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Você marcava minha vida!

A pasta de dente aberta no armário do banheiro; a escova enfiada no copo com as cerdas para baixo; o chão todo molhado fora do tapete, a tampa da privada abaixada; o chuveiro pingando com o registro mal fechado; uma calcinha encharcada pendurada nele; a toalha embolada sobre o trilho do box; uns bolos de cabelo enrolados na tampa do ralo; a porta entreaberta; e o cheio de creme hidratante. O quarto revirado; umas roupas jogadas no pé da cama; o carpete com marcas de pés molhados; a toalha molhada umedecendo o lençol; um sutiã pendurado no puxador da porta do armário; cheiro de desodorante de bambu; perfume de gente que viajou pra fora; meias de algodão encardidas na sola e um cinto de estrelas prateadas de metal. Você marcava minha casa inteira.

Uns fios de cabelo compridos presos no braço do sofá e nas almofadas; o controle da TV jogado no chão com as teclas para baixo e a tampa do compartimento de pilhas sumida sabe-sela onde; a tela mostrando algum programa idiota com o volume no mudo; a janela aberta com as cortinas balançando; umas folhas de árvore vindo de lá de fora; a cadeira fora do alcance da mesa; uns livros jogados pelo chão; uma revista de mulher pelada virando páginas descontrolada ao vento e um bolinho de papéis de bala 7 Belo no pé da poltrona. Uma bolsa vomitando coisinhas de mulher e cosméticos no corredor; uma calcinha preta mínima jogada no chão; um pé de chinelo na porta da cozinha e uma mancha de esmalte azul no carpete. Você marcava minha casa inteira.

A pia cheia de louça até a tampa; pratos sujos de chocolate derretido; copos de requeijão com cheiro de champanhe; garrafas e mais garrafas de bebidas sobre a bancada; suco de laranja esparramado pelo chão, cascas de frutas entupindo a tampa do lixo; a janela aberta, escancarada pra caralho; a geladeira zoneada; coisas abertas e apodrecendo no compartimento dos frios; farelo de bolacha e pão francês sobre a borda da pia e um pote de margarina cheio jogado dentro do saco de lixo reciclável. Uma garrafa de amaciante aberta derramando no tanque; a máquina de lavar com a tampa para cima; meia dúzia de roupas emboladas e sujas no fundo; o varal todo arrebentado; a escada de alumínio e a caixa de ferramentas jogadas no chão e um martelo jogado sobre a tábua de passar roupa. Você marcava minha casa inteira.

Mas o que ficou mesmo gravado, para mim, foi o dia que abri a porta do apartamento e encontrei você jogada no chão, toda vomitada no hall, na frente da porta do elevador, vestindo pantufas, calça de couro, jaqueta e sutiã. Seu cabelo fedia a leite azedo, suas mãos todas sujas de terra ou carvão, não sei, e seu rosto sujo de alguma coisa marrom difícil de definir. Eu lembro de ficar alguns segundos petrificado, te olhando, mas quando percebi que seu peito se mexia no ritmo de uma respiração percebi que não tinha sido dessa vez. Passei a chave na porta, pulei seu corpo largado e entrei no elevador pra ir trabalhar. A vida segue, você sabe, e tava foda arrumar a bagunça que você fazia. Mas as suas calcinhas eu guardei.

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Hotéis são o fim da juventude

Eu acho que me lembro a primeira vez que viajei com amigos, sozinho, sem pais ou responsáveis, de carro pelas estradas por aí. Nem foi uma grande aventura, eu e mais dois amigos fomos para a casa de uns primos de um deles em Mogi Guaçu. A grande transformação foi muito mais interna do que externa. Até hoje eu tenho memórias daqueles dois dias que a gente passou lá. Dormimos na casa de um primo que estava sozinho em casa, um no chão o outro na cama o outro na sala. Na ida a gente não se preocupou em onde ia dormir, como ia dormir, o que ia fazer ou coisas do tipo: a gente só queria chegar! Chegar significava cumprir uma missão, cruzar uma barreira, ser, enfim, grande. E fomos enormes, vivendo nossas próprias aventuras, olhando uns para as caras dos outros, os três, sem saber o que seria depois dali. Tem fotos memoráveis dessa viagem.

Eu tinha 18 anos quando isso aconteceu. Depois dessa vieram outras, uns perrengues sem fim, uma casa que não existia num feriado de Carnaval, uma outra que tinha um quarto para cada 5 pessoas, outra em que não tinha nem quarto e tudo era uma grande sala junto com outra grande sala entregue aos escorpiões e aranhas que se escondiam no meio das roupas. Sempre faltava água. Quase sempre faltava luz. Quase sempre eu passava mal de tanto beber. Quase sempre era perfeito. A gente queria bagunça, gastava mais dinheiro em bebida do que em comida e chegou ao cúmulo de em um ano novo nós passarmos dois dias comendo milho, apenas milho, direto de dentro da lata, porque só tinha isso pra comer. Isso era ótimo, rendia história pra contar!

Nessa do milho eu já tinha uns 22 anos. Está entre as melhores e mais marcantes viagens que eu fiz na vida. Depois disso passou um tempo e eu comecei a namorar. Minha namorada e os amigos, na época, adoravam acampar. Eu achava que era um regresso, mas não. No camping, por mais que a barraca pareça uma coisa precária, é uma espécie de quarto privativo: você tem mais privacidade numa barraca do que numa sala em que você divide um colchão de casal com outros dois casal mais fedidos que você, mais bêbados que você e durante dias e dias. Acampei com eles a primeira vez num lugar péssimo de Maresias. Era feriado de 7 de setembro, estava tudo lotado, chovendo, sem nenhuma estrutura e passamos 4 dias acordando com lama na porta da barraca, tomando banho frio, comendo salgadinho e bebendo cerveja quente e no fim um amigo nosso pulou de uma pedra, caiu errado no mar e arrebentou o ombro. A gente fala dessa viagem até hoje!

Depois a gente evoluiu pra um camping maior. E logo depois a gente alugou uma casa com uns outros amigos. Nessa um casal teve que dormir na sala e outro dormiu em camas de solteiro. Mas ok, tinha piscina, tinha um conforto inédito. Depois alugamos uma casa maior, dentro de um condomínio, com guarda-sol e cadeiras exclusivas na rua da praia. Depois fizemos o mesmo novamente. Depois alugamos uma casa com quatro andares para 10 pessoas! Era tão grande que escolhemos não usar um dos andares para não dar muito trabalho para a caseira arrumar depois. Em seguida alugamos outra casa, maior ainda, com 5 quartos, um absurdo inimaginável anos antes. Sala de estar, sala de jantar, sala de tv, duas lareiras, cozinha colonial, quadra de tênis… Quadra de tênis, caralho!!! Quem é que precisa dessa porra toda?

Voltando para casa desse feriado, minha namorada e eu conversamos sobre como esse processo evolutivo pareceu natural e, ao mesmo tempo, o quão perto estamos de chegar no último estágio: hotéis. Porque é o fim, você sabe, né? Quando você desiste de alugar uma casa para ficar em um hotel acaba, mesmo sem querer, assinando o atestado de fim de juventude. Você vai dormir num quarto longe dos seus amigos. Vai no banheiro longe dos seus amigos. Não tem uma bagunça da cozinha para dividir com eles. Não pode ligar o som e fazer todos ouvirem a mesma música. Não pode fazer barulho e acordar todo mundo antes do horário previsto. Você simplesmente se hospeda, envelhece e morre. Que medo. Que merda. Ainda bem que antes do hotel vem o albergue, que salva muita gente desse fim triste. Amém!

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Amores de festa de sábado à noite

Estava quente no quarto, era domingo, daqueles domingos que não têm absolutamente nada de especial, que o céu está azul e ensolarado, mas ninguém quer ir ao parque, nem tomar um sorvete, nem dar uma volta de bicicleta, nem nenhum clichê de domingo. Mais ou menos uma da tarde, por aí, uma cama de solteiro insuficiente para os dois, insuficiente até mesmo para um solteiro sozinho, e o calor visceral do ar, do sol e dos corpos semi-suados tentando dormir grudados naquele bafo sufocante.

Nenhum carinho, nenhum beijo de “bom dia meu amor”, nada. Não era amor, não era especial, não era nada demais. Ele passou por cima dela como se pulasse uma mureta, caminhou até o banheiro e por instinto fechou a porta à chave. O rosto no espelho, inchado, amassado, com olheiras e sem brilho. Água, muita água, água sem parar, um oceano de água doce da torneira para as mãos, das mãos para o rosto, do rosto para o espírito e do espírito para o ralo seco da pia. Escovou os dentes, olhou-se no espelho e gostou da nova cara: “bom dia!” disse, sorrindo para si e voltando para o quarto.

Ela estava acordada, com as costas oferecidas ao teto, os cabelos esparramados pelo travesseiro e vermelha. Gente de pele clara geralmente fica vermelha. Mesmo usando apenas calcinha, parecia estar tomada por um calor insolúvel e imutável. Sorriu para ele. Ele sorriu para ela e se beijaram comedidamente. Ele, com gosto de menta, ela, com gosto de guarda-chuva velho. É o mal de beijar pessoas recém acordadas. O encanto do “amanhecer ao teu lado” é aniquilado pelo cheio de podre da boca de quem bebeu, fumou, se drogou e dormiu logo em seguida. Ele tinha fumado, bebido, se drogado mais e dormido logo em seguida, mas acordou mais cedo e por isso não fedia mais. Nessas situações, dignidade é um sinônimo para gente limpa e saudável.

Ele se deitou sobre ela, com todo seu peso, com todos os seus ossos, músculos, pesos, pelos e poros. Passou a mão por baixo de seus ombros e agarrou com força os peitos dela, comprimidos contra o colchão, amassados como sua cara, como seus cabelos, como sua aparência toda. “Não, primeiro eu preciso tomar banho”, ela disse, e ele respeitou, a contra gosto, o senso de higiene mínima da moça. Balançando suas curvas suaves de mulher fora dos padrões de revista, segura e sensual, se jogou para dentro do banheiro como se fosse o seu próprio quarto. A cama de solteiro vazia e úmida, com o lençol todo amassado, vítima de uma noite de sono sem sexo, sem ações, sem emoção alguma. Drogados, bêbados e fodidos. Mortos. Deitados em uma cama, quase pelados, quase transando, quase gozando, mas só dormindo, recuperando vidas passadas em pesadelos péssimos.

Depois do banho ela saiu sem roupa. Já estava sem roupa antes, mas a ausência da calcinha dava um tom quase fraternal à cena. É estranho ver alguém pelado de cara, sem cerimônias, quando não foi você que tirou nenhuma das peças de roupa. Fica quase banal, nada sexy, nada erótico, só diário e simples. Mas ela foi na direção dele, meio seca, meio molhada, com os cabelos grudados na nuca, e durante alguns minutos se contentaram em apenas beijar o outro. Um beijo de verdade, sentindo o profundo gosto de pasta de dente, de boca quente com ar gelado, com ela acariciando os cabelos dele, com ele deslizando a mão pelos pontos molhados nas costas dela.

Daí, transaram um monte. Primeiro na cama, depois no chão, depois na sacada, depois no chuveiro de novo. Ele se cansou na segunda, ela foi quem forçou as outras duas. Homem quando não quer demora horas pra gozar e ela estava interessada nessa persistência, no martírio, naquela ardência que dá quando o sexo já passou do limite do saudável e normal, no quase sofrimento. Ela queria a câimbra, queria o suor abundante, a boca seca, a garganta arranhada dos gritos, dos urros, os dentes frios da boca ofegante e a pele toda vermelha, arranhada, estapeada, friccionada, gasta até o fim. Era já o fim da tarde, cinco, seis, sete horas. Céu escuro, fome aguda, bagunça instalada, desidratação suave. Eles deitaram mortos vivos de olho no teto sem dizerem mais nenhuma palavra. Coisa normal desses amores de festas de sábado à noite.

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Acumulação

Deu uma acumulada, é verdade, mas o principal problema não é esse, é que eu sempre prometo que vou tirar o atraso e ele só aumenta. Acumulou coisa de antes, teve coisa inacabada, coisas que eu deixei pra depois porque achei chato demais, outras que eu simplesmente abandonei antes mesmo de começar, porque não achei que era o momento. Tô falando dos livros. Meu quarto tá cheio de livros acumulados, que geralmente não estariam aqui, mas agora estão, porque a vida mesmo deu uma acumulada. E acumulou a porra toda, meio que num motim de faltas de fluidez.

Não sou capaz de ler mais de um livro por vez, só consigo assimilar uma história depois de ter terminado a outra, mas no momento tem umas cinco obras, com temas e levadas muito diferentes, inacabadas, espalhadas por esse meu palácio de 45m² que eu chamo de quarto. É muito metro pra muita coisa acumulada. As revistas, coitadas, estão embolorando a gosto do vapor do banheiro, ficando enrugadas e velhas mesmo antes de serem lidas. Tem revista de arte, misturada com revista de surf, misturada com revista de comportamento, misturada com revista de mulher pelada que não se assume como tal, misturada com revista de moda e tudo, tudo mesmo, misturado com roupas.

As roupas curtem mais o meu quarto do que eu mesmo. Esses dias minha camisa de flanela estava agarrada ao meu violão num coito selvagem que eu preferi não separar até hoje. Deu aquela acumulada, né! As roupas sujas estão misturadas com as limpas e eu já estou prevendo que vou ter que lavar tudo de novo porque já não sei o que foi que eu usei ou não. Perdi um pouco a noção das coisas com horários, das organizações básicas e da limpeza mínima. O vidro do box, da metade para baixo, está branco e embaçado, mesmo quando seco. É que já caiu tanto sabão que formou uma crosta que não derrete mais na água.

Desde que a Ilda pediu demissão e a gente ficou sem empregada, passei a tentar manter o quarto minimamente habitável para receber visitas e minha então namorada. Hoje não recebo ninguém, não vem ninguém, e quem vem, não passa do portão, lá fora, na rua, então a coisa foi ficando meio calamitosa. Tem moedas misturadas com cartões, misturadas com canetas coloridas, misturadas com folhas com desenhos de coração e outras com desenhos menos figurativos e importantes. As coisas foram se acumulando umas sobre as outras e agora a preguiça me domina porque, afinal, ninguém mais vem aqui.

Caras como eu, desse mesmo tipo, com essa merma energia e essas mesmas convicções, odeiam gente que caga regra. Caras como eu não conseguem viver do padrão e das normas sociais. Mas acima disso, caras como eu não conseguem viver muito tempo sozinhos. Começam a acumular coisas. Acumular saudades e objetos, embalagens vazias e roupas que ainda precisam ser lavadas. Caras como eu não lavam os tênis até que a sujeira comece a comer o tecido e não deixam a cama arrumada por nada nesse mundo.

Caras como eu, desse mesmo signo, dessa mesma aura, desse mesmo orixá, dessa mesma santa padroeira, desse mesmo ordenhado, dessa mesma região, não conseguem se cuidar. São muito bons em cuidar dos outros, manter as pessoas comendo, indo ao médico, tomando as vitaminas corretas e dormindo um número razoável de horas. Mas eu mesmo não consigo nada disso. Subi na balança de calça, jeans, tênis e camiseta, com o celular no bolso, e deu 95 kg. Antes, pelado, dava 97,5kg. Aposto que essa perda incrível foi só músculos, porque parei de ir correr, parei de ir pra academia, parei de pedalar e parei de comer. Acumulei paradas, acumulei livros pra ler, acumulei revistas velhas e acumulei roupas pra lavar. Só não acumulei convicções, opiniões e certezas. Essas a gente tem que renovar o tempo todo.

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Sensual e fictício

A porta fechada que era pra fingir que o mundo tinha parado de existir e tudo o que restava era aquele quarto. Os corpos tremendo de frio e tesão, cheios de pontas de dedos muito frias e narizes que pareciam bicos de gelo. No escuro, quase nada visível, quase nada pra ver e calma, uma extrema calma que descia dos cantos das paredes e lambia os pés da cama, as costuras e as franjas da cortina, os beiços do tapete e as nossas canelas.

De costas, apoiada na parede como quem acaba de ser pega pela polícia, me oferecia uma nuca lisa e comprida para eu beijar, lamber, morder e arranhar. Minha mão sumia por dentro dos cabelos, que se agarravam nos meus dedos e não largavam mais. Foi o primeiro começo de um par de pares de dias da gente se alisando como se tivéssemos mais intimidade que qualquer outra dupla no mundo, nos olhando sem roupas e sem defeitos, isentos de perfeição por opção e felizes com a nossa curiosidade.

Dias sentindo sua respiração quente ao redor da minha orelha, sua voz falhada e oscilante brotando do meio da escuridão e um calor concentrado que passava de mim pra você e depois voltava de novo, num ciclo de aquecimento natural quase imbatível. De dia ainda era escuro e a noite era 24h a dentro, mergulhada em todo tipo de troca de experiências e sensações. Eu passava meus dedos pelo seu rosto, desenhando o contorno da tua boca como um batom de festa, sentindo a ponta da tua língua surgindo por entre os dentes para fazer meu tato salgado receber as boas vindas do teu paladar voraz.

Beijos no olho, carinhos detrás da orelha, dedos entrelaçados debaixo de um sem número de cobertas, pelados e muito quentes, nos aproveitando um do outro para pura sobrevivência. Era tão sensual que chegava a doer ter que dormir. Fechava os olhos fora de controle desejando mais uma dúzia de noites muito bem gastas transando ao som de Los Hermanos, pedindo comida pelo telefone, bebendo vinho barato e usando a boca para beijar e lamber, mas quase nunca para falar.

Era tão erótico, tão intenso e, ao mesmo tempo, tão suave, que beirava a loucura, daquele tipo de sentimento que faz a gente pensar sobre largar o emprego, vender o apartamento e o carro, deixar o cachorro com a mãe e se mudar, de mala e cuia, de vez pra outro lugar. Tão bom, mas tão bom, mas tão bom, que não existia e, enquanto eu passava os dias desenhando uma fantasia cheia de delicadeza e sentimento, a vida real corria a passos largos acabando com toda a minha imaginação.

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O corpo da Sensação

Cheguei, cansado, com as malas mais pesadas do que no dia da partida, e atirei tudo ao chão. Sacolas, malas, presentes, fotografias e câmeras, fiquei só comigo, que já peso bastante. Não fiz questão de desfazer as malas para ser prático, mas para libertar os ares que a gente traz de outros lugares. As nossas roupas, nossos objetos, nossas solas de sapatos, trazem coisas de outros lugares. A gente não vê, mas esses ares se agarram a tudo que não é liso e viajam, vêm conosco, mudam completamente o nosso lugar de estar com sua presença invisível, mas inegável. Viajam nos pelos do corpo, também, esses novos ares.

Sentado no tapete, no centro, com as muitas roupas espalhadas ao redor, plásticos, papéis e panos, todos em círculo, comigo no centro, sentado, olhando, deixando que tudo saia de onde tem que sair e se instale onde tem que se instalar. Nunca se deve “bater” ou “limpar” roupas que chegaram de viagem, é uma perda irreparável de espíritos. Sentado ali vi acontecer o que há muito se tornou ritual para mim, mas que pouca gente aproveita: o nascimento de uma nova e colorida Sensação. Ineditismo em forma de corpo.

As pessoas voltam de viagem e a maior preocupação que têm com as roupas é em quando elas voltarão a ficar limpas. Ignorantes seres, somos nós, não? Demorei muito a aprender que, fazendo isso, perdia muito do que poderia me formar como pessoa. Hoje não mais. Hoje sei do surgimento da Sensação. E escrevo em letra maiúscula porque essa sensação é um Ser, é uma coisa, pra não dizer uma pessoa. É um corpo que se materializa de vapores, pequenos grãos de terra, poeira, cheiros e cores. Vai se formando todo colorido, se arredondando e rodopiando no ar, preenchendo um espaço vazio com alguma coisa quase vazia de matéria, mas cheia de significado. É uma Sensação, substantivo feminino, uma moça, um corpo de mulher.

E eu sentado ali, no meio das roupas todas espalhadas, vendo aquele corpo transparente se formar na minha frente e ansioso pelo final. Amarelo, azul, cor de laranja, lilás, preto, branco, cor de rosa, fúcsia, verdes e um monte de outras cores que eu ainda não sei o nome, rodando e crescendo. Estava diante de mim a minha Sensação. A do dia, a da semana, não importa. E ela me abraçou quente, pintando minha camiseta de outras manchas, e sentou-se em frente, na mesma posição. Eu toquei o meio de seu peito, onde deveria haver um coração, e ela fez o mesmo comigo. Nesse momento tudo escureceu de repente, como se apagassem a luz. É o que geralmente acontece.

Fica tudo escuro, preto, na verdade, com os contornos das coisas desenhado em neon e prateados, em torno de espirais coloridas e espécies de bastões, que ficam pelo ar, desenhando formas geométricas de simetria perfeita. Dura alguns minutos e depois, lentamente, as cores vão correndo para dentro das gavetas, dos cantos do quarto, por debaixo da cama e pra dentro dos bolsos das roupas. A mulher de pó e lembranças vai se dissipando, já não imita seus movimentos e vem te abraçar, num gesto de respeito e entrega tão intenso que é possível abraçar de volta e sentir um corpo ali, quente, que tem textura, que tem massa e conteúdo.

E foi o que aconteceu. Fiquei no centro do tapete abraçado a uma Sensação que nasceu depois da minha chegada, fruto das minhas memórias e experiências. Ficamos ali, grudados, trocando calores, por um tempo que não pude precisar e depois desapareceu. No chão, das cores que deveriam ser, todas as roupas sujas. Agora sim, estavam somente sujas. Não dá para confundir sujeira com registros de experiências. Quem vem à minha casa sem avisar encontra meu quarto todo cheio de roupas jogadas, e sapatos pelos cantos e cobertores e lençóis sem formato. É que eu não desperdiço as Sensações que adquiro por aí, pelos dias. Trago todas para casa e as abraço, como quem pede a um amigo que não vá embora. Eu não perco absolutamente nada do que eu vivo.

Você também não deveria perder, veio tudo com você, nos teus cabelos, nos teus pelos e nas tuas roupas…

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O circo no quarto

Por cima dos móveis da sala só copos, latas, garrafas e lixo. Lixo de festa, papéis estranhos, coisas amassadas, embalagens, e sujeira esparsa, acumulada, enfeiando a decoração. Cervejas, vodcas, combinados, vinhos, espumantes, frizantes, algumas solitárias garrafas d’água e uma ou duas latas de Coca-Cola. Da vermelha, com açúcar, pra misturar a vida, a noite, tudo num copo só e mandar para dentro. O tapete meio jogado no canto, o chão de madeira riscado de salto, de vidro quebrado, de pista de dança improvisada em festa sem controle.

No corredor pro quarto o aparador estava cheio de nada. Tudo que tinha em cima foi embora. Ou tiraram, ou caiu e se misturou com o resto da bagunça, não se sabe. Dois pés de ferro ligados a um tampo de vidro fixado na parede, manchas arredondadas de líquidos secos e sujeira. Na porta da frente, o lavabo, uma marca de mão suja no meio do batente. Suja de alguma coisa marrom, ou vermelha. Vinho, sangue, terra, tanto faz. Passou ali e deixou a marca. Passando pela porta uma montanha de papéis empilhados no cento de lixo, uma pia um pouco vomitadinha, assim, no canto, de leve, de bêbado que tentou lavar a merda mas não teve muito empenho.

Mais pra frente, na segunda porta, o quarto de hospedes. Acabado. A cama de solteiro está só o estrado, com o lençol todo embolado num canto, o colchão meio em baixo, meio em cima da armação e uma porção de objetos aleatórios no chão. O controle da TV, um cinzeiro virado, alguns porta retratos com fotos de viagens minhas, um monte de flores de plástico, uma furadeira sem broca, alguns copos, latas e uma bolsa de mulher que não me animei a investigar. Na parede, inusitadatamente bem escrito, numa caligrafia feminina, delicada, feita a batom cor de rosa, um recado. “Fui chupada aqui” e uma seta apontando para a cama sem colchão. Bom pra ela, acho.

Lá no fundo do corredor a porta do quarto, do meu quarto. Dentro, um cômodo nitidamente mais organizado que o resto da casa. A cama, de casal, está pelada, com o colchão sem lençol, cobertor ou coisa que a cubra. No chão um par de sutiãs de cores diferentes, um vestido, um pedaço de pano retorcido que adivinhei ser uma calcinha minúscula e o resto até que estava inteiro. O telefone do criado mudo foi para o chão, o abajour estava milagrosamente inteiro, nada escrito na parede, umas três ou quatro garrafas perto da parede, copos e um par de pernas jogadas do outro lado, depois da cama. Fui até lá e um corpo de mulher jovem dormia jogado entre o edredom que deveria estar sobre a cama.

“Bom dia”, desejei a ela, que estava acordando com a minha presença. A voz saiu rouca, grave, seca e o copo d’água na minha mão era um sinal de que o corpo precisava descansar. Ela se virou para mim, com os cabelos escuros grudados na cara, bagunçados e sem formato e percebeu que estava sem roupa nenhuma. Se cobriu assustada, me olhou de novo, olhou para o quarto, ao redor, para si mesma e perguntou da outra. “Foi embora, deixou um sutiã e você…”, e sorri, porque não tinha outra cara para fazer diante de alguém que foi deixado para trás. Durante alguns segundos ela ficou parada, em silêncio, como se recuperasse memórias de muito longe, até me olhar com um rosto muito sério e temeroso perguntando o que a gente tinha feito ali. “Pra resumir, foi como ter um circo dentro do quarto!” e saí pra ela poder assimilar.

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Domingo

Era dezembro, um calor do caralho e eu me lembro de tudo, porque determinados momentos nunca somem. Sempre me incomodei com altas temperaturas e, por isso, no verão acordo cedo, que é o momento em que meu corpo já não aguenta mais cozinhar na cama. Nesse dia a cama não era minha, mas o horário era o mesmo de sempre. Acordei e tentei sair do quarto quase incógnito. Me movimentava bem lentamente, tentando fazer o mínimo de barulho, olhando para ela e torcendo para que não acordasse. Mulheres com sono leve são o pesadelo de amantes insones.

A casa faz silêncio durante as manhãs de sol, né? Já reparou? Quando você acorda primeiro e caminha pelos cômodos é como se tudo fosse mais silencioso do que em qualquer outra parte do dia. Nem de madrugada é tão agradável, porque é o horário que os móveis têm para conversar, então me sinto atrapalhando ou interrompendo alguma coisa importante. Mas de manhã é tudo branco, lindo, macio e calmo. E lá estava eu, de bermuda e camiseta, naquela casa cheia de ausência e carente de atenção.

O domingo começou com sol, pão francês do dia anterior, leite puro e um pedacinho de chocolate meio amargo que estava escondido na porta da geladeira. Suspeitei que fosse o “chocolate de emergência”, aquele que as mulheres precisam num momento de desespero antes de matarem alguém ou explodirem a própria cabeça. Voltei pro quarto pisando macio, ela permanecia na mesma posição, mergulhada em um milhão de sonhos por segundo.

Pelo meio do lençol embolado com o cobertor um pedaço de corpo aparecia para ver o amanhecer. Um pedacinho das costas, a parte do fim da coluna, onde o corpo faz uma curva negativa antes de subir de novo pra formar uma das bundas mais lindas que eu já vi. Mas isso eu não dizia para ela, era como se fosse uma opinião que eu precisasse guardar para que não perdesse o valor. Além da cama enfeitada com aquele corpo quente e adormecido, o quarto me reservava uma cadeira sem braços colocada no canto, ao lado da porta, com o meu violão apoiado na parede.

Sentei como quem está prestes a assinar um contrato importante, botei o violão no colo e me transportei para algum lugar no ar entre mim e a cama. Tocava Adriana Calcanhoto com uma devoção que não era minha, num estilo que não era meu, com um olhar que não cabia no meu rosto. Ela se mexeu, retorceu e, quase como quem ouve um chamado do além, abriu os olhos com segurança, sem fechá-los depois, em vigília, em atenção, até relaxar e perceber que a voz era minha, que o violão era meu e que ainda era domingo.

Virou-se com o rosto para cima, olhou para mim pelo meio das pálpebras inchadas e sorriu, me fazendo sorri de volta. “Você é foda…”, me lançou, com voz de quem se espreguiça por completo ao mesmo tempo em que boceja. Depois sentou-se na cama, arrumando os cabelos e deixando os peitos aparecendo sem nenhum pudor. Essa falta de vergonha da própria imagem sem roupas diante de um homem só tem um significado: total devoção.

Ficou me olhando, sorrindo, enquanto eu cantava que perdia as chaves de casa, que estava dividido em mil pedaços de cacos e me questionava onde “ela” estaria agora. Para minha calma e felicidade, estava bem diante de mim, nua, descabelada, sonolenta e apaixonada. De repente, no meio da música, entre a segunda estrofe e o refrão, saltou da cama e me tirou o violão. Arremessou o instrumento sobre o colchão, sentou-se no meu colo, de frente para mim e me beijou com uma boca com cheiro de morte e solidão.

Ficamos ali, agarrados, sentindo o sol subir, iluminar e esquentar tudo ao redor, enquanto a gente se gostava com calma, com atenção, sentindo a respiração do nariz do outro, tateando o corpo sem a menor pressa. Ela segurava a minha cabeça, me beijava com certeza, com determinação, com paixão inignorável. Na minha mente, além da textura perfeita daquela pele, da pressão daqueles peitos contra o meu peito, da força daquelas coxas ao redor da minha cintura, eu ouvia com todos os timbres e notas, a mesma música, a mesma que eu tocava antes, soando com a minha própria voz no meio do silêncio, pairando no inconsciente coletivo daquele quarto particular naquele domingo de um calor inexplicavelmente agradável.

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O amante

Ela não sabia de nada, absolutamente nada, mas eu a deixava me assustar com suas caras e bocas, como se fosse perigoso mentir. Meu nome não era o mesmo, minha família não existia do jeito que eu havia contado, meus amigos tinham outros nomes, empregos e objetivos, tudo era diferente do que ela pensava ser real. Mas eu gostava assim! Dava a ela um poder tão cru e controlador que nada podia deixá-la mais atraente. Não existe nada mais sexy do que uma mulher poderosa.

O ritual se repetia, como se eu fosse prisioneiro de algum tipo de cativeiro, uma cela, uma tocaia que me armaram e me botaram sobre constante vigilância. Eu acordava, ainda com o céu escuro e ao pé da cama estava ela. Na mesma posição das outras vezes, com o mesmo olhar das outras vezes, fazendo a mesma coisa que fazia nas outras vezes. Acordava pelada, vestia sempre, no máximo, a calcinha, sentava-se na cadeira que fica no canto do quarto, cruzava as pernas e me assistia dormir. Nesses momentos ela tinha certeza de que me tinha na palma da mão e sentia prazer com isso.

Horas depois eu abria os olhos e o quarto fedia a cigarro. Olhava para ela e recebia de volta um olhar desafiador e sarcástico, com um sorrisinho cínico no canto da boca e uma sobrancelha mais alta que a outra. Nua, sexy, fumando como quem beija a boca de um anjo e se insinuando para mim. Era uma mulher fantástica, dos cabelos loiros compridos, nem lisos nem enrolados, do tipo que as moças surfistas americanas têm, daqueles que fazem grossas vírgulas nas pontas e parecem ser mais pesados do que realmente são. Tinha a pele branca que beirava um tom azulado translúcido e gostava de ser assim. Ao menos é o que parecia, já que não me lembro de tê-la visto com vergonha de tirar a roupa nenhuma vez.

Fumava com calma, soltando a fumaça como se fossem nuvens de leite que saem da boca para lamberem o nariz, a testa e a franja. Me olhava quieta, com movimentos lentos e eu, sentado na cama, abraçado aos joelhos, olhava de volta, com os olhos inchados e a barba selvagem. Depois de algum tempo ela sorria, eu sorria de volta e ela decidia se levantar. Ajoelhava devagar sobre o colchão e vinha como um felino macio engatinhando para mim. Eu, propositalmente, me fazia surpreso e deixava que ela comandasse todo o teatro.

Amantes gostam de encenar, eu acho. Elas fogem da realidade de suas vidas para serem outras mulheres, com outros caras, que gostam de outras coisas e que estão com elas por outros motivos. Acredito que quando uma mulher aceita ser “a outra”, ou quando decide arranjar um “outro” para si, automaticamente adquire características diferentes das que costuma ter em sua rotina. Principalmente no que diz respeito ao sexo. São situações de fuga, de adrenalina, medo e tesão puro que fazem com que o segundo encontro aconteça e assim por diante. Para algumas pessoas a infidelidade é mais instigante que o amor.

Eu estava diante de uma manifestação desse tipo de pensamento. Já sabia que ela não fumava quando estava fora do meu quarto. Também sabia que tinha uma vida sexual conservadora, que seu marido não era criativo e que, por isso, ela também não se estimulava a ser. Sabia que aquela calcinha mínima era exclusividade dos meus olhos, que aquele corpo liso naquelas posições que eu via só se contorciam daquelas maneiras para mim e que, se tudo desse errado, a parte mais selvagem da vida daquela mulher desapareceria para sempre. Era o que ela dizia.

No fundo, mesmo que negando, eu sabia que tudo que eu sabia sobre aquela vida podia ser parte de uma ficção calculada, assim como a que eu oferecia para ela. O bom dessa mentira é que não importa. O teatro fazia mais sentido, a sinceridade estava nos sons, nos gestos e nas entregas, não nas palavras. Ela nunca falou em amor. Eu nunca achei que deveríamos falar um dia, estava bom do jeito como vivíamos. Sexo, violência, segurança, mentiras e periodicidade. Eu descontava todas as minhas escolhas erradas no campo afetivo em 12 horas de companhia. Ela aprendia e testava todas as teorias físicas e anatômicas em 12 horas de devoção. O tempo era o mesmo, os objetivos não.

No fim o ritual era sempre o mesmo. Ela vestia as roupas, me sorria com os dentes à mostra e dizia tchau, mandando um beijo no ar. Entrava no carro dolorida, com o abdome rígido, as pernas trêmulas, as coxas assadas e os peitos vermelhos, mordidos e inchados. Chegava em casa e cuidava da vida doméstica, estéril e branca que assumiu quando se casou, como quem dá sinal para um ônibus na rua: da forma mais natural e banal do mundo. Ia à padaria, pedia o pão e deixava mais cinco paus no Marlboro que, ali, era comprado para o marido – que nunca foi fumante.

No fim das contas, aceitava uma vidinha comum, meio feliz, meio colorida, meio interessante, contando quinzenas, administrando ciclos menstruais e sonhando com violências sexuais que aquela casa jamais presenciou. Sonhava mais com sexo do que com a minha companhia, com o meu disfarce de homem indefeso ou a minha voz. Não me amava, nunca me amou e talvez nunca me amará, mas ela sempre voltava. E fazia isso porque tinha amor. Amor próprio, amor pela vida e amor pelo tempo que não devemos perder nunca e amor pelos espásmos que o corpo tem de ter, pelas gostas de suor que o corpo tem que expelir, pelos gritos que a garganta tem que gritar e pelas peles que as unhas precisam arranhar. Ela voltava porque aqui, no meu quarto, na minha casa, dentro da minha falsa vida, ela era real.

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Tempo?

Primeiro pensei que era um sonho. Vasculhava o quarto com os olhos tentando identificar algum outro elemento absurdo. Sei lá, a foto de alguém que eu não conhecia, ou objetos de outra pessoa no meu ambiente, uma cor diferente, algo que comprovasse que eu não estava fisicamente ali. Depois que percebi não estar mais dormindo, suspeitei de uma daquelas alucinações que a gente tem quando vê uma sombra e acha que é alguém, ou quando ouve alguma coisa e tem a impressão de ter escutado chamarem nosso nome. Fiquei olhando, vidrado, tentando identificar algum pedaço do canto da parede, do detalhe do gesso no teto, mas nada. Tinha mesmo alguma coisa ali.

Ficava percorrendo todo o contorno do teto e me subia um frio na espinha toda vez que via aquela sobra escura, mais escura que a própria escuridão, no canto do quarto. Quando a vida se torna incerta assim, mostrando as coisas que desafiam o nosso senso de realidade, é difícil se mover. Eu não conseguia sequer mover minha cabeça. Estava completamente petrificado por um medo que já não cabia e mim e começava a transbordar, saindo pelos poros, encharcando o lençol e escorrendo pelas beiradas da cama, caindo no chão, molhando o tapete e seguindo para fora da porta. Eu estava me derretendo em um medo inédito, até então.

Comecei a respirar ofegante, sentia o cobertor subindo e descendo com meu peito se enchendo e esvaziando de ar. Senti tontura, fechava os olhos e sentia medo de aquela coisa pular em mim. Ficava de olhos abertos e o medo mudava, tinha medo simplesmente de detectar algum movimento, uma luz, um som ou algo do gênero. Eu queria muito que não fosse real. O tempo passou e eu continuava vendo a mancha escura. Meus olhos foram se acostumando com a escuridão e às vezes tinha a impressão de ver um relevo, como se fosse uma espécie de planta, um monte de vasos de samambaia amontoados no canto do meu quarto, tinha umas folhas que pendiam, outras grudadas na parede, mas não tinha certeza.

Consegui, depois de muito tempo, mover o braço e, sem tirar os olhos daquilo, tateei ao lado do corpo procurando o controle da televisão. Senti o plástico frio surgir na ponta dos meus dedos e por alguns instantes pensei ter encontrado a salvação e a solução de todos os problemas do mundo. Apontei para a estante e, mesmo que sem certeza, tive a impressão de que a sombra se movera. Sentia-me acuado, vigiado, como se não fossem mais plantas, mas sim alguma coisa com olhos, dentes, narinas e cérebro. Apertei o botão e o flash de luz clara e colorida me deixou parcialmente cego por alguns segundos.

Era alguém! Tinha pernas, braços, cabelos compridos e parecia respirar. Desisti do medo, da escuridão e de tudo mais. Levantei o corpo como uma máquina que fica em posição de começar a trabalhar e bati a mão no interruptor de luz. Pronto, agora estava tudo claro, nítido e visível, mas não menos assustador. Grudada no canto do quarto, completamente nua, com os cabelos molhados, como se fosse suor, óleo, algo assim, estava minha ex-namorada. Era ela mesmo, não alguém que se parecia com ela, como acontece nos sonhos. Era ela, sem nenhuma dúvida, sem nenhuma roupa, grudada no teto com as costas bem no canto, as pernas dobradas com os joelhos perto do peito e os pés na parede, com as mãos no teto, também grudadas, como se tivesse ventosas, cola, algo assim.

Estava ali, me olhando com olhos de quem não está em sã consciência e, por alguns instantes, senti mais medo do que tudo na vida. Aí ela sorriu e da boca, antes fechada, escorreu um líquido grosso, escuro, que pela cor e maneira como caia e escorria pelo queixo, só podia ser sangue. Sorriu para mim com os dentes manchados de uma mistura de vermelho e marrom e aquilo me arrepiou completamente. Como se fosse normal, esticou as pernas se apoiando na parede e empurrou o corpo em direção ao teto. Veio engatinhando ao contrário, numa posição difícil de explicar, e parou exatamente sobre a minha cabeça. Se agachou no teto – se é que é possível imaginar essa posição – e agora tocava o teto com as solas dos pés e com as palmas das mãos ao lado do corpo.

“A gente precisa conversar, amor! Você tem um tempo para mim?” disse ela, sorrindo muito, estranhamente bem humorada, estranhamente muito doida. Era ela, a voz era dela, era tudo dela, menos aquela cena, aquele sangue e aquele cabelo estranho. E claro, não fazia o menor sentido o fato de ela estar grudada no teto. Fiquei olhando para ela, bem dentro dos olhos, esperando alguma nova reação. Mas ela não fazia nada. Respirava, babava sangue e me olhava vidrada. Depois de um tempo percebi que ela não pisca. Pelo que entendi ela está esperando uma resposta. Quer saber se eu tenho tempo. Sinto que se eu me mover demais, serão meus últimos suspiros. Então estou aqui, pensando, tentando achar uma maneira de não ter “uma conversa” com essa coisa que se grudou sobre a minha cama. Já faz umas 20 horas que eu tô aqui. E ela não pisca!

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