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O que a gente fez da nossa vida?

O que a gente fez da nossa vida? Porra, essa pergunta exige uma introdução breve. Eu morava num lugar onde a água só chegava três dias na semana e nunca eram os mesmos. Era uma agonia eterna de ter que abrir a torneira para ver se era dia de água ou não. Parecia que nunca era. A gente comia bolacha água e sal, ficava de cócoras equilibrado sobre os calcanhares e olhava o movimento da rua de cima do muro. Seis moleques, todos magros até o osso, agachados igual urubus, mastigando bolachas secas e murchas com a boca aberta e olhando o movimento da rua. Naquela época ninguém tinha direito de ter nome, então a gente era só a gente, estava bom assim.

Depois passou o tempo e eu virei eu mesmo, com esse nome que você me conhece. A vida foi generosa comigo, não posso negar. Estudei, enquadrei o diploma na parede do quarto, viajei para a praia, frequentei casas e apartamentos maiores que uma quadra de futebol de salão e as coisas meio que deram certo para mim. Engordei gradativamente, em ritmo constante, e hoje exibo uma senhora barriga, uma barba de gente de pouco asseio e um linguajar chulo o suficiente para me levarem a sério sem precisarem me levar a sério. Deu certo, essa coisa do futuro.

Outro se mudou para o Piauí e virou Maicon. A última vez que a gente teve notícia parece que estava preso. O Maicon era envolvido com roubo de carro, desmanche de carro, falsificação de documento de carro, clonagem de carro, corrida de carro. Coisa de carro, entende? Ele vivia falando do som dos motores dos ônibus que passavam na rua quando a gente ficava trepado sobre o muro do terreno baldio. Dizia que quando fosse “grande”, seja lá o que isso significava, já que era o maior de nós, ia ter um caminhão enorme e viajaria para o nordeste. A mãe dizia que o pai tinha fugido para o nordeste e ele tinha o sonho de pegar a estrada e ir atrás do pai. “Oi, pai. Eu sou o Maicon, seu filho”, ele queria dizer. Ele sonhava em matar o pai.

O outro morreu cedo, não teve tempo de ter nome nenhum. A gente ainda era adolescente quando explodiu um rojão na cara dele. Também, burro que só! Acendeu o rojão pra comemorar um jogo do Brasil na Copa de 98. Acendeu o pavio falhou e ele ficou fazendo papel de ridículo na nossa frente. Moleque de rua é uma raça que não perdoa, é uma forma de parecer estar numa situação menos pior, essa coisa de tirar sarro da desgraça alheia. Enfim, o rojão falhou, ele olhou por dentro do tubo e então a explosão aconteceu rápido demais para qualquer um de nós entender. A cabeça dele parecia uma melancia que caiu do caminhão e a gente ficou sem comer melancia por muitos anos.

Um sumiu, eu simplesmente não faço a menor ideia do que aconteceu com ele e ninguém com quem eu conversei sabe. Então sumiu.

O outro virou advogado. Deu mais certo na vida do que todos nós. A mãe trabalhava como faxineira em um escritório e o filho começou lá como mensageiro, depois ganhou uma bolsa de estudos para estudar Direito, fez a lição de casa, ficou longe do crime, das drogas, dos caras animados demais e hoje tem uma carreira sólida, casa grande, mulher bonita, filhos saudáveis e se chama Jardel. Esse é um cara que cresceu na vida, era pobre e ficou rico, era quase nada e conquistou o que, naquela época, a gente achava que era tudo. Parabéns pra ele. A gente nunca mais se falou.

O último decidiu que não estava feliz como estava e fez uma cirurgia. Se transformou em mulher, uma mulher muito gata por sinal. Luara! Ficou com voz fina, aproveitou as pernas longas, não exagerou no silicone e se jogou na carreira de modelo. Estava ganhando dinheiro, mas não gostava do cabelo cacheado. Durante um processo químico controverso acabou ficando cego dos dois olhos para ter um cabelo loiro, lambido e controlado. É uma das modelos cegas mais bem pagas da indústria e não se arrepende de nada. Estou casado com Luara há dois anos!

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A vontade de te ver…

Daí ela colou o nariz no vidro e gritou pra mim, sem som, que me amava. Li nos lábios um berro aterrorizante de “EU TE AMO PRA CARAAAALHO!” antes de sumir lá longe, na janela, enquanto o ônibus seguia, nem tão rápido, nem tão lento, rumo ao futuro que não ia durar nada. Era um silêncio que fedia a podre e foi a primeira vez na vida que um som me pareceu ter cheiro. O motorista não olhava para trás, nós todos uns moleques de no máximo 17, todos com o cu na mão, tremendo os dentes nas bocas bem fechadas. Vai saber o que é que tem no outro lado da ponte.

O rádio chiava horrível uma música sertaneja que me fazia desejar morrer, mas algum anjo em rota de fuga deve ter passado por ali, perdido, e fez com que alguém, que do meu banco perto do fundo eu não pude identificar, mudasse a sintonia e caísse, como que por milagre, em uma daquelas estações que foram feitas pra gentes da nossa idade, fodidas ou não. Tava tocando a última  música do Charlie Brown, aquela que foi lançada depois da morte do Chorão.

O refrão dizia “a vontade de te ver já é maior que tudo” e eu lembrava incansável do rosto vermelho dela grudada no vidro do segundo andar, com a cara toda molhada e as unhas arranhando a janela que nunca se quebraria pra me deixar alcançá-la novamente. Todo mundo tinha alguém pra lembrar. Todo mundo olhava para frente como se não houvesse vista melhor do que a nuca raspada de um outro cara da mesma idade. Tem vezes, nesses momentos que a solidão fica sólida e tátil, que não ver nada é a melhor maneira de enxergar além.

O caminho era feito de um asfalto muito cagado, toda hora a gente dava pulos, com os pés presos em umas correntes folgadas e barulhentas no chão. Ônibus da polícia parece os que a gente pegava pra ir pra escola, ou pro trabalho, mas não tem aquelas barras pra se segurar, nem a porta de trás, nem janelas livres. É tudo gradeado, mais velho do que deveria e feito para que, se por acaso alguma coisa faça a porra toda capotar, nenhum de nós tivesse a menor chance de sobrevivência. Não ia mudar muito morrer no ônibus ou fora dele.

Nesses anos difíceis era melhor morrer cedo, vivendo intensamente, do que durar muito, passando os dias se lamentando pela merda que era estar vivo. Todo mundo ali tinha o mesmo sentimento que eu, chorava por dentro como eu e, no fim, era certo que todo mundo já sabia que ia dar nisso. É complicado nascer vivendo a infância de um jeito e, na adolescência, quando o mundo deveria abrir as pernas para nós, encontrar novas leis, novos códigos e ter que aceitar sem falar nada. A gente nem disse nada, na verdade, mas ninguém aceitou porra alguma.

“A verdade de te ver já é maior que tudo” eu pensava, enquanto lembrava do grito mudo dela, do outro lado da janela, lá longe, gritando um palavrão pra explicar que amor maior não existia e que palavra melhor não podia ser escolhida. “Eu-te-amo-pra”, e tomou ar antes de gritar “caralhoooo”, o mesmo ar que me faltava agora que o ônibus havia chegado. Cento e dezessete dias esperando um final que, honestamente, eu desejaria que estivesse mais adiantado.

Passaram semanas, muitas delas, aos pares, se arrastando fodidas de doenças horríveis, e eu só pensava em duas coisas: quando isso vai acabar? Como será que ela está? Eu jamais teria a resposta para a segunda pergunta e tinha, em meses, semanas, dias, horas, minutos e segundos a resposta da primeira. Alguns caras iam primeiro, afinal, era tanto moleque preso e condenado que eles não davam conta de executar todo mundo. Sim, caso você não tenha percebido, estávamos presos, condenados e íamos morrer dentro de algum tempo determinado por alguma pessoa que, com certeza, estava cagando para como nós nos sentíamos durante a espera.

Comia-se pouco, dormia-se pouco, falava-se pouco e, por conta dessa inatividade, o tempo dava-se o luxo de não passar. O tempo, lá, era uma palavra feminina. Era uma puta safada, meio gorda, decadente, que caminhava com um salto alto vagabundo pelos corredores conversando com os meninos mais fracos, desejando boa noite em pleno meio-dia e pedindo para que eles escrevessem cartas. Tempo, grande merda. Eu queria aquela piranha correndo a todo vapor, atravessando o corredor lotada, bruxa cheia de neura, para quem sabe ter minha paz. Mas o tempo não passava rápido porque estava ocupado demais incentivando a punheta da molecada carente.

Um dia, quando eu já estava quase vegetando, chegou minha vez. Levantei, fui até a porta, alguns deram tapinhas nas minhas costas, outros tocaram minhas canelas, porque já estavam deitados a tempo demais para terem força para levantar. Caminhei o pavilhão todo, junto com uns mil caras, todos em fila. Eu estava mais pra frente, mas não estava nem entre os cem primeiros. A fila ia andando lenta e os caras da frente sumiam de cinquenta em cinquenta. Chegou a minha vez.

Era uma sala com paredes de metal e todo mundo estava descalço, magro e perturbado. Fecharam as portas e uma voz no auto-falante deu o fim à nossa espera. “Vocês foram condenados à morte. O crime: Amar antes da maioridade.” e a gente sabia que depois disso saía o gás, a gente respirava, tossia, caia no chão e depois era enterrado em uma vala comum. Era proibido ser jovem e gostar de alguém. Novos tempos, novas regras, novos políticos e novos absurdos. Todo mundo na sala estava morrendo por amar demais. Só nos restava aceitar e ir, sei lá pra onde, definitivamente.

Mas um anjo, talvez o mesmo que nos visitou durante a viagem de ônibus, decidiu que para morrer era preciso uma trilha sonora. Isso não era para nós, mas para eles, que não tinham coragem de nos ouvir gritar e morrer, ficava difícil dormir à noite para eles.”Essa canção é a preferida da minha filha. Que Deus os abençoe no céu!” e quando o gás saiu, bem mais abundante do que eu imaginava nos meus dias presos enquanto a porra do refrão berrava nas quatro paredes de metal.

A gente sorriu, mesmo sabendo que era o fim, porque a vontade de vê-las já era maior que tudo e, de alguma maneira, naquele momento eu sentia que estava mais perto do que nunca. “Eu também te amo pra caralho…” e depois disse puxei todo o ar pela boca, aí não deu pra dizer mais nada.

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