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Viva a siririca!

A gente anda careta e babaca demais. E quando digo “a gente”, quero dizer eu e você, os dois, os todos, porque não é difícil perceber a própria coxinhice, a própria hipocrisia e o próprio atraso de opinião. Mas a gente vive dizendo que vai melhorar e sorte daqueles que realmente buscam aprender mais, ficar mais maleáveis, porque a vida desenhada na base de opiniões sólidas é uma merda construída de um erro atrás do outro. Sabe como você faz isso? Prestando atenção em pessoas que têm opiniões – as sensatas e embasadas, ok? – e formando as suas próprias.

Esses dias pulou um cartaz no meu feed do Facebook que dizia apenas “Gente que toca siririca S2” (imagem disponível na página do facebook) e quem replicou foi a Carol Patrocínio, um bom exemplo dessas pessoas que têm opiniões que podem te ajudar a ter suas próprias opiniões, você concordando com as dela ou não. O lugar de onde ela replicou era uma página chamada Indiretas de Satã, que faz piada com coisas religiosamente não recomendadas, e a justificativa para “Satã” curtir a moçada que toca siriria era que “Siririca é pecado e por isso mesmo é tão massa” e eu, de cara ri. E ri porque é engraçado, porque era pra ser uma piadinha besta e funcionou, mas por trás da piada, ao replicar uma imagem que incetiva e apoia, de maneira carinhosa e leve, mulheres que se masturbam, você fica parecendo um revolucionário revoltoso.

A Carol deu reply na imagem, eu vi, achei incomum e no mesmo segundo repliquei também. Claro que as pessoas ofendidas não se manifestaram, mas elas estavam lá, do outro lado da tela, se sentindo super envergonhadas e incomodadas com um banner gigante na tela dizendo que gente que toca siririca é legal e a gente gosta delas. Alguns dos meus amigos até arriscaram comentários como “Porra, Braz” ou “Ahh, tinha que ser o Braz”, mas na verdade o que todo mundo deveria fazer era dar um like e compartilhar. Só! Assim como o simples fato de um homossexual assumir sua homossexualidade se tornou um ato político e militante, mesmo que o correto seria ser uma coisa banal que não é da conta de ninguém além da dele, colocar-se a favor da liberdade sexual da mulher, que deveria ser uma coisa banal que não é da conta de ninguém além da dela, se tornou uma coisa chocante.

Quando eu vi que o banner só parecia interessante para mim, e não para um monte de outras pessoas envergonhadas, foi que me deu um estalo: ué, tô errado? Acho que não. E dizer “siririca” é o mesmo que dizer “punheta”, que dizer “xana”, “pinto”, “xiririca”, “bilau” e por aí vai. É uma palavra estranha que alguém inventou pra servir de sinônimo popular de uma palavra que a ciência tratou de complicar. MAS-TUR-BA-ÇÃO FE-MI-NI-NA. Prefiro siririca, na boa.

Aí o povo tem vergonha até de LER a palavra, de falar do assunto, como se fosse tabu. Naquelas entrevistas pseudo-sexuais estranhas que veículos estranhos fazem com sub-celebridades estranhas, nunca perguntam pro cara: “Mas então, você bate punheta?” porque a resposta seria um sonoro “CLARO!” e todo mundo já imaginava aquilo. Mas o povo ainda pergunta pra mulher “Você se masturba?” e se ela responde que sim, ela é polêmica (?) se ela responde que não, ela é puritana. Isso parece tão bizarro para mim que fico em dúvida se isso é coisa minha, se eu que tô pensando diferente.

Quem lê as coisas que eu escrevo aqui já deve ter topado com algum texto que fala de uma mulher que se masturba – que toca siririca, pra ficar mais suave – e eu comecei a escrever “cenas” assim depois que percebi que é raridade encontrar gente falando disso como se fosse normal. Porque vamos combinar: É NORMAL! Mas de tanto “as pessoas” acharem que não é, dizerem que não é, ensinarem que não é, a gente acha que não é. E pior: as mocinhas mais novas, nos 10, 12 anos, também acham que não é certo e aí não fazem. E não se masturbar, tanto para homens quanto para mulheres, é uma questão que pode gerar problemas futuros. Problemas que “as pessoas” também insistem que não são importantes, como por exemplo, OR-GAS-MO FE-MI-NI-NO, ou gozo – outra palavra que faz a galera desligar o monitor na hora.

Tem sexólogo falando, tem psicólogo falando, tem mulheres comuns falando, mas o povo ainda recrimina a siririca. Masturbação é um exercício de conhecimento do próprio corpo, isso ajuda – e muito – a mulher, ou o cara, héteros ou homos, a curtirem mais o sexo quando chegar a hora e a se curtirem sozinhos. A mulher se masturba, descobre do que ela gosta mais, onde funciona, onde não funciona e vai ser feliz. Se não tiver com quem ser feliz, vai ser feliz sozinha e fim. Mas aí a gente ensina, direta e indiretamente, que punheta é normal pro garoto, e siririca é errado ao extremo pra menina. Depois abre o jornal e vê estatísticas tristes, tipo “70% das mulheres não atingem o orgasmo em relações sexuais”. CLARO que não é porque ela se masturba que ela vai gozar transando, existem mil coisas a serem consideradas e não é uma formula matemática: siririca = goza no sexo. Mas ajuda, e como ajuda!

Deixar a mulher se masturbar e, mais importante do que isso, incentivar a masturbação feminina, faz parte de criar um mundo onde as mulheres podem decidir sobre o próprio corpo e viverem felizes com eles. Quanto mais mulheres aceitarem a própria imagem e viverem bem com isso, mais homens aceitarão as imagens de suas mulheres e essa cultura do corpo lindão vai se tornar menos importante. Mulheres precisam, merecem e devem ser felizes sexualmente. Sentirem prazer adoidadas. Gozar como loucas. Sozinhas, acompanhadas, em casa, na rua, na chuva, na fazenda ou na casinha de sapê. Siririca não deveria ser uma palavra que gera vergonha, assim como seu significado não deveria ser proibido ou escondido. Não estraguemos as nossas crianças com crenças babacas, opiniões medievais e sentimentos negativos. Viva a siririca!

ps: na página do Memórias Utópicas no facetruque a imagem que foi utilizada para ilustrar este texto é de uma moça chamada Evelyn que atende pelo pseudônimo de “Negahamburguer“. Vale a pena ver o trabalho dela e curtir a visão dela sobre a liberdade do corpo da mulher!

ps2: desculpem as pessoas quem manjam mais do assunto que eu, caso eu tenha falado alguma merda. E desculpem eu bancar a sexóloga frustrada com a  carreira, é que siririca/punheta é coisa séria!

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Hoje Elza não dorme!

Hoje não, nem tem como. Ela vai se deitar no escuro, na cama que sempre acolheu seu sono em todas as outras noites até hoje, mas não vai conseguir dormir. Não é café, não é bebida, não é filme, não é nada que se controle. Essa noite não tem sono na cama dela, mas não deveria mesmo ter coisa do tipo. É o corpo de Elza que quer despertar quando deveria estar se despedindo. Hoje não tem sono para ela.

Do lado de fora, na cidade escura do meio da semana, o vento esfria a vida e faz a rua tremer, mas dentro do quarto é um calor sem fim. A testa suada não encontra posição no travesseiro já morno de tanta fricção. Os cabelos presos grudando no rosto, na nuca, se espalhando pela boca, olhos, nariz e incomodando mais do que o de costume. A respiração é complicada, o ar é quente e o mundo vai se acabar. Ela se sente coberta por mil camadas de pano quando, na verdade, está vestida de pele e tesão, apenas.

É como um feitiço, um veneno, uma praga, um trabalho de gente ruim. O corpo não se aguenta, a pele se estica, os dedos se contraem e os músculos vão endurecendo. Cio, é o nome. É um desejo de comer o que não se come, de ter o que não se compra. A noite vai se criando e a escuridão toma forma na cólera de Elza. De repente tudo está se movendo, como se rodasse, como se estivesse descendo pelo ralo, sumindo, indo embora, sendo chupada. Tudo o que Elza queria era ser chupada até sumir.

Cada segundo de olhos fechados, de escuridão forçada, era preenchido com figuras, cores, sons, espetáculos de carne e osso dos quais ela jamais poderia fugir. A mente de uma mulher tomada pelo desejo não mede esforços, nem tamanhos, nem perigos. Metade da imaginação de Elza poderia facilmente levá-la direto para o caminho da morte, mas ela não se importava. Daria a vida por um minuto de realidade dentro de suas viagens.

Desenhava fantasias tão intensas e bizarras que chegava a misturar o que é real com cores, sons, formas e figuras sem nome, sem massa, só existentes dentro do sonho de quem está fora de si. Homens e coisas. Animais e cores. Objetos e formas. Cenários e sons. Odores e sabores. Tudo misturado em uma miscelânea de perversões que jamais, em nenhum momento de toda a história da raça humana, nenhuma mulher ousaria revelar.

Elza queria fazer sexo com deuses, com figuras inimagináveis, com homens que não nasceram ou que nunca poderão morrer. Ela desejava dores atrozes, humilhações impensáveis, prazeres primitivos e animalescos, enquanto delirava desenhando orgasmos que seu corpo jamais produzirá. Vinte homens, vinte mulheres, vinte dias e nenhum momento de paz. Ela queria tudo, de uma vez, no mais tardar do agora, do imediato, do já e gritava por isso com o máximo da força que seu corpo tinha.

Mas não era possível. O pingo de sanidade que lhe restava mostrava que tudo era ficção, que taras e fantasias são só desejos impossíveis, são criações que tomam forma em um mundo que não é o nosso. Respirava fundo, retorcia o corpo ao redor do cobertor e deixava que o tecido lhe service de parceiro. Depois ficava imóvel por algum tempo, curtindo um mini-orgasmo que não se aproximava em nada dos desejos que tinham tomado seu sono e, imediatamente, voltava a se esfregar em panos já encharcados.

Desejava ter vinte dedos em cada mão, no mínimo mais umas quatro vaginas, uns outros muitos buracos novos e inventados e, acima de tudo, desejava que todos lhe dessem prazer infinito. Elza estava prestes a desmaiar em delírios sólidos e profundos quando se lembrou que gozar é morrer e que o momento imediato à euforia do orgasmo é comparado ao alívio do nascimento. Ela não queria nascer, mas desejava a morte mil vezes por segundo.

Pobre moça, desiludida num mundo onde o que sobre para as mulheres são apenas os homens, com suas limitações e suas barreiras psicológicas. Homens que pedem 15 minutos entre uma e outra. Que não passam da terceira, que não sabem se concentrar, que não sabem muita coisa. Não havia tempo para aulas, cursos e conselhos no tesão daquele quarto. Elza odiava os homens de seu mundo, mas desejava que todos eles, sem faltar nenhum, adentrassem seu quarto e a matassem um milhão de vezes. Tudo o que ela quer é morrer de sexo, como se pudesse escolher o fim perfeito.

Hoje Elza não dorme!

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O bom da vida!

Logo eu, que passei tanto tempo reclamando da falta de momentos livres, da falta de criatividade e da falta de novidade, me peguei afogado em pensamentos abstratos demais. No meio desse monte de relíquias modernas descobri que às vezes a gente sabe exatamente, mesmo que por um curto espaço de tempo, tudo o que precisamos para sermos felizes.

O bom da vida está por aí, jogado nas mesas de bar, nos pães com manteiga na chapa na padaria da esquina, nos carros que trafegam lentamente num congestionamento fora de hora no meio da semana. O bom da vida está em todo lugar: a gente só não vê porque o estado de espírito não nos deixa. Mas tudo bem, mais cedo ou mais tarde todo mundo se pega vivendo um momento de felicidade espontânea e cai na real de que é muito mais simples do que pensamentos. Ser feliz custa pouco, às vezes, quase nada!

O grande barato da vida está em resolver grandes problemas durante a madrugada só porque estava ocupado demais durante o dia fazendo o que dava mais prazer. A felicidade veio me pegar em uns momentos inexplicáveis, tipo quando estava carregando a caixa do meu novo violão pelo meio da rua em pleno horário de rush, ou quando estava batucando um tamborim desafinado num churrasco de gente pouco conhecida. São simplicidades que trazem tudo que é complexo consigo.

O bom da vida está em encontrar uma rádio de black music no som do motel e transar ouvindo Emicida, ou poder ficar pelado conversando sobre a vida sem se preocupar com o tempo, com o dinheiro, com o sentido ou com o conteúdo, só focar no momento. Descobri que é possível dar mais risadas em momentos sérios do que durante grandes shows de humor. É da maneira ridiculamente séria com que nós tratamos os cretinos que nascem as situações realmente hilárias. A gente valoriza cada coisa/gente sem valor…

A parte legal das coisas está escondida no momento da flexibilidade de opiniões e ações. Naqueles microsegundos em que decidimos nos sujeitar a alguma coisa que nos parecia negativa, ou a interagir com determinada realidade que não nos é familiar é que estão as grandes descobertas da vida. A felicidade é se sentir confortável saindo da zona de conforto. Ousar, permitir, intuir e aceitar são coisas que vêm junto com descobrir, apreciar, admirar e absorver.

Ouvir uma música que você não gosta pode ser a chance de descobrir novos gêneros. Conhecer pessoas das quais você nunca foi com a cara é uma ótima chance de fazer novos amigos. Admitir pontos fracos e defeitos que você passou a vida escondendo pode ser uma ótima maneira de aliviar tensões. Ser você, acima de tudo, ainda supera qualquer tipo de subterfúgio e fingimento de socorro. As pessoas gostam do que é real, o fake a gente já vê nos livros e cinemas.

O barato da vida está em olhar pro lado e sorrir, olhar para trás e sorrir, imaginar o futuro e sorrir e fechar os olhos sem precisar desmanchar o sorriso. O barato da vida é barato mesmo, às vezes custa o preço de uma passagem de ônibus, ou uma garrafa de cerveja, ou o ingresso do cinema. Não é fortuna, não é figurino, não é conteúdo de copo, nem de bolsa, nem de caixa. A felicidade é o tipo de coisa que preenche o ambiente de nada, só de sensações.

As partes mais legais da vida ainda são de graça, por mais que  estejamos cada vez mais mergulhados em objetivos que envolvem algum tipo de lucro monetário. As melhores coisas estão dentro das fotografias, das mensagens de texto, dos e-mails e das ligações telefônicas. Nada que é feliz está preso numa loja, ou exposto em uma vitrine, ou sendo oferecido na televisão. O importante é o que você vai fazer com aquilo! O que é feliz está sendo dividido o tempo todo com quem você gosta, com outras pessoas felizes e é isso o que importa, mas a gente só percebe isso quando consegue um pouco de liberdade.

Essa sim é coisa rara e difícil de ter, mas a gente se vira, não é? A gente se vira, pode apostar!

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