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Muda

Ela já não vinha em busca de nada. Antes ainda se preocupava em dar satisfação, inventava histórias, fazia de conta que tinha algo para mostrar, trazia desenhos de rostos muito bem detalhados, de cenas urbanas na chuva e eu sempre dizia que ela deveria trabalhar com isso. Mas ela não me ouvia, não queria nem saber. Depois de cinco minutos aqui dentro, já estava sentada no sofá, com a blusa longe, me olhando com a convicção de quem hipnotiza pelos olhos. Só que depois ela desencanou do teatro e eu passei a abrir a porta com ela já me beijando, sem nem ter tempo de ter certeza de que era ela mesmo.

Não sei se era muda, ou se simplesmente não queria conversar. A verdade é que não falar, às vezes, é a melhor maneira de resolver as coisas. E ela não falava comigo, mas tinha a risada mais sincera da cidade, com a boca bem aberta, os lábios carnudos ficavam finos, esticados, e era possível ver o fundo da língua. Ria com a alma, de um jeito que ninguém pode dizer que era fingimento ou exagero. Eu não sabia como lidar, porque quando ela aparecia eu tinha de estar totalmente à disposição. Se eu dissesse que tinha de ir embora, ela ficaria triste. Se eu mandasse que parasse, ela poderia me entender errado, então eu deixava rolar…

E rolava! Ela entrava me beijando forte, empurrando minha cabeça para trás. Depois me sorria, e fazia alguma coisa de que gostava. Geralmente ia até a janela ver a vista nublada, até porque em dias de Sol ela não aparecia. Eu abria o conhaque, porque ela não tomava outra coisa, além de água. A gente bebia em copos de uísque, vendo as coisas longe, e ela apontava o que queria me mostrar. Eu me sentia um velho sendo seduzido por uma menina, mesmo que nossas idades não tivessem mais do que cinco anos de distância. Ela parecia viva e eu completamente apagado, então tudo era novo com ela por perto.

Depois o conhaque fazia efeito, ela vinha com tudo para cima de mim e eu só reagia à altura. A gente fazia aqueles sexos de filme de romance, sabe? Em cima das coisas, na mesa, no batente da janela, na passagem da sala para o quarto, e ela tinha um corpo em forma de perfeição. Sempre aparecia com jaquetas enormes, roupas masculinas e calças largas, o cabelo bagunçado, sem maquiagem e sem estilo nenhum, mas por baixo de toda a poluição visual era quase um anjo, muito loira, muito branca, muito lisa e muito fresca, quase gelada, e não esquentava nunca.

Mesmo sem falar, colocava verdade e sentimento em cada som que emitia, e isso ficava mais claro quando a gente transava. Não que gritasse, nem que exagerasse, mas era, de longe, a moça mais barulhenta com quem eu já fiquei em toda a minha vida. Vinha de dentro, sons, gemidos e urros, que seriam impossíveis de se reproduzir. Às vezes eu pensava que, mais dia menos dia, ela se abriria ao meio e um outro ser sairia de dentro, mostrando a verdade de quem ela era. Mas isso, creio que por pura sorte, nunca aconteceu.

Era sempre a mesma menina, a mesma adolescente com cheiro de sabonete e fumaça de madeira queimada, que entrava desesperada para me contar, sem dizer nada, tudo o que a vida estava lhe aprontando. Depois me pedia colo, depois me pedia amor, depois me pedia sexo, depois me pedia para esquecer tudo e fingir que ela ainda estava vestida, que os peitos eu nunca tinha tocado, que a bunda eu nunca tinha visto, que ainda estava completamente imaculada e secreta. Acho que vinha para mostrar-se para mim, só para ver minha reação, para saber que eu ainda a desejava em meio aos muitos sentimentos que não tinham definição.

Um dia, enquanto se vestia ela me olhou estranho, atravessado, como quem percebe um gesto incômodo pelo canto do olho. A gente tinha acabado de transar no chão da sala e ela, grande, com seus quase um metro e oitenta, cheia de músculos fortes, de bundas, peitos e coxas firmes e jovens, tinha ficado abraçada a mim, agarrada com força, dividindo toda sua frieza corporal com o meu calor. Acho que foi naquele dia que eu tive certeza de que a amava, e foi a última vez que ela veio me ver.

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Senso e silêncio

Os poros se abrem, a pele arrepia, as pupilas dilatam e, de repente, o mundo é todo sensível, tátil e moderno. É como se tudo que é velho fosse, novamente, novo, mesmo mantendo sua aparência judiada pelo tempo. Dura segundos, microsegundos, mas produz efeitos para a eternidade. Introspecção, elevação, energia e dom. Aqui onde eu estou, nesse lugar especial por ser normal, nesse canto do mapa que eu costumo chamar de “Cidade do Futuro”, o passado se instalou com força e nunca mais foi embora.

Ontem, literalmente perdido num labirinto de ruas iguais, mal iluminadas e residenciais, percebi que aqui o tempo corre mais lentamente, como se o resto da civilização, o lado mais moderno e evoluído, tivesse trocado tempo por dinheiro e agora ganhassem muito, em curtos prazos, para gastarem muito, em prazos mais curtos ainda. Aqui não, aqui é tudo muito lento, simples e familiar. Uma cidade enorme, cravada no canto oeste do mapa, cheia de vielas, ruas silenciosas, cachorros vagabundos e idosas insones.

Passei por galpões gigantescos que poderiam me servir de casa, escritório, estúdio, centro de lazer, academia e balada sem alterar quase nada na estrutura. Passei por um maluco mal intencionado olhando para uma cerca elétrica desligada. Passei por vielas ainda virgens, sem grafites, sem depredações, sem cheiro de urina ou entulho acumulado. Passei por uma praça onde quatro sujeitos bebiam Coca-Cola e fumavam maconha como se estivessem na mesa do jantar. Passei por muita coisa sem nome e sem descrição também.

Numa curva errada dei de cara com uma novena cheia de gente segurando velas com a chama para baixo. O rastro de cera ia desenhando o trajeto dos devotos e meu corpo ficou quase petrificado ao me deparar com a multidão caminhando em profundo transe, cantando algo como “tende piedade / derrama teu fogo sobre nós…” e segurando velas inclinadas para o chão, pingando o caminho todo de branco. Atrás deles, no pedaço de chão que já havia sido rezado, as gotas brancas cravadas e secas no asfalto desenhavam um imenso universo de pintinhas de estrela num fundo preto e imenso de rua. O chão virou céu e eles estavam rezando num caminho de cometa.

Passei por um homem muito gordo, vestido em um macacão jeans velho, com uma expressão cansada estampada na cara e um enorme machado na mão. Era como um lenhador voltando para casa depois de um estafante dia de trabalho, mas ele caminhou um tempo, olhou para mim e depois interrompeu a caminhada. Ficou me olhando de longe, me acompanhando fixamente enquanto eu apertava o passo e me perdia mais e mais dentro de um bairro. Não existem florestas desse lado da cidade. Aqui as ruas eram como pessoas, como sacerdotes, curandeiros, confidentes, padres e vilas mágicas, que ainda exibiam suas casas térreas, seus fuscas na garagem, suas propagandas políticas da eleição passada e seus cães bravos dormindo com os pelos pressionados contra grades de portão. Tinha muito cheiro de passado aquilo tudo, um passado próspero misturado com uma praga simples e letal.

Depois de tanto tempo no silêncio, ouvindo passos que eram só meus, pensamentos só dentro da minha cabeça e carregando um peso só do meu corpo, cheguei a um ponto conhecido. Uma avenida velha, largada para os espíritos, os vadios e os assassinos tomarem conta. Eu lembrei perfeitamente de como era aquilo na minha época de criança, quando tinha cor, sol e vida no lugar das fachadas abandonadas e sujas, das cadeiras quebradas para o lado de fora e das árvores crescendo para dentro das ruas. Era o lugar onde eu costumava andar com a minha avó, ou de bicicleta com as outras crianças da rua, dizendo “um dia eu vou morar aqui” projetando um futuro que nunca vai acontecer. Era próspero, ali.

Logo depois era minha rua, e dela eu achava que sabia tudo, mesmo sem saber nada. Um bar abandonado onde eu jogava fliperama, uma igreja no lugar de uma escola, uma manicure no lugar de um terreiro de macumba e uma imensa solidão e descaso jogados na fachada de todas as casas, inclusive na da minha. As paredes descascadas, velhas que chegam a dar dó, com pinturas da Copa de 98, um orelhão da Telefonìca, uns pedaços de tijolo e muita memória perdida e comida pelo bolor e as traças. Ninguém latiu pra mim, nenhum cachorro me pediu informação, nenhum carro me olhou, nenhuma bicicleta acelerou na minha direção. Não havia nada ali, só eu, meu passado, minha falsa “Cidade do Futuro”, meus sentidos e meu silêncio. Agora eu estava em paz, no meu lugar, no meu santuário, vestido de senso e sentido, num escuro tão sólido que poderia ser uma parede. É sempre bom voltar pra casa!

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O silêncio

A ansiedade é responsável pela maioria das vezes que a gente odeia o silêncio. Esperar a palavra de alguém, uma resposta, um simples “oi” faz o silêncio passar de pacífica sensação de paz a terrível sensação de desespero. O silêncio é como uma bandeira de rejeição que não tem cor, nem mastro, nem pano, mas está lá, nítida e imponente, para que você saiba que ele existe. Ele é uma entidade, não uma situação.

A falta de comunicação vai tão além da falta de som que é possível ficar em silêncio no lugar mais barulhento que se pode imaginar. Quantas vezes não me senti extremamente incomodado com o silêncio de alguém enquanto meus ouvidos ardiam agoniados com barulho demais. Existe a falta de som e o silêncio. E acredite: eles não são equivalentes!

Esperar algo de alguém, uma comunicação banal que seja, gera o silêncio. Estar em um lugar sem nenhum som, nenhum barulho, nenhum nada ainda pode ser extremamente ruidoso e barulhento. Os olhos falam mais alto que qualquer garganta! As palavras gritam mais que qualquer desespero e o toque, o gesto delicado, revela mais informações do que a mais longa das conversas. A expectativa de receber esse tipo de comunicação é que gera o silêncio, a falta de som, não.

O silêncio é aquela sensação estranha de quando você escreve um bilhete e, ao invés de responder, a pessoa simplesmente guarda o papel e continua fazendo o que estava fazendo antes. Ou quando você manda uma mensagem de celular que levou meia hora pra ter coragem de escrever e a resposta nunca vem. Ou até quando você vê a tela do computador mostrando o chat só com a sua frase vazia na tela branca e mais nada, nem um “fulano está digitando uma mensagem…” para te acalmar. O silêncio tira a calma de qualquer um!

Também fica essa sensação estranha quando a despedida com beijo na boca vira um abraço com uma bochecha encostando na outra, sem lábio, sem sentimento, sem quase nenhuma intimidade. Acontece quando você segura a mão de alguém e ela não segura de volta, simplesmente deixa a mão ali para você carregar. São faltas de respostas, de atitudes, que geram o silêncio.

Essa nossa necessidade de ter uma resposta, de esperar do outro uma atitude específica, faz com que a vida pareça mais injusta, menos amável, menos macia. De que adianta ter amor, dar amor, ser feliz, ser sincero se, a qualquer momento, a reciprocidade acaba e de repente o mundo não é mais tão feliz, nem tão amável, nem tão sincero. A vida parece uma brincadeira de mal gosto quando se espera de alguém uma resposta que não vem, ou vem errada, ou truncada, ou oposta.

É como se esforçar para conquistar algo que, mais dia menos dia, não vai dar em lugar algum. É o morrer na praia sonhando com a vida nova, a escalada ao cume que está sempre encoberto por nuvens e nunca revela a verdadeira vista de lá de cima. É a expectativa crua, daquela que simplesmente nasce da esperança de algo acontecer, sem planos a longo prazo, sem estratégia, só querer e precisar.

Quando se quer a resposta certa, o gesto específico, a situação exata, o tempo para de passar. A espera se torna eterna, tudo se torna chato e sem razão, como se fosse mais fácil dormir do que esperar. É o silêncio que nos deixa assim, e quem o alimenta é a ansiedade de esperar do outro exatamente o que nós oferecemos. Quando percebi isso tudo cheguei à conclusão de que o dinheiro que vai, geralmente é bem maior do que o troco que volta e, mesmo assim, o produto ainda vale a pena. Vale a pena o silêncio!

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