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Boa noite, povo!

Batendo palmas e dançando dentro de um vestido de tecido simples, estampado de flores azuis e amarelas, ela entrou na sala e roubou a atenção de todos. Havia uma luz intensa e nítida ao seu redor, como se algum spot de luz houvesse iluminado a personagem principal de uma peça que acabava de começar. Era ela a personagem. Só que não havia teatro, nem spots, nem mágica. “Em algum lugar, em uma dobra do tempo muito longe daqui, existe uma estrela com o seu nome e ela brilha em contagem regressiva até o dia em que você tomará seu lugar”. Foi o que ela me disse.

Dançava como se estivéssemos em um grande baile, uma festa animadíssima, mas a música que tocava só ela ouvia, a energia da pista de dança só era sentida por suas pernas e os pés, que deslizavam com habilidade, exibiam uma lista de passos decorados que ninguém mais sabia executar. Era uma bronca, essa dança dela! Quem mais estava na sala comigo? Sem perceber, comecei a perder a noção do entorno, como se aos poucos, conforme evoluía no dançar, ela me separasse do resto para dar um recado particular.

Em dado momento passei a me questionar se ela era uma só ou se havia alguma chance de serem duas, doze, duzentas ou número maior. Sentia a presença de muita gente na sala, todos sabendo dançar um ritmo que nunca fora apresentado a mim. As cores do vestido e a leveza do tecido desenhavam cenários surreais, como se fossem mapas de destinos que eu deveria visitar em algum momento entre esse evento inusitado e o fim dos meus dias. Que tipo de medo é o sentimento de não querer saber uma novidade que estão prestes a nos contar? Eu não sabia se queria saber, mas tinha certeza de que aquelas mulheres, aquela mulher, queria ou queriam me dizer algo.

Veio ao meu encontro, me abraçou com braços fortes, me puxou de encontro ao seu peito quente e acolhedor e entrou para dentro dos meus olhos. Eu via o que ela queria me mostrar. Mesmo que fosse de fora, me sentia um observador participante de cenas que nunca ocorreram na minha vida conhecida. Mesas enormes com comidas que nunca provei estavam tomadas de pessoas enormes e importantes vestidas de forma exuberante. Por algum motivo eu sabia que eram importantes. Líderes de alguma coisa? Sábios? Gente que ainda não tinha involuído de alguma forma? Senti uma extrema vontade de sorrir.

“Boa noite, povo!”, eu disse em saudação, sem palavras, porque nesse banquete as conversas se davam de outro jeito. Alguém sem rosto tocou minha testa e então me separei do corpo. Me vi parado olhando para a enorme mesa, a dançarina do vestido florido logo atrás de mim, em uma postura muito semelhante à minha e a cena acontecia sem minha interferência. Ouvi uma música, como um grande coral muito bem ensaiado e senti meu corpo pesar uma tonelada. Desmanchei no chão e senti minha cabeça se chocar contra algo duro e frio. Quando recobrei a consciência ainda eram 10h da manhã e tinha um dia inteiro para viver. O tampo da mesa do trabalho tinha a marca da minha testa. Eu sabia que não tinha sido um sonho e senti vontade de perguntar a mim mesmo onde eu estive. “Você deu um pulo em casa, mas já voltou”, respondi a mim mesmo.

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Até o decadente me atrai

Até o decadente me atrai. Eu sou decadente, se comparado ao que fui há algum tempo. É como uma coisa linda e moderna dos anos 1970, que hoje é, no máximo retrô ou cult. Colecionável, é o nome que se diz. Somos todos colecionáveis, cult ou retrô, como preferir, à partir de um dado momento. Talento de quem consegue continuar se interessando pelo velho, pelo que já não inova, pelo que não muda. É quase como ter compaixão, ser legal, gente fina mesmo, sabe?

O decadente me atrai, no centro, vendo os prédios comerciais cheios de salas vazias, os mendigos dormindo por baixo das marquises, as calçadas esburacadas, as raízes das árvores tomando conta de tudo, saindo para o céu, dando à rua, às calçadas, o ar da graça. Isso muito me interessa. A mancha preta, quase um ranço, um sebo, um visco, que fica na fachada dos prédios, pintando os vidros das janelas de marrom opaco, tudo tem história, consequência e reação. Isso sempre me atrai.

Me atrai o morto, o legado, a herança e o sobrenome. A história está sempre lá, seja no corpo, nos escombros, nas ferragens, nas fundações, onde quer ou quem quer que seja. O que já foi sempre me interessa. O passado, o “ah como era bom”, o comecinho doce de todas as coisas bonitas da vida. O começo sempre me atrai. Depois vai ficando igual o entorno, depois vai ficando igual o mundo todo, depois vai ficando velho, depois vai ficando escuro, depois vai ficando ruim e aí eu já não me importo tanto. Aí fica na boca do lixo, destruído, sem valor nenhum, sem nada para dar, aí entra na decadência: daí eu volto a me interessar muito.

Gosto dos extremos e desde pequeno foi assim, sempre foi, sempre será, espero. Uma amiga, uma grande amiga, uma vez me perguntou uma coisa que eu demorei a conseguir responder e nunca respondi. Talvez eu nunca a responda. “Por que, na sua vida, tem que ser tudo intenso? Por que nunca tem nada comum, leve e simples?” Quem quer responder pra mim? Eu não sei. Só sei que não me acomodo com o morno, o simples e o estéril. Sempre gostei de paz e tranquilidade, mas isso nada tem a ver com coisas rasas e comuns. O “leve pesado” existe, você sabe que existe.

Às vezes eu penso que é difícil viver assim, nessa busca infinita e incansável pelo que é novo, sem aceitar ou me conformar com o que existe em momento algum. Já tive muitos problemas por não aceitar a situação eterna, por não me acomodar confortavelmente no estável e seguro. “É difícil ser você” eu dizia quando tinha uns 17 anos, achando que não ia dar pra segurar a onda de viver querendo engolir o mundo. “É difícil ser sua amiga”, ouvia, de vez em quando, de ano em ano, de gentes diferentes, e ainda ouço. Sofria cobranças por nunca querer as mesmas coisas, por ser inconstante e imprevisível. “É difícil ser sua namorada”, ouvi, não uma vez, nem de uma única pessoa, porque deve ser difícil mesmo, não sei, nunca namorei comigo.

É difícil viver entre os outros. Todo mundo sabe que não dá para se acostumar, a gente não pode, não deve se acostumar. Podemos, sim, acalmar em uma situação confortável, em um momento de baixa, de tranquilidade, mas nunca devemos parar os desejos, as ambições e as curiosidades. O saber dá poder. Deve ser difícil viver sem nunca evoluir, sem nunca querer nada, sempre pensando em comprar novas coisas, em ter mais coisas, sem nunca querer saber, querer ser, querer proporcionar. A vida material é vazia, comparada ao volume de conhecimento que a gente pode absorver, mas não posso negar que seja divertida. Na verdade, tudo me diverte. Até o decadente e sem valor.

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Sem tempo

Enquanto o tempo estiver assim, passando, sendo temporário, com dias, horas e anos, não vai dar pra te amar. Enquanto a vida for real, enquanto o mundo for humano, não vai ter como, foi mal. É que pra te amar tem que ser daquele jeitinho infinito, sabe? Daqueles amores que a gente não faz jura porque não tem dúvida, porque não precisa provar nada, só amar e ser amado. Ter você é ter tempo e se o tempo passar, acaba tudo.

Quero muita existência para poder te lamber devagarzinho, como um gato que toma banho, pra sentir o gosto de cada pedacinho de você. Quero vida pra poder sentir o seu perfume nas minhas roupas, pra achar cabelo teu preso no meu travesseiro, pra ficar de pau duro vendo a covinha no meio dos seus peitos no decote daquela blusa que você só usa comigo. Mas se o tempo passar o amor passa também.

Aí você me aparece dizendo que vai viajar, que o trabalho está em primeiro lugar, que são só algumas semanas, que nada vai mudar e de repente eu já mudei.

E aí já não te quero mais e fico pensando sobre possíveis substitutas para o seu posto. Não dá pra disputar mulher com o relógio, ele sempre vence e eu sempre fico com cara de nada. Se você me pede mais prazo, se me pede paciência, me pede para esperar, está pedindo para eu aceitar que o tempo ganhou novamente, e isso não dá.

Se você diz que vai ali na esquina comprar pão eu já fico agitado, pensando no que vou ter que pensar enquanto você não estiver. Fico lembrando do último beijo antes de sair, na sensação de calor que eu tenho quando chego perto, quando você me abraça ou coisa parecida. Fico lembrando do som da sua voz ao amanhecer, fazendo perguntas estranhas como “com o que você sonhou?” ou “tá frio lá fora?” só para poder conversar. Eu quero conversar com você pra sempre.

Só que desse jeito, indo e vindo, esperando, amando, esperando, trepando, esperando, beijando, tá difícil. Sou um cara carente, não preciso negar, mas quero que você supra minha carência. Física e psicológica, porque não adianta dizer que me ama todo dia, mas não ter tempo pra dar umazinha antes de dormir.

E eu não quero dar umazinha e só. Eu quero trepar muito, quero suar, quero emagrecer na cama, quero te fazer sentir, naquele último segundo de lucidez antes do sono apagar a luz, que você está satisfeita. Eu só estou satisfeito quando estou com você.

Aí você some, eu fico maluco, penso em um batalhão de mulheres pra ligar, pra chamar, pra amar, mas no fim fico sozinho, esperando, morrendo de esperar só você, perdido em casa, e todo dia um novo cômodo aparece, vai se multiplicando, vai crescendo e mais e mais e eu fico preso num labirinto sem ninguém pra me ajudar.

Começo a pensar sobre o tempo que não devia existir, sobre a espera inútil e tudo vai virando de cabeça para baixo, a casa vira uma centrífuga e eu me debato pelas paredes, pelas quinas, grudando em móveis e decorações. No fim sou só um restinho de mim que sobrou. Então você entra pela porta e fica tudo lindo novamente.

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Saramandaia da vida

No cheio de pó, no cheiro de coisa frita em óleo velho, no cheiro de morte certa, no cheio de perfume de flores, tudo estava feito para a lembrança de que o tempo passa. A certeza do fim estava nestes cheiros, nas paredes escurecidas com o tempo, nos televisores de tubo e na disposição irregular das mesas e cadeiras. O Saramandaia é um mini mapa do futuro de todos nós, mesmo que o futuro seja agora. Eu quis ver como eu ia ser, quis ver lá na frente, adivinhar os próximos 20 anos durante quatro minutos.

O salão devia ter espaço para umas cem pessoas, mas se tinha cinquenta era exagero. Acho que uns quinze casais, uniformemente distribuídos pelo espaço, todos, sem exceção, aparentando mais de 60 anos. Sei que aos finais de semana a idade cai drasticamente, com casais quarentões e cinquentões muito bem conservados, mas não era o caso. Quarta-feira, noite, calor e eu ali, o único que não tinha um par.

Eu, quase fazendo 24 anos, era novidade no lugar. Os garçons me olhavam, o cara do som me olhava, o cara do balcão me olhava, o segurança da porta me olhava e eu, perene e sólido, olhava para todos eles com o máximo do brilho da juventude estampado na minha cara. Esse brilho se apagará, em breve, assim como o deles já se foi. Sentei no fundo, meio incógnito, pedi uma cerveja da grande, me acomodei e desliguei o celular. Eu não existia pra mais ninguém no mundo, estando ali.

Sendo Saramandaia, obviamente era karaokê. E depois de constatar isso com uma senhorinha de uns 80 anos cantando uma música da Alcione como se fosse a própria, comecei a ficar nervoso. Cantar é uma questão de se adaptar ao público e ao gosto dele. Não tem show do Iron Maiden no Castelo das Pedras. Não tem show do Mr. Catra no Fazano. É uma questão de adequação e, naquele momento, percebi que eu precisava me superar para ganhar respeito.

Ouvi Reginaldo Rossi, Chico Buarque, Roberto Carlos umas quatro vezes, MPB4, Milton Nascimento, um inesperado e atual Lulu Santos, um João Gilberto, um Toquinho e, de repente, senti que era minha hora de aparecer. Peguei o livro de músicas e, inesperadamente, era maior do que o dos karaokês “modernos” que eu frequentei. O cara do som chamava as pessoas por nomes, esperava-os subir ao palco e depois soltava a música, com uma educação rara nesse tipo de lugar.

“Carmem e Miguel, Lucinda, Oswaldo, Vicente e Anastácio, Hugo, Laura e Esmeralda, Francisca e Maria Isabel, Ernesto e Dalva” dizia ele, no microfone, e as duplas ou os cantores solos iam se levantando e indo em direção ao pedestal com microfone. Eram bonitos, bem vestidos, com toda a graça e a experiência que o tempo lhes deu. Cantavam sem olhar para a televisão, às vezes olhando uns para os outros, ou para o salão, e sorriam, e gesticulavam e se divertiam da maneira mais pura que se conhece: em grupo.

Eu comecei a ficar com o cu na mão. Ninguém me conhecia, ninguém me veria novamente, mas por algum motivo eu achava que tinha que fazer alguma coisa certa. Eu tinha que mandar bem. Todo mundo ali parecia saber cantar, como se cantassem sempre as mesmas músicas, ou como se fossem cantores profissionais, algo assim. Não tinham vergonha, nem insegurança, enquanto eu suava frio no cantinho, bebendo cerveja como se fosse água, já terminando a segunda garrafa. Quando, sem querer, ouvi meu nome nos falantes.

“O próximo a cantar é o senhor Daniel!” e todos, reconhecendo o nome incomum, olharam para mim. Era como um intruso que ninguém pode agredir, uma visita indesejada, um espécime raro de um vírus ruim. Eu tinha um plano, só um, sem direito a plano B, C, D, E. Eu tinha um plano, com uma música, com um olhar, com uma única apresentação. De repente cantar num palco de karaokê de gente mais velha me pareceu a coisa mais importante da minha vida naquele momento. Eu escolhi Clube da Esquina nº2, uma música que nem em sonho eu ousaria cantar, de tão difícil que é.

Ao subir no palco senti que as luzes se intensificaram, como se fosse importante mostrar exatamente quem eu era, mostrar que eu aparentava mesmo uns 20 e poucos anos, que eu usava camiseta, calça jeans e tênis, que eu não estava com a barba feita, que tinha a cabeça raspada, que tinham medo pra caralho de estar diante daquelas pessoas. Aí, como se fosse mágica, ouvi a minha própria voz ecoar no salão explicando que “se chamava moço, também se chamava estrada” e que aquilo tudo era pura “viagem de ventania”, mas era só o começo.

Algum santo baixou em mim, alguma coisa aconteceu e uma coragem inédita me tomou de uma vez. Quase como se tivesse bancando o Carlos Marighella cercado por policiais, fechei os olhos e levantei um ponho fechado em direção ao teto. E para quem viu, minha figura parecia uma imagem iluminista, brilhando no meio da escuridão, suando pelo canto da testa cantando uma das maiores fábulas de todos os tempos da música brasileira. Era a música perfeita para aquele momento.

No fim, ao cantar “e lá se vai mais um dia”, senti meus joelhos falsearem, como se estivesse em pé há muitas horas. No fim da canção eu fui aplaudido, com vigor, do jeito que se aplaude quando se gosta muito de alguma coisa. Eu vi sorrisos, recebi sinais de cabeça, gostaram de mim, eu passei, passei no termômetro do respeito da vida. Ganhar o respeito de um velho vale mais do que ter o respeito de cem jovens. Eu consegui, no fim do meio da semana, num clube da esquina que Milton Nascimento construiu para ninguém nunca mais destruir.

Paguei, saí, respirei e percebi que estava de camisa bege, calças com vinco, cinto, meias pretas, sapato lustrado e um blazer enrolado no braço. Envelheci 40 anos em 4 minutos de êxtase e devoção. Minha juventude foi dividida igualitariamente entre todos os presentes no salão e, já longe, caminhando para casa, ouvi alguém cantar Kid Abelha, só para garantir que tudo, naquele momento, já não fazia mais sentido algum.

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A vida é um hotel decadente

Os prédios lá fora caindo, todos, um após o outro, como dominós. As ruas encharcadas de carros, congestionadas até os tubos, pedestres caminhando por cima dos carros, atravessando fora da faixa, fora da rua, fora da hora. O caos instalado do vidro da janela do quarto pra fora. Dentro não. Entre as paredes, o teto e o chão o silêncio estava instaurado sem espaços para concessões. Não era paz, não dá pra chamar um lugar como aquele de “pacífico”, mas era o melhor que se podia ter naquele momento, naquele mundo, com aquela quantidade de dinheiro.

Hotel do inferno é elogio, mas decadência não se mede, a gente constata. O nível, nessas condições, pouco importa. As paredes, avermelhadas, brilhando com o sol impossível do mundo do lado de fora, com a tinta descascando, com manchas de bolor, com marcas de cigarro, com letras escritas com batons alheios anos antes. As paredes eram tudo. Dentro do espaço fechado por elas tudo era diferente. A própria vida pediria para morrer num quarto como aquele.

No banheirinho anexo, mais decadente que a própria decadência, com um cheiro de urina misturado com cigarro quase insuportável, ele se lavava. Lavava-se na pia, com a água fria, molhando a cara magra, seca e cansada, jogando água sobre os ombros, no peito, lavando o pau, o saco, as coxas e, depois, voltava a lavar a cara. Ofegante, moribundo, cansado e fraco, parecia que renascia quando a água tocava a pele, como se bebesse pelos poros, como se a sede fosse da alma. Coisa de corpo doente e mente inapta.

Na cama, no centro do cubículo minúsculo e quente, um corpo feminino perfeito. Magro do jeito que as revistas mandam, branco do jeito que a segregação racial manda, com peitos que os cirurgiões plásticos recomendam, com uma bunda que os programas de auditório exigem, com cabelos da cor que a televisão vende, com olhos da cor que o cinema pede, com um instinto selvagem quase nulo do jeito que o mundo espera que mulheres perfeitas tenham. Era um diamante de carne deitado em lençóis sujos e baratos.

O rosto todo sujo de porra, já secando no vento do ventilador de teto. Ofegante igual a um asmático em pânico, era como se um orgasmo infinito tivesse se instalado ali, dando aquela sensação estranha de morte e euforia que nunca finda. Ele se lavava sem parar, ela gozava sem parar, o ventilador girava incansável e, entre o teto e o chão, uma porção de coisas voando. O cinzeiro pairava quase imóvel há um metro de altura da mesa. As roupas, todas, inclusive meias, relógios, cinto e pulseiras, giravam suavemente no ar em pontos diferentes ao redor da cama.

Ele, bebendo água de todo jeito, vestindo um corpo seco, magro muito além da conta, com um pau maior que o da maioria pendurado no meio das pernas, sentiu que tudo ia se acabar. Fechou a torneira, olhou para a moça perfeita deitada do outro lado da porta e sorriu. Ela sorriu de volta, ainda ofegante e, em segundos, os dois estavam gargalhando. Ele pingando água pelo queixo, nariz e pescoço, misturando saliva, suor e outros fluidos incolores, enquanto ela sentia a vida indo embora pelo meio do peito, rindo histérica, com o corpo pegando fogo.

Tudo foi se acabando lentamente e o som das coisas já não era audível. Depois sumiu o ventilador e os objetos que voavam, junto com o sol, a luz e as texturas. Foi sumindo tudo, uma camada depois da outra, até evaporarem os ossos e ficarem só as impressões, perdidas no escuro infinito de onde era um quarto de hotel, de onde dois adultos fizeram sexo despidos de qualquer preocupação ou preconceito. Sexo ao contrário, daquele que mata tudo ao redor ao invés de gerar vida e perpetuar espécies. Abriu-se um buraco imenso, do tamanho de uma estrela, dentro da boca de cada um e, sem perceber, se engoliram no mesmo momento, para virarem poeira, partículas e sujeira de um outro quarto, numa outra transa, em um outro dia, num hotel tão decadente quanto. Foi a vida se renovando, como acontece a cada segundo.

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Bocas

Se tivesse coragem de dizer já teria dito. Mas não tinha. Não tinha porque era jovem ainda, sabia pouco do que o mundo tinha pra ensinar; seus amigos, igualmente jovens, também tinham pouco a dizer que pudesse iluminar uma brilhante ideia para mudar tudo. Era a pura inexperiência confrontando o desejo de fazer algo e estar petrificado no mesmo lugar. Era coisa de cara jovem, 20 e poucos anos de energia e insegurança guardados dentro do mesmo frasco. Fazia frio, ele era o cobertor. Fazia calor, ele era o vento. Fazia chuva, ele era o telhado. Fazia sol, ele era a praia. Só não era o que queria ser!

Ela lançava o olhar que só saia daqueles olhos e ele não tinha mais coragem de nada. Era uma hipnose consciente e tudo o que tinha de ser dito ia sumindo aos poucos, esvanecendo, virando pó misturado no monte de abraços e carinhos que camuflavam um monte de sentimentos bem maiores que nunca vieram à tona. Não falava que gostava, mas também não conseguia largá-la, nem deixar que outro ocupasse seu lugar, nem admitir que outra tentasse ocupar o lugar que reservara para ela tempos antes. Era imutável o desejo de ter para sempre uma menina que só estava presente quando achava que era hora de estar.

Era drama de homem, coisa séria, sólida, não tinha frufru nem lenga-lenga. Quando o homem se vê nessa situação, aficionado pela mesma mulher, aconteça o que acontecer, é história de amor que deve-se levar a sério. Acordava pensando em nada e antes de chegar até o banheiro para ver o rosto no espelho já estava lembrando dela. Qualquer coisa dela. Acordava, às vezes, lembrando que era linda. Outros dias, acordava odiando-a com todas as forças e desejando que se fodesse para sempre. Era a inconstância de ter que variar a abordagem do mesmo assunto todo dia. Aposto que, se pudesse, ele seria dela todo dia e não variaria nada nisso, nunca!

Trabalhava lembrando, dirigia lembrando, ouvia as músicas pensando, caminhava pensando, comia pensando, conversava com os outros pensando, via televisão pensando, fazia tudo pensando nela. Pensava o tempo todo um monte de coisas, de diversas cores e formatos, mas principalmente, se ela pensava nele tanto quanto ele pensava nela. Era o desejo eterno e contínuo de ter alguém, mas não qualquer uma. Era ela, tinha de ser, porque era a que fazia tudo ficar mais colorido, clareava a noite e turvava o céu do dia. Era o desconcerto em formato de menina.

Menina, sim, porque mesmo sendo mulherão, a idade e as feições não escondiam que tinha chegado ontem ao mundo. Ver a história de fora me fazia lembrar daquela música velha dos Paralamas que dizia assim: “Ela é só uma menina e eu deixando que ela faça o que bem quiser de mim”, porque era exatamente isso. Se ela dizia que precisava pensar, ele dava espaço e silêncio. Se ela dizia que se sentia triste, ele dava abraço, ouvido e calor. Se ela dizia que queria sumir, ele dava conselho, fazia de tudo para que não fosse, mas se fosse, ia buscar quando quisesse voltar pra casa. Era dela, a vida dele.

Mas eu também vi o segredo. Eu a vi fraquejar uma vez, uma única vez, quando tudo parecia problema, confusão, desapego e incerteza. Tem daqueles dramas de mulher que derrubam tudo, abalam as estruturas até de quem não tem nada a ver, e aconteceu. Ela chorou, se desesperou, perdeu a cabeça e correu pro único lugar onde se sentia segura, segura mesmo, de um jeito que ninguém, nem nada, podia mudar. Correu pra dentro de um abraço conhecido, pra dentro de um coração que sempre tinha reservado espaço pra mais um. Ela gostava de brincar de fingir que não sabia ser amada, mas já sabia que tinha seu amor.

De longe, olhando passivo, decidi soprar um pingo de tempero no almoço insosso desses dois. Eu seria a boca santa que espalharia a novidade que todo mundo já estava cansado de saber. “Ele gosta dela daquele jeito que ninguém derruba, sabe?”, eu dizia. Eu seria a boca negra que levaria o ciumes e a inveja aos ouvidos dos que não conseguem ver gente se acertando na vida. “Acho que tem tudo pra dar certo, sabe?”, eu dizia. Eu seria a boca voraz que engoliria qualquer tipo de comentário negativo, qualquer praga e mal agouro. “Ninguém tem que se meter com eles, sabe?”, eu dizia. Eu seria a boca no trombone para avisar a cidade, as luzes e as vielas que à noite o mundo ia chover gotas de amor do chão para o céu. Uma chuva ao contrário, diferente de tudo já visto, porque ele faria tudo diferente, e ela entenderia tudo diferente e toda a diferença seria um encaixe fino e preciso de gentes que vão ficar juntas. “Eu acho que de hoje ele fica com ela, sabe?”, eu dizia. Eu seria o par de bocas grudados no meio da rua silenciosa, no vento frio da hora já avançada, do beijo simples e sincero que acabaria com toda a espera inútil que a insegurança da gente jovem gerou. “Eu esperei muito tempo por isso”, ele vai dizer, sabe?

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Tempo?

Primeiro pensei que era um sonho. Vasculhava o quarto com os olhos tentando identificar algum outro elemento absurdo. Sei lá, a foto de alguém que eu não conhecia, ou objetos de outra pessoa no meu ambiente, uma cor diferente, algo que comprovasse que eu não estava fisicamente ali. Depois que percebi não estar mais dormindo, suspeitei de uma daquelas alucinações que a gente tem quando vê uma sombra e acha que é alguém, ou quando ouve alguma coisa e tem a impressão de ter escutado chamarem nosso nome. Fiquei olhando, vidrado, tentando identificar algum pedaço do canto da parede, do detalhe do gesso no teto, mas nada. Tinha mesmo alguma coisa ali.

Ficava percorrendo todo o contorno do teto e me subia um frio na espinha toda vez que via aquela sobra escura, mais escura que a própria escuridão, no canto do quarto. Quando a vida se torna incerta assim, mostrando as coisas que desafiam o nosso senso de realidade, é difícil se mover. Eu não conseguia sequer mover minha cabeça. Estava completamente petrificado por um medo que já não cabia e mim e começava a transbordar, saindo pelos poros, encharcando o lençol e escorrendo pelas beiradas da cama, caindo no chão, molhando o tapete e seguindo para fora da porta. Eu estava me derretendo em um medo inédito, até então.

Comecei a respirar ofegante, sentia o cobertor subindo e descendo com meu peito se enchendo e esvaziando de ar. Senti tontura, fechava os olhos e sentia medo de aquela coisa pular em mim. Ficava de olhos abertos e o medo mudava, tinha medo simplesmente de detectar algum movimento, uma luz, um som ou algo do gênero. Eu queria muito que não fosse real. O tempo passou e eu continuava vendo a mancha escura. Meus olhos foram se acostumando com a escuridão e às vezes tinha a impressão de ver um relevo, como se fosse uma espécie de planta, um monte de vasos de samambaia amontoados no canto do meu quarto, tinha umas folhas que pendiam, outras grudadas na parede, mas não tinha certeza.

Consegui, depois de muito tempo, mover o braço e, sem tirar os olhos daquilo, tateei ao lado do corpo procurando o controle da televisão. Senti o plástico frio surgir na ponta dos meus dedos e por alguns instantes pensei ter encontrado a salvação e a solução de todos os problemas do mundo. Apontei para a estante e, mesmo que sem certeza, tive a impressão de que a sombra se movera. Sentia-me acuado, vigiado, como se não fossem mais plantas, mas sim alguma coisa com olhos, dentes, narinas e cérebro. Apertei o botão e o flash de luz clara e colorida me deixou parcialmente cego por alguns segundos.

Era alguém! Tinha pernas, braços, cabelos compridos e parecia respirar. Desisti do medo, da escuridão e de tudo mais. Levantei o corpo como uma máquina que fica em posição de começar a trabalhar e bati a mão no interruptor de luz. Pronto, agora estava tudo claro, nítido e visível, mas não menos assustador. Grudada no canto do quarto, completamente nua, com os cabelos molhados, como se fosse suor, óleo, algo assim, estava minha ex-namorada. Era ela mesmo, não alguém que se parecia com ela, como acontece nos sonhos. Era ela, sem nenhuma dúvida, sem nenhuma roupa, grudada no teto com as costas bem no canto, as pernas dobradas com os joelhos perto do peito e os pés na parede, com as mãos no teto, também grudadas, como se tivesse ventosas, cola, algo assim.

Estava ali, me olhando com olhos de quem não está em sã consciência e, por alguns instantes, senti mais medo do que tudo na vida. Aí ela sorriu e da boca, antes fechada, escorreu um líquido grosso, escuro, que pela cor e maneira como caia e escorria pelo queixo, só podia ser sangue. Sorriu para mim com os dentes manchados de uma mistura de vermelho e marrom e aquilo me arrepiou completamente. Como se fosse normal, esticou as pernas se apoiando na parede e empurrou o corpo em direção ao teto. Veio engatinhando ao contrário, numa posição difícil de explicar, e parou exatamente sobre a minha cabeça. Se agachou no teto – se é que é possível imaginar essa posição – e agora tocava o teto com as solas dos pés e com as palmas das mãos ao lado do corpo.

“A gente precisa conversar, amor! Você tem um tempo para mim?” disse ela, sorrindo muito, estranhamente bem humorada, estranhamente muito doida. Era ela, a voz era dela, era tudo dela, menos aquela cena, aquele sangue e aquele cabelo estranho. E claro, não fazia o menor sentido o fato de ela estar grudada no teto. Fiquei olhando para ela, bem dentro dos olhos, esperando alguma nova reação. Mas ela não fazia nada. Respirava, babava sangue e me olhava vidrada. Depois de um tempo percebi que ela não pisca. Pelo que entendi ela está esperando uma resposta. Quer saber se eu tenho tempo. Sinto que se eu me mover demais, serão meus últimos suspiros. Então estou aqui, pensando, tentando achar uma maneira de não ter “uma conversa” com essa coisa que se grudou sobre a minha cama. Já faz umas 20 horas que eu tô aqui. E ela não pisca!

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Imortais

Tá acontecendo uma cidade lá fora. Abri a janela e meu silencio foi espancado por uma onda apressada de barulhos de carros passando pelo asfalto molhado, vento, buzinas, obras ao longe e um helicóptero bem perto fazendo ar vibrar e as ondas de som oscilarem. Cortava o som e descortava cada vez que as pás daquele carro voador giravam sobre a minha cabeça. Estava mesmo acontecendo uma cidade lá fora. Pela janela do décimo andar não restavam dúvidas, não havia nem o que argumentar, o mundo estava funcionando novamente. Olhei para as pessoas caminhando, indo cuidar das vidas, tendo objetivos, compromissos, horários. Alguns com guarda-chuvas, outros ao relento, indo e voltando, enquanto dezenas de carros cruzavam a cena indo em direções opostas e seguindo para outros compromissos e outros objetivos.

As pessoas estavam todas ali, vivas mesmo, como se as engrenagens nunca tivessem parado, como se não precisassem parar. Na verdade, não tinham mesmo motivo para pararem, mas eu acreditei que isso estaria diferente quando abrisse a janela. O mundo estava acontecendo, o inusitado e o destino traçado estavam enrolados no mesmo dia. Estava tudo normal. Ao redor das coisas existia o movimento natural do vento.

As árvores balançavam, também tinha o movimento das gotas da chova, ora indo mais para a esquerda, ora mais para a direita. Ainda maravilhado com os movimentos da vida real, fiquei olhando uma mulher que atravessou a rua correndo antes do farol abrir e ainda me espantei com a maneira fluida e natural com que ela se movia, como suas roupas balançavam, como seu cabelo alçava voo a cada novo passo largo. Era muito estranho para mim, era incomum. Ver tudo aquilo foi como estar diante de uma parede lisa e sólida tendo a certeza de que havia uma porta bem ali.

Olhei ao meu redor, as coisas todas iluminadas pelo céu claro e cinza enquanto sombras de gotas escorrendo pela janela desenhavam o chão de marrom claro e escuro. Acho que estava com a boca meio aberta, queixo caído, quando senti você se aproximar, com a mão nas minhas costas subindo para o ombro. Senti você chegar, encostar sua cabeça no meu braço e descer a mão até a minha cintura. Ficou ali, me segurando junto, sorrindo e achando graça da minha cara de idiota. “Eu disse para você que ia ser estranho, mas é legal, não é?” ouvi você dizer, concordando, mas sem conseguir dizer uma só palavra. Não piscava, não conseguia fazer movimentos rápidos e respirava acelerado.

De repente, quando me dei conta de que o mundo estava mesmo acontecendo, de que as coisas estavam mesmo existindo, que tudo se movia, era normal e comum, tive um ataque de riso. Comecei com um breve sorriso, depois uma risada tímida e foi evoluindo para gargalhadas violentas cheias de lágrimas e dores nos músculos da barriga. Era como se fosse um absurdo anunciado, uma tragédia temporária que causava estranheza e indignação em quem assistia até o fim. Você também riu, comigo e de mim, e esperou eu me acalmar.

Depois de algum tempo, comigo já deitado no chão da sala vendo o ventilador de teto girar lentamente, quase parando, e continuar olhando as gotinhas que se moviam pelo vidro da janela, vi você se aproximar. Agora o mundo se movia, tudo acontecia, o relógio ainda tinha horas para mostrar e tudo era normal. Você deitou ao meu lado, os dois olhando para o teto, e depois de pegar minha mão, virou a boca na direção do meu ouvido e perguntou se eu não queria ver tudo de novo. “Quer me dar outro beijo?” perguntou entusiasmada e feliz, mesmo dizendo baixinho.

Virei o rosto, olhei dentro dos teus olhos gigantes e sorri, antes de fechar os meus e colar minha boca na sua. Foi igual, foi idêntico, como se agora eu já soubesse fazer a mágica acontecer. Senti o vento parar, os carros sumiram com seus sons incômodos, tudo ficou meio imóvel e nós dois, flutuando no ar, eramos as únicas coisas em movimento ali. Não só ali. Acho que nada no mundo se movia enquanto nos beijávamos, e eu lembro que nossas bocas não se separavam e a gente ria beijando de olhos abertos, fitando um ao outro, embaçados, perto de mais, brincando de controlar o tempo. Senti o impacto do chão duro quando nos separamos e agora ambos morriamos de rir da experiência absurda.

“Beijar você faz meu mundo parar”, eu contei, confirmando o que já estava óbvio. Você sorriu e me contou um segredo que eu já sabia, mas não tinha percebido que estava ali, nos esperando, me aguardando brilhante e macio para ser usado pelo resto da vida. “A gente não vai morrer nunca mais!”, você disse, e depois voltamos a flutuar.

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