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O corpo da Sensação

Cheguei, cansado, com as malas mais pesadas do que no dia da partida, e atirei tudo ao chão. Sacolas, malas, presentes, fotografias e câmeras, fiquei só comigo, que já peso bastante. Não fiz questão de desfazer as malas para ser prático, mas para libertar os ares que a gente traz de outros lugares. As nossas roupas, nossos objetos, nossas solas de sapatos, trazem coisas de outros lugares. A gente não vê, mas esses ares se agarram a tudo que não é liso e viajam, vêm conosco, mudam completamente o nosso lugar de estar com sua presença invisível, mas inegável. Viajam nos pelos do corpo, também, esses novos ares.

Sentado no tapete, no centro, com as muitas roupas espalhadas ao redor, plásticos, papéis e panos, todos em círculo, comigo no centro, sentado, olhando, deixando que tudo saia de onde tem que sair e se instale onde tem que se instalar. Nunca se deve “bater” ou “limpar” roupas que chegaram de viagem, é uma perda irreparável de espíritos. Sentado ali vi acontecer o que há muito se tornou ritual para mim, mas que pouca gente aproveita: o nascimento de uma nova e colorida Sensação. Ineditismo em forma de corpo.

As pessoas voltam de viagem e a maior preocupação que têm com as roupas é em quando elas voltarão a ficar limpas. Ignorantes seres, somos nós, não? Demorei muito a aprender que, fazendo isso, perdia muito do que poderia me formar como pessoa. Hoje não mais. Hoje sei do surgimento da Sensação. E escrevo em letra maiúscula porque essa sensação é um Ser, é uma coisa, pra não dizer uma pessoa. É um corpo que se materializa de vapores, pequenos grãos de terra, poeira, cheiros e cores. Vai se formando todo colorido, se arredondando e rodopiando no ar, preenchendo um espaço vazio com alguma coisa quase vazia de matéria, mas cheia de significado. É uma Sensação, substantivo feminino, uma moça, um corpo de mulher.

E eu sentado ali, no meio das roupas todas espalhadas, vendo aquele corpo transparente se formar na minha frente e ansioso pelo final. Amarelo, azul, cor de laranja, lilás, preto, branco, cor de rosa, fúcsia, verdes e um monte de outras cores que eu ainda não sei o nome, rodando e crescendo. Estava diante de mim a minha Sensação. A do dia, a da semana, não importa. E ela me abraçou quente, pintando minha camiseta de outras manchas, e sentou-se em frente, na mesma posição. Eu toquei o meio de seu peito, onde deveria haver um coração, e ela fez o mesmo comigo. Nesse momento tudo escureceu de repente, como se apagassem a luz. É o que geralmente acontece.

Fica tudo escuro, preto, na verdade, com os contornos das coisas desenhado em neon e prateados, em torno de espirais coloridas e espécies de bastões, que ficam pelo ar, desenhando formas geométricas de simetria perfeita. Dura alguns minutos e depois, lentamente, as cores vão correndo para dentro das gavetas, dos cantos do quarto, por debaixo da cama e pra dentro dos bolsos das roupas. A mulher de pó e lembranças vai se dissipando, já não imita seus movimentos e vem te abraçar, num gesto de respeito e entrega tão intenso que é possível abraçar de volta e sentir um corpo ali, quente, que tem textura, que tem massa e conteúdo.

E foi o que aconteceu. Fiquei no centro do tapete abraçado a uma Sensação que nasceu depois da minha chegada, fruto das minhas memórias e experiências. Ficamos ali, grudados, trocando calores, por um tempo que não pude precisar e depois desapareceu. No chão, das cores que deveriam ser, todas as roupas sujas. Agora sim, estavam somente sujas. Não dá para confundir sujeira com registros de experiências. Quem vem à minha casa sem avisar encontra meu quarto todo cheio de roupas jogadas, e sapatos pelos cantos e cobertores e lençóis sem formato. É que eu não desperdiço as Sensações que adquiro por aí, pelos dias. Trago todas para casa e as abraço, como quem pede a um amigo que não vá embora. Eu não perco absolutamente nada do que eu vivo.

Você também não deveria perder, veio tudo com você, nos teus cabelos, nos teus pelos e nas tuas roupas…

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No escuro (neon)

No escuro tudo é forma, desenho e suspeita. Não dá para saber quem é quem, o que é tudo, nem onde vai indo a vida que se joga no meio das pessoas. As pistas de dança são perfeitos ringues de batalha de sentidos. Tem cheiro, mas não tem gosto, e tem tato, mas não tem visão e tudo se mistura numa multidão quente e abstrata. A escuridão foi feita para quem quer se encontrar.

A melhor música do mundo da última semana explodindo uma porção de micro partículas de poeira supensas no ar, um monte de gotas de suor voando e evaporando, perdigotos e fios de cabelo saltando em vôo livre em direção ao chão e um sem número de olhares perdidos sem destino certo, procurando um rosto que ainda não conhecem, um sorriso que não receberam, um olhar que não os olhou.

Tem alguém vindo! A multidão se balançando vai adaptando seu formato irregular a alguma coisa que vem se movendo, que atravessa a floresta de gentes e movimentos, que vai abrindo clareira, picadilha no meio de gente bêbada e vem vindo, está indo, estava indo, estava vindo e a encontrou. Não era uma caça, nem uma busca, mas sim o acaso fazendo seu papel, juntando o inusitado com o propício e apresentando o desejo a gente que antes não queria nada de ninguém.

Milhares de casais se juntam assim nas noites de sábado ao redor do mundo. Era sábado, estavam no mundo e estavam juntos. Não tinham nome porque não precisava perguntar, e não tinham amarras porque não precisava ter medo de mais nada. Foi um beijo daqueles que parecem um flash de susto para virarem poeira de imaginação no ar no segundo seguinte. Só que não viraram pó, nem imaginação, nem flash, nem luz. Ficaram grudados, babando de leve, roçando os lábios e as línguas, virando a cabeça de um lado pro outro com os corpos colados. Era um beijo de verdade, daqueles que é difícil de encontrar.

Sem luz, a vida não deu a eles o direito de se verem por inteiro, de perceberem suas linhas de expressão, suas delicadas marcas de vida, seus cabelos, dentes e cílios. A escuridão abraçou o momento de um jeito particular ali, naquele parzinho de gentes especiais se amando como num fim de mundo apocalíptico. Só que chegou o momento em que a matéria venceu o conceito, a imaginação e o absurdo. Precisavam se ver e, lindos como eram, não podiam perder tempo.

De repente o chão ficou macio, cada vez mais sutil e logo depois não havia chão algum. O beijo fazia-os girar lentamente no ar, flutuando a alguns centímetros de onde deveriam estar seus pés e o resto das pessoas, depois de algum tempo, começou a estranhar. O breu tentava esconder que o vôo absurdo era real e as pessoas tentavam desacreditar no que os olhos confirmavam. Ficaram suspensos no ar com as bocas coladas e um sorriso bagunçado perdido no meio das línguas e dos beijos delicados, sucções carinhosas e mordidas sutis.

Ela foi ficando cor de rosa, um rosa translúcido, um tom pink forte, brilhante e nítido rabiscado no corpo escuro, quase preto, que voava na sombra oscilante da multidão. Ele foi ficando azul, cada vez mais cintilante, mais inevitavelmente notável e sua pele fora tomada de um neon ciano difícil de encontrar na natureza. Começaram a brilhar no escuro da multidão, na floresta de gentes, e ninguém conseguia ignorar a beleza daquele encontro.

Era um beijo perfeito iluminado pela energia que sai de dentro da boca das pessoas e pinta o mundo inteiro ao redor de cores fáceis de apagar e serem repintadas, caso queiram. É aquele tipo de arrepio que vem da espinha quando existe mais do que contato físico no beijo com um estranho. Era o casal da perfeição casual, o exemplo da exceção da noite perdida, o absurdo impossível de duas gentes lindas e brilhantes, neon, fluorescentes coloridos e infinitos. Os dois eram o que havia de mais puro no que a gente chama de identificação imediata.

Eles brilhavam no escuro, voavam acima do chão, riam e beijavam um ao outro com a cumplicidade de uma vida inteira conquistada em poucos segundos. Eles eram lindos e eram eu e você!

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