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Ninguém, nem nada

Esperava uma recepção calorosa, cheia de sorrisos, abraços apertados e conversas interessadas. Mas não, porque a volta pra casa é sempre solitária pra quem é sozinho. Não se tem alguém para encontrar em casa, não se tem para quem contar o dia, não se tem para quem pedir o último gole, ou levar um doce como desculpa por ter chegado tarde demais. Não teve recepção nem do cachorro, porque este não existia. Ninguém, nem nada.

O lado ruim de beber, isentando qualquer preocupação com a saúde, é que beber nos faz falar demais, mas a ressaca nos cala a boca como uma morte de aluguel. Simplesmente paramos de falar quando estamos sob efeito da intoxicação alcoólica e, acredite ou não, tudo o que uma pessoa sozinha quer, num momento de desespero, é falar. Mas falar com quem? Falar pra quem? Falar o quê? Não existe um ser humano que consiga responder a estas perguntas. Ninguém, nem nada.

Drum n Bass. Nada de rock. Nada de eletrônicos supertecnológicos cheios de grunhidos. Nada de rap, nem americano, nem canadense, nem inglês. Nem brasileiro. Nada de MPB, nada de coisas figurativas, casinha de sapê, o barquinho, a garota no calçadão da praia. Só um grave, muitos beats, ritmo acelerado e uma porção de paradas bruscas para respirar. Faltava o ar, mas não podia morrer assim. Ninguém ia ficar sabendo e o corpo ia ficar ali, de bobeira, mofando sobre o tapete, sem nenhum choro, nenhum grito de horror, nenhuma pessoa assustada chegando de repente e surpreendendo o presunto ali, estirado. Ninguém, nem nada.

Estava nas paredes. Sempre estão, há anos. Frases e mais frases escritas com pincel atômico e cobertas com tinta salmão, que é pra acalmar o clima do quarto. Estão escritas, todas, debaixo do piso de madeira colado e brilhoso por causa do sinteco. Tá por dentro do travesseiro, atrás dos pontos firmes do edredon, agarradas na sujeira escondida debaixo das teclas deste teclado. As frases estão sempre aqui, sendo ecoadas, repetidas, esquecidas e lembradas. Mas quem escreveu? Quando escreveu? Foram escritas para quem? Não sei, não conheço quem sabe. Ninguém, nem nada.

É aquela falta de amor de Claritromicina. Não o remédio, as pílulas e tal. Mas sim a escritora, que fala do Rio, que fala do povo que chega sem avisar, que vai entrando e depois some como veio, sem querer, sem lembrar. São as constantes faltas de memórias. Mas não aquelas da cabeça, daquelas que a gente lembra mais tarde. Tô falando de coisa séria, tipo as memórias do Sr. Cubas, que tem o mesmo nome que eu, mas se escreve meio diferente, que via borboleta preta, que pensava na morte enquanto ainda estava vivo e depois resolveu pensar na vida quando já estava morto. Ou então, quem sabe, esteja faltando tudo isso. Esteja faltando o veio de ouro, esteja faltando pirâmides e coisas cheias de mistério, enigmas do milênio, todo dia um novo. Talvez esteja faltando utopia, ou memórias utópicas. Mas não há, não existem, porque memórias utópicas são memórias de ninguém. Nem nada.

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O show da Flora que você não viu

– esse é um blog de ficção, mas é sempre bom falar um pouquinho das coisas boas da vida real –

“Máximo respeito, ahhhh gente, o que que é isso? Pode descer todo mundo!” foram as primeiras palavras da Flora, no sábado último, quando entrou no palco do Sesc Santo André. Esse começo provava que a coisa ia ser boa, e você vai entender porque.

Fui com a Ju, minha namorada, e estava sem nenhuma expectativa, nem pra boa, nem pra ruim. Fazia muito tempo que não ouvia as músicas dela, não fiz aquele esquenta pré-show, quando você fica ouvindo todos os sons do artista e chega afinado na hora da apresentação. Só fui, e fui porque eu sabia que ia ser bom, porque não ia estar no meio da muvuca da Virada Cultural, porque era perto de casa, porque era barato (justo), e porque era rap feminino, que pelamordedeus, está representando bem mais que os cuecas da nova geração.

O show foi no teatro e não no espaço de apresentações, onde geralmente rolam as bandas. Quando compramos o ingresso tínhamos em mãos duas cadeiras na fileira J e assim que sentamos, meio longe do palco, comentei que achava surreal estar num show de rap com cadeira numerada, todo mundo sentado e num teatro fechado. Se tratando de Flora Matos, pior ainda, porque quem conhece sabe, a mina não para um segundo. Ela pula, leva os beats no “passinho do black”, tira a blusa, bota a blusa de volta, da o mic pra galera, chama a platéia pra cantar e, de repente, toda essa energia não combinava com o teatro comportadinho onde estávamos.

Apagaram as luzes, Dj Naomi, responsável pelas bases da moça, apareceu no palco com um camisetão amarelo escrito “SNAP IS BACK” e quem sabe quem foi o “SNAP!” sabe que isso é coisa séria. Olhei pra cena e pensei “essa porra vai ser boa!” e no minuto seguinte a responsável por levar aquela galera até ali, numa noite de sábado meio chuvosa, ficou indignada com a compostura refinada da platéia. Mandou todo mundo descer pra boca do palco, ficar de pé, ficar confortável e aí sim, em instantes, comigo e com a Ju já de pé, longe da nossa cadeira comprada, o show de “OperaRap” comportadinho virou o “Show da Flora” do jeito que era pra ser.

Som de qualidade, luzes de qualidade e um palco vazio (leia-se sem banca, sem uma galera invadindo, sem bicão oportunista e, infelizmente, sem Karol Souza e sua cabeleira. Mesmo assim, a MC de brasília com seus, no máximo, 1,60m de altura tomou conta da cena. Cantou uma atrás da outra, emendou duas, chamou a galera, cantou de olho no olho com uma fã afiada nas letras, deu abraço em outra ainda de cima do palco, arrancou assobios e elogios quando tirou o jaquetão preto pra exibir a barriga sarada e o top pequenininho – look que permaneceu na maior parte do show – e quando tudo parecia bom de mais, veio a hora de cantar as músicas novas.

Flora tinha preparado duas canções novas, uma delas, de última hora, e queria medir a reação do público com elas. Porém, o DJ, ainda mais empolgado com as novidades, resolveu soltar um terceiro beat, de uma música tão nova, mas tão nova, que não tem nem nome, nem letra completa ainda. E foi essa que ela cantou primeiro! Daí pra frente o show, que já estava bem intimista (no máximo 150 pessoas no teatro) começou a ficar parecendo “Flora Matos no quintal de casa”. Conversou com o público “E aí, que bom que vocês gostaram desse som novo, ainda não tá terminado”, errou a letra da música nova, pediu pra voltar, a galera aplaudiu a espontaneidade, depois viu que ainda sobrava tempo e quando Naomi soltou o começo de “Esperar o Sol”, que seria a última música do show, ela pediu pra segurar, ainda não era hora.

Diante do silêncio do improviso do cronograma a platéia começou a pedir músicas, faixas antigas, algumas que nem a própria autora lembrava a letra e, de repente, o público estava escolhendo as músicas que a cantora ia tocar. Pauladas como “Pai de Família” ou “Cada Flash um CEP”, que não estavam nos planos de Flora, levantaram os ânimos, as mãos e as vozes do público. Uma garota sentada no fundo, escondida na sombra do teatro apagado, mas com a voz bem nítida, começou a cantar alto, quase aos gritos, os versos da música mesmo antes de as batidas começarem e a artista, diante de uma demonstração clara de admiração, reconheceu que a noite e o momento estavam sendo mais especiais do que se esperava.

Em dado momento, a interação era tanta entre a artista e a platéia do desconcertante teatro, que ela mesma resolveu mandar um recado: “Olha, se tiver algum crítico aí na platéia, eu queria dizer que não é sempre assim não, estamos fazendo isso aqui porque dá tempo. É bom avisar se não depois o cara escreve no jornal ‘O show da mina é uma zona!’ e não é bem isso”, e o público gargalhou confortável. Estávamos mesmo no quintal da casa da Flora, a MC que quebrou a formalidade duas vezes: derrubando as estruturas de um teatro comportadinho e derrubando a barreira invisível, porém muito sólida, entre público e artista.

Esse é o tipo de show que não se vê todo dia. E provavelmente, esse show da Flora você não viu…

se você a conhece, mostra esse texto, fazendo o favor. Agradecido =]

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Fuga: sucesso!

Fugiu porque era a hora, o momento estava ali, a oportunidade se tornou lei e então foi. E diz-se que fugiu porque é mais fácil entender, mas na verdade, só foi, porque não estava sendo procurado por ninguém, se não pela própria vida. Largou a rotina no meio, na quebra do tempo e foi, porque tinha pra onde ir, porque já sabia o destino e então seguiu na direção. Fugiu de si mesmo, talvez, mas diria para todo mundo que estava “indo ali” e voltava logo. Se voltasse, seria logo. Se voltasse. Mas não disse nada porque não precisou.

A pia ainda com louça do dia anterior, a tv ligada e a janela do banheiro aberta. Ficou tudo ali, como estava. A porta trancada por fora, os paços sumindo ao longe e tudo bem. Deixa pra lá, ninguém liga, ninguém paga as contas, não tem que explicar merda alguma. Um metrô, uma mochila, um livro e uma passagem pro ônibus que sai jajá. Ainda é quarta-feira. Uma quarta-feira em fuga, diriam, mas para ele não. Era só uma quarta-feira, daquelas que o coração não acelera, das que ninguém gargalha nem chora. Um dia de nada, pra ir pro nada sem falar nada pra ninguém.

As luzes na rodoviária, as luzes na cidade, as luzes dos cabelos das moças do guichê e as luzes do mundo que mudavam o rumo da história que lia. No livro estava escrito assim: “Eram azuis, eu acho, mas sob o efeito da luz foram escurecendo, verdes, castanhos, pretos. Quando ficaram bem pretos, saí à rua” e interrompeu a leitura para embarcar. As horas estavam ali, no relógio do teto e o tempo não mente para viajantes, um depende do outro o tempo todo. Se não fossem as viagens, para que haveríamos de contar o tempo, não é mesmo?

Poltrona da janela, 40 lugares, 13 passageiros, umas 6 horas de viagem. Depois de sair da cidade a estrada escurece o interior do coletivo ao ponto de apenas os carros no sentido contrário conseguirem iluminar os contornos das várias poltronas vazias. O livro já não era tão necessário, ouviu música para fermentar ideias e, só porque podia, repetiu inúmeras vezes apenas uma única faixa. Ouvia Dd Stewart no sugestivo título de Silly Boy,  com distorção na voz cantando sensualidades e desenhando linhas neon na escuridão da estrada roubando estrelas a cada curva. Viagens.

Três da manhã, desperto de um sono torto e dolorido, os primeiros passos no horizonte, no “B”, depois da linha que saia do ponto “A”. Um endereço num pedaço de papel, um táxi, “R$ 28,50, moço”, um telefonema, “Juro, não é mentira nem piada, avisa que você me conhece e me deixa entrar, eu viajei pra caralho, rs” e o portão moveu-se. Era quinta-feira, mas a madrugada não tem dia. Toda madrugada é o mesmo dia. Todo dia, durante a madrugada, é o ontem e o amanhã, porque o hoje, entre meia-noite e cinco da manhã, não existe. Era alguma coisa entre 3h e 4h da manhã, uma quinta-feira estava vindo, o frio já estava lá e a porta se abriu. Ele nitidamente calmo e contente, ela confusa e sonolenta: “Oi… o que você tá fazendo aqui?”, ela perguntou, com bom humor duvidoso.

A resposta não veio. Mas veio o braço dele ao redor da cintura dela, um beijo inesperado que não encontrou nenhuma resistência e ela, já mole do recém interrompido sono, se deixou acalmar no corpo frio de quem vinha de fora. Era a primeira vez que se beijavam, a primeira vez que falavam assim, na mesma língua. A porta algum espírito fechou, a mochila ficou no chão, o quarto se descolou da casa e a sala tornou-se o mundo. A luz apagou porque tinha que apagar, o telefone ligou, sozinho, para o trabalho e avisou, fingindo voz de doente, que não iria hoje. No escuro bem escuro, deitados no sofá, beijando tão lentamente que pareciam ler um braile alheio, na língua do outro, numa história sem pressa de acabar, evoluindo pra sexo, sono, beijos, sexo, sono, beijos, num ciclo lento, erótico e sensual. Fuga bem sucedida!

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Chora que chora

“Chora que chora, novinha chora!”

Tocava alto no carro ocupado pela lotação máxima permitida. Eu, já meio breaco, repetia a todo instante, quase gritando, na tentativa de superar o volume do rádio, que aquela música era MPB. Eu tinha certeza disso, mas parecia ser o único que pensava assim. Eu pensava nas praias do Rio de Janeiro, pensava em Caetano Veloso, Chico Buarque e Tom Jobim. Aquele funk, naquele momento, com aquelas pessoas, me pareceu extremamente sensível, forte, atual e delicado. Me emocionou. Mesmo!

“Chora que chora, novinha chora!”

Ele disse no ouvido dela “faz um filho comigo” e a gente riu. Uma frase dessas, num contexto diferente, é coisa que mata alguém do coração. Mas não, ali nada mataria ninguém. Tinha sol, tinha vento, tinha amigos, tinha música, tinha bebida e a gente nem se dava conta de que se alguém chamasse de “festa” não haveria como discordar. Mas não era festa. Era um dia comum, como se o que é comum não fosse especial. Era muito especial.

“Chora que chora, novinha chora!”

Não tinha ninguém triste, nem preocupado, nem incomodado com alguma coisa. Eu segurava minha garrafa de cerveja, olhava ao redor, a paisagem deteriorada na mistura de mato com concreto, asfalto e chapas de aço e sorria. Eu sorria largo e às vezes uma frase qualquer, uma brincadeira boba, me fazia gargalhar. Era um daqueles momentos sublimes e raros que a gente tem que parece que o mundo todo ficou mais leve, mais simples de entender e se viver. Eu estava vivendo plenamente ali.

“Chora que chora, novinha chora!”

Me sentia extremamente confortável. Ouvia os versos, a batida que nem existia, a não ser por uma voz em loop que simulava sons de tambor e pensava em violão, acordes sofisticados e vocais macios. Para mim era das melodias mais tranquilas e aceitáveis do mundo. Estava completamente tranquilo com aquela música, como se ouvisse mesmo a trilha sonora do calçadão de Copacabana ou como se dividisse o banco de trás de um carro com Gal Costa quase gorfando e Nara Leão tatuada com um piercing no nariz.

“Chora que chora, novinha chora!”

Eu me apaixonaria o tempo todo, por qualquer coisa ou pessoa, qualquer sorriso ou abraço, qualquer voz ou perfume. Existem estados de felicidade tão abstratos e intensos que acabam por alterar percepções importantes sobre preferências pessoais, princípios, conceitos firmados e opiniões perenes. Qualquer um muda de ideia sobre qualquer assunto quando está mergulhado em alegria, satisfação e calma. A calma transforma o homem.

“Chora que chora, novinha chora!”

Me sussurrava no ouvido os versos de um poema tão banal e bonito quanto a própria vida real. Eu respirava fundo, soltava o ar misturado com gás de cerveja e hálito de cevada enquanto o planeta girava mais lentinho só pro dia não acabar tão rápido. Eu conhecia pedaços de planetas que caiam na Terra e se transformavam em gotas de suor. Eu ria muito, olhava tudo com ares de turista, aproveitava cada sabor e momento e ouvida a música do céu. Vinha do céu de algum lugar que não era ali.

“Chora que chora, novinha chora!”

Sentado na sarjeta fazendo declarações de amor para olhos embriagados me enxergando duplamente, me sentindo animado e deixando explícito que eu queria mesmo estar ali. Abraçaria assassinos, beijaria crianças sujas, dançaria com mulheres gordas e fotografaria com indígenas, mas não tinha coragem de chegar perto de quem eu queria chegar. Eu olhava o corpo dos semelhantes, olhava o rebolado das meninas, as curvas que Deus lhes deu e pensava que ali ninguém chorava. Nem eu, nem as novinhas, nem as velhinhas, nem ninguém.

“Chora que chora, novinha chora!”

Era música popular brasileira! Tinha passinho, caras e bocas, ritmo e objetivo. Eu só queria estar lá: o lugar nenhum com todo mundo!

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