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Eu vou mudar a sua vida!

A porta abre e ele vem na minha direção com o olhar voraz de uma serpente. Se esgueira pelos cantos, atravessa o corredor ladeando os batentes de porta e a moldura da janela e não para mais. Quando chega ao quarto eu já estou no chão, mole, entregue, com as meias pinicando e o cabelo sem formato. Nunca conheci um homem que me fizesse sentir dessa maneira, uma intensidade absurda, a vontade de gritar antes do primeiro beijo, a tremedeira sem controle, os arrepios que duram meses. Troquei meu medo da morte pelo medo que sinto quando ele chega. É uma sensação tão animal, tão primitiva e tão clara que nunca fui capaz de saber o que me amedronta. O medo que sinto dele já nasceu comigo, ou talvez antes de mim.

Às vezes, quando eu desperto durante a madrugada enquanto ele dorme, abro a porta do quarto e vou para fora ver o céu. Sempre que a gente transa eu fico com vontade de ver o céu, olhar as estrelas, a lua, respirar o vento frio da noite. Até hoje, com ele, tenho orgasmos em forma de galáxias e sinto como se minha alma estivesse mordendo alguém. Almas são capazes disso? A vida parece pequena perto de toda a intensidade que ele me traz. Meus poros se abrem a ponto de fazer minha pele arder e eu suo ofegante do começo ao fim, me sentindo esgotada e vazia durante horas. Ele leva embora algo de dentro mim. Algo profundo, sem nome e insubstituível. Sinto a existência se dobrando quando acaba.

Quanto tempo dura um sonho acordado? Me espanta a força física, a resistência, a determinação, não há cansaço capaz de fazê-lo parar, súplica suficiente que o detenha. Eu bebo água, olho para o relógio no criado mudo e volto, porque quando ele está aqui minha vida não pertence mais a mim. Eu não sou minha caso ele esteja por perto. Eu mudaria de nome para tê-lo todos os dias. Derrubaria minha árvore genealógica e usaria sua madeira para construir um castelo para nossos sonhos. No fim, quando ele coloca a roupa e anuncia a partida, tenho vontade de morrer. Meus antepassados se grudam a mim e me seguram nesse mundo numa tentativa de não me perder dentro dos meus próprios desejos. Na última vez ele deixou o dinheiro no mesmo cinzeiro de sempre, me beijou e, segurando meu rosto muito próximo do seu, penetrando meu olhar com seus olhos de morte, me disse que mudaria minha vida.

“Eu vou mudar a sua vida!”, ele disse. É o sonho de todas as meninas aqui da boate, mas eu tirei a sorte grande. Eu acho…

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Estaca 0,1

Ela me olhava quando eu não estava olhando. E quando me via atento ao caminho, olhando para frente, pensava em quanto me queria para si. Mas eu me virava e ela disfarçava, fingia estar olhando depois de mim, pela janela, lá fora, e eu fingia não perceber a mentira. O carro quentinho, mas a chuva e o frio batendo cartão do lado de fora e o destino era qualquer lugar. Era pretexto, só pra ficar junto, só para poder olhar para mim.

Tinha aqueles vícios de gente que não consegue aceitar que gosta de alguém, tipo ter fantasias sexuais e, quando se dá conta de com quem está fantasiando, mudar o personagem sem mudar o desejo. Me falava sobre outros caras, me pedia para dar opinião, aparecia nas festas acompanhada e eu, sempre ali, fingia que não me afetava vê-la com alguém. Talvez eu a quisesse tanto quanto ela me queria, mas de um outro jeito.

Ouvi esses dias, vendo um filme babaca na televisão, que é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo, mas que é impossível estar apaixonado por mais do que uma pessoa por vez. É assim que a gente escolhe quem vai ficar com a gente, e quem vai caçar outro coração pra habitar. Mas ela negava isso. Eu negava isso. E nesses dias em que a gente “tinha” que se ver para falar de alguma coisa, para planejar alguma coisa, a gente fingia que ninguém queria ninguém.

Às vezes ela aparecia no telefone me falando que estava sozinha, perdida, me pedindo para buscá-la em algum lugar, na casa de alguém, na festa em algum lugar. Eu sempre ia. Não porque me preocupava, mas porque era uma chance de aproveitar seu estado fragilizado e me colocar ou pouquinho mais pra dentro, só para ganhar espaço, para ser a primeira opção na alegria e na tristeza. Eu a queria tanto, mas tanto, que nem sabia disso.

Um dia não ligou, simplesmente apareceu. O porteiro deixou subir sem avisar, era quase 2h da manhã, eu estava sozinho, vendo qualquer coisa na televisão, sem vontade de ir para lugar nenhum. A campainha soou no apartamento escuro e eu dei um pulo que case me custou a vida. Fui até a porta sem ter a menor ideia de quem poderia ser, mas torcendo para encontrá-la do outro lado da porta. E quando a luz do corredor tocou meu rosto, os lábios dela tocaram os meus. E foi ficando, de vez, curtindo aquelas magias estranhas que envolvem os primeiros beijos em alguém.

Pediu para ficar, me convidou para ir para a minha própria cama, fez questão de ficar em cima de mim enquanto tirava a roupa e enquanto fazia isso ficou me olhando o tempo todo, sem desviar nem um segundo, descontando todas as vezes que me olhava sem que eu pudesse saber. Quando já não faltava quase nada para tirar, atirou-se ao meu lado na cama, olhou para mim com o canto do olho, como fazia sempre e me disse que era minha, daquela noite em diante, para fazer o que eu quisesse, “por toda a eternidade”.

De repente o frio do quarto não era mais páreo para sua presença e o calor que emanava poderia abrir fogo em todas as coisas ao redor. As luzes se apagaram como mágica e as costas dela se fizeram de cama para mim. Era uma daquelas transas que definem o destino da vida de duas pessoas dali em diante. E ela, covarde e burra, decidiu dizer que estava bêbada, que não sabia o que tinha feito, quando acordou pelada na minha cama, no dia seguinte. Estava decidida a lançar todo o progresso fora por causa de uma dúvida, ou um punhado de medos infantis.

Tem gente que prefere o jogo à vitória, e voltamos à estaca “0,1”, que é quase igual à estaca zero, com a diferença de que você já começou aquilo antes e, mesmo sem ter tido sucesso, está prestes a começar novamente.

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Muda

Ela já não vinha em busca de nada. Antes ainda se preocupava em dar satisfação, inventava histórias, fazia de conta que tinha algo para mostrar, trazia desenhos de rostos muito bem detalhados, de cenas urbanas na chuva e eu sempre dizia que ela deveria trabalhar com isso. Mas ela não me ouvia, não queria nem saber. Depois de cinco minutos aqui dentro, já estava sentada no sofá, com a blusa longe, me olhando com a convicção de quem hipnotiza pelos olhos. Só que depois ela desencanou do teatro e eu passei a abrir a porta com ela já me beijando, sem nem ter tempo de ter certeza de que era ela mesmo.

Não sei se era muda, ou se simplesmente não queria conversar. A verdade é que não falar, às vezes, é a melhor maneira de resolver as coisas. E ela não falava comigo, mas tinha a risada mais sincera da cidade, com a boca bem aberta, os lábios carnudos ficavam finos, esticados, e era possível ver o fundo da língua. Ria com a alma, de um jeito que ninguém pode dizer que era fingimento ou exagero. Eu não sabia como lidar, porque quando ela aparecia eu tinha de estar totalmente à disposição. Se eu dissesse que tinha de ir embora, ela ficaria triste. Se eu mandasse que parasse, ela poderia me entender errado, então eu deixava rolar…

E rolava! Ela entrava me beijando forte, empurrando minha cabeça para trás. Depois me sorria, e fazia alguma coisa de que gostava. Geralmente ia até a janela ver a vista nublada, até porque em dias de Sol ela não aparecia. Eu abria o conhaque, porque ela não tomava outra coisa, além de água. A gente bebia em copos de uísque, vendo as coisas longe, e ela apontava o que queria me mostrar. Eu me sentia um velho sendo seduzido por uma menina, mesmo que nossas idades não tivessem mais do que cinco anos de distância. Ela parecia viva e eu completamente apagado, então tudo era novo com ela por perto.

Depois o conhaque fazia efeito, ela vinha com tudo para cima de mim e eu só reagia à altura. A gente fazia aqueles sexos de filme de romance, sabe? Em cima das coisas, na mesa, no batente da janela, na passagem da sala para o quarto, e ela tinha um corpo em forma de perfeição. Sempre aparecia com jaquetas enormes, roupas masculinas e calças largas, o cabelo bagunçado, sem maquiagem e sem estilo nenhum, mas por baixo de toda a poluição visual era quase um anjo, muito loira, muito branca, muito lisa e muito fresca, quase gelada, e não esquentava nunca.

Mesmo sem falar, colocava verdade e sentimento em cada som que emitia, e isso ficava mais claro quando a gente transava. Não que gritasse, nem que exagerasse, mas era, de longe, a moça mais barulhenta com quem eu já fiquei em toda a minha vida. Vinha de dentro, sons, gemidos e urros, que seriam impossíveis de se reproduzir. Às vezes eu pensava que, mais dia menos dia, ela se abriria ao meio e um outro ser sairia de dentro, mostrando a verdade de quem ela era. Mas isso, creio que por pura sorte, nunca aconteceu.

Era sempre a mesma menina, a mesma adolescente com cheiro de sabonete e fumaça de madeira queimada, que entrava desesperada para me contar, sem dizer nada, tudo o que a vida estava lhe aprontando. Depois me pedia colo, depois me pedia amor, depois me pedia sexo, depois me pedia para esquecer tudo e fingir que ela ainda estava vestida, que os peitos eu nunca tinha tocado, que a bunda eu nunca tinha visto, que ainda estava completamente imaculada e secreta. Acho que vinha para mostrar-se para mim, só para ver minha reação, para saber que eu ainda a desejava em meio aos muitos sentimentos que não tinham definição.

Um dia, enquanto se vestia ela me olhou estranho, atravessado, como quem percebe um gesto incômodo pelo canto do olho. A gente tinha acabado de transar no chão da sala e ela, grande, com seus quase um metro e oitenta, cheia de músculos fortes, de bundas, peitos e coxas firmes e jovens, tinha ficado abraçada a mim, agarrada com força, dividindo toda sua frieza corporal com o meu calor. Acho que foi naquele dia que eu tive certeza de que a amava, e foi a última vez que ela veio me ver.

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Calípso [2/3]

Naquela noite não conversamos muito. Era estranha a sensação de falar com alguém que você conhece, mas que não faz a menor ideia de quem você é. Mesmo sem falar, lá de longe, dá última cama do quarto, ela conseguia a  minha atenção. Ignorando completamente a minha presença, trocou de roupa sem pudores ou dúvidas. Tirou as botas, a jaqueta preta, depois os brincos e o colar, depois o relógio, depois a outra peça de roupa que estava por baixo, depois o cinto, a calça apertada, que deu mais trabalho do que o resto, e vestindo quase nada se agachou próxima à mala para achar peças que, depois, reconheci ser um pijama. Adormeci antes de apagarem as luzes.

Nessa noite não sonhei. Mergulhei num sono preto e pesado, a ponto de acordar no dia seguinte sem nem lembrar da existência de Calípso. Fiquei um tempo acordado olhando o estrado da cama de cima, vazia e arrumada. Pensei sobre a cidade, sobre a viagem, sobre voltar para casa e sobre como era difícil ouvir e entender o alemão das ruas. De repente entendi, sem qualquer dificuldade, um “bom dia” feminino vindo de lá de longe. Animado, cortes e interessado. Toda a paixão desaparecida que o sonho pesado me proporcionara agora escorria descarada pelos meus olhos, boca e poros. Não me lembro se respondi, mas me apressei em sentar na cama e ela, encostada na parede do lado de lá, me olhava e sorria, como quem espera uma reação qualquer.

“Você tá linda”, foi a primeira coisa que eu disse. Não era bem o planejado, até porque nem tinha um plano, mas foi o que deu pra dizer, o que saiu. Ela sorriu um riso curto, daqueles que significam mais do que aparentam. Levantou-se da cama e caminhou descalça sem me olhar. Quando passou pela porta disse, em inglês, que ia escovar os dentes. Eu ainda fiquei uns segundos ali, setado na borda da cama, olhando para o quarto vazio paralisado, pensando porque é que não disse “bom dia” e nada mais. De repente reconheço o som da escova de dente e a vejo reentrar no cômodo. Tem um escovar frenético, ritmado, daqueles que parecem que vão voar os dentes. Sentou-se na outra cama, de frente para mim, com um batom de espuma branca ao redor da boca, o rosto amassado, os cabelos loiros presos para cima e ficou me olhando. Depois de algum tempo, “tô linda mesmo?” perguntou em tom sério e dessa vez quem sorriu foi eu.

Era linda de qualquer maneira, mesmo assim, sem maquiagem, nem modas, nem defesas. Tinha um rosto claro, limpo, como se fosse dourada, amarela, loira por inteiro ou algo assim. Não conseguia disfarçar meu enorme interesse em tentar ver por dentro da gola larga do pijama como era seu corpo, o que tinha por dentro, mas não conseguia. Depois me disse com a escova ainda dentro da boca que eu deveria ficar ali, que voltaria logo, e quando levantou-se percebi que seus peitos se desenhavam com perfeição por baixo do pano. Sem sutiã, sem gravidade, só perfeição e genética. Quando voltou estava animada, falante, me contando coisas, conversando, apontando os peitos para todas as direções e me chamando para ir com ela. “Eu vou!”, não sei onde, nem quando, nem para quê. Mas eu vou.

Saí para escovar os dentes e lavar a cara. No espelho meu rosto era um misto de esperança com derrota plena. Voltei em tempo recorde e ela já estava com outra roupa. Saímos em busca de um café da manhã e não sei se por provocação, ou por instinto, mas ela se agarrou no meu braço e aos olhos de quem passava eramos um casal. Eu queria ser um casal com Calípso, o homem de Calípso, fazer parte da vida dela. Ao menos fazia parte daquele dia, fazia ela rir, fazia companhia a ela e a fazia pensar que, no fundo, talvez, as pessoas valem a pena. Passamos o dia, a tarde e o comecinho da noite completamente juntos, fisicamente juntos, segurando mãos, abraçados, encostados e eu não tinha a menor dúvida de que estava apaixonado.

Bebemos um monte de cerveja quente, ficamos breacos e inconsequentes e, como se fosse um desejo mútuo que nasce em corpos separados, nos beijamos. Mas um beijo com cara de convite, com cara de “era uma vez…”, começo de história. No táxi de volta para o albergue ela me parecia o corpo mais confortável e quente que eu poderia encontrar. Puxava meus cabelos, lambia meu pescoço, errava minha boca e tacava a língua no meu queixo, no meu rosto e a gente se lambia rindo, como se estar com tesão um pelo outro fosse mais brincadeira do que coisa séria. Quando chegamos no quarto já não tinha mais segredo e ela arrancou a blusa de uma vez, ajoelhou-se em cima de mim puxando minha camiseta, mas, de repente parou. Me olhou, sorriu, se abaixou gentil até colar o corpo no meu e sussurrou no meu ouvido. “Preciso te contar um segredo… eu sou duas!” e gargalhamos juntos, para voltarmos aos beijos loucos, à alucinação de estar junto e permanecer assim.

Enquanto transávamos eu não pensava em nada além do que sentia e via. Os peitos, os mesmos de antes, lindos, pequenos e firmes, agarrados ao corpo sem se abalarem com ritmo ou intensidade. Os cabelos, agora menos loiros, mais escuros, cobrindo um sorriso enorme de uma boca quase louca. Não sei dizer se durou dez minutos, dez horas, dez vidas, mas parecia não acabar nunca e eu dava graças a Deus por aquilo. No silêncio, depois, agarrado a ela num encaixe perfeito, perguntei, agora em tom de seriedade, sobre o que tinha me confidenciado antes de tudo. “Você é duas mesmo?”, perguntei, como se “ser dois” fosse uma coisa comum e banal no nosso mundo. “Sou!”, respondeu, tirando os pés da cama e indo dormir sozinha, sorridente, pelada, úmida e quente. “Foi bom ter vocês…” eu disse, antes de me virar e dormir.

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Calípso [1/3]

Eu a conheci durante uma viagem para a Alemanha, enquanto tentava dormir numa cama barulhenta de um quarto coletivo de um albergue em Berlim. Seis camas, só eu no quarto: alegria plena. Mas no meio da noite a luz acendeu, uns barulhos foram se arrastando pelo corredor e eu acordei. Não abri os olhos, mas fiquei prestando atenção nos passos, nos sons, nas vozes e concluí que eram duas ou três garotas chegando. Aí decidi acordar de verdade. Quando olhei, na última cama, lá perto da janela, uma única garota arrumava suas coisas e, quando me olhou, sorriu pedindo desculpas em inglês.

Era brasileira, eu também era e ela gostava de climas frios, estava estudando cinema na França, pegou as férias para viajar para outros lugares e estava sozinha na jornada. Eu também. E conversamos até amanhecer. Quando eu saí ela estava indo dormir e depois passei o dia todo pensando nas coisas que ela falava, em como ela falava, na cor do cabelo e nos dentes que tinha. Eu estava ficando obcecado por alguém que bebia a mesma língua que eu, mas não tinha nome. Eu não tinha perguntando o nome.

Mas ela sabia o meu. Eu só sabia que tinha olhos expressivos, um corpo fino e delicado, uma mala maior que o mundo e que gostava de estar comigo. Ela disse isso: “gosto de estar com você” e por alguns segundos fiquei pensando se já nos conhecíamos ou se era uma forma estranha de dizer “gostei de te conhecer”. No fim da tarde voltei, cortando minha agenda do dia pela metade só para reencontrá-la. As coisas estavam lá, a mala gigante, as roupas, mas ela não. Deitei, apaguei as luzes e esperei.

À noite ela chegou. Estava diferente, com ares diferentes, um andar diferente e, por incrível que pareça, um corpo meio diferente. Eu me levantei e perguntei como tinha sido o dia, em português, assim, na lata e ela franziu a testa assustada. Me olhou de dentro da jaqueta de couro e por trás da maquiagem no rosto me perguntou em outro tom: “como você sabe que eu falo português? E quem é você?”, perguntou, nervosamente séria. No início me pareceu piada, depois foi ficando constrangedor até beirar o medonho. Por instinto, puro instinto, disse meu nome, disse que era brasileiro, disse que tínhamos conversado na noite anterior e perguntei o nome dela.

Fez cara de quem sentiu vergonha, sorriu, disse que não se lembrava da noite anterior e ficou me olhando. Mas não como quem olha alguém esperando palavras. Me media, me contava em centímetros, metros cúbicos, cores, cheiros, texturas e no fim, sorrindo para algum lugar perdido entre meu queixo e meu pescoço, disse macia: “Meu nome é Calípso!” e meus joelhos falsearam por um instante. CA-LÍ-P-SO. Soletrei lentamente em pensamento e senti que era um orgasmo em forma de nome. Começava forte, firme e com a boca aberta. CA! Depois seguia com a língua fazendo força contra o céu da boca, pressionando a ponta entre o dentes de cima. LÍ! Aí vinha o ápice, a gozada das estrelas com o toque sensível, mas poderoso e seco, dos lábios que só uma consoante muda pode proporcionar. P! E depois um relaxamento tranquilo e minguante no SO do final. “Calípso eu te amo”, pensei, e ela sorriu, como se tivesse ouvido.

… continua.

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A calma daqui de dentro

Calma. Eu tô vivendo, tô vivendo! Faltaria paciência para mim se eu fosse você, assim como falta paciência em você para entender alguém como eu. Tem maldição que faz a gente rir, tem maldição que é feita errada e volta pra quem fez, mas tem maldição que pega. Pegou. Mas não significa que tudo vai ser uma merda, que agora a vida já vai começar a ficar cinza e sem graça, que passou a euforia e ficou o marasmo. Quero hoje, sim, e muito, assim como quis sempre. É que às vezes o silêncio é mal interpretado e fica como se fosse uma recusa, um segredo ou uma fúria. Mas num é isso, é nada. O silêncio é o som da paz, a melodia dos anjos, a música da calma, e eu estou cantando pra você. Tá ouvindo?

É como a minha relação com o Rio de Janeiro. Todo mundo que me fala do Rio recebe a mesma resposta, que eu conheço pouco, que só fui uma vez, que não vi nada, que é como se não tivesse estado lá, que não gosto mesmo sem conhecer, que não moraria lá de jeito nenhum. Mas não. É um segredo meu que às vezes é bom contar, mas na maior parte do tempo eu prefiro esconder. Eu vi o Rio de Janeiro de uma maneira que só eu mesmo poderia ver. Eu senti a brisa quente da noite, e tinha copos de cerveja, e risadas à beira-mar. Eu caminhei descalço pela orla, molhei os pés no mar gelado da Barra e suei com o sol que ainda nem tinha nascido. É uma memória minha, de conversas minhas, de pessoas tão minhas que podem até terem sido paridas do meu próprio ventre, ou da minha própria imaginação, mas são meus. Meu sentimento, minha emoção, minha devoção e meu apresso são como o Rio dos meus relatos: às vezes é melhor guardar, às vezes é melhor mostrar.

Aí vem o Cicero me dizer o seguinte: “Ai, se você soubesse o quanto machuca, não amaria mais ninguém!” Vou descordar? Eu conheci a dor, sei o quanto dói, mas também sei das glórias e da alegria que dá. Dá um trabalhão viver comigo, e mais trabalho ainda viver em mim. Trincar a clavícula também dói, e eu suportei. Ser perfurado dez vezes nas mãos com seringas de agulhas grossas também dói, e eu suportei. A dor de cabeça da meningite pode deixar um homem maluco, mas eu suportei. Ser tricotomizado no queixo aberto dói que só a porra, mas eu suportei. E se não formos falar de dores físicas, sei da dor da rejeição e suporto bem. Sei da dor da falta de reconhecimento, da injustiça, do desespero e da descrença no futuro, mas eu suportei tudo isso. Sei das dores de amar sem ser amado, de não retribuir amores complexos e de perder amores que não se repetem, mas também sobrevivi. O Cícero sabe das coisas, mas não é nesse ritmo que a banda está tocando agora.

Gosto mais da parte leve de todas as coisas. Gosto mais do dançar deslocado, da piada sem graça, da bebida sem gás, das risadas sem motivo. É disso que eu falo quando falo sobre o lado bom da vida. É dessa vida que sentimos falta quando pensamos que sentimos falta de alguém. O importante para mim é estar presente, é ser referência de segurança, de conforto, de cumplicidade. O rótulo, o nome, o resto, o centro, isso foda-se. Cansado de amar com o amor dos outros, resolvi criar o meu próprio e, mesmo que meio confusas, mesmo que inconstantes e mutantes, minhas paixões não poderiam ser mais intensas do que são. Se fosse no mar, eu estaria de cabeça, correndo riscos, pulando pertinho das pedras, curtindo o medo, respirando o vento que passa rápido para no final, mesmosem ter certeza, me sentir confortável por cair em águas, não em rochas. Nunca sabemos se é água ou pedra, mas devemos pular mesmo assim, sempre, sem medir. Sem pressa, mas sem covardia.

O máximo que posso oferecer, acima de qualquer sentimento já batizado com nome, valor e vigência, é a minha calma interna, meu refúgio. Posso oferecer o que ninguém quer dar, que é a paz de espírito. Não existe grilo, nem grelo, nem gelo, nem elo que me faça desistir de viver em paz. A pacificidade dos dias não é solidão, nem monogamia, nem poligamia, nem companhia, nem amor, nem sexo, nem paixão, nem mentira, nem traição, nem saudade, nem afeto, nem alegria, nem felicidade, nem ódio, nem rancor, nem fé, nem descrença, nem ceticismo, nem mágica, nem magia, nem música. Estar em paz é, simplesmente, estar dentro de si mesmo, em conjunto com todas as outras coisas, mas sem perder sua própria essência, nem escondê-la do resto do mundo.

Li em uma revista feminina que o importante não é a fidelidade, nem mesmo a exclusividade. O importante é sentir-se desejado, sentir-se amado, sentir-se importante. Enquanto sente-se isso o resto é perfumaria. Nos apegamos em preceitos sociais para justificar carência, justificar falta de atenção, justificar infelicidade. Vem ver o pôr-do-sol comigo, vem ficar em silêncio do meu lado, só me olhar, só me ouvir perguntar “o que você está pensando” e ter a certeza de que a melhor resposta para me dar é “não estou pensando em nada”, só para deixar tudo em paz. Enquanto houver o que fazer, o que falar, aonde ir e o que viver, estaremos vivos, nessa ilha minúscula chamada mundo. Quem é que domina o tamanho das coisas, se não a própria vida? Não existe tamanho de amor, nem tamanho de cidade, nem tamanho de gente, nem tamanho de medo. É tudo subjetivo.

A vida é como um monstro que não pode ser derrotado, que entra em campo já vencedor. É nela que a gente tem que se segurar. É ela que nós devemos enriquecer, e não nossos bolsos. A vaidade de ter uma vida boa nada mais é do que querer ter um campeão dentro de casa, ter uma máquina que não quebra, um lutador que não cai, um carro que não para, um filho que não mente, uma renda que não finda, um amor que não morre. Eu estarei sempre errado até que provem o contrário, eu estarei sempre amaldiçoado até que me encontrem a cura, mas isso não me impede de contrariar o óbvio, viver do avesso, contar os números de trás para frente, ser otimista ou ser a antimatéria. Nós somos a antimatéria das nossas próprias vidas, fazendo fusões mortais e apagando tudo o que fomos, o que somos e o que seremos. Juntar-se a alguém é explodir, virar energia, se transformar e nascer de outra coisa, com outras cores e formas. Para isso é preciso muita coragem, calma e paz, mas são coisas que a gente tem de sobra. Não é?

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