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Eu vou mudar a sua vida!

A porta abre e ele vem na minha direção com o olhar voraz de uma serpente. Se esgueira pelos cantos, atravessa o corredor ladeando os batentes de porta e a moldura da janela e não para mais. Quando chega ao quarto eu já estou no chão, mole, entregue, com as meias pinicando e o cabelo sem formato. Nunca conheci um homem que me fizesse sentir dessa maneira, uma intensidade absurda, a vontade de gritar antes do primeiro beijo, a tremedeira sem controle, os arrepios que duram meses. Troquei meu medo da morte pelo medo que sinto quando ele chega. É uma sensação tão animal, tão primitiva e tão clara que nunca fui capaz de saber o que me amedronta. O medo que sinto dele já nasceu comigo, ou talvez antes de mim.

Às vezes, quando eu desperto durante a madrugada enquanto ele dorme, abro a porta do quarto e vou para fora ver o céu. Sempre que a gente transa eu fico com vontade de ver o céu, olhar as estrelas, a lua, respirar o vento frio da noite. Até hoje, com ele, tenho orgasmos em forma de galáxias e sinto como se minha alma estivesse mordendo alguém. Almas são capazes disso? A vida parece pequena perto de toda a intensidade que ele me traz. Meus poros se abrem a ponto de fazer minha pele arder e eu suo ofegante do começo ao fim, me sentindo esgotada e vazia durante horas. Ele leva embora algo de dentro mim. Algo profundo, sem nome e insubstituível. Sinto a existência se dobrando quando acaba.

Quanto tempo dura um sonho acordado? Me espanta a força física, a resistência, a determinação, não há cansaço capaz de fazê-lo parar, súplica suficiente que o detenha. Eu bebo água, olho para o relógio no criado mudo e volto, porque quando ele está aqui minha vida não pertence mais a mim. Eu não sou minha caso ele esteja por perto. Eu mudaria de nome para tê-lo todos os dias. Derrubaria minha árvore genealógica e usaria sua madeira para construir um castelo para nossos sonhos. No fim, quando ele coloca a roupa e anuncia a partida, tenho vontade de morrer. Meus antepassados se grudam a mim e me seguram nesse mundo numa tentativa de não me perder dentro dos meus próprios desejos. Na última vez ele deixou o dinheiro no mesmo cinzeiro de sempre, me beijou e, segurando meu rosto muito próximo do seu, penetrando meu olhar com seus olhos de morte, me disse que mudaria minha vida.

“Eu vou mudar a sua vida!”, ele disse. É o sonho de todas as meninas aqui da boate, mas eu tirei a sorte grande. Eu acho…

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Skinny Love

Ela dançando na sala, as luzes apagadas e o abajour do canto iluminando só os contornos dos móveis. Poucos móveis porque sempre gostei de andar pelos cômodos, gosto de passar pelos lugares e sentir os pés tocando cada pedaço de chão da casa, então não perdi tempo comprando tapetes, aparadores, mesinhas e coisas do gênero, que na verdade só servem para atrapalhar o caminho. Um sofá comprido, pra uns 10 lugares, tomando conta do canto da sala. Na ponta, um abajour de tripé, na parede três linhas de prateleiras com quadros, fotos e livros. No chão um móvel com um aparelho de som e algumas esculturas sem importância. Na parede oposta à do sofá, duas poltronas marrons de tecido macio olhavam para a varanda, enquanto, nas costas delas, duas cadeiras pretas pintadas com tinta fosca olhavam para o centro da sala vazio e reluzente. Ali estava ela.

Dançava com as pernas juntas, balançava a cintura de um lado para o outro, dobrava os joelhos delicadamente e fazia movimentos aéreos com os braços ao redor do corpo, enquanto movia a cabeça em trancos ríspidos fazendo a cabeleira flutuar no ar. Sentado em uma das cadeiras, ocupando uma das mãos com um copo generoso, assistia àquela dança sensualmente hipnotizante como se fosse um evento sobrenatural. Não parecia sensato ou mesmo possível que alguém tivesse aquele corpo. Na sombra amarronzada misturada com o brilho amarelo da luz uma porção de curvas inéditas se apresentava em movimentos curtos, contidos e perturbadores. “Slide, slide, slide … lose yourself to dance”, dizia a música que tocava, e ela deslizava pelo chão de cimento queimado liso, vestindo apenas meias pretas que se seguravam folgadamente às suas coxas.

Os cabelos eram compridos e lisos, vivos, balançando de um lado para o outro, quase com vida própria, e ela sorria – eu ao menos imaginava que sorria, já que não via muito bem seu rosto – enquanto dançava perdidamente pela minha sala. Eu bebia a goles curtos e suaves, sem descolar os olhos e observando as curvas. Mais do que curvas, eu observava a sombra que elas formavam, os contornos e os desenhos que produziam naquele corpo inédito. Essa é a melhor palavra para definir o corpo daquela garota: inédito. Eu nunca vira alguém com um corpo daqueles sem roupa ao vivo. Só em fotos de revistas, coisas de internet e afins, mas na vida real não havia encontrado nada parecido. Depois ela veio roçar as pernas duras em minhas coxas e sentar no meu colo, inesperadamente pesando menos que uma pluma. Eu passava o copo gelado pelo meio de suas costas e sentia sua pele se arrepiar por inteiro, dos pés à cabeça, enquanto ela passava a língua atrás da minha orelha.

No dia seguinte acordei sem me lembrar que estava acompanhado. Apenas ao olhar para o cabelão misturado com o lençol foi que me recordei da dança, dos copos, do sexo, dos gritos, das risadas, da sacada, da mesa da cozinha, das acrobacias e todo o resto. Tinha sido uma noite muito louca, para definir o mínimo. Ela dormia calma, respirando lentamente e eu, agora amparado pela luz do dia, olhava hipnotizado para seu corpo. Uma menina de 20 e poucos anos, um rosto lindo e delicado, um braço rebelde tatuado quase até o cotovelo e um corpo raro, de formas difíceis de encontrar e mais ainda de manter. Tomei banho e quando voltei ela estava se vestindo, deixando claro que as roupas lhe sobravam em muitos dedos por todos os lados do corpo. Ela me sorriu um riso tímido e eu retribuí na mesma medida. Era a garota mais magra que eu já tinha visto na vida.

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E se a gente saísse numa aventura?

E se a gente não voltasse mais pra casa? E se a gente pegasse seu carro e fosse dirigindo pra longe, pra qualquer lugar, passar uns dias, até o dinheiro acabar, até alguém achar que a gente não tem o direito de ficar longe tanto tempo? E se a gente vivesse de luares estrelados, noites congelantes, música mixadas pelo Saux, sexo no banco de trás, comida congelada e motéis de beira de estrada? E se a gente pudesse ficar horas e horas abraçados, trocando calor e frio, suando um sobre o outro e sentindo as gotas escorrendo pela pele, trocando cheiros e texturas, respirando e comendo sal durante um sem número de horas?

E se depois disso pudéssemos voltar no tempo, viver no tempo em que o inverno era frio, o verão era calor, os carros faziam barulho de motor e as pessoas eram magras comendo óleo e tomando refrigerante com mais açúcar que água? E se você, de repente, tivesse permanente no cabelo, usasse um lenço no pescoço, tivesse calças brilhantes e lingeries sem bojo ou armação, de tecido cintilante e macio? E se a gente se perdesse no meio da pista como n’Os Embalos de Sábado à Noite, fazendo passinhos, ditando moda, sendo mais incríveis do que qualquer casal?

E se, então, a gente não fugisse no seu carro, mas pegasse um ônibus para ir ver o mar? E se a gente comprasse passagens para o turno da noite e cruzasse o estado num Cometa velho, com bancos de couro macios e barulhentos, desejando um mar mais ao sul, mais frio, de areia mais fofa e úmida? E se a gente fosse para o Rio Grande do Sul, de cabelos oxigenados, roupas simples, pedindo emprego em fazendas cheias de vacas leiteiras e finais de tarde cinematográficos por detrás das montanhas? E se a gente vivesse numa cabana, comendo, bebendo vinho, transando debaixo de cobertores peludos e pesados, gastando mais tempo no pós-coito do que nas preliminares?

Mas e se a gente simplesmente sair por aí, vivendo de excessos, de balada em balada, bebedeira em bebedeira, de ressaca em ressaca, até o corpo pedir arrego? A gente podia viver três dias sem dormir, indo a todas as festas, visitando amigos, usando drogas, bebendo em larga escala e pulando de táxi em táxi, metrô em metrô, balcão em balcão, não podia? E se a gente comprar umas roupas bonitas e tentar entrar de bico nas festas de gente famosa, sair na Caras, na Quem, no Ego, na TiTiTi, no TV Fama, ser entrevistado pelo Pânico! e depois rir de todos eles com nosso olhar alucinado de cocaína e vodca?

Ou então, quem sabe, você poderia ficar. E se você decidisse simplesmente não ir embora? E se você ficasse essa noite, sem excessos, sem contos de fada, sem odisseias hollywoodianas, nem maratonas sexuais, nem campeonatos etílicos ou de entorpecentes. Só uma noite tranquila juntos, ouvindo o som dos carros lá embaixo, ouvindo o som metálico das estrelas e sentindo a briza fresca da noite entrar pela janela do quarto e escapar pela porta da sacada, na sala. A gente pode tomar qualquer coisa, até água, pode comer qualquer coisa, até bolacha sem recheio, pode ficar só juntos, sem falar, sem planejar nada, só trocando ondas, pensamentos e sentindo um a presença do outro. Isso, sem dúvida, seria minha maior aventura com você!

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Amores de festa de sábado à noite

Estava quente no quarto, era domingo, daqueles domingos que não têm absolutamente nada de especial, que o céu está azul e ensolarado, mas ninguém quer ir ao parque, nem tomar um sorvete, nem dar uma volta de bicicleta, nem nenhum clichê de domingo. Mais ou menos uma da tarde, por aí, uma cama de solteiro insuficiente para os dois, insuficiente até mesmo para um solteiro sozinho, e o calor visceral do ar, do sol e dos corpos semi-suados tentando dormir grudados naquele bafo sufocante.

Nenhum carinho, nenhum beijo de “bom dia meu amor”, nada. Não era amor, não era especial, não era nada demais. Ele passou por cima dela como se pulasse uma mureta, caminhou até o banheiro e por instinto fechou a porta à chave. O rosto no espelho, inchado, amassado, com olheiras e sem brilho. Água, muita água, água sem parar, um oceano de água doce da torneira para as mãos, das mãos para o rosto, do rosto para o espírito e do espírito para o ralo seco da pia. Escovou os dentes, olhou-se no espelho e gostou da nova cara: “bom dia!” disse, sorrindo para si e voltando para o quarto.

Ela estava acordada, com as costas oferecidas ao teto, os cabelos esparramados pelo travesseiro e vermelha. Gente de pele clara geralmente fica vermelha. Mesmo usando apenas calcinha, parecia estar tomada por um calor insolúvel e imutável. Sorriu para ele. Ele sorriu para ela e se beijaram comedidamente. Ele, com gosto de menta, ela, com gosto de guarda-chuva velho. É o mal de beijar pessoas recém acordadas. O encanto do “amanhecer ao teu lado” é aniquilado pelo cheio de podre da boca de quem bebeu, fumou, se drogou e dormiu logo em seguida. Ele tinha fumado, bebido, se drogado mais e dormido logo em seguida, mas acordou mais cedo e por isso não fedia mais. Nessas situações, dignidade é um sinônimo para gente limpa e saudável.

Ele se deitou sobre ela, com todo seu peso, com todos os seus ossos, músculos, pesos, pelos e poros. Passou a mão por baixo de seus ombros e agarrou com força os peitos dela, comprimidos contra o colchão, amassados como sua cara, como seus cabelos, como sua aparência toda. “Não, primeiro eu preciso tomar banho”, ela disse, e ele respeitou, a contra gosto, o senso de higiene mínima da moça. Balançando suas curvas suaves de mulher fora dos padrões de revista, segura e sensual, se jogou para dentro do banheiro como se fosse o seu próprio quarto. A cama de solteiro vazia e úmida, com o lençol todo amassado, vítima de uma noite de sono sem sexo, sem ações, sem emoção alguma. Drogados, bêbados e fodidos. Mortos. Deitados em uma cama, quase pelados, quase transando, quase gozando, mas só dormindo, recuperando vidas passadas em pesadelos péssimos.

Depois do banho ela saiu sem roupa. Já estava sem roupa antes, mas a ausência da calcinha dava um tom quase fraternal à cena. É estranho ver alguém pelado de cara, sem cerimônias, quando não foi você que tirou nenhuma das peças de roupa. Fica quase banal, nada sexy, nada erótico, só diário e simples. Mas ela foi na direção dele, meio seca, meio molhada, com os cabelos grudados na nuca, e durante alguns minutos se contentaram em apenas beijar o outro. Um beijo de verdade, sentindo o profundo gosto de pasta de dente, de boca quente com ar gelado, com ela acariciando os cabelos dele, com ele deslizando a mão pelos pontos molhados nas costas dela.

Daí, transaram um monte. Primeiro na cama, depois no chão, depois na sacada, depois no chuveiro de novo. Ele se cansou na segunda, ela foi quem forçou as outras duas. Homem quando não quer demora horas pra gozar e ela estava interessada nessa persistência, no martírio, naquela ardência que dá quando o sexo já passou do limite do saudável e normal, no quase sofrimento. Ela queria a câimbra, queria o suor abundante, a boca seca, a garganta arranhada dos gritos, dos urros, os dentes frios da boca ofegante e a pele toda vermelha, arranhada, estapeada, friccionada, gasta até o fim. Era já o fim da tarde, cinco, seis, sete horas. Céu escuro, fome aguda, bagunça instalada, desidratação suave. Eles deitaram mortos vivos de olho no teto sem dizerem mais nenhuma palavra. Coisa normal desses amores de festas de sábado à noite.

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EU A QUERIA MAIS QUE TUDO NO MUNDO (PARTE 2)

Demorei alguns segundos para perceber que estava tocando uma música. Ela tinha ligado o celular em alguma espécie de caixa de som high-tech que eu tinha achado que era um banco no chão. Largou as roupas todas pelo chão, estirou os pés sobre a mesinha de centro e ficou dançando como quem está sozinho no último lugar do mundo antes do apocalipse. Ela queria que eu a visse, mas não queria se sentir observada. “Dance como se ninguém estivesse olhando” eu pensei, tentando traduzir os olhos fechados dela, os braços pairando descontrolados no ar e os cabelos estapeando o rosto por todos os lados. Mesmo estando completamente nua a cena parecia muito mais sensual pelos movimentos do que pela falta de roupas. Ela parecia gostar mais do próprio corpo do que qualquer homem que um dia – inclusive eu – tivesse admirado seus formatos.

Ela, vez em quando, me olhada e sorria, enquanto eu continuava paralisado de pé, de costas para a janela gigante, olhando um absurdo de mulher dançar para mim. Em determinado momento ela desceu da mesa, envolveu meu pescoço com delicadeza usando os longos e longilíneos braços que tinha, enquanto me beijava com calma e calor, fazendo, pela primeira vez, o tesão vencer a embriagues. Depois do beijo ela pegou minha mão e me guiou até uma espécie de poltrona grande e sem braços. Me mandou abrir as pernas, ficou em pé na minha frente e me ordenou que a tocasse. “Me alisa!”, ela disse, imperativa e simples assim. Eu corria os dedos pela curva firme e infinita de sua cintura, desenhava o contorno de seu umbigo seco e tímido perdido numa imensidão chapada de uma barriga em forma de tábua. Ela era uma sombra escura e sensual se arrepiando com a minha exploração minuciosa e, com um pouco de atenção, eu podia ver a pelugem quase invisível que cobria toda sua pele se arrepiar.

Depois de algum tempo passeando com as mãos por seu corpo, ela se virou, sentou-se em meu colo com as costas pesadamente coladas em meu peito e, agarrada às minhas duas mãos, guiou-me pelos lugares em seu corpo que eu não podia ver. “Me faz gozar!”, ordenou novamente, enquanto apertava uma de minhas mão em um dos seios, guiando a outra para o meio das coxas abertas e apoiadas sobre os meus joelhos. Era um jogo. Demorei a perceber porque estava bêbado demais, perdido demais na escuridão do apartamento que só me mostrava contornos iluminados pela cidade além do vitrô imenso da parede oposta. Não precisava, mas fiz questão de fechar os olhos para sentir com as mãos o que, de qualquer maneira, eu não teria como ver. Ela ofegava se movimentando descontroladamente, arranhando meus braços e me dando sinais do que fazer para cumprir a ordem que me fora dada. Eu tinha de fazê-la gozar.

Um grito, uma súbita contração dos músculos e a mulher que se oferecia ao além no meu colo agora fechava-se rumo ao seu próprio centro, enquanto eu ouvia sua voz e seus gemidos saírem de uma boca de dentes cerrados com força. Levantou-se mole e me chamou para levantar junto. Sem perguntar nada ou avisar, puxou minha camiseta para fora do corpo, abriu minha calça, abriu o zíper da minha calça, tirou qualquer pano que pudesse me cobrir e ficou um tempo me olhando. Me olhava como quem mata curiosidade, como quem lê uma notícia importante. Eram olhos de “humm, é assim que você se parece!” e por alguns instantes me senti extremamente invadido. Ao contrário dela, ser observado sem pudor não me deixava excitado.

Nos beijamos durante algum tempo, trocando carícias delicadas e lentas. São momentos como esse que mostram que a vida é feita para degustar, e não simplesmente engolir. Eu sentia sua respiração quente, suas mãos lisas percorrendo meus braços, seus pelos pubianos roçando em mim e não tinha nenhuma pressa de passar para qualquer outro tipo de contato. “Eu sempre quis fazer isso”, sussurrou em meu ouvido, antes de desgrudar de mim e caminhar para a janela. Abriu as duas lâminas de vidro para os lados, deixando entrar uma rajada mortal de vento gelado no apartamento. Com os vidros abertos a cidade continuava silenciosa, com seus sons feios de buzinas e pessoas abafados pelo com do vento violento. A visão dela debruçada na janela olhando o horizonte se misturava com a própria cidade iluminada e, sem querer, me senti com sorte e feliz: eram duas versões do paraíso, cada uma com seu brilho.

Ela me olhou por cima dos ombros, sem se virar, e me chamou para me juntar a ela. “Eu sempre quis fazer isso, mas pensando bem, só faria sentido fazer isso com você. Você dá valor pras coisas importantes!”, disse. Eu não fazia a menor ideia do que ela queria dizer, nem do que era o “isso” a que ela se referia. Mais uma vez sem avisar, mantendo sua postura submissamente controladora, ajoelhou-se no chão de frente para mim, se colocando entre mim e a visão da noite mais impressionante que eu já tivera na vida. “Esquece de mim, pode se perder”, e decidiu que seria dessa maneira que terminaríamos a noite. Eu me segurava no parapeito e perdia o olhar no horizonte, vendo luzes amarelas pegando fogo, flashes estourando em todas as direções, contornos e linhas disformes no além e um conteúdo de caixas pretas e altas perdendo o foco, enquanto ela sugava de dentro de mim, lenta e antropofagicamente, qualquer coisa que ela julgava muito importante para que aquele momento desse certo. Eu nunca mais me recuperei daquela noite e antes mesmo de entender, eu já estava acordando largado no sofá da sala, com ela me olhando da janela, sorrindo e me dizendo que tinha acabado. “A gente não tem mais nada pra fazer um com o outro…”, e eu não pude nem contra argumentar.

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Eu a queria mais que tudo no mundo (parte 1)

Nos primeiros dois meses era só admiração, como se eu tivesse conversando com algum famoso cuja carreira me inspirasse ou alguém da música cujos discos eu cansei de ouvir e, de repente, estava falando comigo sobre como foi o dia, sobre amenidades e contando tudo sobre o mundo da fama, sobre o lado de lá, sobre como as coisas realmente funcionam. Eu era fã dela! Mas como não era famosa, nem prestigiada, nem ninguém muito mais importante que a maioria dos que vivem no mundo, comecei a perceber que a vida, até em seus movimentos mais simples, pode ser incrivelmente interessante. Ela era incrível e interessante, o tempo todo.

Depois de um tempo a intimidade cresceu e eu já não achava a vida dela coisa de outro mundo. Era incrível, mas era possível. Era uma coisa que eu não vivia, mas conseguia acompanhar como quem assiste a um filme baseado em fatos reais, ou quem lê um livro biográfico um pouco suspeito. Era muita emoção, muita mudança, muita novidade o tempo todo. Foi mais ou menos nessa época que eu comecei a pensar que talvez eu estivesse cagando para o quão legal era a rotina dela. Eu queria mesmo era saber dela, que atitudes tomaria, aonde iria, o que faria e foda-se se tinha ido viajar, se estava trabalhando muito, se estava desempregada, se estava de pé ou sentada. Foda-se, eu queria saber o que ela pensava, quais eram seus medos, seus planos e seus desejos. De repente passei a desejar ser um de seus desejos.

Aí a gente passou a falar menos de coisas externas e as conversas se tornaram cada vez mais íntimas. Não falávamos de trabalho, falávamos de sonhos. Não falávamos de amigos, falávamos de segredos. Não falávamos de cidades, falávamos de restaurantes. Não falávamos de amor, falávamos de sexo. Trouxemos toda a universalidade pra dentro de uma caixinha de fósforos e ficávamos cavucando nossos sentimentos a fundo, cheios de perguntas e histórias complexas enquanto os dias passavam como eram e como sempre foram. A vida já não parecia tão impressionante. A dela ou a minha, tanto fazia. O mundo real foi substituído por suposições e achismos absurdos que preenchiam todo o tempo que a gente passava conversando.

Depois que chegamos a esse ponto, meio sem querer, ela começou a se interessar pela minha vida. Porque não tinha muitos eventos, nem muito dinheiro, nem muito glamour, mas exatamente por isso era tão intensa. Ela se interessava por sentimentos como a sensação de liberdade em caminhar à noite, de madrugada, vendo gente pelada correndo pelas ruas. Ela se interessava pelas vezes em que segurei a respiração mais tempo do que o saudável e fiquei vendo cores trocadas e formas imaginárias enquanto voltava a respirar. Ela queria saber de onde eu tirava ideias pra escrever, pra desenhar, pra fotografar, pra  fazer músicas, pra ser eu. Ela queria se jogar dentro da minha vida e, de repente, ela desejava fazer parte de mim, nem que fosse por algumas horas, só por alguns instantes.

“Quer ir pra minha casa?” ela me perguntou, uma vez, quando estávamos tomando café e conversando sobre como é que faz pra lidar com a morte de alguém que você nunca conheceu, mas sempre quis conhecer. O assunto, naquele momento, pareceu uma justificativa honesta para não perder a chance. A gente podia morrer, do nada, e viveríamos nessa eterna dúvida. “Quero!” respondi, sorrindo nervosamente. Depois disso o medo tomou conta de mim, assim como dela também, porque a conversa começou a ficar estranha até dar lugar a um silêncio incômodo e agudo. “A gente precisa encher a cara!”, ela disse e eu concordei, afastando a xícara e buscando ao redor um lugar onde pudéssemos comprar garrafas, doses, coisas alcoólicas em geral.

Encontramos um bar e levamos uma garrafa de pinga vagabunda. Na metade do caminho abrimos a tampa para cheirar e nunca mais paramos de beber. Virávamos doses puras que faziam o estômago querer devolver tudo a todo momento. Era noite, fazia frio, não tinha ninguém na rua e a gente gargalhava alto de nervoso e de bebedeira. Nos beijamos cheios de erotismo dentro do elevador e, pensando agora, nosso beijo parecia mais um conjunto de lambidas mútuas que erravam – e muito – o alvo. Lambendo os rostos um do outro, deslizando as mãos por tudo quando é lugar, até atingir o andar. Quando ela girou a chave do apartamento eu vi a janela enorme para a cidade noturna me hipnotizando. Fiquei um tempo indeterminado perdido no horizonte até me virar e dar de cara com ela completamente nua, de pé sobre a mesa de centro, me olhando e sorrindo: “eu quero que você me admire antes de qualquer coisa”, e me mandou sentar no sofá.

Dali pra frente eu comecei a viver uma das noites mais sexualmente intensas da minha vida…

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Na última vez eu tentei ficar explicando como tudo funcionava – ou como eu achava que funcionava – o que deveria ser dito, as possíveis variações das mesmas frases, o efeito de cada uma, o desfecho e a história toda. Não adiantou nada. E não adiantaria mesmo, de qualquer jeito, porque conselho é aquele tipo de coisa que a gente só pega quando realmente não faz a menor ideia do que fazer. Se a gente tem uma vaga noção das coisas, do futuro e do que pode acontecer com ele, tomamos nossas decisões sozinhos. Então os conselhos são só piedade, são só a música do elevador que preenche o vazio entre o momento da dúvida e o momento da ação derradeira.

Dessa vez eu economizei nas palavras. Apaguei as luzes do apartamento e fiquei caminhando atrás dela, alguns passos atrasado, vendo a movimentação no quarto, a troca de roupa desajeitada, a análise do próprio rosto no espelho e as feições amigáveis frente ao computador. Fiz de conta que era a sombra do abajour na sala, o escuro por debaixo da mesa com as cadeiras guardadas sob o tampo, o bicho papão que se esconde no box do banheiro quando a luz está apagada. Um fantasma ali assistindo a dúvida sobre a calcinha. E eu ri. Mulheres têm essa coisa com a calcinha certa para o momento certo, o cara certo, o dia da semana certo.

Quando ele chegou eu me sentei confortavelmente na poltrona na sala, cruzei as pernas com o tornozelo esquerdo apoiado sobre o joelho direito e fiquei esperando. Ninguém sabe o que é que vai acontecer quando um ex amoroso aparece de surpresa, quase na virada da noite em madrugada, na casa de uma moça que estava pronta para dormir. Homem um pouco inteligente sabe que isso causa um efeito enlouquecedor em qualquer mulher, por isso aparece de noite, de supetão, sempre que possível. Dá certo, muito certo!

Eu não tinha dado conselho algum. Ao menos nenhum inteligente. No lugar disso disse apenas para fechar os olhos. “Se ficar na dúvida, não diga nada, só feche os olhos, ok?” e ri, comigo mesmo, sobre a falsa eficácia daquilo. Meu papel de anjo da guarda fora deixado de lado. Fingi ser espectador, apanhei meu controle da vida real, sintonizei o canal da casa dela e fiquei vendo o mundo existir do jeito que sempre foi. Pouca conversa fiada, muita indireta, muita direta, muita ambiguidade, um beijo, dois, três, dez, uma mão por baixo da blusa, uma blusa a menos, uma roupa toda a menos, uma noite a mais. Quando a gente transa assim, sem querer, sem planejar, ganhamos uma noite de vida. A gente não sabe, mas quando dormimos o calendário volta, a gente não sabe, mas está vivendo um dia a mais, ganhando uma bola extra no pimball da existência. Sexo espontâneo é, literalmente, um meio de ganhar a vida, ou alguns dias de vida, no caso.

Se ela gostou? Não sei. A trilha sonora do sexo bem feito é sempre mais ou menos igual, mas o verdadeiro prazer é psicológico e ninguém sabe realmente o que os outros pensam. A ideia era parecer que gostou. Teve um momento de tensão sobre se ele iria embora, se ele iria ficar, como seria se ficasse, se era uma boa ideia, se ela se incomodaria e no fim ele saiu pela mesma porta que entrou. A calcinha? Ninguém nem lembra qual foi a calcinha que ela escolheu, mas ficou bem marcada a cara que ela fez quando abriu a porta. Tipo uma foto. Um registro eterno de um segundo ínfimo.

“O que você tinha para me contar?”, perguntou ela, tensa e trêmula. “Vim atrás do infinito”, respondeu ele, de forma banal. Ninguém espera uma resposta assim. Quando se pergunta para um ex o que ele quer, espera-se ouvir que ele quer voltar, que ele estava com saudades, que ele quer transar, que ele veio só buscar a escova de dentes. Mas não. Ele tinha vindo atrás de um infinito que ela não fazia a menor ideia de onde estava. Então, como se não houvesse pra onde correr, fechou os olhos e assim ficou, até que ele, sozinho, mergulhasse para dentro da boca dela, garganta abaixo, numa jornada sem volta atrás de um infinito que sempre acaba uns 25, 30 minutos depois.

Se ela gostou? Já disse. Não sei. Mas ganhou um dia. Ofereceu o famoso “infinito particular” para alguém inesperado e acordou ontem, cheia de dúvidas, com a cabeça a mil, mas feliz. Quem é que não fica feliz quando transa? E tudo isso por causa de um par de olhos fechados que não faziam a menor ideia do que fazer. Se conselho fosse bom, não seria de graça, mas nem tudo na vida custa dinheiro!

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Sobre o sumo alheio

Se quiser saber meu gosto, que saiba, e me prove do jeito mais puro que existe, sem temperos, sem recipientes, sem guardanapos, embalagens, palitos ou talheres. Chupe-me como fruta, sorva-me como seiva, coma-me como carne. Assim saberá meu gosto, saberá da minha parte mais sincera e imutável, da minha essência e do meu verdadeiro ser. Te ofereço minhas pétalas abertas, minha casca já amolecida, minha baba pingando do alto como um fruto implorando pra ser colhido. São terrenas essas nossas relações de curiosidade.

Depois disso a gente troca de pele como cobras, como cães que trocam de pelo, como lagartas que trocam de corpo. Natural da natureza, essa coisa de trocar-se de lugar. Trocar coisas, experiências, memórias, casas, identidades, segredos, salivas, sussurros, medos e unhas. É de trocas justas que são feitos os verdadeiros amores carnais, os que se preocupam mais com o gozo do que com o futuro. De beijo em beijo o horizonte constrói a colcha da vida, a gente não precisa planejar nada, querer nada, projetar nada. O projeto já está feito, é só viver de acordo com ele. É arquitetônico esse nosso olhar a dois.

No escuro, quando tudo some, a gente brilha como vaga-lumes em tempo de cio, cortejando, acenando, piscando como estrelas perdidas no céu de universos do quarto frio. Cadê penteadeira? Onde foram todos os criados mudos? E os falantes? Cadê mancebo? Cadê baú? Cadê mosquiteiro e vela acesa? Some-se tudo, apaga-se tudo e fica eu e você brilhando de corpo todo a voar pequenos e infinitos pelo espaço aberto na escuridão. Voltas e voltas no além para nos encontrarmos bem no meio, onde havia a cama e aí, de inseto, recobrávamos nosso belo corpo de carnes. Carnívoro esse nosso viver.

O encontro era como uma grande explosão, que iluminava a vida e o caminho, que fazia o sentido voltar à tona e tudo perder o valor ao redor. Era muito de nós dois confundir amor com tesão, paixão com orgasmo e beijo com carinho. Misturava-se o tipo de gemido agudo de dor com aqueles momentos de quase morte quando se goza sem medida. Fazia-se da pele do outro um punhado de terra macia e cravava-se as unhas até arrancar o sangue, como se fosse o arar de terras férteis pro plantio do amor no fundo. Muito orgânicas essas nossas carícias.

De repente, no fim do texto, da vida e do caminho, só o oceano de Neil Gaiman, a sanfona e o gibão do Gilberto Gil, as fotografias recortadas em jornais de folhas amiúdes, de Zé Ramalho e a minha eterna deficiência de não conseguir me manter no mesmo tempo verbal do começo ao fim, deixando a gramática se perder no fluxo de consciência. Mas posso traduzir no fim de tudo: trata-se de um quarteto de parágrafos que fala sobre a importância do sabor do outro, de se saber saborear o sumo alheio, de se valorizar os desejos da carne, os devaneios da mente e a certeza da incerteza. Era mais ou menos sobre isso que estas linhas estavam conversando…

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Sensual e fictício

A porta fechada que era pra fingir que o mundo tinha parado de existir e tudo o que restava era aquele quarto. Os corpos tremendo de frio e tesão, cheios de pontas de dedos muito frias e narizes que pareciam bicos de gelo. No escuro, quase nada visível, quase nada pra ver e calma, uma extrema calma que descia dos cantos das paredes e lambia os pés da cama, as costuras e as franjas da cortina, os beiços do tapete e as nossas canelas.

De costas, apoiada na parede como quem acaba de ser pega pela polícia, me oferecia uma nuca lisa e comprida para eu beijar, lamber, morder e arranhar. Minha mão sumia por dentro dos cabelos, que se agarravam nos meus dedos e não largavam mais. Foi o primeiro começo de um par de pares de dias da gente se alisando como se tivéssemos mais intimidade que qualquer outra dupla no mundo, nos olhando sem roupas e sem defeitos, isentos de perfeição por opção e felizes com a nossa curiosidade.

Dias sentindo sua respiração quente ao redor da minha orelha, sua voz falhada e oscilante brotando do meio da escuridão e um calor concentrado que passava de mim pra você e depois voltava de novo, num ciclo de aquecimento natural quase imbatível. De dia ainda era escuro e a noite era 24h a dentro, mergulhada em todo tipo de troca de experiências e sensações. Eu passava meus dedos pelo seu rosto, desenhando o contorno da tua boca como um batom de festa, sentindo a ponta da tua língua surgindo por entre os dentes para fazer meu tato salgado receber as boas vindas do teu paladar voraz.

Beijos no olho, carinhos detrás da orelha, dedos entrelaçados debaixo de um sem número de cobertas, pelados e muito quentes, nos aproveitando um do outro para pura sobrevivência. Era tão sensual que chegava a doer ter que dormir. Fechava os olhos fora de controle desejando mais uma dúzia de noites muito bem gastas transando ao som de Los Hermanos, pedindo comida pelo telefone, bebendo vinho barato e usando a boca para beijar e lamber, mas quase nunca para falar.

Era tão erótico, tão intenso e, ao mesmo tempo, tão suave, que beirava a loucura, daquele tipo de sentimento que faz a gente pensar sobre largar o emprego, vender o apartamento e o carro, deixar o cachorro com a mãe e se mudar, de mala e cuia, de vez pra outro lugar. Tão bom, mas tão bom, mas tão bom, que não existia e, enquanto eu passava os dias desenhando uma fantasia cheia de delicadeza e sentimento, a vida real corria a passos largos acabando com toda a minha imaginação.

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Viva a siririca!

A gente anda careta e babaca demais. E quando digo “a gente”, quero dizer eu e você, os dois, os todos, porque não é difícil perceber a própria coxinhice, a própria hipocrisia e o próprio atraso de opinião. Mas a gente vive dizendo que vai melhorar e sorte daqueles que realmente buscam aprender mais, ficar mais maleáveis, porque a vida desenhada na base de opiniões sólidas é uma merda construída de um erro atrás do outro. Sabe como você faz isso? Prestando atenção em pessoas que têm opiniões – as sensatas e embasadas, ok? – e formando as suas próprias.

Esses dias pulou um cartaz no meu feed do Facebook que dizia apenas “Gente que toca siririca S2” (imagem disponível na página do facebook) e quem replicou foi a Carol Patrocínio, um bom exemplo dessas pessoas que têm opiniões que podem te ajudar a ter suas próprias opiniões, você concordando com as dela ou não. O lugar de onde ela replicou era uma página chamada Indiretas de Satã, que faz piada com coisas religiosamente não recomendadas, e a justificativa para “Satã” curtir a moçada que toca siriria era que “Siririca é pecado e por isso mesmo é tão massa” e eu, de cara ri. E ri porque é engraçado, porque era pra ser uma piadinha besta e funcionou, mas por trás da piada, ao replicar uma imagem que incetiva e apoia, de maneira carinhosa e leve, mulheres que se masturbam, você fica parecendo um revolucionário revoltoso.

A Carol deu reply na imagem, eu vi, achei incomum e no mesmo segundo repliquei também. Claro que as pessoas ofendidas não se manifestaram, mas elas estavam lá, do outro lado da tela, se sentindo super envergonhadas e incomodadas com um banner gigante na tela dizendo que gente que toca siririca é legal e a gente gosta delas. Alguns dos meus amigos até arriscaram comentários como “Porra, Braz” ou “Ahh, tinha que ser o Braz”, mas na verdade o que todo mundo deveria fazer era dar um like e compartilhar. Só! Assim como o simples fato de um homossexual assumir sua homossexualidade se tornou um ato político e militante, mesmo que o correto seria ser uma coisa banal que não é da conta de ninguém além da dele, colocar-se a favor da liberdade sexual da mulher, que deveria ser uma coisa banal que não é da conta de ninguém além da dela, se tornou uma coisa chocante.

Quando eu vi que o banner só parecia interessante para mim, e não para um monte de outras pessoas envergonhadas, foi que me deu um estalo: ué, tô errado? Acho que não. E dizer “siririca” é o mesmo que dizer “punheta”, que dizer “xana”, “pinto”, “xiririca”, “bilau” e por aí vai. É uma palavra estranha que alguém inventou pra servir de sinônimo popular de uma palavra que a ciência tratou de complicar. MAS-TUR-BA-ÇÃO FE-MI-NI-NA. Prefiro siririca, na boa.

Aí o povo tem vergonha até de LER a palavra, de falar do assunto, como se fosse tabu. Naquelas entrevistas pseudo-sexuais estranhas que veículos estranhos fazem com sub-celebridades estranhas, nunca perguntam pro cara: “Mas então, você bate punheta?” porque a resposta seria um sonoro “CLARO!” e todo mundo já imaginava aquilo. Mas o povo ainda pergunta pra mulher “Você se masturba?” e se ela responde que sim, ela é polêmica (?) se ela responde que não, ela é puritana. Isso parece tão bizarro para mim que fico em dúvida se isso é coisa minha, se eu que tô pensando diferente.

Quem lê as coisas que eu escrevo aqui já deve ter topado com algum texto que fala de uma mulher que se masturba – que toca siririca, pra ficar mais suave – e eu comecei a escrever “cenas” assim depois que percebi que é raridade encontrar gente falando disso como se fosse normal. Porque vamos combinar: É NORMAL! Mas de tanto “as pessoas” acharem que não é, dizerem que não é, ensinarem que não é, a gente acha que não é. E pior: as mocinhas mais novas, nos 10, 12 anos, também acham que não é certo e aí não fazem. E não se masturbar, tanto para homens quanto para mulheres, é uma questão que pode gerar problemas futuros. Problemas que “as pessoas” também insistem que não são importantes, como por exemplo, OR-GAS-MO FE-MI-NI-NO, ou gozo – outra palavra que faz a galera desligar o monitor na hora.

Tem sexólogo falando, tem psicólogo falando, tem mulheres comuns falando, mas o povo ainda recrimina a siririca. Masturbação é um exercício de conhecimento do próprio corpo, isso ajuda – e muito – a mulher, ou o cara, héteros ou homos, a curtirem mais o sexo quando chegar a hora e a se curtirem sozinhos. A mulher se masturba, descobre do que ela gosta mais, onde funciona, onde não funciona e vai ser feliz. Se não tiver com quem ser feliz, vai ser feliz sozinha e fim. Mas aí a gente ensina, direta e indiretamente, que punheta é normal pro garoto, e siririca é errado ao extremo pra menina. Depois abre o jornal e vê estatísticas tristes, tipo “70% das mulheres não atingem o orgasmo em relações sexuais”. CLARO que não é porque ela se masturba que ela vai gozar transando, existem mil coisas a serem consideradas e não é uma formula matemática: siririca = goza no sexo. Mas ajuda, e como ajuda!

Deixar a mulher se masturbar e, mais importante do que isso, incentivar a masturbação feminina, faz parte de criar um mundo onde as mulheres podem decidir sobre o próprio corpo e viverem felizes com eles. Quanto mais mulheres aceitarem a própria imagem e viverem bem com isso, mais homens aceitarão as imagens de suas mulheres e essa cultura do corpo lindão vai se tornar menos importante. Mulheres precisam, merecem e devem ser felizes sexualmente. Sentirem prazer adoidadas. Gozar como loucas. Sozinhas, acompanhadas, em casa, na rua, na chuva, na fazenda ou na casinha de sapê. Siririca não deveria ser uma palavra que gera vergonha, assim como seu significado não deveria ser proibido ou escondido. Não estraguemos as nossas crianças com crenças babacas, opiniões medievais e sentimentos negativos. Viva a siririca!

ps: na página do Memórias Utópicas no facetruque a imagem que foi utilizada para ilustrar este texto é de uma moça chamada Evelyn que atende pelo pseudônimo de “Negahamburguer“. Vale a pena ver o trabalho dela e curtir a visão dela sobre a liberdade do corpo da mulher!

ps2: desculpem as pessoas quem manjam mais do assunto que eu, caso eu tenha falado alguma merda. E desculpem eu bancar a sexóloga frustrada com a  carreira, é que siririca/punheta é coisa séria!

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