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O show da Flora que você não viu

– esse é um blog de ficção, mas é sempre bom falar um pouquinho das coisas boas da vida real –

“Máximo respeito, ahhhh gente, o que que é isso? Pode descer todo mundo!” foram as primeiras palavras da Flora, no sábado último, quando entrou no palco do Sesc Santo André. Esse começo provava que a coisa ia ser boa, e você vai entender porque.

Fui com a Ju, minha namorada, e estava sem nenhuma expectativa, nem pra boa, nem pra ruim. Fazia muito tempo que não ouvia as músicas dela, não fiz aquele esquenta pré-show, quando você fica ouvindo todos os sons do artista e chega afinado na hora da apresentação. Só fui, e fui porque eu sabia que ia ser bom, porque não ia estar no meio da muvuca da Virada Cultural, porque era perto de casa, porque era barato (justo), e porque era rap feminino, que pelamordedeus, está representando bem mais que os cuecas da nova geração.

O show foi no teatro e não no espaço de apresentações, onde geralmente rolam as bandas. Quando compramos o ingresso tínhamos em mãos duas cadeiras na fileira J e assim que sentamos, meio longe do palco, comentei que achava surreal estar num show de rap com cadeira numerada, todo mundo sentado e num teatro fechado. Se tratando de Flora Matos, pior ainda, porque quem conhece sabe, a mina não para um segundo. Ela pula, leva os beats no “passinho do black”, tira a blusa, bota a blusa de volta, da o mic pra galera, chama a platéia pra cantar e, de repente, toda essa energia não combinava com o teatro comportadinho onde estávamos.

Apagaram as luzes, Dj Naomi, responsável pelas bases da moça, apareceu no palco com um camisetão amarelo escrito “SNAP IS BACK” e quem sabe quem foi o “SNAP!” sabe que isso é coisa séria. Olhei pra cena e pensei “essa porra vai ser boa!” e no minuto seguinte a responsável por levar aquela galera até ali, numa noite de sábado meio chuvosa, ficou indignada com a compostura refinada da platéia. Mandou todo mundo descer pra boca do palco, ficar de pé, ficar confortável e aí sim, em instantes, comigo e com a Ju já de pé, longe da nossa cadeira comprada, o show de “OperaRap” comportadinho virou o “Show da Flora” do jeito que era pra ser.

Som de qualidade, luzes de qualidade e um palco vazio (leia-se sem banca, sem uma galera invadindo, sem bicão oportunista e, infelizmente, sem Karol Souza e sua cabeleira. Mesmo assim, a MC de brasília com seus, no máximo, 1,60m de altura tomou conta da cena. Cantou uma atrás da outra, emendou duas, chamou a galera, cantou de olho no olho com uma fã afiada nas letras, deu abraço em outra ainda de cima do palco, arrancou assobios e elogios quando tirou o jaquetão preto pra exibir a barriga sarada e o top pequenininho – look que permaneceu na maior parte do show – e quando tudo parecia bom de mais, veio a hora de cantar as músicas novas.

Flora tinha preparado duas canções novas, uma delas, de última hora, e queria medir a reação do público com elas. Porém, o DJ, ainda mais empolgado com as novidades, resolveu soltar um terceiro beat, de uma música tão nova, mas tão nova, que não tem nem nome, nem letra completa ainda. E foi essa que ela cantou primeiro! Daí pra frente o show, que já estava bem intimista (no máximo 150 pessoas no teatro) começou a ficar parecendo “Flora Matos no quintal de casa”. Conversou com o público “E aí, que bom que vocês gostaram desse som novo, ainda não tá terminado”, errou a letra da música nova, pediu pra voltar, a galera aplaudiu a espontaneidade, depois viu que ainda sobrava tempo e quando Naomi soltou o começo de “Esperar o Sol”, que seria a última música do show, ela pediu pra segurar, ainda não era hora.

Diante do silêncio do improviso do cronograma a platéia começou a pedir músicas, faixas antigas, algumas que nem a própria autora lembrava a letra e, de repente, o público estava escolhendo as músicas que a cantora ia tocar. Pauladas como “Pai de Família” ou “Cada Flash um CEP”, que não estavam nos planos de Flora, levantaram os ânimos, as mãos e as vozes do público. Uma garota sentada no fundo, escondida na sombra do teatro apagado, mas com a voz bem nítida, começou a cantar alto, quase aos gritos, os versos da música mesmo antes de as batidas começarem e a artista, diante de uma demonstração clara de admiração, reconheceu que a noite e o momento estavam sendo mais especiais do que se esperava.

Em dado momento, a interação era tanta entre a artista e a platéia do desconcertante teatro, que ela mesma resolveu mandar um recado: “Olha, se tiver algum crítico aí na platéia, eu queria dizer que não é sempre assim não, estamos fazendo isso aqui porque dá tempo. É bom avisar se não depois o cara escreve no jornal ‘O show da mina é uma zona!’ e não é bem isso”, e o público gargalhou confortável. Estávamos mesmo no quintal da casa da Flora, a MC que quebrou a formalidade duas vezes: derrubando as estruturas de um teatro comportadinho e derrubando a barreira invisível, porém muito sólida, entre público e artista.

Esse é o tipo de show que não se vê todo dia. E provavelmente, esse show da Flora você não viu…

se você a conhece, mostra esse texto, fazendo o favor. Agradecido =]

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