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Quando a gente se cala

É a velha história do vivo e do morto: é mais tranquilo estar na presença de um vivo falando merda do que na de um morto não falando nada. Frequentemente nos esquecemos desse termômetro, mas ele se aplica a quase todas as situações da vida. Enquanto as pessoas estão falando, seja o que for, elogios, críticas, agradecimentos, acusações, as coisas ainda têm a obrigação de serem flexíveis. Falar com alguém, ou para alguém, é pedir para conversar, é se mostrar, mesmo que inconscientemente, aberto a mudar de opinião, a chegar a um acordo. Quando não há conversa, quando tudo está em silêncio, a flexibilidade se torna dura como pedra.

O bom é que na maioria das vezes não são coisas definitivas. Geralmente o silêncio não significa o fim de alguma coisa, ou a decisão de algo. É simplesmente o sinal de que, naquele momento, alguém está sólido, inflexível. Às vezes o que a gente mais quer é alguém que tenha a capacidade – e a sensibilidade – de nos amolecer novamente. Num mundo onde o importante é manter a bunda sempre firme, os peitos sempre bem duros, a pica sempre bem rígida e os punhos sempre bem fechados, tem gente que ainda consegue perceber o valor e a necessidade das pessoas que nos amolecem.

Ser inflexível é o primeiro passo para fracassar em tudo que você fizer. Quer criar uma coisa nova? Aceite mudanças no projeto, desvios, ideias que surgem no meio do caminho. Quer tomar um rumo na vida? Aceite que nem sempre os planos acontecem como foram planejados, nem sempre as pessoas são legais, nem sempre os caminhos vão dar onde dizia o mapa. Quer ser uma pessoa melhor? Aceite seus defeitos, depois entenda e perdoe o dos outros, engula, mesmo que à seco, a verdade de que quem cria as expectativas é você e quem as frustra não tem culpa de não ter seguido os seus planos. Pessoas seguem os próprios passos e só os flexíveis conseguem viver num mundo imprevisível assim.

Mas às vezes, mesmo quando você se esforça para ser fácil de lidar, mente aberta, dinâmico como água, a vida cobra o peito, a bunda, a pica e os punhos rígidos. E aí é quando acontece uma das coisas mais incríveis do ser humano – e que a gente quase nunca percebe – flexível. É quando a gente se cala! De repente o mundo ganha outras cores, a textura de tudo muda, o movimento das coisas que balançam com o vento, as vozes, as músicas, as figuras e a gente simplesmente se tranca dentro. Não há assunto que dure, programa que anime, proposta que aqueça. A boca se cala com um sabor de recém dormido, um amargo biliar esquisito e os pensamento conversam uns com os outros, sozinhos, sem te chamarem para a discussão.

“Tá bom demais lá fora, mas eu vou ficar aqui mesmo”, e os outros dizem que tudo bem. Ninguém percebe a diferença entre o sono e o silêncio, o senso e o sentido, o tato e o toque, o paladar e a palavra. As coisas têm nuances, são diferentes e precisam ser notadas, digeridas, oferecidas e ensinadas. O ser humano é um pedação grande e torto de um vidro muito fino que a gente insiste em equilibrar em pedestais muito altos e estreitos. As relações são mais complexas que isso, mesmo assim, ninguém disse que precisam ser complicadas.

Mas aí as horas passam, o dia passa, os dias passam e a gente, como se fosse mágica,  volta a falar. Às vezes dura apenas alguns minutos, é como se fossemos desligados da vida para ficarmos inertes, flutuando leves por alguns minutos para voltar e entender, de uma vez por todas, tudo o que antes parecia nebuloso misturado em palavras e dizerem desnecessários. O ponto é que as pessoas precisam ouvir, umas às outras, com atenção. Mas, acima disso, precisam saber que mais importante do que o que se diz, é o silêncio que se faz, são as palavras apenas pensadas, as frases não ditas. Essas sim têm a ver com a nossa verdadeira opinião sobre tudo. A gente é o que é, em nossas formas mais cruas e verdadeiras, só quando a gente se cala.

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