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A frieza é que me dá medo

Tenho medo de muita coisa nesse mundo, assim como muita gente também tem. “Não tenho medo de nada”, que grande mentira. Quem não tem medo de nada não faz a menor ideia do que é um diagnóstico de câncer, uma arma apontada pra cabeça, uma aranha armadeira sobre a pia do banheiro, um sequestrador sentado no sofá da sala ou um aviso de tubarão quando seu filho tá brincando no mar. Não sabe do que fala. Estamos cansados de saber que o medo é o que nos permite discernir sobre perigos e, assim, continuarmos vivos. Mas existem medos que não são tão fáceis de explicar. Um dos meus medos mais intensos e inexplicáveis é a frieza dos humanos em alguns momentos decisivos. Tenho medo da frieza das pessoas em alguns momentos.

Tenho medo da frieza do preso que confessa o assassinato sem baixar o olhar. Ele sabe que fez algo que não deveria ter feito, sabe que é irreversível, sabe que uma pessoa deixou de existir antes da hora por sua culpa, sabe que existe uma família em luto, sabe que existem amigos desconsolados, sabe que existe uma responsabilidade eterna e, mesmo assim, não se abala. Olha o juiz e confessa que matou. Olha o interrogador e diz que matou. Olha pro repórter e diz que matou. Passa por entre as pessoas e não abaixa a cabeça, não tenta esconder o rosto, não fica com a voz embargada, os olhos vermelhos, a pele branca. Simplesmente assume e pronto. Tenho medo.

Tenho medo da frieza de quem caminha pelo escuro incerto sem ponderar ou temer. Gente que levanta rápido quando acaba a força e vai pela casa, entre os móveis adormecidos e os obstáculos mortais, atrás de uma vela, de um quadro de luz, de uma lanterna, de um telefone, da putaquepariu. Gente que não tem medo de pisar no vidro, de ser esfaqueada por trás, de ser surpreendida por algum tipo de extraterrestre, de ser esquecida no breu pra sempre. Essa frieza de assumir o papel do herói, o papel de quem vai “resolver essa porra pra já!” e resolve mesmo. Gente que some na caverna e volta com o urso à tira colo. Tenho medo.

Tenho medo da frieza de quem mente pra polícia na hora do enquadro. Policial, por excelência, não costuma tolerar muita conversa. Se for mentira, tua vida corre perigo, pode apostar. “Tá com droga?” e o peão responde que não, com as meias cheias de cocaína, com umas três pedras de crack escondidas na bunda, uma paranga de maconha enfiada goela abaixo e um frasco de desodorante cheio de lança-perfume dentro da mochila. “Tá armado?” e o maluco responde que não, num ato suicida que faz a lâmina do canivete dentro da cueca esquentar à ponto de fogo, a arma debaixo do banco do carro chega a trepidar, enquanto o facão deita inquieto debaixo do tapete do passageiro. Gente maluca que acredita tanto na própria palavra que mente na hora da morte em busca de viver um pouco mais. E vive. E tenho medo.

Tenho medo da frieza de quem pergunta se está sendo traído e ouve que sim. Gente que tem estômago pra conversar depois de saber que ela dá pra outro, que ele come outra. Gente que não grita, não explode, não quebra tudo, não manda embora, não diz que vai sumir, não odeia, não mal diz, não amaldiçoa, não planeja vingança, não planeja assassinato, não diz que vai atrás do filho da puta, não diz que vai arrebentar a vagabunda. Tenho um medo mortal do frio que salta de para-quedas pelo buraco da íris dos olhos e toma conta da cena toda. Essas cenas com gente fria que descobre que é traída e consegue, só com o olhar, dominar o traidor e fazê-lo se arrepender de existir. Gente que tem fibra, que não perde o controle nunca, que está sempre um passo à frente da loucura sensata. Tenho muito medo!

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