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Se não fossem feitas de estrelas, do que seriam as paredes?

– baseado em acontecimentos desse mundo.

As paredes se desfazendo em cascatas de estrelas, todas espalhadas pelo chão, ao redor já não sobrava muita coisa, não tinha mais aquele quadro da moça nua se cobrindo com um pano, nem o vaso de cacto, nem aquele violão bacana que encantava todo mundo. Existem momentos da vida que, mesmo sem ninguém contar, a gente sabe que são os últimos. Sempre dá pra saber quando é a última vez que a gente vai ver ou fazer uma coisa. O medo da solidão é como um mensageiro que vem entregar o telegrama avisando que alguém morreu, mas ele mesmo não tem culpa da morte. “O medo nunca é culpado do mal que nos causa”, pensei.

Depois são sempre os mesmos roteiros, árvores sem folhas, todas tortas, animais sonolentos, finais de tarde acinzentados e uma vontade de quebrar tudo. Se fosse para destruir a casa, começaria pela televisão. Nos filmes sempre parece, ao protagonista, ser gratificante destruir a tela com algum programa passando, telejornais, no meio de uma fala importante do William Bonner, por exemplo. “Israel intensificou o ataque aéreo nesta tarde de” PLAU, CRAAASH!!! E lá se vai a televisão em milhares de pedacinhos de vidro, todos mortos ou agonizando, espalhados pelo mesmo chão que antes estava tomado de estrelas de parede. “Se não fossem feitas de estrelas, do que seriam as paredes?”, pensei.

Os cabelos vão ficando estranhos com o tempo. É engraçado perceber que, quanto mais triste se é, pior é o aspecto dos cabelos. Os dele já iam caindo na frente da vista, opacos fios castanho escuro, alguns ensebados, sem vida, como se fossem um anúncio para quem o visse de longe. “Sofre-se aqui”, anunciam os cabelos aos transeuntes. Lê-se cartas antigas, cartões de aniversário, postais de países muito frios, fotografias recortadas de jornais de folhas amiúdes, todo tipo de música triste e tecido macio. As lembranças doem mais do que a própria dor. É como curar cortes com palha de aço, secar sangramentos com panos cheios de gasolina. A labirintite que se sente é a nossa tontura ou o mundo acelerando fora de controle? Ele não sabia. “Sabe-se muito pouco sobre as nossas dúvidas”, pensei.

No resumo da ópera, coitado, era só uma vontade, só um plano, só uma ideia e, sem querer, acabou sendo real. É perigoso quando nossas vontades se realizam. Era um cara, uma noiva, uma carreira, uma família e uma menina, um cabelo macio, um par de olhos curiosos, pouco mais de quinze anos, meia dúzia de palavras que ninguém ouviu e uma porção de beijos proibidos. A quem estamos magoando enquanto estamos sendo felizes? Se o arrependimento pesasse iam precisar de uma balança bem grande onde ele pudesse descansar suas memórias. Apesar do que dizem, aprende-se muito pouco enquanto se está ensinando. “Vai saber que tipo de história vão contar sobre mim um dia”, pensei.

Me deu dó desse cara, no fim das contas.

“Me deu dó desse cara”, escrevi.

 

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Isso os filmes não contam

Ficava com os pés juntos, os dedos contraídos, sentada no canto da sala enquanto a televisão muda passava as cenas sem parar. Passava horas assim, separada do mundo, fazendo parte de alguma outra realidade, longe daqueles sofás, do tapete e dos ácaros que o tapete adotou como seus. Vivia no além mar das ideias abstratas sobre coisas sem nome. Gostava de pensar que ficar ali, agarrada a si mesma, lhe dava poderes de passar a história do filme da própria vida para frente e para trás. Fechava os olhos e se imaginava formada na faculdade, logo depois com a barriga enorme e tendo filhos e mais filhos como uma coelha muito fértil. Imaginava que mulheres, para serem felizes, deveriam parir aos montes, um filho atrás do outro, e pensava que as mães que botavam gêmeos no mundo eram pessoas de sorte. Achava que ter filhos era a realização do que se conhecia por felicidade, ou algo bem próximo disso.

Imaginava que, no passado, tinha sido mais esperta, aprendido as coisas mais rápido, perdido menos tempo fazendo lições de casa inúteis e tinha conseguido convencer os pais a comprarem um cachorro. Se hoje não tinha um cachorro era óbvio que o motivo estava ligado a algum fracasso no passado. Na curta vida de apenas dez anos ela já conseguia encontrar muitos pontos a serem mudados, mas passava a maior parte do tempo desenhando e montando o que seria o melhor futuro que uma pessoa poderia ter. Um belo marido, uma casa grande, os filhos aos montes e muitos cachorros, um de cada raça e tamanho. Teria também um avião, porque já tinha aprendido que aeroportos são muito chatos e seria necessário ter uma maneira mais prática de visitar a Disney quando chegassem as férias. Um avião cor-de-rosa resolveria tudo.

Seus desejos eram simples, pareciam inevitáveis que se realizassem e tudo o que era necessário era crescer. Esperar o tempo levar o tempo que precisa para que as coisas cresçam, tomem forma e se configurem em um conjunto de realizações de vida que nós mesmos planejamos. Nossa vida, para ela, era como um bolo que simplesmente precisava crescer e mais nada. Só ser bolo já bastava. Queria coisas de criança fantasiando vida de adulto. Sem limites de custos, dinheiro, distâncias, dificuldades e riscos. Queria o avião, o carro, o marido, as crianças, os cachorros, a grama verde, a casa enorme, a piscina em forma de coração, a cozinha com um armário só para doces, uma cama elástica no meio da sala, um esconderijo secreto por detrás de uma estante de livros e uma porção de dias felizes e ensolarados para poder curtir tudo isso. Bastava uma vida perfeita. Já estava bom se fosse assim, perfeita.

Era com esse tipo de fantasia que ela sonhava nas horas que passava agarrada às próprias pernas no canto da sala. Mas o mundo real sempre cobrava sua parcela de atenção. Então se levantava e se sentia incomodada com a falta de amigos, com a estranheza do mundo e com a sensação de não pertencimento que sentia ao confrontar a vida da qual fazia parte. Uma garota de dez anos que entorta colheres com o olhar nos momentos de medo, quebra vidros quando chora, abre chama com as mãos quando se zanga e ouve o pensamento alheio em situações de vergonha tem muito mais sonhos e desejos que uma criança comum. Os filmes, os quadrinhos e os desenhos sempre mostram gente assim vivendo uma vida de heroísmo, saindo na rua como intocáveis, esbanjando seus poderes contra a polícia, contra monstros, contra o mal. Quanta besteira. Só mostravam coisas absurdas, totalmente desconexas com a realidade de quem tinha aquelas habilidades. Os filmes não mostravam, acima de tudo, o quão frustrante era para uma garota assim tentar dar o primeiro beijo em um colega da escola. Essa parte os filmes não contam.

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Skinny Love

Ela dançando na sala, as luzes apagadas e o abajour do canto iluminando só os contornos dos móveis. Poucos móveis porque sempre gostei de andar pelos cômodos, gosto de passar pelos lugares e sentir os pés tocando cada pedaço de chão da casa, então não perdi tempo comprando tapetes, aparadores, mesinhas e coisas do gênero, que na verdade só servem para atrapalhar o caminho. Um sofá comprido, pra uns 10 lugares, tomando conta do canto da sala. Na ponta, um abajour de tripé, na parede três linhas de prateleiras com quadros, fotos e livros. No chão um móvel com um aparelho de som e algumas esculturas sem importância. Na parede oposta à do sofá, duas poltronas marrons de tecido macio olhavam para a varanda, enquanto, nas costas delas, duas cadeiras pretas pintadas com tinta fosca olhavam para o centro da sala vazio e reluzente. Ali estava ela.

Dançava com as pernas juntas, balançava a cintura de um lado para o outro, dobrava os joelhos delicadamente e fazia movimentos aéreos com os braços ao redor do corpo, enquanto movia a cabeça em trancos ríspidos fazendo a cabeleira flutuar no ar. Sentado em uma das cadeiras, ocupando uma das mãos com um copo generoso, assistia àquela dança sensualmente hipnotizante como se fosse um evento sobrenatural. Não parecia sensato ou mesmo possível que alguém tivesse aquele corpo. Na sombra amarronzada misturada com o brilho amarelo da luz uma porção de curvas inéditas se apresentava em movimentos curtos, contidos e perturbadores. “Slide, slide, slide … lose yourself to dance”, dizia a música que tocava, e ela deslizava pelo chão de cimento queimado liso, vestindo apenas meias pretas que se seguravam folgadamente às suas coxas.

Os cabelos eram compridos e lisos, vivos, balançando de um lado para o outro, quase com vida própria, e ela sorria – eu ao menos imaginava que sorria, já que não via muito bem seu rosto – enquanto dançava perdidamente pela minha sala. Eu bebia a goles curtos e suaves, sem descolar os olhos e observando as curvas. Mais do que curvas, eu observava a sombra que elas formavam, os contornos e os desenhos que produziam naquele corpo inédito. Essa é a melhor palavra para definir o corpo daquela garota: inédito. Eu nunca vira alguém com um corpo daqueles sem roupa ao vivo. Só em fotos de revistas, coisas de internet e afins, mas na vida real não havia encontrado nada parecido. Depois ela veio roçar as pernas duras em minhas coxas e sentar no meu colo, inesperadamente pesando menos que uma pluma. Eu passava o copo gelado pelo meio de suas costas e sentia sua pele se arrepiar por inteiro, dos pés à cabeça, enquanto ela passava a língua atrás da minha orelha.

No dia seguinte acordei sem me lembrar que estava acompanhado. Apenas ao olhar para o cabelão misturado com o lençol foi que me recordei da dança, dos copos, do sexo, dos gritos, das risadas, da sacada, da mesa da cozinha, das acrobacias e todo o resto. Tinha sido uma noite muito louca, para definir o mínimo. Ela dormia calma, respirando lentamente e eu, agora amparado pela luz do dia, olhava hipnotizado para seu corpo. Uma menina de 20 e poucos anos, um rosto lindo e delicado, um braço rebelde tatuado quase até o cotovelo e um corpo raro, de formas difíceis de encontrar e mais ainda de manter. Tomei banho e quando voltei ela estava se vestindo, deixando claro que as roupas lhe sobravam em muitos dedos por todos os lados do corpo. Ela me sorriu um riso tímido e eu retribuí na mesma medida. Era a garota mais magra que eu já tinha visto na vida.

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Ela mora sozinha

A pia cheia, suja, uma porção de panelas amontoadas junto com canecas de café, o fundo seco, rançoso, fedido. A casa era quase um cenário de vídeo clipe de música moderna. Tudo meio cinza, nublado, colorido com um opaco quase cult. Na cozinha, ali onde eu estava, os objetos pareciam significar mais do que realmente eram. Uma xicrinha branca com a borda manchada de batom cor-de-rosa me dava mil ideias. Ao lado, meio amassado, um maço de Marlboro vermelho com três cigarros e um bic verde pequeno socados dentro. Um saco de polvilho vazio e amassado, cheio de farelos no fundo e ao redor. Que porra de pia, cacete!

A geladeira fedia, como era de se esperar naquele cenário. Mas não fedia a geladeira, ou a arroto, como de costume. Fedia a podre, como se alguma coisa animal estivesse morta ali dentro. Na porta, uma dúzia de ovos suspeitos me olhavam com descrédito e um deles, o da ponta, exibia uma generosa rachadura, de onde eu supus sair uma parte do cheiro horrível que emanava dali. Nas prateleiras uma caixa de leite que eu não quis nem encostar, um grupinho de potes de conservas bem feias e alguma coisa amarrada em uma sacola plástica. Nas prateleiras de baixo, mais ou menos a mesma coisa, e no fundo, no lugar onde as pessoas chamam de “gaveta das verduras”, diversas garrafas de bebida, todas meio bebidas, descansavam deitadas e felizes emanando um odor azedo característico.

O congelador não tinha muito para me oferecer. Era um refrigerador antigo, daqueles que nunca ouviram falar em “frostfree” e, ao puxar a porta superior, todo o refrigerador veio na minha direção. Congelado! Completamente congelado. Depois de insistir um pouco, consegui abrir e vi alguns pedaços de carne vermelha e frango completamente envoltos por uma fina camada de gelo, quase como neve, cercados por paredes de gelo que ultrapassavam os 10 cm de espessura. A lâmpada que iluminava o compartimento simplesmente não existia, o gelo tinha quebrado, congelado e apagado há muito tempo.

A mesa estava cheia de sacos de pão marrons. Uns 40, no mínimo, sem brincadeira. Era uma montanha de sacos, a maioria com um pão só dentro. Eram pães metamorfoseados, já tinham deixado de servir de alimento há muitos dias e agora poderiam incorporar algum tipo de tacape indígena, munição de estilingue e até, quem sabe, reforço para os dentes de diamante de uma perfuratriz de metrô. Eram duros como mármore, nocivos até mesmo para os dentes de um tubarão, imagina para um ser humano. Soterrada sob os sacos, uma fruteira vazia de frutas, com algumas contas, papéis, clipes, fósforos queimados, um durex, um anel, um elástico de dinheiro e uma pilha Rayovac vazando.

Eu, pelado, recém acordado, olhava ao meu redor, vendo cortinas e vidros podres, enferrujados e comidos pelo tempo, não entendia direito como as coisas chegavam naquele estado. Mais para frente o fogão exibia uma camada de molho de tomate seca tão bem encrustada que por alguns segundos pensei ser uma customização feita com tinta. Era um lixão em formato de casa. Tinha cheiro de coisa viva morando e morrendo debaixo de alguma outra coisa escura e úmida. Era nojento, triste, desencorajador e insalubre. Quando, de repente, ouvi o som de pés caminhando pelo chão duro, batendo calcanhares e quando olhei ela estava vindo na minha direção com o cabelo bagunçado mais lindo do mundo, um sorriso desconcertado e a minha camiseta, que no corpo dela parecia um vestido fora de moda.

Ela parou na entrada do cômodo, me olhou, eu abri os braços de leve, como quem pergunta o que está acontecendo e ela disse que a “moça que limpa” tinha faltado e aquela bagunça era de uns 5 dias. Percebi que ela realmente achava que iria me convencer com aquilo, mas a sujeira, o cheiro e o lixo estavam ali há, no mínimo, meses. Um par de meses. Meus pés parados no chão de piso branco, gelado, meu pau amolecido e envergonhado, meu umbigo apontando para o dela e ao redor o universo de uma casa degradada por uma garota que mora sozinha. “Eu achava que mulheres morando sozinhas eram sempre organizadas”, disparei, quase séria. Ela sorriu tímida e finalizou a conversa: “é, tá um pouco ruim… mas eu vou dar uma geral. Só não usa o banheiro, ok?” e eu ri, porque não consegui imaginar o que tinha dentro dele. No fim das contas a gente viveu mais 2 anos na mesma bagunça, sem lavar um copo sequer!

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Deixa a menina transar!

Isso é coisa de gente que não soube se emocionar na adolescência. Eu me lembro que com 20 anos eu não tinha medo de nada a não ser da morte prematura, do sofrimento e da solidão. Felizmente nenhum dos três me atingiu. Só deus sabe a alegria que me dava ficar na rua com gente que me diziam ser “ruim”, vendo como viviam, o que pensavam e o que os fazia parecer tão não-recomendáveis. Eram todos ótimos, cheios de boas histórias e tão destemidos como eu. Foi dessa época que nasceu meu namoro eterno com a noite, minha admiração pelo barulho, pela bagunça e pela efervescência da juventude. Afinal, não se é jovem para sempre!

Hoje vejo gente da minha idade que não soube se divertir, que não soube se entregar, podando a moçada que quer descobrir o mundão lá fora. “Leave them kids alone!” Imagino o quão babaca cresce alguém que não pôde experimentar o melhor da adolescência. Eu nunca seria capaz de encarnar a caretice de brigar e dar lição de moral em alguém que comete os mesmos erros que eu cometia. Isso é coisa de quem não viveu, não se fodeu, não aprendeu e quer ser dono da verdade. Sabem nada… assim como todos nós.

Me preocupo muito em conseguir chegar a tempo de dizer “meu chapa, eu fiz assim e deu merda”, para não me sentir omisso. Mas a vida é feita de escolhas e vale muito mais apontar as opções do que obrigar alguém a escolher a que você julga ser a certa, sem explicar o motivo ou deixar que se arrependam sozinhos das escolhas que fazem. Dar o próprio exemplo funciona, eu juro! É o caso da mãe que diz pros filhos que tais coisas não são certas, mas que deixa que cada um deles entenda sozinho o motivo daquilo. Fui criado na base do “escolha o certo” e não do “escolha o que eu disser para você escolher”, e isso fez toda diferença.

O menino não pode fumar porque faz mal. Porque vicia. Porque estoura os pulmões. Mas se ele quiser fumar, nem um milagre vai fazê-lo desistir da ideia, perder a curiosidade e deixar pra lá. Ser jovem tem tudo a ver com aprender na marra, comprovar empiricamente, sentir na pele e decidir só depois. Deixa o menino fumar, uma hora ele decide se aquilo é bom ou não. A mocinha não pode sair de roupa curta porque é coisa de vagabunda. Porque aparece a bunda. Porque vai perder o respeito. Porque não vai arranjar um cara legal. Deixa ela! Vai ver, dentro do tubinho preto curtíssimo dela, quem sabe, ela perceba o que é o preconceito, o que são valores sociais idiotas e quais são as verdadeiras mentiras que as pessoas contam. Talvez ela encontre um namorado que goste das roupas dela, talvez ela descubra que o que importa é se sentir confortável e talvez um dia ela sinta frio e decida sair com algo maior. Mas deixe a mocinha decidir sobre o próprio corpo, as próprias roupas, a própria aparência e sobre a própria vontade.

Não pode beber porque é coisa de marginal, porque acaba com o homem, porque mulher de verdade não fica bêbada. Que grandes merdas a juventude ouve “da gente”, não? Os caras dão de frente com os pais bebaços de caipirinha na feijoada de domingo, com a família, mas não podem fazer o mesmo na baladinha de sábado com os amigos novos. A gente envelhece e começa a ficar cego para o quão hipócritas são nossas opiniões. Cinco anos atrás ninguém gostaria de ser censurado como censuramos os jovens de agora. Deixa os caras aprenderem com a vida: melhor aprendizado não há.

Aí a menina fica cansada da infância e decide dar uma olhada no que é que tem pra lá do playground, pra lá do condomínio, pra lá dos muros da escola. Aí a menina descobre que fumar maconha é legal de vez em quando, mas sozinha ela percebe que fica meio lenta e decide que não é bom fumar sempre. Aí a menina descobre que cerveja é ruim, mas é bom. Que álcool é divertido, e depois do primeiro porre, sozinha, sem bronca nem sermão, aprende que tudo tem limite e que agora ela já sabe até onde pode ir. Aí a menina descobre que variedade é bom, diversidade é ótimo e começa a beijar os menininhos do colégio, depois os amigos das amigas, depois o irmão mais velho da outra amiga e depois começa a descobrir que tipo de homem a atrai. Depois ela aprende que sentir prazer dá vontade de dar prazer e que dar prazer também dá prazer. E quando a vida vai caminhando para ela aprender todo o resto, uma porção de jovens-velhos se sentem na obrigação de intervirem, de salvar a moça, de impedir que ela seja uma “puta”. Quanto “20 e poucos anos” envelhecido precocemente, meu deus. Na boa, ensina que camisinha é lei e deixa a menina transar!

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Muda

Ela já não vinha em busca de nada. Antes ainda se preocupava em dar satisfação, inventava histórias, fazia de conta que tinha algo para mostrar, trazia desenhos de rostos muito bem detalhados, de cenas urbanas na chuva e eu sempre dizia que ela deveria trabalhar com isso. Mas ela não me ouvia, não queria nem saber. Depois de cinco minutos aqui dentro, já estava sentada no sofá, com a blusa longe, me olhando com a convicção de quem hipnotiza pelos olhos. Só que depois ela desencanou do teatro e eu passei a abrir a porta com ela já me beijando, sem nem ter tempo de ter certeza de que era ela mesmo.

Não sei se era muda, ou se simplesmente não queria conversar. A verdade é que não falar, às vezes, é a melhor maneira de resolver as coisas. E ela não falava comigo, mas tinha a risada mais sincera da cidade, com a boca bem aberta, os lábios carnudos ficavam finos, esticados, e era possível ver o fundo da língua. Ria com a alma, de um jeito que ninguém pode dizer que era fingimento ou exagero. Eu não sabia como lidar, porque quando ela aparecia eu tinha de estar totalmente à disposição. Se eu dissesse que tinha de ir embora, ela ficaria triste. Se eu mandasse que parasse, ela poderia me entender errado, então eu deixava rolar…

E rolava! Ela entrava me beijando forte, empurrando minha cabeça para trás. Depois me sorria, e fazia alguma coisa de que gostava. Geralmente ia até a janela ver a vista nublada, até porque em dias de Sol ela não aparecia. Eu abria o conhaque, porque ela não tomava outra coisa, além de água. A gente bebia em copos de uísque, vendo as coisas longe, e ela apontava o que queria me mostrar. Eu me sentia um velho sendo seduzido por uma menina, mesmo que nossas idades não tivessem mais do que cinco anos de distância. Ela parecia viva e eu completamente apagado, então tudo era novo com ela por perto.

Depois o conhaque fazia efeito, ela vinha com tudo para cima de mim e eu só reagia à altura. A gente fazia aqueles sexos de filme de romance, sabe? Em cima das coisas, na mesa, no batente da janela, na passagem da sala para o quarto, e ela tinha um corpo em forma de perfeição. Sempre aparecia com jaquetas enormes, roupas masculinas e calças largas, o cabelo bagunçado, sem maquiagem e sem estilo nenhum, mas por baixo de toda a poluição visual era quase um anjo, muito loira, muito branca, muito lisa e muito fresca, quase gelada, e não esquentava nunca.

Mesmo sem falar, colocava verdade e sentimento em cada som que emitia, e isso ficava mais claro quando a gente transava. Não que gritasse, nem que exagerasse, mas era, de longe, a moça mais barulhenta com quem eu já fiquei em toda a minha vida. Vinha de dentro, sons, gemidos e urros, que seriam impossíveis de se reproduzir. Às vezes eu pensava que, mais dia menos dia, ela se abriria ao meio e um outro ser sairia de dentro, mostrando a verdade de quem ela era. Mas isso, creio que por pura sorte, nunca aconteceu.

Era sempre a mesma menina, a mesma adolescente com cheiro de sabonete e fumaça de madeira queimada, que entrava desesperada para me contar, sem dizer nada, tudo o que a vida estava lhe aprontando. Depois me pedia colo, depois me pedia amor, depois me pedia sexo, depois me pedia para esquecer tudo e fingir que ela ainda estava vestida, que os peitos eu nunca tinha tocado, que a bunda eu nunca tinha visto, que ainda estava completamente imaculada e secreta. Acho que vinha para mostrar-se para mim, só para ver minha reação, para saber que eu ainda a desejava em meio aos muitos sentimentos que não tinham definição.

Um dia, enquanto se vestia ela me olhou estranho, atravessado, como quem percebe um gesto incômodo pelo canto do olho. A gente tinha acabado de transar no chão da sala e ela, grande, com seus quase um metro e oitenta, cheia de músculos fortes, de bundas, peitos e coxas firmes e jovens, tinha ficado abraçada a mim, agarrada com força, dividindo toda sua frieza corporal com o meu calor. Acho que foi naquele dia que eu tive certeza de que a amava, e foi a última vez que ela veio me ver.

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Pedra

Você é dura como uma pedra quando está em um ambiente seguro. É como se, quanto mais segura a situação, mais fechada e agressiva você fica. Existe um monte de gente na rua indo e vindo o tempo todo, mas acredito piamente que poucas, bem poucas, são como você. Poucas têm essa habilidade social de controlar o ambiente, ou medir as próprias emoções, e saberem se estão se expondo, se precisam se proteger, se precisam de ajuda, se é hora de baixar a guarda. Eu nunca vi você baixar a guarda!

Tem mulher que nasceu pra dominar a situação, daquelas que chegam na mesa e dizem para o maitre sugerir o vinho, ou que preferem ir com o próprio carro para o encontro ao invés de serem buscadas em casa. Não entendo o motivo dessa postura, nem condeno, nem incentivo, só convivo e vou aprendendo a como viver com você, que é uma mulher diferente do que as mulheres costumam parecer. Ficar perto de você é absorver uma bagagem de conhecimento que a gente usa naquelas horas em que tudo parece sair do controle.

Não que eu não goste de mulheres independentes, ou das que sabem até demais o que estão fazendo, mas a sua autoconfiança irrita. Chega a ser tediante a maneira como você não se surpreende, como você não é pega de surpresa, como não se abala. O seu estar é tão sólido que abalado fico eu diante da sua reação quando conto alguma novidade bombástica. É como se eu fosse uma criança boba contanto uma piada manjada para um adulto bêbado e com dor de barriga. É constrangedor, às vezes.

Você, essa carapaça de pedra recheada de um creme que eu não faço ideia do sabor que tem, está cada dia mais para professora do que para aprendiz. É como se o mundo fosse uma aventura controlada onde o perigo é pouco, a emoção é barata e as novidades custam algumas dezenas de reais no débito ou no crédito. Teu mundo deve ser uma coisa muito louca visto de dentro, porque aqui de fora eu não tenho a menor noção de com o que ele se aprece, ou que cor deve ter, ou que roteiros deve seguir, ou se existe mesmo.

Vai ser forte assim lá na puta que pariu! Acho que, na verdade, você deveria tomar cuidado. Nessa sua mania de saber tudo, de já ter vivido as coisas ou de simplesmente ignorar o que não lhe parece muito bom, vai acabar tirando toda a graça do mundo. Na verdade eu sei onde está a sua novidade, a sua grande chance de ver o novo: quando você não está no controle. Você num lugar estranho, com gente que não te conhece, vivendo numa rotina atípica à sua agenda deve ser uma gatinha persa com cara de brava e comportamento dócil e amigável.

Ta aí o meu interesse tão grande em desmontar esses pedaços enormes da tua minúscula estátua dura e fazer o oco ver o mundo e vice-versa. Vai que, no fundo, essa tua proteção contra o universo não passa de uma cobertura de glacê derretendo numa faca quente. Espero que nas próximas vezes que estiver por aqui, que diminua os portões, abaixe as defesas e fique calma. Quando te vejo faço questão de me abrir como um portão recém pintado, enquanto dou de cara com toda a sua blindagem passando desconfiada por mim. É a pedra mais complicada que eu já vi.

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