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O que a gente fez da nossa vida?

O que a gente fez da nossa vida? Porra, essa pergunta exige uma introdução breve. Eu morava num lugar onde a água só chegava três dias na semana e nunca eram os mesmos. Era uma agonia eterna de ter que abrir a torneira para ver se era dia de água ou não. Parecia que nunca era. A gente comia bolacha água e sal, ficava de cócoras equilibrado sobre os calcanhares e olhava o movimento da rua de cima do muro. Seis moleques, todos magros até o osso, agachados igual urubus, mastigando bolachas secas e murchas com a boca aberta e olhando o movimento da rua. Naquela época ninguém tinha direito de ter nome, então a gente era só a gente, estava bom assim.

Depois passou o tempo e eu virei eu mesmo, com esse nome que você me conhece. A vida foi generosa comigo, não posso negar. Estudei, enquadrei o diploma na parede do quarto, viajei para a praia, frequentei casas e apartamentos maiores que uma quadra de futebol de salão e as coisas meio que deram certo para mim. Engordei gradativamente, em ritmo constante, e hoje exibo uma senhora barriga, uma barba de gente de pouco asseio e um linguajar chulo o suficiente para me levarem a sério sem precisarem me levar a sério. Deu certo, essa coisa do futuro.

Outro se mudou para o Piauí e virou Maicon. A última vez que a gente teve notícia parece que estava preso. O Maicon era envolvido com roubo de carro, desmanche de carro, falsificação de documento de carro, clonagem de carro, corrida de carro. Coisa de carro, entende? Ele vivia falando do som dos motores dos ônibus que passavam na rua quando a gente ficava trepado sobre o muro do terreno baldio. Dizia que quando fosse “grande”, seja lá o que isso significava, já que era o maior de nós, ia ter um caminhão enorme e viajaria para o nordeste. A mãe dizia que o pai tinha fugido para o nordeste e ele tinha o sonho de pegar a estrada e ir atrás do pai. “Oi, pai. Eu sou o Maicon, seu filho”, ele queria dizer. Ele sonhava em matar o pai.

O outro morreu cedo, não teve tempo de ter nome nenhum. A gente ainda era adolescente quando explodiu um rojão na cara dele. Também, burro que só! Acendeu o rojão pra comemorar um jogo do Brasil na Copa de 98. Acendeu o pavio falhou e ele ficou fazendo papel de ridículo na nossa frente. Moleque de rua é uma raça que não perdoa, é uma forma de parecer estar numa situação menos pior, essa coisa de tirar sarro da desgraça alheia. Enfim, o rojão falhou, ele olhou por dentro do tubo e então a explosão aconteceu rápido demais para qualquer um de nós entender. A cabeça dele parecia uma melancia que caiu do caminhão e a gente ficou sem comer melancia por muitos anos.

Um sumiu, eu simplesmente não faço a menor ideia do que aconteceu com ele e ninguém com quem eu conversei sabe. Então sumiu.

O outro virou advogado. Deu mais certo na vida do que todos nós. A mãe trabalhava como faxineira em um escritório e o filho começou lá como mensageiro, depois ganhou uma bolsa de estudos para estudar Direito, fez a lição de casa, ficou longe do crime, das drogas, dos caras animados demais e hoje tem uma carreira sólida, casa grande, mulher bonita, filhos saudáveis e se chama Jardel. Esse é um cara que cresceu na vida, era pobre e ficou rico, era quase nada e conquistou o que, naquela época, a gente achava que era tudo. Parabéns pra ele. A gente nunca mais se falou.

O último decidiu que não estava feliz como estava e fez uma cirurgia. Se transformou em mulher, uma mulher muito gata por sinal. Luara! Ficou com voz fina, aproveitou as pernas longas, não exagerou no silicone e se jogou na carreira de modelo. Estava ganhando dinheiro, mas não gostava do cabelo cacheado. Durante um processo químico controverso acabou ficando cego dos dois olhos para ter um cabelo loiro, lambido e controlado. É uma das modelos cegas mais bem pagas da indústria e não se arrepende de nada. Estou casado com Luara há dois anos!

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Ela mora sozinha

A pia cheia, suja, uma porção de panelas amontoadas junto com canecas de café, o fundo seco, rançoso, fedido. A casa era quase um cenário de vídeo clipe de música moderna. Tudo meio cinza, nublado, colorido com um opaco quase cult. Na cozinha, ali onde eu estava, os objetos pareciam significar mais do que realmente eram. Uma xicrinha branca com a borda manchada de batom cor-de-rosa me dava mil ideias. Ao lado, meio amassado, um maço de Marlboro vermelho com três cigarros e um bic verde pequeno socados dentro. Um saco de polvilho vazio e amassado, cheio de farelos no fundo e ao redor. Que porra de pia, cacete!

A geladeira fedia, como era de se esperar naquele cenário. Mas não fedia a geladeira, ou a arroto, como de costume. Fedia a podre, como se alguma coisa animal estivesse morta ali dentro. Na porta, uma dúzia de ovos suspeitos me olhavam com descrédito e um deles, o da ponta, exibia uma generosa rachadura, de onde eu supus sair uma parte do cheiro horrível que emanava dali. Nas prateleiras uma caixa de leite que eu não quis nem encostar, um grupinho de potes de conservas bem feias e alguma coisa amarrada em uma sacola plástica. Nas prateleiras de baixo, mais ou menos a mesma coisa, e no fundo, no lugar onde as pessoas chamam de “gaveta das verduras”, diversas garrafas de bebida, todas meio bebidas, descansavam deitadas e felizes emanando um odor azedo característico.

O congelador não tinha muito para me oferecer. Era um refrigerador antigo, daqueles que nunca ouviram falar em “frostfree” e, ao puxar a porta superior, todo o refrigerador veio na minha direção. Congelado! Completamente congelado. Depois de insistir um pouco, consegui abrir e vi alguns pedaços de carne vermelha e frango completamente envoltos por uma fina camada de gelo, quase como neve, cercados por paredes de gelo que ultrapassavam os 10 cm de espessura. A lâmpada que iluminava o compartimento simplesmente não existia, o gelo tinha quebrado, congelado e apagado há muito tempo.

A mesa estava cheia de sacos de pão marrons. Uns 40, no mínimo, sem brincadeira. Era uma montanha de sacos, a maioria com um pão só dentro. Eram pães metamorfoseados, já tinham deixado de servir de alimento há muitos dias e agora poderiam incorporar algum tipo de tacape indígena, munição de estilingue e até, quem sabe, reforço para os dentes de diamante de uma perfuratriz de metrô. Eram duros como mármore, nocivos até mesmo para os dentes de um tubarão, imagina para um ser humano. Soterrada sob os sacos, uma fruteira vazia de frutas, com algumas contas, papéis, clipes, fósforos queimados, um durex, um anel, um elástico de dinheiro e uma pilha Rayovac vazando.

Eu, pelado, recém acordado, olhava ao meu redor, vendo cortinas e vidros podres, enferrujados e comidos pelo tempo, não entendia direito como as coisas chegavam naquele estado. Mais para frente o fogão exibia uma camada de molho de tomate seca tão bem encrustada que por alguns segundos pensei ser uma customização feita com tinta. Era um lixão em formato de casa. Tinha cheiro de coisa viva morando e morrendo debaixo de alguma outra coisa escura e úmida. Era nojento, triste, desencorajador e insalubre. Quando, de repente, ouvi o som de pés caminhando pelo chão duro, batendo calcanhares e quando olhei ela estava vindo na minha direção com o cabelo bagunçado mais lindo do mundo, um sorriso desconcertado e a minha camiseta, que no corpo dela parecia um vestido fora de moda.

Ela parou na entrada do cômodo, me olhou, eu abri os braços de leve, como quem pergunta o que está acontecendo e ela disse que a “moça que limpa” tinha faltado e aquela bagunça era de uns 5 dias. Percebi que ela realmente achava que iria me convencer com aquilo, mas a sujeira, o cheiro e o lixo estavam ali há, no mínimo, meses. Um par de meses. Meus pés parados no chão de piso branco, gelado, meu pau amolecido e envergonhado, meu umbigo apontando para o dela e ao redor o universo de uma casa degradada por uma garota que mora sozinha. “Eu achava que mulheres morando sozinhas eram sempre organizadas”, disparei, quase séria. Ela sorriu tímida e finalizou a conversa: “é, tá um pouco ruim… mas eu vou dar uma geral. Só não usa o banheiro, ok?” e eu ri, porque não consegui imaginar o que tinha dentro dele. No fim das contas a gente viveu mais 2 anos na mesma bagunça, sem lavar um copo sequer!

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A personagem base

“Não existem muitos de você no mundo”, ela me disse, e eu lembro disso como se lembrasse de algo que ouvi dois segundos atrás. Me sentia estranho por lembrar, mas lembrava mesmo assim. Eu lembrava dela em todos os detalhes, do tom de voz, da maneira como conversava falando lentamente e de como conduzia raciocínios complexos de maneira simples e direta, com poucas palavras, sem metáforas ou grandes explicações. Eu me lembro de pensar que era preciso ser inteligente para manter um diálogo sobre os assuntos que ela iniciava.

Ela não existia. Nunca existiu. Passei muito tempo construindo seu rosto, sua pele muito branca, cheia de marcas que a vida foi deixando ao longo do tempo. Uma vida que ela não teve, uma porção de memórias criadas, desenhadas com cuidado, tecidas umas nas outras, essas memórias, tentando criar alguém, uma personalidade, uma pessoa com quem eu teria o maior prazer de beber alguma coisa, falar sobre temas complicados e discutir até quase beirar a agressão. Eu pensava suas roupas, sua casa, suas características mais marcantes, como tiques com os olhos, sobre ser sozinha, ou sobre o tipo de gesto que fazia quando estava feliz ou triste.

Eu a criei para textos assim, como este, que precisam de uma protagonista que eu não conheço, alguém cuja existência eu não poderia suportar. É uma criação fantasiada de perfeição, personagem recorrente, que muda a cor do cabelo, dos olhos e os gostos pessoais, mas que não muda de rosto, nem de corpo, nem de vida. Criar personagens tem disso, dessa fixação, admiração por uma ficção tão repetitiva que às vezes se confunde com a realidade. Devo ter criado mais uns 8 irmãos e irmãs para ela, sempre que necessário, sempre que o tom é outro, sempre que falar de gente de carne e osso me parece chato, cansativo ou perigoso.

Uma das principais vantagens de ser “pai” de criaturas assim é que elas dizem o que eu quero ouvir, fazem o que eu quero que façam, pensam o que eu quero que pensem e morrem quando eu mando morrer. Escrever ficção é como ser Deus, só que sem ferir ninguém. Mato meus personagens de amor, de ódio, de bala perdida e de azeitona presa na garganta. Não importa, não existem, não deixaram filhos, família, amigos. E se deixaram, são inventados também. São pedaços de mim que eu mesmo não manifesto durante a vida. São retratos de famílias que eu nunca fiz parte, cartas de amor que eu nunca escrevi, nem recebi, festas para as quais eu nunca fui convidado.

Cada pessoa que eu conheço doa, mesmo que involuntariamente, um pouco de si para personagens como ela. Personagens sólidos que eu faço questão de cultivar. “Ela” é minha mulher padrão, a moça que sempre está na primeira opção de protagonista branca e magra de qualquer história que eu venha a escrever. Assim com existe um homem padrão, uma moça negra padrão, uma criança padrão e um espírito padrão. Mas ela é a mais velha, a primogênita, veio da minha pré-adolescência. Ela é a mulher traída, a mulher infiel, a assassina e a vítima. É a mãe dedicada, a namorada psicótica, a amiga confidente e o rosto mais atraente de todas as festas. Ela é a melhor trepada, ou a maior decepção sexual da vida de qualquer homem. Ela é a massa de baunilha que vira todo tipo de bolo, é a folha branca, é a gênesis de qualquer criação.

E esses dias, quando ouvi que “não existem muitos ‘de mim’ no mundo”, tive certeza de que isso já está indo longe demais. Alter ego. Sombra. Musa. O nome e o rótulo todo mundo pode escolher, mas o fato é que quando seus personagens começam a parecer gente de verdade é hora de se agarrar à realidade mais do que tudo. Que tipo de gente doente cria pessoas para elogiarem a si mesmas? Que tipo de megalomaníaco contrata capachos para ouvir sobre qualidades planejadas? Tenho estado muito pouco inspirado quanto à criação de novos personagens. Preciso abrir mão das criações antigas e dar espaço para outra gente imaginária. Ela está tentando sair dessa tela e pular pro lado de cá, pra fora da minha cabeça, querendo entrar pro time das pessoas que morrem de verdade. Não vai rolar…

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A moça que comia homens (parte 1)

(não dê muita importância nem desenvolva grandes expectativas com o final, ok?)

Eu lembro quando alguém me contou que ela comia os caras. Na minha primeira ideia automática pensei na tradução simples dessa frase: uma mulher dominadora na cama, que impõe suas vontades e coisas do gênero. Mas depois comecei a pensar sobre canibalismo mesmo, sobre mulheres assassinas, serial killers, gente psicopata e tudo mais. Um pouco depois me lembrei daquela deusa (ou semi-deusa) que engolia os homens pela vagina, passava o corpo todo e eles eram digeridos dentro dela, depois de terem relações sexuais. Não cheguei a conclusão nenhuma.

Ela estava sempre por ali, tomando alguma coisa no café do outro lado da rua, comprando revistas estranhas, lendo livros em línguas difíceis e sorrindo para todo mundo. Era uma moça loira que não passava de um metro e meio de simpatia, roupas bonitas e hábitos bizarros. Quando ela se levantava o garçom aparecia com a conta, quando ela pisava na calçada perto da rua o semáforo dos carros se fechava quase instantaneamente, quando vinha para cá sempre tinha alguém saindo e ela nunca precisava abrir a porta. Quando se sentava eu, babaca e babão, já estava lá para anotar o pedido. Ah sim, aqui é um restaurante de comida americana.

Eu ficava impressionado como continuava se mantendo magra, proporcional e bonita comendo aqui todo dia. Eu já sabia o que ela queria, era sempre a mesma coisa, mas eu fazia questão de chegar perto para sentir seu perfume, para ouvir sua voz e para tê-la prestando atenção em mim ao menos por alguns segundos. “Um cheesebacon, batata e uma Coca-Cola? Ok!” e saía, me sentindo o cara mais sortudo do mundo. Entrava na cozinha parecendo um idiota cantando a música que estivesse tocando no salão em alto e bom som. “I hear your heart beat to the beat of the drums / Oh what a shame that you came here with someone”, eu e a Ke$ha cantávamos alegres sobre o fim da vida sem fazer a menor ideia do que estávamos falando.

O cara da chapa olhava pra mim e julgava a minha euforia com apenas uma frase: “a mina taí, né?” e eu o corrigia com algo como, “a mina mais gata dessa porra de cidade está aqui, sim!” e depois eu voltava para o balcão e ficava vigiando de longe. Ela nunca estava com ninguém, nunca atendia o celular, nunca falava com alguém na internet ou coisa assim. Era o tipo de gente que se dá muito bem com a própria companhia, talento que hoje em dia quase ninguém tem. Dia após dia, de segunda a sexta-feira, ela estava aqui, comendo a mesma coisa, bebendo a mesma coisa, usando o mesmo perfume, se vestindo sempre muito bem e eu continuava me derretendo por ela.

“Plin”, saiu o lanche. Pensei que era uma boa chance de falar com ela, ao menos falar sobre o livro que ela estava lendo, que eu não sabia qual era, ou elogiar o cabelo, ou só dizer que a comida chegou. Fiquei travado quando percebi que a euforia da música do salão tinha se tornado num reggae/black do Damian Marley e isso não me daria ideias pra falar nada. Entreguei o prato, ela agradeceu, abri a lata e antes de terminar de completar o copo ela me mandou sentar. Não foi um pedido, não foi um convite, ela simplesmente disse “Senta aí!” e me sorriu com cara de boneca.

“Hoje eu vou estar em casa às 9h da noite esperando você. Vá sozinho, não conte a ninguém onde você vai. O endereço é o seguinte…” e escreveu uma rua, um número e um bairro na palma da minha mão, com uma caneta muito macia, quase um pincel. Eu sorri assustado, ela sorriu de volta, colocou o livro de lado e atacou o lanche. Antes de sair olhei a capa da obra e não consegui ler nada, eram símbolos que eu não conhecia, não eram letras comuns. Árabe não era. Japonês também não. Talvez russo ou algum outro país que desenhe as próprias grafias.

Fiquei eufórico e confuso. Não sabia se era um jantar, se era um encontro, se eu deveria ir muito bem arrumado, se não tinha nada a ver com o que eu estava pensando e no fim das contas eu já não conseguia pensar em nada. Quando acabou de comer, levantou calma, passou por mim sem me olhar e antes de sair, de lá da porta, me olhou com um olhar tentador e sorriu, só para garantir que se lembrava do convite que havia feito para mim. O dia passou arrastado, o tempo em casa passou voando e às 20h57 eu estava apertando o botão com o número do apartamento.

Era um prédio antigo, sem porteiro, sem portão, daqueles que você toca o interfone direto de onde está indo. A porta se abriu sozinha, eu entrei e apertei o número do andar no elevador. Cheguei ao hall, duas portas. Fui na direção da certa e antes de tocar a campainha, ela surgiu. Abriu a porta vestida de preto, em roupas comuns, mas muito bonitas e, ao seu lado, havia uma outra dela, igual a ela, idêntica, mas com uma roupa diferente. As duas disseram ao mesmo tempo: “estávamos esperando por você!” e me sorriram.

Eram duas, iguais, a mesma pessoa, e eu não conseguia achar um espaço na minha cabeça que pudesse comportar e digerir o que eu estava vendo. Entrei, sentei-me no sofá como ela me indicou, respondi que não queria beber nada, quando ela me perguntou e então, como se fosse normal, uma terceira dela apareceu, com outra roupa, sorrindo para mim e dizendo “que bom que você chegou”, passando da sala para a cozinha. Eu comecei a me sentir mal…

[continua…]

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Valorize a depilação da sua mulher!

Todo mundo tem preferências, gosta mais de uma coisa do que de outra e isso é natural do ser humano. Tem gente que prefere a cor azul, mas nem por isso só tem roupa azul no armário. Tem gente que prefere macarrão alho e óleo, mas não deixa de almoçar se tiver macarronada ao molho branco na mesa. Preferências, fim. Se alguém vier falar comigo de depilação, e partes íntimas femininas, de gente que tira a roupa e se diverte e tudo mais, vou ter minhas preferências. Não importa se for floresta amazônica, jardim botânico ou Serra Pelada, vai estar sempre bom, nunca vou abandonar mulher nenhuma, nem deixar na mão, por causa de um detalhe assim. Mas se for pra escolher uma só… Serra Pelada.

E eu sempre reconheci o cuidado e a preocupação que as moças com quem eu fiquei tiveram, ao aparecerem da maneira como eu preferia. Se tivessem vindo com a depilação de dois meses atrás a ação seria a mesma, mas você entendeu o que eu quis dizer. Eu reconhecia a atitude! Acho que a maioria dos homens faz o mesmo (espero que sim, brothers!), mas a gente, por alguma ignorância eletiva, ou até mesmo por sermos leigos no assunto, não consegue dimensionar exatamente qual é o tamanho do esforço de uma mulher que enfrenta a cera pra agradar o moço com quem vai ficar.

Já li mil vezes que isso é ditadura machista, que homem que só gosta de mulher “lisa” é filho da puta e bla bla bla como sempre. O fato é que eu não obrigo ninguém, não nego ninguém e este não é um texto sobre “mulheres, depilem-se”, ok? Na verdade, é bem o contrário. A gente, homem, quando se depara com a visão que mais nos agrada – seja ela qual for – não temos muita noção do trabalho e do sofrimento envolvido ali. Eu sei que dói. A gente sabe que dói. As mulheres dizem que dói, e dói muito, e a gente não duvida. O problema é que a gente, na verdade, não sabe de nada!

Daí eu fui tentar ter uma vaga noção… (puts!) Quem me conhece sabe que eu sou um daqueles caras que não teve a evolução dos genes bem definida e meu corpo esta mais pra primata do que pra humano desenvolvido. Tenho pelos. Muitos. Em todo canto do meu corpo. Herança de família de algum ancestral que quis me sacanear nessa vida. Até que aceito bem minha natureza “selvagem”, mas pelos nas costas é uma parada que eu nunca curti, nunca vou curtir e, querendo ou não, sempre tive. Tinha!

Claro que uma virilha é infinitamente mais sensível do que a pele grossa e esticada das costas, mas é sempre bom lembrar que homem suporta cerca de nove vezes MENOS dor do que as mulheres. Então acho que ao menos tentei chegar perto. Regiane, a moça que me atendeu, disse que a primeira vez sempre doía mais e eu estava disposto a suportar a famosa dor da cera. (Puta que pariu, que sacanagem a gente faz com as mulheres, cara!) Logo na primeira puxada tive plena consciência, lúcida e clara, de que a dor que eu acaba de sentir superava a dor da tatuagem que eu tenho no ombro. E olha que agulha é uma coisa que me provoca quase fobia.

A cera ia quente tomando conta das minhas costas e a única coisa que eu pensava é que aquilo não teria fim. Comecei a suar frio, a cera não grudava, tinha que repetir o processo todo de novo, fui ficando agoniado, as costas começaram a arder, sentia uma queimação que beirava aqueles ardores de quando a gente rala o cotovelo caindo de bicicleta e meia hora depois eu estava botando a camiseta de novo, aliviado e nitidamente abatido. Se eu pudesse dizer uma coisa para as mulheres, depois de ter passado por isso, diria o seguinte: “ôh moça, ignora as nossas preferências, não precisa passar por isso todo mês não… sério!”

Regiane ria de mim e repetia baixinho “homem é muito mole” e eu me agarrava à maca torcendo muito para que aquilo acabasse. Mexeu comigo, sério! Eu não imaginava que pudesse ser tão dolorido. Saí da sala rindo, com ela rindo de mim e eu rindo de mim mesmo, com as costas meio tortas como se tivesse acabado de sair de alguma massagem muito profunda. Sentia um ardor semelhante à aqueles tapões que a gente levava na escola, só que bem mais intenso. No fim, fiz um trato com a minha querida esteticista/carrasca: voltaria em um mês para tirar todos os pelos do peito.

Ela gargalhou junto com a recepcionista, depois veio até mim, colocou a mão no meu ombro e com um certo ar de deboche, mas falando a verdade, me alertou: “não vou mentir, Daniel. Se você vier fazer o peito, você vai chorar!” e eu ri, aterrorizado, mas disposto a cumprir meu trato. Depois disso cheguei a duas conclusões. Sobre as mulheres: estão de parabéns pela paciência e resistência. Sobre os homens: fera, depile seu saco com cera antes de reclamar dos pelos da sua mulher… dica de brother!

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Pensativa

Ela pensava muito, o tempo todo, daquele jeito que deixa o corpo inquieto, agitado além da conta. Pensava sobre o tempo, sobre o sol que não veio, sobre as contas pra pagar, sobre mudar de casa, de cidade, de emprego, de cor de cabelo, de carro, de vida. E queria entrar na academia, ficar mais gostosa, ou botar uns peitos, ou fazer uma tatuagem, ou virar um avatar e sair pulando de árvore em árvore super azul e com um rabo sensacional. Pensava o tempo todo em tudo, junto e não chegava a conclusão nenhuma.

Então pensava sobre a bagunça da casa, sobre as compras que ninguém fez, sobre como ser jovem e morar sozinha é complicado, sobre como tudo que existe para solteiro custa o dobro e vem a metade. Pensava sobre as pessoas que vão jantar em casa no final de semana, sobre o que ia cozinhar, sobre o que tinha que comprar só para cozinhar e sobre o motivo de ter marcado com tanta gente, se não daria conta de fazer comida para todo mundo. Pensava sobre os lugares na mesa, sobre quantos pratos tinha, sobre a bagunça da casa de novo e sobre ter que lavar o banheiro, porque visita tem que ver banheiro limpo.

Aí pensava que a hora não passa, que o trabalho está chatíssimo, que só tem gente incompetente nesse mundo e que, só por isso, merece uma cerveja depois do expediente. Mais que uma cerveja, merece uma ida ao bar com as amigas sem hora para voltar, só a mulherada, “girls night out”, paquera, gente nova, qualquer coisa que anime o fim do dia. Depois pensou que ia acordar tarde no dia seguinte, esquecer celular e despertador, ia se dar a manhã de sábado só por capricho.

Mas depois pensava que pra sair precisava se preparar, e o cabelo não estava nos melhores dias. Pensou sobre a cor das unhas, sobre uma sandália que viu em uma vitrine dias atrás, sobre o vestidinho sensacional que está emprestado pra amiga. Pensou sobre a depilação, que ia marcar na semana anterior mas a esteticista estava doente, depois lembrou da sobrancelha, e lembrou que acabou o batom rosa “de balada”. Pensou sobre todas as coisas, tudo de novo, quatro vezes, em ordens aleatórias, acrescentando novos assuntos, tirando alguns menos relevantes e no meio do fim do expediente, no meio da nuvem de pensamentos malucos, o celular acendeu com uma mensagem: “estou na frente da sua casa. Sai mais cedo do trabalho hoje?“, leu.

Aí não conseguiu pensar em mais nada…

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Viva a siririca!

A gente anda careta e babaca demais. E quando digo “a gente”, quero dizer eu e você, os dois, os todos, porque não é difícil perceber a própria coxinhice, a própria hipocrisia e o próprio atraso de opinião. Mas a gente vive dizendo que vai melhorar e sorte daqueles que realmente buscam aprender mais, ficar mais maleáveis, porque a vida desenhada na base de opiniões sólidas é uma merda construída de um erro atrás do outro. Sabe como você faz isso? Prestando atenção em pessoas que têm opiniões – as sensatas e embasadas, ok? – e formando as suas próprias.

Esses dias pulou um cartaz no meu feed do Facebook que dizia apenas “Gente que toca siririca S2” (imagem disponível na página do facebook) e quem replicou foi a Carol Patrocínio, um bom exemplo dessas pessoas que têm opiniões que podem te ajudar a ter suas próprias opiniões, você concordando com as dela ou não. O lugar de onde ela replicou era uma página chamada Indiretas de Satã, que faz piada com coisas religiosamente não recomendadas, e a justificativa para “Satã” curtir a moçada que toca siriria era que “Siririca é pecado e por isso mesmo é tão massa” e eu, de cara ri. E ri porque é engraçado, porque era pra ser uma piadinha besta e funcionou, mas por trás da piada, ao replicar uma imagem que incetiva e apoia, de maneira carinhosa e leve, mulheres que se masturbam, você fica parecendo um revolucionário revoltoso.

A Carol deu reply na imagem, eu vi, achei incomum e no mesmo segundo repliquei também. Claro que as pessoas ofendidas não se manifestaram, mas elas estavam lá, do outro lado da tela, se sentindo super envergonhadas e incomodadas com um banner gigante na tela dizendo que gente que toca siririca é legal e a gente gosta delas. Alguns dos meus amigos até arriscaram comentários como “Porra, Braz” ou “Ahh, tinha que ser o Braz”, mas na verdade o que todo mundo deveria fazer era dar um like e compartilhar. Só! Assim como o simples fato de um homossexual assumir sua homossexualidade se tornou um ato político e militante, mesmo que o correto seria ser uma coisa banal que não é da conta de ninguém além da dele, colocar-se a favor da liberdade sexual da mulher, que deveria ser uma coisa banal que não é da conta de ninguém além da dela, se tornou uma coisa chocante.

Quando eu vi que o banner só parecia interessante para mim, e não para um monte de outras pessoas envergonhadas, foi que me deu um estalo: ué, tô errado? Acho que não. E dizer “siririca” é o mesmo que dizer “punheta”, que dizer “xana”, “pinto”, “xiririca”, “bilau” e por aí vai. É uma palavra estranha que alguém inventou pra servir de sinônimo popular de uma palavra que a ciência tratou de complicar. MAS-TUR-BA-ÇÃO FE-MI-NI-NA. Prefiro siririca, na boa.

Aí o povo tem vergonha até de LER a palavra, de falar do assunto, como se fosse tabu. Naquelas entrevistas pseudo-sexuais estranhas que veículos estranhos fazem com sub-celebridades estranhas, nunca perguntam pro cara: “Mas então, você bate punheta?” porque a resposta seria um sonoro “CLARO!” e todo mundo já imaginava aquilo. Mas o povo ainda pergunta pra mulher “Você se masturba?” e se ela responde que sim, ela é polêmica (?) se ela responde que não, ela é puritana. Isso parece tão bizarro para mim que fico em dúvida se isso é coisa minha, se eu que tô pensando diferente.

Quem lê as coisas que eu escrevo aqui já deve ter topado com algum texto que fala de uma mulher que se masturba – que toca siririca, pra ficar mais suave – e eu comecei a escrever “cenas” assim depois que percebi que é raridade encontrar gente falando disso como se fosse normal. Porque vamos combinar: É NORMAL! Mas de tanto “as pessoas” acharem que não é, dizerem que não é, ensinarem que não é, a gente acha que não é. E pior: as mocinhas mais novas, nos 10, 12 anos, também acham que não é certo e aí não fazem. E não se masturbar, tanto para homens quanto para mulheres, é uma questão que pode gerar problemas futuros. Problemas que “as pessoas” também insistem que não são importantes, como por exemplo, OR-GAS-MO FE-MI-NI-NO, ou gozo – outra palavra que faz a galera desligar o monitor na hora.

Tem sexólogo falando, tem psicólogo falando, tem mulheres comuns falando, mas o povo ainda recrimina a siririca. Masturbação é um exercício de conhecimento do próprio corpo, isso ajuda – e muito – a mulher, ou o cara, héteros ou homos, a curtirem mais o sexo quando chegar a hora e a se curtirem sozinhos. A mulher se masturba, descobre do que ela gosta mais, onde funciona, onde não funciona e vai ser feliz. Se não tiver com quem ser feliz, vai ser feliz sozinha e fim. Mas aí a gente ensina, direta e indiretamente, que punheta é normal pro garoto, e siririca é errado ao extremo pra menina. Depois abre o jornal e vê estatísticas tristes, tipo “70% das mulheres não atingem o orgasmo em relações sexuais”. CLARO que não é porque ela se masturba que ela vai gozar transando, existem mil coisas a serem consideradas e não é uma formula matemática: siririca = goza no sexo. Mas ajuda, e como ajuda!

Deixar a mulher se masturbar e, mais importante do que isso, incentivar a masturbação feminina, faz parte de criar um mundo onde as mulheres podem decidir sobre o próprio corpo e viverem felizes com eles. Quanto mais mulheres aceitarem a própria imagem e viverem bem com isso, mais homens aceitarão as imagens de suas mulheres e essa cultura do corpo lindão vai se tornar menos importante. Mulheres precisam, merecem e devem ser felizes sexualmente. Sentirem prazer adoidadas. Gozar como loucas. Sozinhas, acompanhadas, em casa, na rua, na chuva, na fazenda ou na casinha de sapê. Siririca não deveria ser uma palavra que gera vergonha, assim como seu significado não deveria ser proibido ou escondido. Não estraguemos as nossas crianças com crenças babacas, opiniões medievais e sentimentos negativos. Viva a siririca!

ps: na página do Memórias Utópicas no facetruque a imagem que foi utilizada para ilustrar este texto é de uma moça chamada Evelyn que atende pelo pseudônimo de “Negahamburguer“. Vale a pena ver o trabalho dela e curtir a visão dela sobre a liberdade do corpo da mulher!

ps2: desculpem as pessoas quem manjam mais do assunto que eu, caso eu tenha falado alguma merda. E desculpem eu bancar a sexóloga frustrada com a  carreira, é que siririca/punheta é coisa séria!

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Aquela mulher!

Eu admirava aquela mulher. Entrava louca na empresa, toda vestida de amarelo, e gritava baixarias para quem quisesse ouvir. Mandava a secretária calar a boca com um simples “vai chupar rola, piranha” e seguia caminhando para dentro dos corredores. Quando passava na frente da sala de reuniões gargalhava alto, abria a porta e dava de frente com uma porção de homens alinhados e vestidos, regularmente, de preto. “E aí seus broxas?” gritava. Alguns riam, outros se sentiam ofendidos escondidos por trás de seus rostos impassíveis. Era a verdadeira dona, a que goza do poder sem limites, a que faz o que quer e paga para ver que vai se opor.

Eu invejava aquela mulher. Usava só uma cor, sempre amarelo, reluzindo nas paredes brancas de todo o andar, com saltos altos, rugas, maquiagem demais e um cabelo amarelo claramente tingido. Era ela, sem dúvidas. Não se escondia, não fazia pose, não queria ser algo que agradaria os demais. Era original do dedão do pé ao último fio de cabelo pintado. Apertava o peitão das meninas que voltavam de férias com silicone e as chamava de “rainha da espanhola”, acariciava os estagiários com rostos mais bonitos e avisava que “se bobear eu ainda sento nessa sua pica fedendo a leite Ninho, seu moleque” e depois saia rindo. Era uma espécie de Dercy Gonçalves dos negócios imobiliários.

Eu respeitava aquela mulher. Depois de fazer seu show de entrada, sentava em sua mesa e fazia ligações em alto e bom som. Fechava contratos mais rápido que qualquer um, tinha grandes ideias, fazia leitura dinâmica em dez jornais de quatro línguas diferentes. Depois ligava para a secretária, que segundo os fofoqueiros, ganhava mais que o vice-presidente da empresa, e a insultava com carinho. “Ei, sua putinha arreganhada, pede pra Neuza do café me trazer uns dez cappuccinos que hoje eu tô de foder!” e a menina, uma morena de pele caramelada que falava baixo e caminhava com as pernas juntas, sorria e providenciava o que era pedido. Dizia-se que o salário alto era para evitar que botasse a chefe no pau, mas alguns diziam que era só faxada e que as duas se davam muito bem, apesar do gênio da velha.

Eu me espelhava naquela mulher. Ela pegava táxi e pagava com boquete, só porque era imoral e proibido. A sociedade não gostava de mulheres de mais de 60 que ainda se sentiam atraentes. Morava em uma cobertura enorme e fazia orgias com garotos de programa sub-20. Chamava outras amigas endinheiradas e, como ela mesma dizia algumas vezes, botavam “as aranhas pra levar vara” durante um final de semana inteiro. Dobrava advogados, juízes, políticos, médicos, artistas, figurões da televisão, concorrentes e qualquer outra figura de poder que se colocasse em seu caminho. Principalmente se fossem homens. Era incisiva, rápida, eficaz e infalível. A verdadeira mulher de sucesso, exemplo para todas as outras moças do escritório e uma ameaça para todos os homens, inclusive eu e meus colegas de setor.

Eu gostava muito daquela mulher. Sonhava com o dia em que poderia conversar com ela sobre negócios, aprender um pouco, absorver sua energia, decifrar sua acidez precisa e me tornar um cara melhor. Mas um dia, por obra do acaso, pegamos o elevador juntos e ao perceber que eu ia para o mesmo andar, me questionou sobre qual o meu setor. “Contábil”, respondi, sorrindo muito e, provavelmente, fazendo cara de babaca. Ela então segurou meu queixo com força, olhou para o meu rosto bem de perto, depois virou minha cabeça de lado, para me olhar de perfil, puxou um catarro acumulado lá no fundo da garganta e escarrou na minha bochecha direita. “Faça essa barba. Sua cara está parecendo o saco de um velho babão!”, gritou, em seguida a porta abriu e ela saiu gritando e insultando outras pessoas. Desde então eu tenho ódio daquela mulher!

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Visita

Era noite, passava das onze, e alguém bateu palmas no portão. Imaginei ser alguém pedindo fora de hora, ou algum dono de um carro pouco competente pedindo um “empurrãozinho” e, por isso, levando em consideração a hora e o frio, ignorei. Mas depois de outras palmas ela gritou meu nome, e meu coração pulou pra fora da boca agitado, como um cachorro vira-latas hiperativo, foi pulando pela casa manchando tudo, parou na ponta e ficou balançando o átrio direito e batendo para mim. Tive que abrir.

“O portão está aberto”, e ela veio, caminhando encolhida, na minha direção. Abri caminho na porta e ela entrou direto, foi até o sofá, sentou-se e me olhou fixamente. Fechei a porta, sentei no outro sofá, do lado, fiquei olhando para o chão e um silêncio ensurdecedor tomou conta do ambiente por alguns minutos. Depois ela espirrou, eu disse “saúde” e junto com o “obrigada”, vieram uma porção de outras palavras, uma encavalada na outra, de uma vez. “Obrigadadesculpaaparecertãotardemaseuprecisavatefalarumascoisas” e depois respirou.

Fiz cara de quem estava prestando atenção e ela começou a dizer, em lista, uma porção de motivos pelos quais ela era mais mulher que as outras mulheres. Dias antes ela tinha aparecido com uma lista semelhante, mas era sobre o quanto ela gostava mais de mim do que as outras. Dessa vez a lista tinha um apelo sexual bem definido, explícito, e beirava a baixaria gratuita. “Porque eu chupo até o fim”, “porque eu gosto de fazer anal”, “porque eu mando bem por cima ou por baixo” eram alguns dos itens da listinha gente fina que ela montou.

Eu estava bem constrangido e assustado no final, mas ainda assim tentei parecer calmo e falar naturalmente. Depois de falar mais algumas coisas sobre não entender a minha posição, não sacar o que é que eu estava esperando, silenciou, me dando espaço para falar. “O que é que você quer?”, perguntei tentando ser o mais gentil possível, com uma voz baixa, calma e lenta. “Quero ser sua mulher!” ela respondeu, firme e rapidamente, quase como uma competição de perguntas e respostas. Expliquei que não era assim que as coisas funcionavam, que não é aparecendo na casa de alguém tarde da noite numa quarta-feira que se conquista um coração.

Ela pediu desculpas pelo horário, mas reafirmou que poderia me fazer o homem mais feliz do mundo. A gente não tinha ficado, nem se beijado, nem se tocado muito. Nosso contato mais íntimo tinha sido um abraço de despedida depois de um encontro com amigos. Mas ela achava que eu não tinha coragem de assumir um suposto amor escondido, só pelo fato de ela ser ex-namorada de um ex-colega de trabalho. “Você diz que não, mas eu sei que você escreve seus textos para mim”, disparou, no meio do silêncio, como o estouro de uma bomba. “Os textos sobre sexo, os que descrevem mulheres gozando, suando, gemendo e arranhando a suas costas, são todos para mim. A mulher que te chupa nos textos sou eu, que dá pra você nas orgias que você escreve sou eu, eu sei que sou eu, você escreve para mim o que não tem coragem de realizar”, e dito isso, levantou-se e começou a tirar a roupa, sem aviso prévio.

Estava vestida com um casaco de frio, bota, um vestido abaixo dos joelhos, uma meia calça e um cachecol. Antes que eu pudesse dizer algo o casaco e o vestido já tinham ido para a casa do caralho em algum lugar da sala e eu, diante de tamanha loucura, fiquei petrificado. Agora era ela de botas, meia calça preta escondendo uma calcinha preta discreta por baixo e um sutiã de uma cor próxima do roxo, mas que eu não consigo descrever muito bem. Desabotoou o sutiã e reparei inevitavelmente na firmeza e consistência do par de peitos que se apresentavam para mim. Não eram muito grandes, mas miraculosamente desafiavam as leis da gravidade apontando para o horizonte sem darem sinais de cansaço.

Quando ela ameaçou vir na minha direção para montar sobre o meu colo levantei rapidamente. Caminhei para trás amedrontado pensando em como fugir daquilo, enquanto ela falava sacanagens, invocava algum ser feroz e violento dentro de mim para comê-la “todinha, de todos os jeitos possíveis” e eu só pensava em como parar aquilo. Dei as costas e fui para a cozinha. Acendi a luz, apanhei uma leiteira bem grande e comecei a encher de água da torneira. Um chá, talvez, acalmasse aquela descontrolada. O reflexo dela atrás de mim, completamente nua, apareceu no vidro do vitrô por sobre a pia e meu reflexo imediato foi apanhar a leiteira e jogar a água sobre ela.

Foi uma cena um pouco ridícula, aquele aguaceiro batendo direto no peito dela, fazendo um som engraçado e depois se esparramando pelo chão. Ela deu um grito, depois achou que eu estava provocando e veio para cima de mim. Grudou a boca na minha enquanto puxava minhas mãos em direção à sua cintura e sua bunda. No meio do desespero empurrei-a com certa violência e ela se afastou. “O que foi? Porra, você não me acha gostosa? Você não me acha bonita? Impossível, todos os caras me desejam!” e antes que pudesse retomar seu ataque eu gritei, talvez bem mais alto que o necessário. “Puta que pariu, você é burra ou o quê? Você ainda não percebeu que eu sou gay? Gay, tipo, totalmente gay, sem dúvidas, sem recaídas, sem fugir da linha. Gay mesmo, de namorar com homem e tal! Você não percebe?”

Ela se ajoelhou, chorou e ali ficou, enquanto eu, mais uma vez, não fazia a menor ideia do que fazer…

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As coisas que pulsam

(esse texto é um exercício fantasiado de texto, ok?)

Em pé, descalça com os pés no chão de madeira, o horizonte das luzes no fundo escuro do céu é o limite. Os cabelos muitos pretos, muito compridos e vivos como cobras, sobrevoam os ombros, as costas e vão para trás a cada nova rajada de vento que entra pela janela. Ela ali, procurando com os olhos uma das luzinhas que faça alguma diferença. Mas não faz. São todas iguais. Sempre iguais. Assim como o vento, os cabelos e os cigarros. E fuma, para ter certeza de que este é exatamente idêntico ao anterior.

É o vigésimo nono, alto pra caralho e, por isso, olhar para o horizonte é um exercício de caça constante. Não se vê a forma das coisas exatamente quando se está nessa altura. Então são só luzes se movendo, construindo um cenário estático tão dinâmico que fica difícil de descrever. Afinal, você nunca percebeu que as luzes dos postes pulsam como as estrelas no céu? Deveria ter percebido isso há alguns anos, no mínimo. Quando você nasceu a iluminação de rua já pulsava firme, amarela, em lâmpadas de mercúrio.

As coisas pulsam para se mostrarem vivas, porque o morto não pulsa, porque não respira, porque não sangra, porque nada é. E se é, só pode ser morto mesmo. A ponta alaranjada do cigarro, que a gente estupidamente chama de brasa, mas não é, pulsa porque, vivo que é, o tabagismo precisa sugar a vida de quem o fuma. As estrelas, clássicas, pulsam porque vivem, simples assim. O coração pulsa porque quer nos manter vivos e os pulmões pulsam porque quer nos manter fumando. Vamos nessa linha de raciocínio e fica difícil aceitar que as luzes da cidade não pulsam. Pulsam porque querem nos cegar, se fosse para ver, de verdade, viveríamos no escuro, com as pupilas dilatadas, vendo os contornos granulados de tudo e todos.

Mas não. Era só uma janela na altura das coxas, num prédio bem alto e com mobílias antigas, com um corpo seco, um rosto quase feio de tão magro, e uma camiseta parecida com uma camisola, sobre um corpo que não vestia mais nada, nem perfume, por baixo. Era um cômodo vazio, só com janelas, paredes e chão, sem móveis nem lâmpada, nem quadros nem outra serventia além da que lhe cabia: ter a melhor vista da cidade. No canto, porém, tinha um cara, um outro rapaz muito magro, tão magro quanto a própria magreza pode ser. Ele fumava com o cigarro no canto da boca e dedilhava um violão com tanta delicadeza que os sons e as notas musicas tinham de se atirar, sozinhas, para fora do instrumento, em direção ao além, pois ele não parecia querer propagar sua música para ninguém.

E a cena era essa, com ela peladássa, com os bicos dos peitos quase rasgando a camiseta(sola), os cabelos malucos voando, ondulados, sem parar por todo o cômodo, com ele sentado no canto, tocando para si mesmo, ouvindo notas que ninguém mais ouvia, e tudo pulsando. O cigarro de ambos, o coração de ambos, o pulmão de ambos, a cidade de ambos, as estrelas de ambos, a vida de ambos, até que chegou a hora de parar. E desligaram a chave, apertaram o botão vermelho, digitaram o código de segurança, ou qualquer outra coisa apocalíptica, e tudo se apagou. A Lua tava com sono, foi dormir cedo, as estrelas foram embora também, os cigarros queimaram até o filtro e a cidade ficou sem energia.

Foi nessa escuridão que tanto ele, quanto ela, perceberam, pela primeira vez, que não estavam sozinhos ali. É que as vezes a gente vê tanta coisa, a vida e as luzes pulsam tanto, que a gente fica cego para o que realmente importa e está perto, fisicamente falando. Foi desse jeito, e por isso, que acabou a cena toda.

Fim, um beijo pra você, leitor(a)!

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