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Se não fossem feitas de estrelas, do que seriam as paredes?

– baseado em acontecimentos desse mundo.

As paredes se desfazendo em cascatas de estrelas, todas espalhadas pelo chão, ao redor já não sobrava muita coisa, não tinha mais aquele quadro da moça nua se cobrindo com um pano, nem o vaso de cacto, nem aquele violão bacana que encantava todo mundo. Existem momentos da vida que, mesmo sem ninguém contar, a gente sabe que são os últimos. Sempre dá pra saber quando é a última vez que a gente vai ver ou fazer uma coisa. O medo da solidão é como um mensageiro que vem entregar o telegrama avisando que alguém morreu, mas ele mesmo não tem culpa da morte. “O medo nunca é culpado do mal que nos causa”, pensei.

Depois são sempre os mesmos roteiros, árvores sem folhas, todas tortas, animais sonolentos, finais de tarde acinzentados e uma vontade de quebrar tudo. Se fosse para destruir a casa, começaria pela televisão. Nos filmes sempre parece, ao protagonista, ser gratificante destruir a tela com algum programa passando, telejornais, no meio de uma fala importante do William Bonner, por exemplo. “Israel intensificou o ataque aéreo nesta tarde de” PLAU, CRAAASH!!! E lá se vai a televisão em milhares de pedacinhos de vidro, todos mortos ou agonizando, espalhados pelo mesmo chão que antes estava tomado de estrelas de parede. “Se não fossem feitas de estrelas, do que seriam as paredes?”, pensei.

Os cabelos vão ficando estranhos com o tempo. É engraçado perceber que, quanto mais triste se é, pior é o aspecto dos cabelos. Os dele já iam caindo na frente da vista, opacos fios castanho escuro, alguns ensebados, sem vida, como se fossem um anúncio para quem o visse de longe. “Sofre-se aqui”, anunciam os cabelos aos transeuntes. Lê-se cartas antigas, cartões de aniversário, postais de países muito frios, fotografias recortadas de jornais de folhas amiúdes, todo tipo de música triste e tecido macio. As lembranças doem mais do que a própria dor. É como curar cortes com palha de aço, secar sangramentos com panos cheios de gasolina. A labirintite que se sente é a nossa tontura ou o mundo acelerando fora de controle? Ele não sabia. “Sabe-se muito pouco sobre as nossas dúvidas”, pensei.

No resumo da ópera, coitado, era só uma vontade, só um plano, só uma ideia e, sem querer, acabou sendo real. É perigoso quando nossas vontades se realizam. Era um cara, uma noiva, uma carreira, uma família e uma menina, um cabelo macio, um par de olhos curiosos, pouco mais de quinze anos, meia dúzia de palavras que ninguém ouviu e uma porção de beijos proibidos. A quem estamos magoando enquanto estamos sendo felizes? Se o arrependimento pesasse iam precisar de uma balança bem grande onde ele pudesse descansar suas memórias. Apesar do que dizem, aprende-se muito pouco enquanto se está ensinando. “Vai saber que tipo de história vão contar sobre mim um dia”, pensei.

Me deu dó desse cara, no fim das contas.

“Me deu dó desse cara”, escrevi.

 

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As coisas que pulsam

(esse texto é um exercício fantasiado de texto, ok?)

Em pé, descalça com os pés no chão de madeira, o horizonte das luzes no fundo escuro do céu é o limite. Os cabelos muitos pretos, muito compridos e vivos como cobras, sobrevoam os ombros, as costas e vão para trás a cada nova rajada de vento que entra pela janela. Ela ali, procurando com os olhos uma das luzinhas que faça alguma diferença. Mas não faz. São todas iguais. Sempre iguais. Assim como o vento, os cabelos e os cigarros. E fuma, para ter certeza de que este é exatamente idêntico ao anterior.

É o vigésimo nono, alto pra caralho e, por isso, olhar para o horizonte é um exercício de caça constante. Não se vê a forma das coisas exatamente quando se está nessa altura. Então são só luzes se movendo, construindo um cenário estático tão dinâmico que fica difícil de descrever. Afinal, você nunca percebeu que as luzes dos postes pulsam como as estrelas no céu? Deveria ter percebido isso há alguns anos, no mínimo. Quando você nasceu a iluminação de rua já pulsava firme, amarela, em lâmpadas de mercúrio.

As coisas pulsam para se mostrarem vivas, porque o morto não pulsa, porque não respira, porque não sangra, porque nada é. E se é, só pode ser morto mesmo. A ponta alaranjada do cigarro, que a gente estupidamente chama de brasa, mas não é, pulsa porque, vivo que é, o tabagismo precisa sugar a vida de quem o fuma. As estrelas, clássicas, pulsam porque vivem, simples assim. O coração pulsa porque quer nos manter vivos e os pulmões pulsam porque quer nos manter fumando. Vamos nessa linha de raciocínio e fica difícil aceitar que as luzes da cidade não pulsam. Pulsam porque querem nos cegar, se fosse para ver, de verdade, viveríamos no escuro, com as pupilas dilatadas, vendo os contornos granulados de tudo e todos.

Mas não. Era só uma janela na altura das coxas, num prédio bem alto e com mobílias antigas, com um corpo seco, um rosto quase feio de tão magro, e uma camiseta parecida com uma camisola, sobre um corpo que não vestia mais nada, nem perfume, por baixo. Era um cômodo vazio, só com janelas, paredes e chão, sem móveis nem lâmpada, nem quadros nem outra serventia além da que lhe cabia: ter a melhor vista da cidade. No canto, porém, tinha um cara, um outro rapaz muito magro, tão magro quanto a própria magreza pode ser. Ele fumava com o cigarro no canto da boca e dedilhava um violão com tanta delicadeza que os sons e as notas musicas tinham de se atirar, sozinhas, para fora do instrumento, em direção ao além, pois ele não parecia querer propagar sua música para ninguém.

E a cena era essa, com ela peladássa, com os bicos dos peitos quase rasgando a camiseta(sola), os cabelos malucos voando, ondulados, sem parar por todo o cômodo, com ele sentado no canto, tocando para si mesmo, ouvindo notas que ninguém mais ouvia, e tudo pulsando. O cigarro de ambos, o coração de ambos, o pulmão de ambos, a cidade de ambos, as estrelas de ambos, a vida de ambos, até que chegou a hora de parar. E desligaram a chave, apertaram o botão vermelho, digitaram o código de segurança, ou qualquer outra coisa apocalíptica, e tudo se apagou. A Lua tava com sono, foi dormir cedo, as estrelas foram embora também, os cigarros queimaram até o filtro e a cidade ficou sem energia.

Foi nessa escuridão que tanto ele, quanto ela, perceberam, pela primeira vez, que não estavam sozinhos ali. É que as vezes a gente vê tanta coisa, a vida e as luzes pulsam tanto, que a gente fica cego para o que realmente importa e está perto, fisicamente falando. Foi desse jeito, e por isso, que acabou a cena toda.

Fim, um beijo pra você, leitor(a)!

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