incerto sem ponderar ou temer. Gente que levanta rápido quando acaba a força e vai pela casa, entre os móveis adormecidos e os obstáculos mortais, atrás de uma vela, de um quadro de luz, de uma lanterna, de um telefone, da putaquepariu. Gente que não tem medo de pisar no vidro, de ser esfaqueada por trás, de ser surpreendida por algum tipo de extraterrestre, de ser esquecida no breu pra sempre. Essa frieza de assumir o papel do herói, o papel de quem vai “resolver essa porra pra já!” e resolve mesmo. Gente que some na caverna e volta com o urso à tira colo. Tenho medo.

Tenho medo da frieza de quem mente pra polícia na hora do enquadro. Policial, por excelência, não costuma tolerar muita conversa. Se for mentira, tua vida corre perigo, pode apostar. “Tá com droga?” e o peão responde que não, com as meias cheias de cocaína, com umas três pedras de crack escondidas na bunda, uma paranga de maconha enfiada goela abaixo e um frasco de desodorante cheio de lança-perfume dentro da mochila. “Tá armado?” e o maluco responde que não, num ato suicida que faz a lâmina do canivete dentro da cueca esquentar à ponto de fogo, a arma debaixo do banco do carro chega a trepidar, enquanto o facão deita inquieto debaixo do tapete do passageiro. Gente maluca que acredita tanto na própria palavra que mente na hora da morte em busca de viver um pouco mais. E vive. E tenho medo.

Tenho medo da frieza de quem pergunta se está sendo traído e ouve que sim. Gente que tem estômago pra conversar depois de saber que ela dá pra outro, que ele come outra. Gente que não grita, não explode, não quebra tudo, não manda embora, não diz que vai sumir, não odeia, não mal diz, não amaldiçoa, não planeja vingança, não planeja assassinato, não diz que vai atrás do filho da puta, não diz que vai arrebentar a vagabunda. Tenho um medo mortal do frio que salta de para-quedas pelo buraco da íris dos olhos e toma conta da cena toda. Essas cenas com gente fria que descobre que é traída e consegue, só com o olhar, dominar o traidor e fazê-lo se arrepender de existir. Gente que tem fibra, que não perde o controle nunca, que está sempre um passo à frente da loucura sensata. Tenho muito medo!

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Sensual e fictício

A porta fechada que era pra fingir que o mundo tinha parado de existir e tudo o que restava era aquele quarto. Os corpos tremendo de frio e tesão, cheios de pontas de dedos muito frias e narizes que pareciam bicos de gelo. No escuro, quase nada visível, quase nada pra ver e calma, uma extrema calma que descia dos cantos das paredes e lambia os pés da cama, as costuras e as franjas da cortina, os beiços do tapete e as nossas canelas.

De costas, apoiada na parede como quem acaba de ser pega pela polícia, me oferecia uma nuca lisa e comprida para eu beijar, lamber, morder e arranhar. Minha mão sumia por dentro dos cabelos, que se agarravam nos meus dedos e não largavam mais. Foi o primeiro começo de um par de pares de dias da gente se alisando como se tivéssemos mais intimidade que qualquer outra dupla no mundo, nos olhando sem roupas e sem defeitos, isentos de perfeição por opção e felizes com a nossa curiosidade.

Dias sentindo sua respiração quente ao redor da minha orelha, sua voz falhada e oscilante brotando do meio da escuridão e um calor concentrado que passava de mim pra você e depois voltava de novo, num ciclo de aquecimento natural quase imbatível. De dia ainda era escuro e a noite era 24h a dentro, mergulhada em todo tipo de troca de experiências e sensações. Eu passava meus dedos pelo seu rosto, desenhando o contorno da tua boca como um batom de festa, sentindo a ponta da tua língua surgindo por entre os dentes para fazer meu tato salgado receber as boas vindas do teu paladar voraz.

Beijos no olho, carinhos detrás da orelha, dedos entrelaçados debaixo de um sem número de cobertas, pelados e muito quentes, nos aproveitando um do outro para pura sobrevivência. Era tão sensual que chegava a doer ter que dormir. Fechava os olhos fora de controle desejando mais uma dúzia de noites muito bem gastas transando ao som de Los Hermanos, pedindo comida pelo telefone, bebendo vinho barato e usando a boca para beijar e lamber, mas quase nunca para falar.

Era tão erótico, tão intenso e, ao mesmo tempo, tão suave, que beirava a loucura, daquele tipo de sentimento que faz a gente pensar sobre largar o emprego, vender o apartamento e o carro, deixar o cachorro com a mãe e se mudar, de mala e cuia, de vez pra outro lugar. Tão bom, mas tão bom, mas tão bom, que não existia e, enquanto eu passava os dias desenhando uma fantasia cheia de delicadeza e sentimento, a vida real corria a passos largos acabando com toda a minha imaginação.

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As coisas que pulsam

(esse texto é um exercício fantasiado de texto, ok?)

Em pé, descalça com os pés no chão de madeira, o horizonte das luzes no fundo escuro do céu é o limite. Os cabelos muitos pretos, muito compridos e vivos como cobras, sobrevoam os ombros, as costas e vão para trás a cada nova rajada de vento que entra pela janela. Ela ali, procurando com os olhos uma das luzinhas que faça alguma diferença. Mas não faz. São todas iguais. Sempre iguais. Assim como o vento, os cabelos e os cigarros. E fuma, para ter certeza de que este é exatamente idêntico ao anterior.

É o vigésimo nono, alto pra caralho e, por isso, olhar para o horizonte é um exercício de caça constante. Não se vê a forma das coisas exatamente quando se está nessa altura. Então são só luzes se movendo, construindo um cenário estático tão dinâmico que fica difícil de descrever. Afinal, você nunca percebeu que as luzes dos postes pulsam como as estrelas no céu? Deveria ter percebido isso há alguns anos, no mínimo. Quando você nasceu a iluminação de rua já pulsava firme, amarela, em lâmpadas de mercúrio.

As coisas pulsam para se mostrarem vivas, porque o morto não pulsa, porque não respira, porque não sangra, porque nada é. E se é, só pode ser morto mesmo. A ponta alaranjada do cigarro, que a gente estupidamente chama de brasa, mas não é, pulsa porque, vivo que é, o tabagismo precisa sugar a vida de quem o fuma. As estrelas, clássicas, pulsam porque vivem, simples assim. O coração pulsa porque quer nos manter vivos e os pulmões pulsam porque quer nos manter fumando. Vamos nessa linha de raciocínio e fica difícil aceitar que as luzes da cidade não pulsam. Pulsam porque querem nos cegar, se fosse para ver, de verdade, viveríamos no escuro, com as pupilas dilatadas, vendo os contornos granulados de tudo e todos.

Mas não. Era só uma janela na altura das coxas, num prédio bem alto e com mobílias antigas, com um corpo seco, um rosto quase feio de tão magro, e uma camiseta parecida com uma camisola, sobre um corpo que não vestia mais nada, nem perfume, por baixo. Era um cômodo vazio, só com janelas, paredes e chão, sem móveis nem lâmpada, nem quadros nem outra serventia além da que lhe cabia: ter a melhor vista da cidade. No canto, porém, tinha um cara, um outro rapaz muito magro, tão magro quanto a própria magreza pode ser. Ele fumava com o cigarro no canto da boca e dedilhava um violão com tanta delicadeza que os sons e as notas musicas tinham de se atirar, sozinhas, para fora do instrumento, em direção ao além, pois ele não parecia querer propagar sua música para ninguém.

E a cena era essa, com ela peladássa, com os bicos dos peitos quase rasgando a camiseta(sola), os cabelos malucos voando, ondulados, sem parar por todo o cômodo, com ele sentado no canto, tocando para si mesmo, ouvindo notas que ninguém mais ouvia, e tudo pulsando. O cigarro de ambos, o coração de ambos, o pulmão de ambos, a cidade de ambos, as estrelas de ambos, a vida de ambos, até que chegou a hora de parar. E desligaram a chave, apertaram o botão vermelho, digitaram o código de segurança, ou qualquer outra coisa apocalíptica, e tudo se apagou. A Lua tava com sono, foi dormir cedo, as estrelas foram embora também, os cigarros queimaram até o filtro e a cidade ficou sem energia.

Foi nessa escuridão que tanto ele, quanto ela, perceberam, pela primeira vez, que não estavam sozinhos ali. É que as vezes a gente vê tanta coisa, a vida e as luzes pulsam tanto, que a gente fica cego para o que realmente importa e está perto, fisicamente falando. Foi desse jeito, e por isso, que acabou a cena toda.

Fim, um beijo pra você, leitor(a)!

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O corpo da Sensação

Cheguei, cansado, com as malas mais pesadas do que no dia da partida, e atirei tudo ao chão. Sacolas, malas, presentes, fotografias e câmeras, fiquei só comigo, que já peso bastante. Não fiz questão de desfazer as malas para ser prático, mas para libertar os ares que a gente traz de outros lugares. As nossas roupas, nossos objetos, nossas solas de sapatos, trazem coisas de outros lugares. A gente não vê, mas esses ares se agarram a tudo que não é liso e viajam, vêm conosco, mudam completamente o nosso lugar de estar com sua presença invisível, mas inegável. Viajam nos pelos do corpo, também, esses novos ares.

Sentado no tapete, no centro, com as muitas roupas espalhadas ao redor, plásticos, papéis e panos, todos em círculo, comigo no centro, sentado, olhando, deixando que tudo saia de onde tem que sair e se instale onde tem que se instalar. Nunca se deve “bater” ou “limpar” roupas que chegaram de viagem, é uma perda irreparável de espíritos. Sentado ali vi acontecer o que há muito se tornou ritual para mim, mas que pouca gente aproveita: o nascimento de uma nova e colorida Sensação. Ineditismo em forma de corpo.

As pessoas voltam de viagem e a maior preocupação que têm com as roupas é em quando elas voltarão a ficar limpas. Ignorantes seres, somos nós, não? Demorei muito a aprender que, fazendo isso, perdia muito do que poderia me formar como pessoa. Hoje não mais. Hoje sei do surgimento da Sensação. E escrevo em letra maiúscula porque essa sensação é um Ser, é uma coisa, pra não dizer uma pessoa. É um corpo que se materializa de vapores, pequenos grãos de terra, poeira, cheiros e cores. Vai se formando todo colorido, se arredondando e rodopiando no ar, preenchendo um espaço vazio com alguma coisa quase vazia de matéria, mas cheia de significado. É uma Sensação, substantivo feminino, uma moça, um corpo de mulher.

E eu sentado ali, no meio das roupas todas espalhadas, vendo aquele corpo transparente se formar na minha frente e ansioso pelo final. Amarelo, azul, cor de laranja, lilás, preto, branco, cor de rosa, fúcsia, verdes e um monte de outras cores que eu ainda não sei o nome, rodando e crescendo. Estava diante de mim a minha Sensação. A do dia, a da semana, não importa. E ela me abraçou quente, pintando minha camiseta de outras manchas, e sentou-se em frente, na mesma posição. Eu toquei o meio de seu peito, onde deveria haver um coração, e ela fez o mesmo comigo. Nesse momento tudo escureceu de repente, como se apagassem a luz. É o que geralmente acontece.

Fica tudo escuro, preto, na verdade, com os contornos das coisas desenhado em neon e prateados, em torno de espirais coloridas e espécies de bastões, que ficam pelo ar, desenhando formas geométricas de simetria perfeita. Dura alguns minutos e depois, lentamente, as cores vão correndo para dentro das gavetas, dos cantos do quarto, por debaixo da cama e pra dentro dos bolsos das roupas. A mulher de pó e lembranças vai se dissipando, já não imita seus movimentos e vem te abraçar, num gesto de respeito e entrega tão intenso que é possível abraçar de volta e sentir um corpo ali, quente, que tem textura, que tem massa e conteúdo.

E foi o que aconteceu. Fiquei no centro do tapete abraçado a uma Sensação que nasceu depois da minha chegada, fruto das minhas memórias e experiências. Ficamos ali, grudados, trocando calores, por um tempo que não pude precisar e depois desapareceu. No chão, das cores que deveriam ser, todas as roupas sujas. Agora sim, estavam somente sujas. Não dá para confundir sujeira com registros de experiências. Quem vem à minha casa sem avisar encontra meu quarto todo cheio de roupas jogadas, e sapatos pelos cantos e cobertores e lençóis sem formato. É que eu não desperdiço as Sensações que adquiro por aí, pelos dias. Trago todas para casa e as abraço, como quem pede a um amigo que não vá embora. Eu não perco absolutamente nada do que eu vivo.

Você também não deveria perder, veio tudo com você, nos teus cabelos, nos teus pelos e nas tuas roupas…

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Calípso [3/3]

Durante a noite sonhei com ela. Sonhei que vinha voando, com asas enormes e me pegava pelos ombros, como uma águia e me levava para voar. Aí me jogava de lá de cima e eu, depois de me assustar com a queda livre também voava, batendo asas e vendo o mundo junto dela. Dizem que quando a gente sonha que voa quer dizer que o corpo está tendo um orgasmo químico. Não duvido. Acordei bem cedo, lá do outro lado do quarto podia ver o contorno de alguém debaixo do cobertor. Era Calípso, aproveitando do benefício de não ter sonhado comigo, provavelmente. A todo momento eu pensava no que ela tinha me dito: “eu sou duas”, e tentava decifrar a brincadeira.

Saí atrás de comida e voltei mais rápido do que pretendia. Quando cheguei ao quarto ela ainda dormia, mas me ouviu entrar. Virou-se dura e seca na cama para ficar de frente para mim, me olhou sem sorrir e eu nunca a tinha visto tão morena. “Oi…” me disse, lá de longe, como se tivesse brigado comigo, ou como se ainda estivéssemos na fase das apresentações formais. Levantei e fui até ela, mas por medo ou desconfiança, não sentei em sua cama. Fiquei no colchão ao lado, sentado, com os cotovelos apoiados no joelho e olhando para ela. “Bom dia, dormiu b…” e antes que eu terminasse a minha pergunta ela me interrompeu. Me perguntou se eu já sabia “delas” e fiquei confuso por um segundo, até responder que sim, sem saber ao certo se estávamos falando da mesma coisa.

“Pela sua cara você me comeu ontem, não foi? Olha, nada pessoal, mas isso não vai acontecer comigo, quer dizer, com ESSA versão de mim. Desculpa” e eu fiquei imóvel, como se não tivesse me abalado, quando por dentro eu desmanchava como um sorvete no forno. Ela se levantou e passou por mim fria e desinteressada, sincera, na verdade. Ao olhar sua figura caminhando para a porta percebi que era mais corpuda, tinha mais curvas, uma bunda maior, e comecei a acreditar que, talvez, só na minha imaginação, Calípso fosse duas mulheres dentro de uma só. Rapidamente me lembrei do dia em que chegou, que conversamos por horas e, no dia seguinte mal me conhecia. E no dia seguinte a este, acordou me amando, me convidando para passarmos o dia junto e transou comigo. E no meio da noite o cabelo foi escurecendo e sem motivo não quis dormir comigo. E hoje acordara como se fosse outra. “Meu Deus!” disse, arregalando os olhos ao máximo com o corpo arrepiado.

Saí para a rua para respirar alguma coisa que parecesse normal. As bicicletas de Berlim pareciam normais, o frio parecia normal, as pessoas pareciam normais e o Sol era bem normal, esquentando pouco, iluminando absurdos. Instintivamente caminhei pelos mesmos lugares onde passamos no dia anterior, lembrando dos comentários que ela fazia, das brincadeiras e de como eu gostava de ouvi-la falar, ouvir português numa terra distante, na voz mais linda, com o cheiro mais interessante e exótico do mundo. Eu a queria de volta e sabia, mesmo que com algumas dúvidas, que no dia seguinte ela estaria lá. Esse era o plano!

Forcei para que o tempo passasse. Li livros e revistas, tomei incontáveis cafés, almocei comendo lentamente, esticando a duração de coisas rápidas para o dia sumir. De tanto caminhar, cansei, e de tanto cansar, voltei para o albergue e decidi que dormiria logo para acordar logo e encontrá-la novamente. Não passava das seis da tarde quando cheguei ao quarto vazio. Sobre o meu travesseiro, um bilhete: “Não fica bravo, você é gato! Bjs Cali.” Não consegui definir meu sentimento ao ler aquilo, mas mantive o plano de dormir cedo. Enquanto o sono não vinha fiquei planejando como seria quando eu acordasse, o que eu diria a ela e o que faríamos juntos. Estaria disposto a viver assim, dia triste, dia feliz, pro resto da vida se fosse preciso. No meio das ideias, apaguei.

De repente acordei ouvindo passos de salto alto caminhando no quarto. A outra tinha chegado sabe-se lá de onde. Não acendeu a luz e no escuro permaneceu. Pela pouca iluminação que vinha da janela pude vê-la repetir o mesmo ritual do outro dia. Tirava as peças de roupa, uma a uma, até ficar só de calcinha e depois vinha o pijama. Mas dessa vez não. Manteve o sutiã, a calcinha e não pegou pijama, não se deitou, não guardou as roupas no chão nem arrumou a cama. Ela veio até mim. Fingi que não estava vendo mas era impossível não reparar que o corpo era muito diferente, o formato e até o comprimento do cabelo eram diferentes. Era outra mulher.

“Não precisa fingir que não está me vendo”, disparou, antes de se sentar semi nua na cama ao lado. Eu olhei para ela ainda sustentando o teatro e me esforçando para não olhar para o seios que, com certeza, estavam muito maiores, sem nenhuma dúvida. “Preciso perguntar uma coisa”, disse olhando diretamente para mim e nesse momento foi impossível não sentir o cheiro de álcool de dentro de sua boca. Eu fiz um movimento com a cabeça pedindo que continuasse falando e ela, sem dizer nenhuma palavra, subiu na minha cama e se ajoelhou sobre mim, assim com  a “minha” Calípso fez quando transamos na noite anterior. Acho que era a posição preferida de ambas, não sei.

Tirou o sutiã e a minha certeza se confirmou. Seios novos, corpo novo, cabelo mais cumprido, tudo diferente. Enquanto eu admirava aquele corpo perfeito ela se deitou sobre mim, assim como fez a outra quando me contou que era duas. Veio com a boca alcoólatra bem perto do meu ouvido e disse: “Tem marcas de dente no meu seio esquerdo…”, e apontou para uma porção de marcas vermelhas no próprio corpo, ainda quase colado em mim. “Foi você, ontem?” completou a pergunta, me olhando feroz, com a testa franzida e a respiração acelerada. “Foi…” respondi, e sorri, porque já não dava para levar aquilo tudo muito a sério. Então ela saiu de cima de mim, ficou ao lado da cama e abaixou a calcinha, sem pensar, sem pudor, sem crise. Voltou para a cama, agora completamente nua e bêbada, e impôs: “Então me mostra como é que foi”, e me beijou o beijo mais intenso de toda a minha vida. Eu amava Calípso, fosse ela quem fosse.

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Preto

Era uma presença negra, coisa preta mesmo, perdida no meio da escuridão, me esperando chegar perto para me comer. Ia me comer de qualquer jeito e eu torcia muito pelo “good way” da coisa, afinal, àquela altura, com o medo e o tesão que eu estava, dava pra acreditar em morte e sexo na mesma proporção. A casa era minha, o campo de batalha era meu, mas com ele eu me sentia tão vulnerável, tão insegura, a ponto de ter medo de avançar dentro da escuridão familiar da minha própria porta de entrada. “Não acende a luz!”, disse, e eu obedeci hipnotizada.

Com uma mão na minha cintura, um passo atrás de mim, me guiou para dentro apartamento gelado como se me conhecesse, como se soubesse da minha casa, do caminho para o quarto, ou o banheiro, ou que a água fica na porta da geladeira e os copos estão na terceira porta da direita para a esquerda do armário. Sabia tudo ali, inclusive, que eu ficava completamente mole com gente me segurando firme pelo quadril. Era muito escuro estar com ele, se é que escuridão pode ser um sentimento. Eu pensava que ele podia ser um assassino, um ladrão, um sequestrador, um estuprador e em todas as opções o meu tesão não diminuía. Era preto o mundo ao redor.

Quando a porta se fechou pude me dar conta de como minha casa era escura. Não conseguia ver nada e mantinha um mínimo senso espacial por saber onde as coisas costumavam ficar, mas não via. Jurava que mesmo à noite entrava alguma luz pela janela da sala, mas não. Era ele, apagando tudo, até as coisas do além, tornando meu mundo um pretume sólido e fosco para onde, totalmente movido por intuição, ele me levava. Eu já não acreditava como ele sabia o que estava fazendo, para onde estava indo e, principalmente, em como estava fazendo tudo certo. Talvez a escuridão fosse só para mim e ele, já sendo escuro e sombrio, pudesse ver com exatidão o que se formava à nossa frente.

Reconheci o cheiro do meu quarto e ali meu corpo amoleceu. Não teve conversinhas na sala, não teve um bom vinho na cozinha, não teve uns beijos na parede do corredor, nem uns amassos no batente da porta. Eu estava no meu quarto, com um cara que eu tinha conhecido algumas horas antes e tudo que minha mente podia processar era a vontade incontrolável de fazer sexo com ele. Era só isso que me preocupava. Tinha medo que ele fosse daqueles sadomazoquistas que gosta de ficar batendo, amarrando. Não pela dor, mas pelo sofrimento de ficar perdendo horas e horas de puro sexo para alimentar uma tara. Eu hoje não queria beijo na boca, não queria palavras ao pé do ouvido, não queria, talvez, nem preliminares. Eu queria dar!

E então, como numa mágica, meus pensamentos fugiram para fora de mim, saindo por algum ponto do meu corpo e flutuando em letras vermelho-neon pelo quarto. Iam se grudando nas paredes em uma porção de frases prontas. Eu pensava e automaticamente uma linha cursiva e delicada ia escrevendo meus pensamentos no teto, nos cantos das paredes, na cabeceira da cama e ele, escuro até o talo, absorvia cada sílaba. O que aconteceu depois é difícil explicar porque está naquele limiar que gira em torno da alucinação, da completa loucura, do sonho e da realidade extrema. Mas eu dei. Ou melhor, ele tomou de mim, sem chance de reação, nem de rebobinar a fita, voltar os capítulos, não tinha mais volta.

Me puxava os cabelos como se quisesse arrancar minha cabeça do corpo, acabava com qualquer traço de vaidade do meu corpo e investia para dentro de mim como se quisesse me varar, sair do outro lado, me rasgar ao meio. E tudo isso porque eu queria. Estava escrito nas paredes, estava saindo de mim e eu já não pensava mais, era só impulso e instinto. Às vezes é preciso deixar a princesinha interior lá fora, na rua, longe de casa e deixar a ninfomaníaca selvagem tomar conta. Eu queria trepar, daquele jeito que ninguém tem dúvida, ninguém precisa explicar e ninguém consegue repetir. Pra ele, com ele, dentro daquela escuridão, eu daria até a alma sair andando. Numa definição bem banal e simplória, me comia como uma puta barata. Mas aquelas putas que pedem mais, que instigam o cara, que fazem de tudo pra que ele peça pra parar, que diga que não aguenta mais.

E eu, agora tomada por algum espírito maligno, não queria mais parar. Falava absurdos, pedia coisas impensáveis, sentia  partes do meu corpo que eu nunca soube que existiam, apanhava igual uma escrava e sorria, às vezes até gargalhava e berrava tomada por uma loucura que não era minha. Não sei se desmaiei ou dormi, mas em algum momento ele foi embora, acabando com a loucura, terminando meu exorcismo e levando aquele pretume todo, deixando a luz aparecer. E já era dia. Acordei destruída, com o corpo roxo em lugares enigmáticos, como as canelas, os braços, os ombros, e com dores estranhas e intensas, que vinham de dentro e passavam para fora, como se estivesse sendo castigada por mim mesma. Naquele dia não levantei da cama, criando coragem para entender o que é que tinha acontecido e esperando, ressentida, vir a noite, para escurecer tudo de novo.

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Magnetismo sobrenatural

Não sabia o que era porque não tinha muito o que saber. Às vezes a vida mostra uma situação que só serve para entendermos que nós não temos o menor direito de saber mais do que nos foi revelado. O mistério é necessário, importante e insubstituível em alguns casos. Esse era um deles. Ficava sentado olhando, franzindo a testa e tentando entender de onde vinha todo aquele magnetismo, toda aquela atração incontrolável por um ser que poderia ser qualquer outro, mesmo sendo impossível sentir a mesma coisa por mais ninguém.

Ela aparecia no canto da parede, no batente da porta, por detrás do vidro do box do banheiro e as estruturas iam ruindo. As paredes tremiam como se fossem plásticas e finas, os tijolos se desarranjavam, o reboco e o revestimento ia caindo todo no chão, que tremia como um terremoto a cada passo que ela dava. E vinha, de onde fosse, destruindo tudo com seu caminhar de quem está pouco se fodendo para qualquer reação adversa ou efeito negativo de sua presença. Era completamente completa. Uma mulher que agia como age um remédio que tem mais efeito colateral do que poder de cura.

Ele ficava parado, petrificado, enquanto ela vinha como um gato, ou uma cobra, se enrolar por baixo dos braços, ao redor do pescoço e da cintura até não estar mais apoiada no chão. E era o fim da razão e da autopiedade daquele homem. Era como se ela o sugasse para dentro de si e tomasse, mesmo que só por alguns instantes, o controle de sua alma. Ele, longe dela, não sedia a nenhuma pressão, nenhuma tentação, nenhuma ameaça. Mas ali, naquela relação quase simbiótica, ela era o imã que o movia para onde quisesse mover. Um imã que atraia coisas que não tinham a menor chance de se moverem antes dele aparecer. Era magnético e poderoso.

Enquanto ela gemia e lhe sussurrava elogios abstratos ele caminhava com aquele corpo trepado sobre o seu. E terminavam sempre no mesmo lugar. Às vezes ela vinha da sala, às vezes da cozinha, às vezes estava dentro do carro, mas sempre terminavam dentro do quarto. Quando soltavam o peso dos próprios músculos e ossos sobre a cama, as paredes começavam a sumir em um fade negro e sólido como no fim de um filme. “Fade out” ela dizia, e sorria depois, espelhando o sorriso que ele mesmo expressava. Depois disso o quarto se transformava em escuridão.

Ela usava suas coxas grossas e a bunda muito forte para manter as pernas trancadas à altura da cintura forçando o contato quase invasivo dos dois. Ele se agarrava a ela como uma tranca de dezoito dentes, que não solta, que não afrouxa, que não se move até que seja a hora. Ela mordia seu pescoço, ele mordia sua clavícula, ela arranhava suas costas, ele puxava seus cabelos da nuca, ela fechava os olhos e abria todos os chakras, ele ofegava e a comia como quem tenta matar alguém. Era a violência mais crua e simbólica do mundo.

Ele, da cor do homem, com os tons de um homem, as diferenças e semelhanças das cores que os homens do tipo dele têm e ela branca, translúcida, lisa e macia como são as mulheres do tipo dela. Ela se alimentava do desejo que ele lhe oferecia e que nenhum outro homem jamais lhe dedicou. Ele se alimentava da intensidade e da energia que ela lhe passava, do magnetismo que lhes unia e que ele nunca encontrara em mulher alguma. Se misturavam em suas semelhanças e diferenças para fazer o impossível ser banalidade e a realidade, criação de alguém.

E depois do fim, depois de tudo, ela ficava na luz, no pequeno e discreto caminho de luz que iluminava a escuridão daquela cama imensa e se mostrava para ele. Se mostrava por inteiro, por dentro e por fora, pelas curvas e pelas sombras, como quem quer contar a história do que acabou de acontecer. Ele sorria com uma boca de Cheshire e, assim como o gato, rodava de cabeça para baixo, flutuava o corpo na escuridão e virava vapor colorido. Ele ia para o ar, para o além, para a vida de verdade e ele ficava mais um pouco ali, sentindo a ardência que dá, o calor que dá, o incômodo confortável que dá e depois adormecia para sumir também. Nunca houve amor. Nunca lhes faltou nada!

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