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Boa noite, povo!

Batendo palmas e dançando dentro de um vestido de tecido simples, estampado de flores azuis e amarelas, ela entrou na sala e roubou a atenção de todos. Havia uma luz intensa e nítida ao seu redor, como se algum spot de luz houvesse iluminado a personagem principal de uma peça que acabava de começar. Era ela a personagem. Só que não havia teatro, nem spots, nem mágica. “Em algum lugar, em uma dobra do tempo muito longe daqui, existe uma estrela com o seu nome e ela brilha em contagem regressiva até o dia em que você tomará seu lugar”. Foi o que ela me disse.

Dançava como se estivéssemos em um grande baile, uma festa animadíssima, mas a música que tocava só ela ouvia, a energia da pista de dança só era sentida por suas pernas e os pés, que deslizavam com habilidade, exibiam uma lista de passos decorados que ninguém mais sabia executar. Era uma bronca, essa dança dela! Quem mais estava na sala comigo? Sem perceber, comecei a perder a noção do entorno, como se aos poucos, conforme evoluía no dançar, ela me separasse do resto para dar um recado particular.

Em dado momento passei a me questionar se ela era uma só ou se havia alguma chance de serem duas, doze, duzentas ou número maior. Sentia a presença de muita gente na sala, todos sabendo dançar um ritmo que nunca fora apresentado a mim. As cores do vestido e a leveza do tecido desenhavam cenários surreais, como se fossem mapas de destinos que eu deveria visitar em algum momento entre esse evento inusitado e o fim dos meus dias. Que tipo de medo é o sentimento de não querer saber uma novidade que estão prestes a nos contar? Eu não sabia se queria saber, mas tinha certeza de que aquelas mulheres, aquela mulher, queria ou queriam me dizer algo.

Veio ao meu encontro, me abraçou com braços fortes, me puxou de encontro ao seu peito quente e acolhedor e entrou para dentro dos meus olhos. Eu via o que ela queria me mostrar. Mesmo que fosse de fora, me sentia um observador participante de cenas que nunca ocorreram na minha vida conhecida. Mesas enormes com comidas que nunca provei estavam tomadas de pessoas enormes e importantes vestidas de forma exuberante. Por algum motivo eu sabia que eram importantes. Líderes de alguma coisa? Sábios? Gente que ainda não tinha involuído de alguma forma? Senti uma extrema vontade de sorrir.

“Boa noite, povo!”, eu disse em saudação, sem palavras, porque nesse banquete as conversas se davam de outro jeito. Alguém sem rosto tocou minha testa e então me separei do corpo. Me vi parado olhando para a enorme mesa, a dançarina do vestido florido logo atrás de mim, em uma postura muito semelhante à minha e a cena acontecia sem minha interferência. Ouvi uma música, como um grande coral muito bem ensaiado e senti meu corpo pesar uma tonelada. Desmanchei no chão e senti minha cabeça se chocar contra algo duro e frio. Quando recobrei a consciência ainda eram 10h da manhã e tinha um dia inteiro para viver. O tampo da mesa do trabalho tinha a marca da minha testa. Eu sabia que não tinha sido um sonho e senti vontade de perguntar a mim mesmo onde eu estive. “Você deu um pulo em casa, mas já voltou”, respondi a mim mesmo.

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Suzana

O Túlio acelera o carro e liga o rádio. Estamos um pouco bêbados depois de seis garrafas de cerveja, ele está com a camiseta suja porque babou uma boa parte de uma dose de uísque que pedimos para começar e eu estou com os olhos inertes. A gente não tem o que conversar, é de noite e está chovendo fraco. As luzes se multiplicam nas gostas espalhadas pelo vidro e ele insiste em não ligar o limpador. Odeio a sensação de não conseguir ver o caminho. Abaixo o volume de uma música qualquer que esta tocando e digo a primeira coisa que me vem.

A Suzana não gosta de mim, cara.

Quem falou?

Eu tô dizendo.

Viagem sua…

Não é. E ela não gosta de você também.

O farol fecha e ele segura o volante com a duas mãos olhando longe. Suzana é namorada do Túlio. Uma filha da puta. Loira, peituda, imbecil e filha da puta. E não gosta de mim. Nem eu dela. Não temos assunto, então o ambiente permanece aéreo. Ele conheceu Suzana numa festa do trabalho. Na época ela tinha ido buscar bebida no bar e eles cruzaram o olhar. No dia seguinte já era namoro. A Suzana veio para a nossa turma de amigos pouco tempo depois, quando ele assumiu que gostava dela de verdade. Ela chupou metade dos nossos conhecidos em menos de um mês saindo com a gente. Era deprimente. A Suzana era filha da puta demais.

A Suzana é filha da puta demais, cara.

Não fala isso.

A Suzana é filha da puta e puta demais, cara.

Ele não diz nada. O farol abre e ele sai com calma, dirigindo como se não houvesse destino algum. Aumenta o volume do rádio e está tocando a música nova dos Titãs. Uma merda. A chuva aumenta e a noite parece ainda mais escura. Eu quero fumar um cigarro, mas não dá para abrir a janela e o Túlio não fuma. Um raio acerta o topo de um prédio e, por uma fração de segundo, vemos o edifício todo se iluminar de azul. É “dia dos homens” e, por isso, estamos rodando sozinhos. Não tenho namorada. Suzana não está com Túlio porque está bebendo com umas amigas. Ele disse isso.

Cadê ela?

Disse que ia beber com umas amigas.

Tá.

Tenho certeza de que não é a verdade. Meu amigo deprimido não tem a menor ideia de onde a namorada está. Ele faz uma curva e entra em uma rua congestionada. Há bares e casas noturnas nas duas calçadas e o mundo parece melhor do lado de fora do carro. Penso que Suzana é, provavelmente, a pior coisa que já aconteceu na vida do Túlio e digo isso a ele. Não há qualquer reação. Dez minutos depois estamos completamente travados no meio da rua congestionada com pessoas se divertindo, apesar da chuva, em bares diversos.

A Suzana trai você, cara.

Quem falou?

Eu tô dizendo.

Viagem sua…

Não é. Ela trai você desde sempre.

Por que você tá falando isso?

Porque eu sei.

Ele me olha com uma expressão indecifrável. Um minuto se passa e o trânsito não anda. Quero quebrar o silêncio, mas não consigo pensar em nenhum assunto melhor. Retomo.

Sou seu amigo. Você deveria arranjar alguém melhor que ela.

Não tem ninguém melhor.

Você acha, cara. A Suzana é filha da puta demais.

Como você sabe que ela me trai? Você tem provas?

Olha ali.

Aponto, pela janela do lado dele, um casal sentado em uma mesa na varanda coberta de um bar. Um cara forte está beijando uma garota loira com peitos imensos. É Suzana. Túlio desvia o olhar e volta a fitar o casal no segundo seguinte. O cara aperta os peito direito da moça sem nenhum pudor e sua mão não consegue agarrar tudo. Não existe mão no mundo que consiga pegar o peito inteiro da Suzana de uma vez.

Larga ela, cara. Ela é filha da puta demais.

Não é a Suzana. É parecida.

Caralho, cara… você precisa de alguma coisa melhor na vida. Olha lá.

Ele congela o olhar no carro da frente e as luzes de freio tingem a cena de vermelho. Penso que ele quer explodir, mas nada acontece. O trânsito anda um pouco, ele não reage. Quando penso em dizer algo ele vira o rosto para mim e abre a boca, mas nenhuma palavra sai de dentro dela. Seus olhos estão molhados e seus lábios formam uma figura estranha. Meu amigo chora. Não sei o que fazer e fico olhando para ele. Na cena ao fundo vejo Suzana beijando o pescoço do cara e ele com a mão deslizando por sua coxa até o contorno da bunda. Até um semi-cego conseguiria identificar Suzana ali. Ela é o ser humano mais filho da puta que eu conheço na Terra, nesse momento. Provavelmente não terei chance de conhecer alguém pior durante minha vida. Túlio está me olhando há algum tempo e então fala.

Ela é a mulher que eu amo, cara. Amo de verdade.

Penso que o amor é uma coisa horrível e não deve acontecer para ninguém. Sinto pena. O amor é uma coisa filha da puta e cruel, faz pessoas boas se comportarem como idiotas e elimina qualquer traço de auto-respeito que um ser humano pode ter. Odeio Suzana com todas as minhas forças como se ela fosse alguém que tivesse dado um soco na cara do Túlio em um bar. Eu entraria em uma briga pelo meu amigo. Mas não é uma briga. Não há nada a fazer com mulheres assim, o mundo as ama e as protege, concluo. Mulheres como Suzana. Naquele instante, para mim o amor parece feito só de coisas ruins. Me senti com sorte por não amar ninguém.

A Suzana não gosta de você, cara.

É – ele responde, e no mesmo instante tenho certeza de que mesmo assim ele a pedirá em casamento e será um homem infeliz enquanto for possível.

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Velas para memórias

A janela aberta, um frio absurdo entrando e abraçando tudo no quarto com aquela calma que só o inverno tem, a luz apagada, a cidade acesa como sempre e eu bebendo já o oitavo copo, chorando as mesmas perdas de sempre. As velas escorrendo suas ceras como pedaços de um pano que se forma aos poucos, esparramando ao redor, secos, duros e foscos, como vestidos de noiva que se formam debaixo do fogo. Eu sempre acendo velas para as coisas que não voltam mais. Lembro que quando era criança ficava feliz com o breu da falta de energia no bairro e todo mundo acendia velas para tentar enxergar a casa. Eu sempre achava que a luz podia nunca mais voltar e a ideia me agradava absurdamente.

Hoje acendo velas para coisas como pessoas, fotografias, músicas, cheiros e momentos. Momentos, principalmente. Tenho flashes de coisas que vivi e lamento profundamente por não conseguir fazer com que essas memórias durem mais do que uns poucos segundos. Hoje já estou no décimo primeiro copo e continuo olhando o quarto, a pouca escuridão que as luzes de fora deixam que se forme, meus dedos, minhas mãos e isso me faz ficar pequeno. Sinto uma implosão, como se minhas emoções saíssem pelos olhos, pela pele ou por onde for, e voltassem de volta para dentro. Sinto uma tristeza e uma saudade sem tamanho, sem medida e sem nome. São saudades acumuladas todos esses anos, inclusive de coisas que nem sei direito se são dessa vida ou de outra mais antiga.

Penso sobre como a existência deve ser, coloco uma música do tipo que se ouve durante reflexões assim e sinto o mundo todo se arrepiar, apertado assim como eu, crescendo por trás das paredes, pelo outro lado das janelas, expandindo, vibrando, me mostrando que eu não sou o único com velas acesas essa noite. Todo mundo, no escuro e sozinho, tem coisas a sentir falta, a rezar por, a desejar de volta. De tempos em tempos decido abrir as garrafas da casa e me jogar num poço de lembranças que insistem em passar rápido demais durante a queda. Queda livre nas próprias imagens pode matar, sabia? Ainda mais assim, já no décimo terceiro copo e sem sono algum.

Então, quando vem o refrão, forte, gordo e intenso eu me deixo cair de joelhos no tapete, sinto a dor do impacto e penso vagamente no barulho que deve ter feito no andar de baixo. Tenho vontade de sussurrar músicas que não sei a letra, confessar segredos a anjos desempregados, beijar estátuas, abraçar sombras e dormir agarrado a um monte de vidas que já passaram, minutos que escorreram e horas que já foram deitar. Acender velas para lembranças no escuro é chamá-las de volta, todas, num grito só, num eco longo e agudo, como se a cada prece, cada pequena frase antiga dita, uma carta chegasse a um momento que ficou no passado o convidando para um jantar no presente. Não sei se a comida vai dar pra todo mundo, mas bebida sempre tem. Já é meu décimo sexto copo e eu estou só começando. Tem tanta coisa pra lembrar…

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Trem da madrugada

Era noite, eu já estava viajando há doze anos e o trem acabava de partir. Tem um grande erro na nossa cabeça quando imaginamos viagens de trem sem nunca ter efetivamente viajado sobre trilhos: as cabines. A gente vê nos filmes aqueles trens com cabines e portinhas fechadas, mas a verdade é que hoje esses trens são minoria. O comum é viajar em vagões com cadeiras um pouco mais confortáveis do que as de trens normais, mas só um pouco, e sem divisórias entre passageiros. O trem moderno é como um avião grudado no chão. Eu lembro que a ferrovia seguia por cima de uma ponte muito alta e lá em baixo passava um rio. Ao redor do rio as casinhas acesas, alguns barcos, a vida acontecendo e eu assistindo.

O ser humano, seja quem for, se transforma em um diretor de cinema fazendo um vídeo-clipe da própria vida no momento em que dá de cara com uma janela, movimento, o próprio reflexo lá fora e alguma música. Meu ipod estava carregado e preparado para as próximas seis horas de viagem, eu imaginava um filme viral mostrando a minha viagem com muitos ângulos difíceis e modernos. Na verdade, tirando a música e a imaginação, somos só nós fitando a noite sem ter mais nada pra dizer. Ninguém viajava ao meu lado, nem à minha frente, de modo que apoiei as pernas na cadeira vazia e tentei relaxar. Viajar sozinho nos traz uma sensação estranha de extrema liberdade e e claustrofobia, como se, de repente, essa liberdade tivesse nos feito achar o mundo pequeno demais para todos os planos que ainda temos a cumprir.

As luzes apagaram, acho que já passava das onze da noite e tive a estranha sensação de estar vivendo algo importante. Via como se o trem fosse uma linha longa e preta cortando a própria escuridão. Eu fazia parte daquilo e estar sentado naquele vagão quase vazio me fazia sentir responsável por alguma coisa, como se fosse necessário explicar a beleza do escuro viajando por dentro do breu, cheio de gente dormindo, jantando e sonhando dentro dele. Esse escuro, sólido e barulhento, me levava para uma cidade onde as coisas estavam ficando complicadas. Ao menos para mim. Eu achava, naquele momento, que era uma grande coisa estar num trem apagado viajando durante a noite, mas na verdade era uma banalidade sem fim. Todos os dias três locomotivas diferentes levando centenas de passageiros em seus vagões faziam o mesmo trajeto noturno. Eu estava tentando romantizar a coisa mais simples do planeta: andar de trem.

Só que fazia isso porque realmente queria que fosse algo épico. Queria chegar do outro lado transformado, como quem renasce ou surge sabendo mais coisas do que sabia antes de partir. Um dia saí para pedalar, estava inspirado, tinha acabado de assistir Forrest Gump e queria ver o que tinha além dos lugares onde eu costumava ir. Depois voltei para casa e desejei crescer rápido para poder viajar, ter a vista que eu quisesse e ver o mundo como ele é do outro lado. Dei um beijo na minha mãe, acenei para o meu pai e saí para trabalhar. Eu tinha pedido demissão dois dias antes. Apanhei a mala na garagem, escondida debaixo de uma toalha velha e fui para a casa da minha namorada. Fizemos sexo, ficamos deitados a tarde toda e eu disse que ia voltar para casa. Nos beijamos sem amor e eu fui para a rodoviária. Peguei um ônibus, outro, peguei carona, corri algum tempo, aliviei o peso da mala, troquei por uma mochila, morei em alguns lugares, passei a viver com outras pessoas, conheci uma moça que me deu dinheiro pelo simples motivo de ter me achado simpático, vi alguns países, conheci algumas línguas, tive a chance de morrer uma centena de vezes e depois entrei naquele trem para voltar para casa. Era noite, eu estava com medo, o vagão estava escuro e eu não tinha mais para onde ir.

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Pós-festa

As paredes com marcas de mãos sujas, o chão grudento e encardido, mesmo nas partes onde havia carpete no lugar de piso. Os copos de plástico jogados pelo jardim e pela sacada, garrafas boiando na piscina e pedaços de papel impossíveis jogados por todos os cantos. Tinham rasgado a cortininha da janela da cozinha e uma das cadeiras estava só com três pernas. A quarta, pelo estado pontiagudo da madeira, tinha sido arrancada com violência. Na árvore, quase como uma cena de filme adolescente americano, uns dez rolos de papel higiênico se cruzavam e enrolavam nas folhas. Eu não fazia a menor ideia de como faria para limpar aquilo, nem de onde tinha saído tanto papel. Será que as pessoas levam rolos de papel nas bolsas e mochilas quando vão para alguma festa, só para o caso de ter uma árvore dando sopa por perto?

A sala estava fedendo a vinho azedo. O tapete estava manchado de amarelo na ponta e, pelo cheiro, estava mais para vômito do que para bebida. O sofá estava ligeiramente deslocado do eixo e uma porção de copos e garrafinhas de vidro ocupavam os móveis, a estante, o entorno da televisão e uma parte do chão. O lavabo de baixo tinha vômito pra todo lado. Alguém passou bastante dos limites e conseguiu vomitar próximo ao teto ao redor do batente da porta, pelo lado de dentro. Se não fosse minha casa eu daria parabéns pela façanha. A pia estava tomada por uma pasta cor de salmão, seca, fosca e fedorenta. A privada não estava muito diferente e o chão de piso branco parecia ter sido frequentado por alguém carregando um pincel de tinta preta pingando sem parar. Como as pessoas conseguem sujar tanto os sapatos em uma festa?

Subindo as escadas os pés disputavam espaços nos degraus com copos e garrafas. No topo havia um frasco de perfume vazio, aquilo me perturbou um pouco, mesmo sem saber o motivo. O corredor repetia o roteiro de garrafas, frascos, copos, latas, coisas que sujam, mãos pretas nas paredes e líquidos sem identidade absorvidos e espalhados por todos os lados. O quarto dos meus pais não abriu quando forcei a maçaneta: bom sinal. Achei que nem estando trancado ele seria poupado. O banheiro do corredor de cima estava um pouco melhor que o de baixo. Estava sujo, bagunçado e a porta de plástico duro do box estava com uma rachadura enorme, mas não fedia a vômito. A tampa da privada estava torta e o cesto de lixo estava povoado por uma montanha de papéis, além de umas três ou quatro camisinhas. Sexo no banheiro da festa, que original. Uma das camisinhas no lixo era vermelha, estava amarrada na boca e eu fiquei pensando: quem, hoje em dia, ainda se preocupa em dar o nó para a camisinha não vazar no lixo? E quem é que comprava camisinha com sabor? Afinal, ainda tinha gente que chupava os outros com camisinha?

No final do corredor meu quarto estava do jeito que eu deixei quando acordei. A cama meio bagunçada, as persianas fechadas desenhando listras perfeitas no chão e os objetos mais ou menos no lugar. Meu quarto se salvou da destruição em massa que o resto da casa enfrentou na noite anterior. Saiu quase ileso, na verdade. O jardim, com um pouco de música, um bom café da manhã e disposição eu conseguiria limpar em umas três horas. A cozinha, em um pouco menos de tempo. A sala e o banheiro, com dedicação, não levariam nem sequer uma hora. Recolher os copos e garrafas levaria uns trinta minutos, no máximo, e as tapeçarias e coisas quebradas eram facilmente laváveis na lavandeira da esquina ou trocáveis, sem grandes gastos. Eu conseguiria arrumar a casa inteira com uma dose extra de força de vontade, mas não fazia a menor ideia de onde eu ia tirar coragem de lavar o cheiro do seu perfume que ficou impregnado no meu travesseiro. Essa questão eu ainda não resolvi.

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Pequenas Alegrias Coletivas

Tenho o costume de saber valorizar os momentos e seus significados na minha vida, mas nem sempre conto para as pessoas que estão dividindo essas cenas comigo o quão feliz eu estou por estar ali. São coisas simples, tão simples que beiram o bobo, o banal, mas são dessas coisas que são feitos os dias bons. São detalhes açucarados, coisas sem importância pra quase ninguém, mas eu guardo e estimo esses momentos como se tivessem peso de ouro. São o que eu chamo de “PAC”, Pequenas Alegrias Coletivas. Eu sou um cara meio coletivo, gosto das coisas com os outros. Valorizo meus momentos e minhas criações solitárias, mas em geral gosto de estar com alguém, ou muitas pessoas, fazendo qualquer coisa. Trabalho em equipe!

Esses momentos geralmente não são compostos por muitas pessoas. Na verdade, quase todos são compostos por apenas mais uma pessoa, mas são bons. Por exemplo, quando eu encontro o Boca no trem e a gente não fala sobre nada. Fala sobre os amigos que sumiram, os amigos que reapareceram, sobre festas, sobre coisas que fizemos. Conversas banais, mas que têm um valor inestimável, mudam o meu dia. É como quando eu encontrava a Ana no metrô. A gente conversava sobre tudo, sempre ríamos altíssimo, todo mundo ficava prestando atenção nos nossos assuntos, eram sempre histórias engraçadas, lembranças filhas da puta da vida de alguém. Eu me divertia muito falando sobre nada com ela, assim como valorizo muito minhas conversas sobre nada com o Boca.

Muita gente me diz pra mudar pra São Paulo, morar mais perto do trabalho, mas um dos grandes motivos que me fazem continuar em Santo André é justamente a necessidade de pegar trem e metrô. Pode parecer contraditório, mas eu adoro esse trajeto. E as conversas são mais um motivo para continuar gostando. Curto muito quando encontro, bem raramente, o Fernando, e a gente vai conversando sobre fotografia, sobre trabalho, sobre viagens e quando vê a estação já chegou. Ele é um grande amigo, alguém que eu gostaria de encontrar mais, mas é isso que faz dessas conversas breves e esporádicas momentos tão valiosos. Gosto quando encontro a Natália e a gente vem conversando sobre azulejo com pintura hidráulica, restaurações de igreja, coisas bonitas construídas pelo mundo e tudo que a minha curiosidade em arquitetura possa me fazer perguntar e ela, pacientemente como sempre, responder.

Mas minha alegria não se restringe só ao metrô. Gosto quando tem reunião de negócios com meus amigos. É fantástico ter como sócios seus amigos, trabalhar parece festa. E gosto quando as reuniões são na casa da Laila, com narguile, cerveja e grandes ideias. Depois pego carona com o Gui ouvindo músicas em alta velocidade com o vento frio da noite se jogando pela janela. Gosto de andar de carro falando sobre um futuro bacana que a gente está projetando para o nosso negócio e isso realmente vale muito para mim. Gosto das conversas sobre teoria da conspiração na hora do almoço aqui no trabalho. Sinto prazer e saber que a gente não sabe de nada, que o depois da vida é tão X quando o antes dela e que existem outras pessoas tão interessadas quanto eu em saber o que é que tem quando chega o outro lado de lá. Me faz feliz.

Gosto quando a Juliana vem me buscar no trabalho. Parece que só de saber que ela está chegando metade do meu cansaço já vai embora. Temos criado rituais de valor em torno de coisas que a gente gosta de fazer e isso faz com que cada vez mais sejam memoráveis os nossos programas. Mas acho que a minha grande pequena alegria é quando a gente não faz nada, simplesmente nada e fica em casa juntos só pra ficar, só pra ver se alguém tem uma ideia melhor, mas nunca tem. Não é preciso um grande script para ser feliz com ela. Transportei isso para os meus dias e hoje vivo colecionando grandes alegrias em momentos em que as outras pessoas estão simplesmente vivendo, sem nada de muito mais significativo que isso.

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Skinny Love

Ela dançando na sala, as luzes apagadas e o abajour do canto iluminando só os contornos dos móveis. Poucos móveis porque sempre gostei de andar pelos cômodos, gosto de passar pelos lugares e sentir os pés tocando cada pedaço de chão da casa, então não perdi tempo comprando tapetes, aparadores, mesinhas e coisas do gênero, que na verdade só servem para atrapalhar o caminho. Um sofá comprido, pra uns 10 lugares, tomando conta do canto da sala. Na ponta, um abajour de tripé, na parede três linhas de prateleiras com quadros, fotos e livros. No chão um móvel com um aparelho de som e algumas esculturas sem importância. Na parede oposta à do sofá, duas poltronas marrons de tecido macio olhavam para a varanda, enquanto, nas costas delas, duas cadeiras pretas pintadas com tinta fosca olhavam para o centro da sala vazio e reluzente. Ali estava ela.

Dançava com as pernas juntas, balançava a cintura de um lado para o outro, dobrava os joelhos delicadamente e fazia movimentos aéreos com os braços ao redor do corpo, enquanto movia a cabeça em trancos ríspidos fazendo a cabeleira flutuar no ar. Sentado em uma das cadeiras, ocupando uma das mãos com um copo generoso, assistia àquela dança sensualmente hipnotizante como se fosse um evento sobrenatural. Não parecia sensato ou mesmo possível que alguém tivesse aquele corpo. Na sombra amarronzada misturada com o brilho amarelo da luz uma porção de curvas inéditas se apresentava em movimentos curtos, contidos e perturbadores. “Slide, slide, slide … lose yourself to dance”, dizia a música que tocava, e ela deslizava pelo chão de cimento queimado liso, vestindo apenas meias pretas que se seguravam folgadamente às suas coxas.

Os cabelos eram compridos e lisos, vivos, balançando de um lado para o outro, quase com vida própria, e ela sorria – eu ao menos imaginava que sorria, já que não via muito bem seu rosto – enquanto dançava perdidamente pela minha sala. Eu bebia a goles curtos e suaves, sem descolar os olhos e observando as curvas. Mais do que curvas, eu observava a sombra que elas formavam, os contornos e os desenhos que produziam naquele corpo inédito. Essa é a melhor palavra para definir o corpo daquela garota: inédito. Eu nunca vira alguém com um corpo daqueles sem roupa ao vivo. Só em fotos de revistas, coisas de internet e afins, mas na vida real não havia encontrado nada parecido. Depois ela veio roçar as pernas duras em minhas coxas e sentar no meu colo, inesperadamente pesando menos que uma pluma. Eu passava o copo gelado pelo meio de suas costas e sentia sua pele se arrepiar por inteiro, dos pés à cabeça, enquanto ela passava a língua atrás da minha orelha.

No dia seguinte acordei sem me lembrar que estava acompanhado. Apenas ao olhar para o cabelão misturado com o lençol foi que me recordei da dança, dos copos, do sexo, dos gritos, das risadas, da sacada, da mesa da cozinha, das acrobacias e todo o resto. Tinha sido uma noite muito louca, para definir o mínimo. Ela dormia calma, respirando lentamente e eu, agora amparado pela luz do dia, olhava hipnotizado para seu corpo. Uma menina de 20 e poucos anos, um rosto lindo e delicado, um braço rebelde tatuado quase até o cotovelo e um corpo raro, de formas difíceis de encontrar e mais ainda de manter. Tomei banho e quando voltei ela estava se vestindo, deixando claro que as roupas lhe sobravam em muitos dedos por todos os lados do corpo. Ela me sorriu um riso tímido e eu retribuí na mesma medida. Era a garota mais magra que eu já tinha visto na vida.

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E se a gente saísse numa aventura?

E se a gente não voltasse mais pra casa? E se a gente pegasse seu carro e fosse dirigindo pra longe, pra qualquer lugar, passar uns dias, até o dinheiro acabar, até alguém achar que a gente não tem o direito de ficar longe tanto tempo? E se a gente vivesse de luares estrelados, noites congelantes, música mixadas pelo Saux, sexo no banco de trás, comida congelada e motéis de beira de estrada? E se a gente pudesse ficar horas e horas abraçados, trocando calor e frio, suando um sobre o outro e sentindo as gotas escorrendo pela pele, trocando cheiros e texturas, respirando e comendo sal durante um sem número de horas?

E se depois disso pudéssemos voltar no tempo, viver no tempo em que o inverno era frio, o verão era calor, os carros faziam barulho de motor e as pessoas eram magras comendo óleo e tomando refrigerante com mais açúcar que água? E se você, de repente, tivesse permanente no cabelo, usasse um lenço no pescoço, tivesse calças brilhantes e lingeries sem bojo ou armação, de tecido cintilante e macio? E se a gente se perdesse no meio da pista como n’Os Embalos de Sábado à Noite, fazendo passinhos, ditando moda, sendo mais incríveis do que qualquer casal?

E se, então, a gente não fugisse no seu carro, mas pegasse um ônibus para ir ver o mar? E se a gente comprasse passagens para o turno da noite e cruzasse o estado num Cometa velho, com bancos de couro macios e barulhentos, desejando um mar mais ao sul, mais frio, de areia mais fofa e úmida? E se a gente fosse para o Rio Grande do Sul, de cabelos oxigenados, roupas simples, pedindo emprego em fazendas cheias de vacas leiteiras e finais de tarde cinematográficos por detrás das montanhas? E se a gente vivesse numa cabana, comendo, bebendo vinho, transando debaixo de cobertores peludos e pesados, gastando mais tempo no pós-coito do que nas preliminares?

Mas e se a gente simplesmente sair por aí, vivendo de excessos, de balada em balada, bebedeira em bebedeira, de ressaca em ressaca, até o corpo pedir arrego? A gente podia viver três dias sem dormir, indo a todas as festas, visitando amigos, usando drogas, bebendo em larga escala e pulando de táxi em táxi, metrô em metrô, balcão em balcão, não podia? E se a gente comprar umas roupas bonitas e tentar entrar de bico nas festas de gente famosa, sair na Caras, na Quem, no Ego, na TiTiTi, no TV Fama, ser entrevistado pelo Pânico! e depois rir de todos eles com nosso olhar alucinado de cocaína e vodca?

Ou então, quem sabe, você poderia ficar. E se você decidisse simplesmente não ir embora? E se você ficasse essa noite, sem excessos, sem contos de fada, sem odisseias hollywoodianas, nem maratonas sexuais, nem campeonatos etílicos ou de entorpecentes. Só uma noite tranquila juntos, ouvindo o som dos carros lá embaixo, ouvindo o som metálico das estrelas e sentindo a briza fresca da noite entrar pela janela do quarto e escapar pela porta da sacada, na sala. A gente pode tomar qualquer coisa, até água, pode comer qualquer coisa, até bolacha sem recheio, pode ficar só juntos, sem falar, sem planejar nada, só trocando ondas, pensamentos e sentindo um a presença do outro. Isso, sem dúvida, seria minha maior aventura com você!

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Amores de festa de sábado à noite

Estava quente no quarto, era domingo, daqueles domingos que não têm absolutamente nada de especial, que o céu está azul e ensolarado, mas ninguém quer ir ao parque, nem tomar um sorvete, nem dar uma volta de bicicleta, nem nenhum clichê de domingo. Mais ou menos uma da tarde, por aí, uma cama de solteiro insuficiente para os dois, insuficiente até mesmo para um solteiro sozinho, e o calor visceral do ar, do sol e dos corpos semi-suados tentando dormir grudados naquele bafo sufocante.

Nenhum carinho, nenhum beijo de “bom dia meu amor”, nada. Não era amor, não era especial, não era nada demais. Ele passou por cima dela como se pulasse uma mureta, caminhou até o banheiro e por instinto fechou a porta à chave. O rosto no espelho, inchado, amassado, com olheiras e sem brilho. Água, muita água, água sem parar, um oceano de água doce da torneira para as mãos, das mãos para o rosto, do rosto para o espírito e do espírito para o ralo seco da pia. Escovou os dentes, olhou-se no espelho e gostou da nova cara: “bom dia!” disse, sorrindo para si e voltando para o quarto.

Ela estava acordada, com as costas oferecidas ao teto, os cabelos esparramados pelo travesseiro e vermelha. Gente de pele clara geralmente fica vermelha. Mesmo usando apenas calcinha, parecia estar tomada por um calor insolúvel e imutável. Sorriu para ele. Ele sorriu para ela e se beijaram comedidamente. Ele, com gosto de menta, ela, com gosto de guarda-chuva velho. É o mal de beijar pessoas recém acordadas. O encanto do “amanhecer ao teu lado” é aniquilado pelo cheio de podre da boca de quem bebeu, fumou, se drogou e dormiu logo em seguida. Ele tinha fumado, bebido, se drogado mais e dormido logo em seguida, mas acordou mais cedo e por isso não fedia mais. Nessas situações, dignidade é um sinônimo para gente limpa e saudável.

Ele se deitou sobre ela, com todo seu peso, com todos os seus ossos, músculos, pesos, pelos e poros. Passou a mão por baixo de seus ombros e agarrou com força os peitos dela, comprimidos contra o colchão, amassados como sua cara, como seus cabelos, como sua aparência toda. “Não, primeiro eu preciso tomar banho”, ela disse, e ele respeitou, a contra gosto, o senso de higiene mínima da moça. Balançando suas curvas suaves de mulher fora dos padrões de revista, segura e sensual, se jogou para dentro do banheiro como se fosse o seu próprio quarto. A cama de solteiro vazia e úmida, com o lençol todo amassado, vítima de uma noite de sono sem sexo, sem ações, sem emoção alguma. Drogados, bêbados e fodidos. Mortos. Deitados em uma cama, quase pelados, quase transando, quase gozando, mas só dormindo, recuperando vidas passadas em pesadelos péssimos.

Depois do banho ela saiu sem roupa. Já estava sem roupa antes, mas a ausência da calcinha dava um tom quase fraternal à cena. É estranho ver alguém pelado de cara, sem cerimônias, quando não foi você que tirou nenhuma das peças de roupa. Fica quase banal, nada sexy, nada erótico, só diário e simples. Mas ela foi na direção dele, meio seca, meio molhada, com os cabelos grudados na nuca, e durante alguns minutos se contentaram em apenas beijar o outro. Um beijo de verdade, sentindo o profundo gosto de pasta de dente, de boca quente com ar gelado, com ela acariciando os cabelos dele, com ele deslizando a mão pelos pontos molhados nas costas dela.

Daí, transaram um monte. Primeiro na cama, depois no chão, depois na sacada, depois no chuveiro de novo. Ele se cansou na segunda, ela foi quem forçou as outras duas. Homem quando não quer demora horas pra gozar e ela estava interessada nessa persistência, no martírio, naquela ardência que dá quando o sexo já passou do limite do saudável e normal, no quase sofrimento. Ela queria a câimbra, queria o suor abundante, a boca seca, a garganta arranhada dos gritos, dos urros, os dentes frios da boca ofegante e a pele toda vermelha, arranhada, estapeada, friccionada, gasta até o fim. Era já o fim da tarde, cinco, seis, sete horas. Céu escuro, fome aguda, bagunça instalada, desidratação suave. Eles deitaram mortos vivos de olho no teto sem dizerem mais nenhuma palavra. Coisa normal desses amores de festas de sábado à noite.

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EU A QUERIA MAIS QUE TUDO NO MUNDO (PARTE 2)

Demorei alguns segundos para perceber que estava tocando uma música. Ela tinha ligado o celular em alguma espécie de caixa de som high-tech que eu tinha achado que era um banco no chão. Largou as roupas todas pelo chão, estirou os pés sobre a mesinha de centro e ficou dançando como quem está sozinho no último lugar do mundo antes do apocalipse. Ela queria que eu a visse, mas não queria se sentir observada. “Dance como se ninguém estivesse olhando” eu pensei, tentando traduzir os olhos fechados dela, os braços pairando descontrolados no ar e os cabelos estapeando o rosto por todos os lados. Mesmo estando completamente nua a cena parecia muito mais sensual pelos movimentos do que pela falta de roupas. Ela parecia gostar mais do próprio corpo do que qualquer homem que um dia – inclusive eu – tivesse admirado seus formatos.

Ela, vez em quando, me olhada e sorria, enquanto eu continuava paralisado de pé, de costas para a janela gigante, olhando um absurdo de mulher dançar para mim. Em determinado momento ela desceu da mesa, envolveu meu pescoço com delicadeza usando os longos e longilíneos braços que tinha, enquanto me beijava com calma e calor, fazendo, pela primeira vez, o tesão vencer a embriagues. Depois do beijo ela pegou minha mão e me guiou até uma espécie de poltrona grande e sem braços. Me mandou abrir as pernas, ficou em pé na minha frente e me ordenou que a tocasse. “Me alisa!”, ela disse, imperativa e simples assim. Eu corria os dedos pela curva firme e infinita de sua cintura, desenhava o contorno de seu umbigo seco e tímido perdido numa imensidão chapada de uma barriga em forma de tábua. Ela era uma sombra escura e sensual se arrepiando com a minha exploração minuciosa e, com um pouco de atenção, eu podia ver a pelugem quase invisível que cobria toda sua pele se arrepiar.

Depois de algum tempo passeando com as mãos por seu corpo, ela se virou, sentou-se em meu colo com as costas pesadamente coladas em meu peito e, agarrada às minhas duas mãos, guiou-me pelos lugares em seu corpo que eu não podia ver. “Me faz gozar!”, ordenou novamente, enquanto apertava uma de minhas mão em um dos seios, guiando a outra para o meio das coxas abertas e apoiadas sobre os meus joelhos. Era um jogo. Demorei a perceber porque estava bêbado demais, perdido demais na escuridão do apartamento que só me mostrava contornos iluminados pela cidade além do vitrô imenso da parede oposta. Não precisava, mas fiz questão de fechar os olhos para sentir com as mãos o que, de qualquer maneira, eu não teria como ver. Ela ofegava se movimentando descontroladamente, arranhando meus braços e me dando sinais do que fazer para cumprir a ordem que me fora dada. Eu tinha de fazê-la gozar.

Um grito, uma súbita contração dos músculos e a mulher que se oferecia ao além no meu colo agora fechava-se rumo ao seu próprio centro, enquanto eu ouvia sua voz e seus gemidos saírem de uma boca de dentes cerrados com força. Levantou-se mole e me chamou para levantar junto. Sem perguntar nada ou avisar, puxou minha camiseta para fora do corpo, abriu minha calça, abriu o zíper da minha calça, tirou qualquer pano que pudesse me cobrir e ficou um tempo me olhando. Me olhava como quem mata curiosidade, como quem lê uma notícia importante. Eram olhos de “humm, é assim que você se parece!” e por alguns instantes me senti extremamente invadido. Ao contrário dela, ser observado sem pudor não me deixava excitado.

Nos beijamos durante algum tempo, trocando carícias delicadas e lentas. São momentos como esse que mostram que a vida é feita para degustar, e não simplesmente engolir. Eu sentia sua respiração quente, suas mãos lisas percorrendo meus braços, seus pelos pubianos roçando em mim e não tinha nenhuma pressa de passar para qualquer outro tipo de contato. “Eu sempre quis fazer isso”, sussurrou em meu ouvido, antes de desgrudar de mim e caminhar para a janela. Abriu as duas lâminas de vidro para os lados, deixando entrar uma rajada mortal de vento gelado no apartamento. Com os vidros abertos a cidade continuava silenciosa, com seus sons feios de buzinas e pessoas abafados pelo com do vento violento. A visão dela debruçada na janela olhando o horizonte se misturava com a própria cidade iluminada e, sem querer, me senti com sorte e feliz: eram duas versões do paraíso, cada uma com seu brilho.

Ela me olhou por cima dos ombros, sem se virar, e me chamou para me juntar a ela. “Eu sempre quis fazer isso, mas pensando bem, só faria sentido fazer isso com você. Você dá valor pras coisas importantes!”, disse. Eu não fazia a menor ideia do que ela queria dizer, nem do que era o “isso” a que ela se referia. Mais uma vez sem avisar, mantendo sua postura submissamente controladora, ajoelhou-se no chão de frente para mim, se colocando entre mim e a visão da noite mais impressionante que eu já tivera na vida. “Esquece de mim, pode se perder”, e decidiu que seria dessa maneira que terminaríamos a noite. Eu me segurava no parapeito e perdia o olhar no horizonte, vendo luzes amarelas pegando fogo, flashes estourando em todas as direções, contornos e linhas disformes no além e um conteúdo de caixas pretas e altas perdendo o foco, enquanto ela sugava de dentro de mim, lenta e antropofagicamente, qualquer coisa que ela julgava muito importante para que aquele momento desse certo. Eu nunca mais me recuperei daquela noite e antes mesmo de entender, eu já estava acordando largado no sofá da sala, com ela me olhando da janela, sorrindo e me dizendo que tinha acabado. “A gente não tem mais nada pra fazer um com o outro…”, e eu não pude nem contra argumentar.

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