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Tuas meninas estão assustadas e perdidas

Falta tempo para que elas possam crescer. A evolução do mundo, o jeito como a sociedade cria suas crianças e a maneira como a televisão e a Internet fazem tudo parecer lindo, livre e fácil tornou esse amadurecimento uma tarefa quase impossível. Quem é que quer ter responsabilidades, se interessar por coisas complexas e tentar manter o controle num mundo onde jovens de dois ou três anos de diferenças são considerados geração X, Y, Z Alpha, e uma porção de outros nomes que só servem para vender, usar, lavar e plantar ideias pagas. As crianças vão nascer com códigos de barra para não precisarem ter nomes nem sobrenomes para honrarem.

As tuas meninas estão perdidas agora, sem você. Enquanto te tinham aqui eram as melhores, as mais seguras de si e escondiam todos os problemas que têm em casa e com o mundo dentro das bolsas gigantes, dos batons rosas demais e das roupinhas descoladas. De onde é que vem a opinião dessas meninas? Muito me admira que consigam ouvir as músicas que ouvem. O rap não é macio para quem vive uma realidade alienada, mas para elas parece uma espécie de ponte, um link que as puxa de volta para a vida que têm quando estão vivendo no mundo de fantasia que sonham em tornar permanente.

Não é bonito, nem inteligente, viver se escorando na força de uma pessoa só, mas que opção elas tinham? Se uma se escorasse na outra seriam uma meia dúzia de varetas frouxas enfiadas na areia esperando que, durante a queda, as outras a segurassem. Acredito, por experiência própria, que a vida de verdade está na rua. O caráter de uma pessoa e suas qualidades são formadas em casa, na infância, mas quando chega a adolescência e o sentimento de liberdade é que todos esses valores são postos à prova. Tuas meninas encontraram em você todo o reforço para as qualidades que elas gostariam de ter, mas não desenvolveram. Não só isso. Você trouxe a elas a segurança contra o medo que toda menina jovem tem quando vê o mundo de verdade: homens de verdade.

Me lembro bem, muito bem, com cores, sons e cheiros, do dia que conheci todas, numa paulada só. Elas pareciam as meninas mais sabidas do mundo. Sabiam como me olhar, como falar comigo, como me desmontar e como saber que tipo de gente eu era. Eu tinha sido apresentado por você, trazido por você, não tinham porque terem o pé atrás comigo. Sendo assim, vieram com tudo. “Você fala bem, é bem articulado!”, “o que você faz da vida? Tem cara de profissão séria!”, “que perfume você usa? É muito bom!”, “o seu sorriso é contagiante” e dai por diante. Me perguntaram numa mesa, no primeiro momento em que fiquei sozinho com elas, sem você, de onde a gente se conhecia, se eu era solteiro e o que ia fazer mais tarde. Alguém tinha ensinado isso a elas, não era possível estar ali no meio de gente que beirava os recém 18 recebendo o tipo de cantada que recebo de mulheres de quase 40. Elas tinham uma confiança que não era delas, parecia um teste, como se falassem coisas esperando uma reação automática, tentando adivinhar o que iria acontecer. Mas você ensinou mais do que “o que fazer”. Acho que o que elas aprenderam com você foi o “como não me foder”. Não tinham compromisso com o sucesso, e sim com a não derrota.

E acho que isso valia pra tudo. Não perdiam ninguém! Para moleques metidos a sabidos. Não perdiam para outras meninas, ex-namoradas, ficantes e gente de fora. Não perdiam para cobranças do mundo, roupas, vontades, costumes e até religião. Sempre se sentiram donas das próprias ações. Claro, desde que você estivesse por perto. Agora você não está e eu perdi o interesse por todas elas. Até nas fotos, onde a gente finge sorriso, dá pra ver que tem alguma coisa errada. Elas estão perdidas, assustadas, fazendo coisas que acham que você diria que era o certo a se fazer, mas sem nunca terem certeza de nada. Vai ser bom para elas, apesar de agressivo, esse processo de amadurecimento pelas próprias ações. Vão ser mulheres com opinião própria quando você voltar.

Mas se eu pudesse dar um palpite, diria que hoje em dia estão se arriscando menos, jogando menos e confiando menos. Devem estar com medo de não terem para quem pedirem conselho na hora que bater a dúvida se devem ou não transar com fulano, ou se deveriam ou não ficarem com aquele cara que tem namorada, ou até coisas mais simples, como por exemplo, qual o programa das quintas-feiras à noite. Acho que hoje, se eu encontrasse qualquer uma delas, não teria de responder nenhuma pergunta. Elas não teriam coragem de questionar nada, absolutamente nada. Tuas meninas estão perdidas e encontrando o caminho por conta própria, o que é bom, mas não acredito que só isso, que só essa imersão na vida real, vá torná-las independentes. Você criou essa dependência, e agora vai ter que desmamar, uma a uma, todas as essas crianças que você transformou em falsas mulheres.

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