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A moça que comia homens (parte 1)

(não dê muita importância nem desenvolva grandes expectativas com o final, ok?)

Eu lembro quando alguém me contou que ela comia os caras. Na minha primeira ideia automática pensei na tradução simples dessa frase: uma mulher dominadora na cama, que impõe suas vontades e coisas do gênero. Mas depois comecei a pensar sobre canibalismo mesmo, sobre mulheres assassinas, serial killers, gente psicopata e tudo mais. Um pouco depois me lembrei daquela deusa (ou semi-deusa) que engolia os homens pela vagina, passava o corpo todo e eles eram digeridos dentro dela, depois de terem relações sexuais. Não cheguei a conclusão nenhuma.

Ela estava sempre por ali, tomando alguma coisa no café do outro lado da rua, comprando revistas estranhas, lendo livros em línguas difíceis e sorrindo para todo mundo. Era uma moça loira que não passava de um metro e meio de simpatia, roupas bonitas e hábitos bizarros. Quando ela se levantava o garçom aparecia com a conta, quando ela pisava na calçada perto da rua o semáforo dos carros se fechava quase instantaneamente, quando vinha para cá sempre tinha alguém saindo e ela nunca precisava abrir a porta. Quando se sentava eu, babaca e babão, já estava lá para anotar o pedido. Ah sim, aqui é um restaurante de comida americana.

Eu ficava impressionado como continuava se mantendo magra, proporcional e bonita comendo aqui todo dia. Eu já sabia o que ela queria, era sempre a mesma coisa, mas eu fazia questão de chegar perto para sentir seu perfume, para ouvir sua voz e para tê-la prestando atenção em mim ao menos por alguns segundos. “Um cheesebacon, batata e uma Coca-Cola? Ok!” e saía, me sentindo o cara mais sortudo do mundo. Entrava na cozinha parecendo um idiota cantando a música que estivesse tocando no salão em alto e bom som. “I hear your heart beat to the beat of the drums / Oh what a shame that you came here with someone”, eu e a Ke$ha cantávamos alegres sobre o fim da vida sem fazer a menor ideia do que estávamos falando.

O cara da chapa olhava pra mim e julgava a minha euforia com apenas uma frase: “a mina taí, né?” e eu o corrigia com algo como, “a mina mais gata dessa porra de cidade está aqui, sim!” e depois eu voltava para o balcão e ficava vigiando de longe. Ela nunca estava com ninguém, nunca atendia o celular, nunca falava com alguém na internet ou coisa assim. Era o tipo de gente que se dá muito bem com a própria companhia, talento que hoje em dia quase ninguém tem. Dia após dia, de segunda a sexta-feira, ela estava aqui, comendo a mesma coisa, bebendo a mesma coisa, usando o mesmo perfume, se vestindo sempre muito bem e eu continuava me derretendo por ela.

“Plin”, saiu o lanche. Pensei que era uma boa chance de falar com ela, ao menos falar sobre o livro que ela estava lendo, que eu não sabia qual era, ou elogiar o cabelo, ou só dizer que a comida chegou. Fiquei travado quando percebi que a euforia da música do salão tinha se tornado num reggae/black do Damian Marley e isso não me daria ideias pra falar nada. Entreguei o prato, ela agradeceu, abri a lata e antes de terminar de completar o copo ela me mandou sentar. Não foi um pedido, não foi um convite, ela simplesmente disse “Senta aí!” e me sorriu com cara de boneca.

“Hoje eu vou estar em casa às 9h da noite esperando você. Vá sozinho, não conte a ninguém onde você vai. O endereço é o seguinte…” e escreveu uma rua, um número e um bairro na palma da minha mão, com uma caneta muito macia, quase um pincel. Eu sorri assustado, ela sorriu de volta, colocou o livro de lado e atacou o lanche. Antes de sair olhei a capa da obra e não consegui ler nada, eram símbolos que eu não conhecia, não eram letras comuns. Árabe não era. Japonês também não. Talvez russo ou algum outro país que desenhe as próprias grafias.

Fiquei eufórico e confuso. Não sabia se era um jantar, se era um encontro, se eu deveria ir muito bem arrumado, se não tinha nada a ver com o que eu estava pensando e no fim das contas eu já não conseguia pensar em nada. Quando acabou de comer, levantou calma, passou por mim sem me olhar e antes de sair, de lá da porta, me olhou com um olhar tentador e sorriu, só para garantir que se lembrava do convite que havia feito para mim. O dia passou arrastado, o tempo em casa passou voando e às 20h57 eu estava apertando o botão com o número do apartamento.

Era um prédio antigo, sem porteiro, sem portão, daqueles que você toca o interfone direto de onde está indo. A porta se abriu sozinha, eu entrei e apertei o número do andar no elevador. Cheguei ao hall, duas portas. Fui na direção da certa e antes de tocar a campainha, ela surgiu. Abriu a porta vestida de preto, em roupas comuns, mas muito bonitas e, ao seu lado, havia uma outra dela, igual a ela, idêntica, mas com uma roupa diferente. As duas disseram ao mesmo tempo: “estávamos esperando por você!” e me sorriram.

Eram duas, iguais, a mesma pessoa, e eu não conseguia achar um espaço na minha cabeça que pudesse comportar e digerir o que eu estava vendo. Entrei, sentei-me no sofá como ela me indicou, respondi que não queria beber nada, quando ela me perguntou e então, como se fosse normal, uma terceira dela apareceu, com outra roupa, sorrindo para mim e dizendo “que bom que você chegou”, passando da sala para a cozinha. Eu comecei a me sentir mal…

[continua…]

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Muda

Ela já não vinha em busca de nada. Antes ainda se preocupava em dar satisfação, inventava histórias, fazia de conta que tinha algo para mostrar, trazia desenhos de rostos muito bem detalhados, de cenas urbanas na chuva e eu sempre dizia que ela deveria trabalhar com isso. Mas ela não me ouvia, não queria nem saber. Depois de cinco minutos aqui dentro, já estava sentada no sofá, com a blusa longe, me olhando com a convicção de quem hipnotiza pelos olhos. Só que depois ela desencanou do teatro e eu passei a abrir a porta com ela já me beijando, sem nem ter tempo de ter certeza de que era ela mesmo.

Não sei se era muda, ou se simplesmente não queria conversar. A verdade é que não falar, às vezes, é a melhor maneira de resolver as coisas. E ela não falava comigo, mas tinha a risada mais sincera da cidade, com a boca bem aberta, os lábios carnudos ficavam finos, esticados, e era possível ver o fundo da língua. Ria com a alma, de um jeito que ninguém pode dizer que era fingimento ou exagero. Eu não sabia como lidar, porque quando ela aparecia eu tinha de estar totalmente à disposição. Se eu dissesse que tinha de ir embora, ela ficaria triste. Se eu mandasse que parasse, ela poderia me entender errado, então eu deixava rolar…

E rolava! Ela entrava me beijando forte, empurrando minha cabeça para trás. Depois me sorria, e fazia alguma coisa de que gostava. Geralmente ia até a janela ver a vista nublada, até porque em dias de Sol ela não aparecia. Eu abria o conhaque, porque ela não tomava outra coisa, além de água. A gente bebia em copos de uísque, vendo as coisas longe, e ela apontava o que queria me mostrar. Eu me sentia um velho sendo seduzido por uma menina, mesmo que nossas idades não tivessem mais do que cinco anos de distância. Ela parecia viva e eu completamente apagado, então tudo era novo com ela por perto.

Depois o conhaque fazia efeito, ela vinha com tudo para cima de mim e eu só reagia à altura. A gente fazia aqueles sexos de filme de romance, sabe? Em cima das coisas, na mesa, no batente da janela, na passagem da sala para o quarto, e ela tinha um corpo em forma de perfeição. Sempre aparecia com jaquetas enormes, roupas masculinas e calças largas, o cabelo bagunçado, sem maquiagem e sem estilo nenhum, mas por baixo de toda a poluição visual era quase um anjo, muito loira, muito branca, muito lisa e muito fresca, quase gelada, e não esquentava nunca.

Mesmo sem falar, colocava verdade e sentimento em cada som que emitia, e isso ficava mais claro quando a gente transava. Não que gritasse, nem que exagerasse, mas era, de longe, a moça mais barulhenta com quem eu já fiquei em toda a minha vida. Vinha de dentro, sons, gemidos e urros, que seriam impossíveis de se reproduzir. Às vezes eu pensava que, mais dia menos dia, ela se abriria ao meio e um outro ser sairia de dentro, mostrando a verdade de quem ela era. Mas isso, creio que por pura sorte, nunca aconteceu.

Era sempre a mesma menina, a mesma adolescente com cheiro de sabonete e fumaça de madeira queimada, que entrava desesperada para me contar, sem dizer nada, tudo o que a vida estava lhe aprontando. Depois me pedia colo, depois me pedia amor, depois me pedia sexo, depois me pedia para esquecer tudo e fingir que ela ainda estava vestida, que os peitos eu nunca tinha tocado, que a bunda eu nunca tinha visto, que ainda estava completamente imaculada e secreta. Acho que vinha para mostrar-se para mim, só para ver minha reação, para saber que eu ainda a desejava em meio aos muitos sentimentos que não tinham definição.

Um dia, enquanto se vestia ela me olhou estranho, atravessado, como quem percebe um gesto incômodo pelo canto do olho. A gente tinha acabado de transar no chão da sala e ela, grande, com seus quase um metro e oitenta, cheia de músculos fortes, de bundas, peitos e coxas firmes e jovens, tinha ficado abraçada a mim, agarrada com força, dividindo toda sua frieza corporal com o meu calor. Acho que foi naquele dia que eu tive certeza de que a amava, e foi a última vez que ela veio me ver.

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