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Um ano de coisas boas

Não é difícil encontrar gente escrevendo sobre o que é que faz da vida essa experiência tão intensa que todos nós sentimos diariamente. Tem gente que acha que a vida é feita de vontades e realizações, outros dizem que a vida é feita da satisfação em buscar e adquirir conhecimento. Outros dizem que o bom da vida é juntar dinheiro, comprar coisas, viajar o mundo, desfrutar de luxo e fartura. Sinceramente? Acho que a vida de cada um é feita de alguma coisa e essa coisa, na verdade, é tão pessoal que muitas vezes nem pode ser explicada ou partilhada.

Mesmo assim, colocando alguns extras e tirando alguns outros pontos, tem algumas sensações ou ocasiões que, na minha opinião, fazem parte da vida de todo mundo. Mas não são simplesmente parte. Trabalhar, comer, pagar contas e dormir são coisas que fazem parte da vida de todo mundo, mesmo assim, não são essas situações que constroem o valor da vida. Acho que determinados acontecimentos, simples ações banais que carregam em si uma enorme carga emocional e sensível, são o verdadeiro recheio desse hamburguer delícia que chamamos de “nossa vida”.

Acho que entre um pico de alegria, como ver nascer um filho, conseguir uma promoção bacana no trabalho ou ganhar na loteria, e um pico de tristeza, como a morte de alguém especial, a perda do emprego dos sonhos ou um período financeiro delicado, o que compõe a vida são pequenos prazeres. Momentos de alívio e alegria, curtos, quase invisíveis, mas que dão liga aos dias e fazem a dura jornada de “estar vivo” valer a pena e, muitas vezes, parecer divertida. E quando digo pequenos prazeres e alívios, quero dizer exatamente isso, na forma mais simples que se pode dizer.

A vida é feita de pequenas alegrias, como cagar no próprio banheiro e limpar a bunda com um papel higiênico macio. A vida é feita de momentos em que você enfia a mão nos bolos e encontra uma nota de R$20, que não é uma fortuna, mas que já muda o destino do almoço. A vida é feita de encontrar amigos na rua, sem querer e ter tempo suficiente para falar um pouco, dar abraços e marcar de se ver no fim de semana. A vida é feita de vezes que você diz “vamos marcar de se ver” e isso realmente acontece. A vida é feita de ter sensibilidade e calma para acompanhar o descer do sol alaranjado dessa época de frio, seja no meio do mar, no meio do mato ou no meio dos prédios.

São coisas simples, cotidianas, que a gente adora, mas não se dá conta disso racionalmente. A vida é, acima de tudo, estar bem consigo mesmo e ter tempo para perceber-se em paz. Dormir na sexta-feira sabendo que sábado não é preciso acordar com nenhum despertador. É ir viajar sabendo que tem dinheiro para despesas extras, que dá para ficar uns dois dias a mais se der vontade e saber que a meteorologia está jogando a favor dos seus planos. A vida é assistir os programas de fofoca e culinária na TV aberta, de tarde, e realmente aprender alguma coisa que você possa cozinhar e adquirir alguma informação útil que possa lhe render algumas risadas na mesa do bar com seus amigos. Ah, sim! A vida é a mesa do bar com os seus amigos, mesmo que você não esteja mais bebendo.

Para mim, além de todos esses detalhes bonitinhos e agradáveis que compõem a vida, uma coisa é fundamental: ter alguém. E nesse momento estou falando de mim, Daniel Ferreira Braz, o autor. Estou cercado, atolado, soterrado de amigos, até a tampa, que gostam de cair na bagunça, de ter mil mulheres, ou de ter mil noites solitárias achando que amanhã conseguirão uma mulher. Eu tenho meus momentos, mas no geral sou do tipo de homem que precisa de uma mulher só, mas muito presente, segura de si, que bate o pé, afirma o ponto de vista que tem e não se abate pela minha pouca sanidade e pela minha quase nula constância de pensamento. Sou do tipo de cara que gosta mesmo de comprar presentes fora de época, que elogia a roupa, que comenta da unha, que quer abrir a garrafa de água ou a tampa da maionese, ignorando qualquer conceito feminista, positivo ou negativo, que algumas pessoas possam ver em atos assim.

Hoje, dia 6 de junho de 2013, faz um ano que eu tenho alguém pra contar minhas ideias malucas. A vida é feita disso também, ao menos a minha. Ter pra quem dizer dos planos que eu fiz, dos sonhos que eu tenho, das vontades que me dão e dos desejos que eu quero dividir. A vida, essa a dois, juntinho, para mim, é ir ao cinema na hora do almoço e escolher qualquer coisa, só pelo prazer de ter uma surpresa, seja ela boa ou ruim. A vida com ela é saber que, se tiver frio, a gente tem um ao outro pra se esquentar, ver um filme, comer alguma coisa com muita gordura trans e açúcar, ficar junto, dormir, acordar, comer mais e ver o dia passar. Se tiver calor, temos companhia para ir à piscina, à praia, ao parque. Se estiver nublado temos um ao outro para caçar o que fazer, jogar baralho, chamar amigos, tornar o dia mais bonito. A minha vida é feita de dizer que estou dolorido da academia e ganhar massagem, é feita de dez minutos de indecisão e ideias repetidas quando alguém pergunta “onde vamos comer?”, é a certeza de que se for pra ir até a casa do caralho, a única coisa que ela vai dizer é que precisa passar no posto para abastecer. São coisas simples, mas importantes, que preencheram esses doze meses que passaram desde que eu a conheci.

Continuo apreciando a mesa do bar com os meus amigos. Continuo achando sublime cagar no meu próprio banheiro e limpar a bunda com um papel de folhas triplas. Continuo sabendo olhar o pôr-do-sol, nem que seja de dentro da janela do meu quarto. Continuo gostando de ver televisão sozinho, também adoro achar dinheiro em bolsos de roupas, também gosto de tudo que todo mundo gosta. A diferença é que eu sei que a minha vida também foi recheada de um monte de momentos de pequenos prazeres e alívios, só que vividos a dois, e isso não tem preço. Por isso, se eu puder te dar uma dica com tudo isso, é apenas o seguinte: saiba reconhecer quando uma pessoa realmente especial aparece na sua vida. Às vezes é o recheio mais sensacional que o seu hamburguer pode ter e você, desatento, acaba repetindo o velho x-burguer mirrado e frio de todo dia.

Obrigado por tudo Juh. Você é o melhor recheio que a minha vida poderia ter tido nesses doze meses. Eu amo você!

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Até o decadente me atrai

Até o decadente me atrai. Eu sou decadente, se comparado ao que fui há algum tempo. É como uma coisa linda e moderna dos anos 1970, que hoje é, no máximo retrô ou cult. Colecionável, é o nome que se diz. Somos todos colecionáveis, cult ou retrô, como preferir, à partir de um dado momento. Talento de quem consegue continuar se interessando pelo velho, pelo que já não inova, pelo que não muda. É quase como ter compaixão, ser legal, gente fina mesmo, sabe?

O decadente me atrai, no centro, vendo os prédios comerciais cheios de salas vazias, os mendigos dormindo por baixo das marquises, as calçadas esburacadas, as raízes das árvores tomando conta de tudo, saindo para o céu, dando à rua, às calçadas, o ar da graça. Isso muito me interessa. A mancha preta, quase um ranço, um sebo, um visco, que fica na fachada dos prédios, pintando os vidros das janelas de marrom opaco, tudo tem história, consequência e reação. Isso sempre me atrai.

Me atrai o morto, o legado, a herança e o sobrenome. A história está sempre lá, seja no corpo, nos escombros, nas ferragens, nas fundações, onde quer ou quem quer que seja. O que já foi sempre me interessa. O passado, o “ah como era bom”, o comecinho doce de todas as coisas bonitas da vida. O começo sempre me atrai. Depois vai ficando igual o entorno, depois vai ficando igual o mundo todo, depois vai ficando velho, depois vai ficando escuro, depois vai ficando ruim e aí eu já não me importo tanto. Aí fica na boca do lixo, destruído, sem valor nenhum, sem nada para dar, aí entra na decadência: daí eu volto a me interessar muito.

Gosto dos extremos e desde pequeno foi assim, sempre foi, sempre será, espero. Uma amiga, uma grande amiga, uma vez me perguntou uma coisa que eu demorei a conseguir responder e nunca respondi. Talvez eu nunca a responda. “Por que, na sua vida, tem que ser tudo intenso? Por que nunca tem nada comum, leve e simples?” Quem quer responder pra mim? Eu não sei. Só sei que não me acomodo com o morno, o simples e o estéril. Sempre gostei de paz e tranquilidade, mas isso nada tem a ver com coisas rasas e comuns. O “leve pesado” existe, você sabe que existe.

Às vezes eu penso que é difícil viver assim, nessa busca infinita e incansável pelo que é novo, sem aceitar ou me conformar com o que existe em momento algum. Já tive muitos problemas por não aceitar a situação eterna, por não me acomodar confortavelmente no estável e seguro. “É difícil ser você” eu dizia quando tinha uns 17 anos, achando que não ia dar pra segurar a onda de viver querendo engolir o mundo. “É difícil ser sua amiga”, ouvia, de vez em quando, de ano em ano, de gentes diferentes, e ainda ouço. Sofria cobranças por nunca querer as mesmas coisas, por ser inconstante e imprevisível. “É difícil ser sua namorada”, ouvi, não uma vez, nem de uma única pessoa, porque deve ser difícil mesmo, não sei, nunca namorei comigo.

É difícil viver entre os outros. Todo mundo sabe que não dá para se acostumar, a gente não pode, não deve se acostumar. Podemos, sim, acalmar em uma situação confortável, em um momento de baixa, de tranquilidade, mas nunca devemos parar os desejos, as ambições e as curiosidades. O saber dá poder. Deve ser difícil viver sem nunca evoluir, sem nunca querer nada, sempre pensando em comprar novas coisas, em ter mais coisas, sem nunca querer saber, querer ser, querer proporcionar. A vida material é vazia, comparada ao volume de conhecimento que a gente pode absorver, mas não posso negar que seja divertida. Na verdade, tudo me diverte. Até o decadente e sem valor.

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