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Sensual e fictício

A porta fechada que era pra fingir que o mundo tinha parado de existir e tudo o que restava era aquele quarto. Os corpos tremendo de frio e tesão, cheios de pontas de dedos muito frias e narizes que pareciam bicos de gelo. No escuro, quase nada visível, quase nada pra ver e calma, uma extrema calma que descia dos cantos das paredes e lambia os pés da cama, as costuras e as franjas da cortina, os beiços do tapete e as nossas canelas.

De costas, apoiada na parede como quem acaba de ser pega pela polícia, me oferecia uma nuca lisa e comprida para eu beijar, lamber, morder e arranhar. Minha mão sumia por dentro dos cabelos, que se agarravam nos meus dedos e não largavam mais. Foi o primeiro começo de um par de pares de dias da gente se alisando como se tivéssemos mais intimidade que qualquer outra dupla no mundo, nos olhando sem roupas e sem defeitos, isentos de perfeição por opção e felizes com a nossa curiosidade.

Dias sentindo sua respiração quente ao redor da minha orelha, sua voz falhada e oscilante brotando do meio da escuridão e um calor concentrado que passava de mim pra você e depois voltava de novo, num ciclo de aquecimento natural quase imbatível. De dia ainda era escuro e a noite era 24h a dentro, mergulhada em todo tipo de troca de experiências e sensações. Eu passava meus dedos pelo seu rosto, desenhando o contorno da tua boca como um batom de festa, sentindo a ponta da tua língua surgindo por entre os dentes para fazer meu tato salgado receber as boas vindas do teu paladar voraz.

Beijos no olho, carinhos detrás da orelha, dedos entrelaçados debaixo de um sem número de cobertas, pelados e muito quentes, nos aproveitando um do outro para pura sobrevivência. Era tão sensual que chegava a doer ter que dormir. Fechava os olhos fora de controle desejando mais uma dúzia de noites muito bem gastas transando ao som de Los Hermanos, pedindo comida pelo telefone, bebendo vinho barato e usando a boca para beijar e lamber, mas quase nunca para falar.

Era tão erótico, tão intenso e, ao mesmo tempo, tão suave, que beirava a loucura, daquele tipo de sentimento que faz a gente pensar sobre largar o emprego, vender o apartamento e o carro, deixar o cachorro com a mãe e se mudar, de mala e cuia, de vez pra outro lugar. Tão bom, mas tão bom, mas tão bom, que não existia e, enquanto eu passava os dias desenhando uma fantasia cheia de delicadeza e sentimento, a vida real corria a passos largos acabando com toda a minha imaginação.

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Na vontade

Tem coisa que a gente sente antes mesmo de acordar. Vem uma sensação estranha durante o sonho e quando os olhos abrem o sentimento já está lá. Pode ser uma coisa simples e comum, como vontade de ir ao banheiro, ou sede, ou fome. Outras vezes são vontades mais complicadas, como saudades de alguém, de algum lugar, de alguma coisa, e hoje ela acordou assim. Com uma vontade que não finda, que não se engana, que cresce dentro e vai saindo pra fora, pelos poros, arrombando os buracos e se desfazendo no colchão, molhando tudo, escorrendo pelo chão do quarto, deslizando pra sala, pra cozinha, pro elevador, pra dentro do carro, pra todo lugar.

Acordou pensando, mas não quis aceitar. Levantou da cama com a cabeça amarrada nos cabelos, foi ao banheiro, sentou-se no vaso e sentiu, tensa e concentrada, a vontade sólida que se abatia. “Nossa, acordei na vontade…” solta, com a voz ainda rouca e falhada, olhando o azulejo colorido da parede oposta no banheiro. Se levanta, escova os dentes, caminha sem rumo pela casa, volta ao banheiro, tira a roupa, entra no chuveiro e, no instante em que a água quente toca os ombros, sente que talvez ali, naquele momento, a vontade passe. Mas não passa. Não há dedo, nem chuveiro, nem escova que faça acabar.

Depois das roupas, da comida e do relógio vai caminhando para a porta e, por descuido, deixa as chaves caírem no chão. “Ahh, que merdaaa”, briga, como se tivesse alguém ouvindo, como se fosse o fim do mundo, como se fosse para tanto. Mas não era. É que acordou “na vontade” e continuava na mesma. O dia se arrasta, o calor aumenta, os problemas não se resolvem e ela não produz nada. Se incomoda com a obsessão e se repreende, bloqueia pensamentos, cansa músicas, fala com as pessoas sem ter assunto nenhum, só para ocupar o espaço da “vontade”, sem sucesso. “Quem foi que disse que mulher não pensa em sexo?”, se pergunta retoricamente. Ela, hoje, pensa o tempo todo.

Na hora do almoço, quase como uma piadinha, ou coisa sem valor, diz pras amigas de trabalho que está “na vontade” e ri, pra quebrar o gelo. Elas também riem, contam suas técnicas, algumas até dizem que já recorreram a uns dez minutos de paz no banheiro da empresa, mas ninguém leva muito a sério, ninguém tem uma solução confiável. Acaba o suco, acaba a comida, acaba o tempo, acaba a paciência e tudo vai ficando pior. As horas se arrastam, o calor aumenta, o cabelo é enorme, a nuca começa a suar, o meio dos peitos começa a suar, as mãos começam a suas e depois tá tudo molhado, tá tudo quente, tá tudo fora de controle.

De volta pra casa o mundo parece pegar fogo. As luzes apagas para não esquentar mais a casa, um chuveiro gelado que até complica a respiração, muitos dedos, muito tempo, muitas imagens e nada, nenhum remédio para o sintoma que não se mostra, se esconde lá no fundo, lá dentro, bem guardado esperando a maneira certa de abandonar o posto. Baixinho, quase que só com os lábios, repete uma mesma frase sentada no chão do box, tomando um banho gelado de causar hipotermia, pelada e largada, sem chance de mais nada. Vai repetindo a frase no meio do silêncio, apertando os dentes, com raiva, confusa, e se levanta, pelada e molhada, lavando a casa toda, deslizando no chão liso, passando pela porta, pelo corredor, entrando no quarto, escancarando a janela de uma vez, tomando uma rajada de vento frio no peito, arrepiando cada pelinho do corpo, pra botar a cabeça pra fora e gritar do 9º andar: “EU QUERO DAAAAAAARRR!!!”, até acabar o ar.

Depois disso, sem forças nem esperanças, foi só o eco no horizonte que respondeu.

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Na dúvida, vá de sexo!

Dá pra falar que um relacionamento é 50/50 entre amor e sexo, mas na real todo mundo sabe que nem sempre a divisão é certinha assim. Pensei nisso depois que uma amiga veio me falar que estava com saudades do ex-namorado, que sentia falta não do namoro todo, mas de alguns momentos, alguns hábitos que vão embora junto com a outra parte do casal que a gente manda à merda. Ela disse assim: “Sinto falta das coisas com ele. Queria ter ido à aula com ele hoje, e depois ter vindo aqui pra casa , ter tomado banho com ele e ter transado loucamente… e depois dormir gostoso”, assim, numa naturalidade invejável.

Os puritanos que me perdoem, mas a parte do “transar loucamente” é o ponto alto disso tudo. Não? Porque depois, quando você já está em carreira solo, quando a solidão já está deitada no sofá de casa, comendo tudo que tem na geladeira e bagunçando todas as músicas do seu iTunes, parece que coisas simples como dar uma fodinha de leve no chuveiro são os melhores momentos da vida. Não são, ok, mas parecem e o que importa é isso. Então vem me dizer que está sentindo falta do amor, vem. Tá nada! Tá sentindo falta da companhia, talvez, mas não sente nenhuma falta das brigas, nem da pouca privacidade, nem dos momentos de ciumes idiota. Agora pergunta se sente falta de tomar uma pegadinha na bunda na hora do café da manhã. Claro que sente!

O sexo é o adubo da plantinha do relacionamento. O lance é que, quando a plantinha morre o adubo ainda presta pra outras sementes. Sexo é a parte mais divertida de se misturar com alguém, seja lá o grau de intimidade que essa mistura vai criar. E tem todo o lado da intimidade, que é tesão puro de cabo a rabo. É você manipular as entranhas de alguém, dominar o corpo com um toque, deixar os sentidos todos embaralhados com quase nada. E quando digo “sentidos embaralhados”, tô falando sério. Quando a visão não funciona bem, quando a gente respira em descompasso com o coração, quando arremessa as coisas, faz caretas sem explicação e fica mais tempo de boca aberta do que fechada. Você sabe, né? Vai tudo saindo do eixo.

E aí a gente tem a cereja do bolo: o orgasmo. Essa coisa linda, cósmica, transcendental e muito úmida e viscosa. Tem pouca coisa melhor do que gozar junto, naquele frenesi maluco de gente entrando e saindo e todo mundo suado, se agarrando e contraindo músculos até beirar o colapso. Não é atoa que a cultura hindu compara o orgasmo à morte. Quem é que não pensa que não vai morrer depois de uma bela gozada pra ninguém botar defeito? É quase como trocar de alma com o outro, é invadir alguma coisa além do corpo, acho que se tivesse uma maneira de medir a energia espiritual e cerebral gerada pelas relações sexuais, elas estariam sendo comparadas a explosões de pequeno porte.

E depois disso tudo o pessoal vem me falar que sente falta do amor. O amor é o nome que a gente dá pras risadas de cumplicidade, pras promessas que a gente nunca sabe se vai cumprir, pra mão que fica mexendo no nosso cabelo durante o filme. E isso é incrível, claro que é, não vou ser hipócrita. Mas o sexo, esse não é nada além dele mesmo. Sexo é aquilo e pronto. Na verdade é TUDO AQUILO e pronto. Como eu disse, é o desejo físico, é o tesãozinho reprimido na presença da família, é a coisa toda escondida no banheiro da balada. Faz todo sentido sentir falta do sexo: ele é único, pessoal e intransferível. Afinal, ninguém trepa igual ao outro, acho.

É por isso que a pegadinha na bunda é tão importante, que a encochada no banho é tão importante, que a lambida na nuca é tão importante, que as mordidas nas costelas são tão importantes, que as gemidas no ouvido são tão importantes, que as gotas de suor descendo a coluna são tão importantes, que os gritos, os xingamentos e os tapas de amor são tão importantes, que as pernas e braços entrelaçados são tão importantes. Sexo é mais importante que o resto. Mesmo que não seja tudo, na dúvida, investe nele!

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Hoje Elza não dorme!

Hoje não, nem tem como. Ela vai se deitar no escuro, na cama que sempre acolheu seu sono em todas as outras noites até hoje, mas não vai conseguir dormir. Não é café, não é bebida, não é filme, não é nada que se controle. Essa noite não tem sono na cama dela, mas não deveria mesmo ter coisa do tipo. É o corpo de Elza que quer despertar quando deveria estar se despedindo. Hoje não tem sono para ela.

Do lado de fora, na cidade escura do meio da semana, o vento esfria a vida e faz a rua tremer, mas dentro do quarto é um calor sem fim. A testa suada não encontra posição no travesseiro já morno de tanta fricção. Os cabelos presos grudando no rosto, na nuca, se espalhando pela boca, olhos, nariz e incomodando mais do que o de costume. A respiração é complicada, o ar é quente e o mundo vai se acabar. Ela se sente coberta por mil camadas de pano quando, na verdade, está vestida de pele e tesão, apenas.

É como um feitiço, um veneno, uma praga, um trabalho de gente ruim. O corpo não se aguenta, a pele se estica, os dedos se contraem e os músculos vão endurecendo. Cio, é o nome. É um desejo de comer o que não se come, de ter o que não se compra. A noite vai se criando e a escuridão toma forma na cólera de Elza. De repente tudo está se movendo, como se rodasse, como se estivesse descendo pelo ralo, sumindo, indo embora, sendo chupada. Tudo o que Elza queria era ser chupada até sumir.

Cada segundo de olhos fechados, de escuridão forçada, era preenchido com figuras, cores, sons, espetáculos de carne e osso dos quais ela jamais poderia fugir. A mente de uma mulher tomada pelo desejo não mede esforços, nem tamanhos, nem perigos. Metade da imaginação de Elza poderia facilmente levá-la direto para o caminho da morte, mas ela não se importava. Daria a vida por um minuto de realidade dentro de suas viagens.

Desenhava fantasias tão intensas e bizarras que chegava a misturar o que é real com cores, sons, formas e figuras sem nome, sem massa, só existentes dentro do sonho de quem está fora de si. Homens e coisas. Animais e cores. Objetos e formas. Cenários e sons. Odores e sabores. Tudo misturado em uma miscelânea de perversões que jamais, em nenhum momento de toda a história da raça humana, nenhuma mulher ousaria revelar.

Elza queria fazer sexo com deuses, com figuras inimagináveis, com homens que não nasceram ou que nunca poderão morrer. Ela desejava dores atrozes, humilhações impensáveis, prazeres primitivos e animalescos, enquanto delirava desenhando orgasmos que seu corpo jamais produzirá. Vinte homens, vinte mulheres, vinte dias e nenhum momento de paz. Ela queria tudo, de uma vez, no mais tardar do agora, do imediato, do já e gritava por isso com o máximo da força que seu corpo tinha.

Mas não era possível. O pingo de sanidade que lhe restava mostrava que tudo era ficção, que taras e fantasias são só desejos impossíveis, são criações que tomam forma em um mundo que não é o nosso. Respirava fundo, retorcia o corpo ao redor do cobertor e deixava que o tecido lhe service de parceiro. Depois ficava imóvel por algum tempo, curtindo um mini-orgasmo que não se aproximava em nada dos desejos que tinham tomado seu sono e, imediatamente, voltava a se esfregar em panos já encharcados.

Desejava ter vinte dedos em cada mão, no mínimo mais umas quatro vaginas, uns outros muitos buracos novos e inventados e, acima de tudo, desejava que todos lhe dessem prazer infinito. Elza estava prestes a desmaiar em delírios sólidos e profundos quando se lembrou que gozar é morrer e que o momento imediato à euforia do orgasmo é comparado ao alívio do nascimento. Ela não queria nascer, mas desejava a morte mil vezes por segundo.

Pobre moça, desiludida num mundo onde o que sobre para as mulheres são apenas os homens, com suas limitações e suas barreiras psicológicas. Homens que pedem 15 minutos entre uma e outra. Que não passam da terceira, que não sabem se concentrar, que não sabem muita coisa. Não havia tempo para aulas, cursos e conselhos no tesão daquele quarto. Elza odiava os homens de seu mundo, mas desejava que todos eles, sem faltar nenhum, adentrassem seu quarto e a matassem um milhão de vezes. Tudo o que ela quer é morrer de sexo, como se pudesse escolher o fim perfeito.

Hoje Elza não dorme!

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Overdose

Da janela coberta por uma cortina grossa a luz vermelha do letreiro externo invadia o contorno e pintava os reflexos dentro do quarto. Uma escuridão desenhada em tons de bordô, vermelho e marrom, com o silêncio dominando cada centímetro, cada contorno, cada peça da mobília pobre. Não importava o luxo, nem as cores, que já nem estavam lá. Importava o imediatismo, o “tem que ser agora” levado a sério, o tremor suave do corpo diante da situação excitante, a euforia e o nervosismo psicosomatizados e traduzidos. Depois de misturarem tudo nos narizes, pulmões, gargantas e veias o que tinha valor estava diante dos olhos. Importava estar ali.

Durante um minuto o mundo pareceu ter congelado. Ele parado logo depois da porta, sério, concentrado, olhando o corpo dela, frágil e insinuante, sentado no centro da cama, com as pernas abertas e meio dobradas, as mãos apoiadas atrás das costas, como quem oferece o peito ao sacrifício. Ela tremia de excitação e impaciência, suava como louca mordendo os lábios e apertando os lençóis com os dedos firmes. Ele dominava a situação apenas com o olhar, com a respiração ofegante e uma constante coceira no nariz. Enormes ondas de calor, tesão e eletricidade corriam o caminho entre aqueles dois corpos.

Quando tudo voltou a se movimentar foi uma explosão. Ela saltou da cama em direção ao corpo dele, que agarrou-a ainda no ar e levou-a a nocaute. Aberta, simples e já quase nua, ela se deixava ser manipulada da maneira como fosse, com a força que fosse, no ângulo que fosse. As carnes se misturavam e não foi preciso relógio para saber que o tempo em que as poucas roupas restaram no corpo foi mínimo. Tudo ali, iluminado de vermelho, rasgado no máximo da loucura da madrugada, já bem altos de muitos químicos, líquidos e sintéticos. O amor floresce no meio das drogas!

Ela não sentia dor alguma, ele não sentia cansaço algum, o corpo cheio de marcas, mordidas que sangravam para valer, arranhões que condenariam qualquer um num exame policial, tapas e beliscões que faziam o sexo parecem uma briga onde só um sai vivo. Ela gritava com o máximo de força que seu corpo pequeno podia fornecer, berrava em caretas histéricas, com os cabelos colados no rosto suado, espasmos involuntários e desesperados. Era tudo prazer, tesão e orgasmo. Tudo misturado com um monte de outras sensações que são tão difíceis de serem descritas quanto esquecidas.

Ele investia pra dentro dela, oferecia seu pescoço e suas costas, ela mordia, arranhava, beliscava e tirava sangue, para receber tapas dignos de violência doméstica quando ele saía, para entrar e os golpes se repetirem infinitamente. Ela apanhava tanto que em algum momento entre a dor, a loucura e o prazer, o coração parou. A pele formigou pelo corpo todo, as pernas amoleceram, a fúria acabou e ela se tornou um corpo branco, mole, inerte aos solavancos e violências de um sexo que estava marcado para matar alguém. Ninguém percebeu. Ela não sabia que tinha morrido, ele não sabia que tinha matado e, do mesmo jeito como a loucura nasceu, sumiu.

Os olhos vidrados no teto, sem movimento ou reação, chamaram a atenção. Ele parou, por alguns momentos pareceu ter percebido o que estava acontecendo e, sem muito critério, juntou as mãos e bateu forte no peito daquele jogo de carnes brancas e largadas. Ela não reagiu, ele não entendeu, levantou-se, foi até o banheiro e durante muito tempo ficou olhando o rosto no espelho. Tomou banho, vestiu as roupas, olhou para o corpo largado na cama e sentiu dó. Não podia deixá-la ali, mas não podia carregá-la junto. Ligou para a recepção, contou da overdose, das porradas e do susto de estar com a moça desmaiada. Não contou que estava morta.

Passaram duas horas e um fantasma atravessou a porta do quarto sem fazer barulho. Não viriam os enfermeiros, nem os médicos, nem ninguém. Mas ele veio, soprou uma maldição, mudou uns móveis de lugar, entrou pela orelha da moça e, depois de já ter dado o caso como encerrado, ele a viu ressuscitar. Puxou o ar com força como se fosse um mergulhador voltando à superfície e sorriu. O fantasma saiu pelo meio das pernas ainda abertas, todo diferente, como se tivesse roubado alguma coisa dela e deixado alguma outra coisa sua no lugar. Saiu pela porta, deixou um gelo no ar que custou a sair e quando o silêncio tomou conta de tudo ela se levantou.

Tirou-lhe a camisa, beijou sua boca com uma língua de gelo, abraçou seu corpo com braços e pernas, lambeu um fio de sangue que escorria de uma mordida no pescoço e sussurrou palavras impossíveis de entender. Foram calmos para a cama, deitaram-se e as roupas foram sendo tiradas com calma, permeadas por muitos beijos, muitas carícias e muitos sorrisos. Cheiraram algumas carreiras um no corpo do outro, tomaram umas pílulas, um da boca do outro, fumaram algumas pedras, um puxando a fumaça do pulmão do outro, injetaram algumas miligramas, um pegando a veia do outro e depois disseram juras de amor impossíveis, intensas e gigantes, citando planetas, estrelas, eternidades, dimensões e destinos. Esperanças florescendo a noventa graus e rumando para o além. Fizeram dezesseis horas de sexo ininterrupto derramando amor por todos os lados, inundando o quarto de uma paixão sufocante e sólida. Quando encheram tudo, até o teto, de dotod o sentimento que tinham, foram dormir. E dormiram juntos, pra sempre.

 

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Magnetismo sobrenatural

Não sabia o que era porque não tinha muito o que saber. Às vezes a vida mostra uma situação que só serve para entendermos que nós não temos o menor direito de saber mais do que nos foi revelado. O mistério é necessário, importante e insubstituível em alguns casos. Esse era um deles. Ficava sentado olhando, franzindo a testa e tentando entender de onde vinha todo aquele magnetismo, toda aquela atração incontrolável por um ser que poderia ser qualquer outro, mesmo sendo impossível sentir a mesma coisa por mais ninguém.

Ela aparecia no canto da parede, no batente da porta, por detrás do vidro do box do banheiro e as estruturas iam ruindo. As paredes tremiam como se fossem plásticas e finas, os tijolos se desarranjavam, o reboco e o revestimento ia caindo todo no chão, que tremia como um terremoto a cada passo que ela dava. E vinha, de onde fosse, destruindo tudo com seu caminhar de quem está pouco se fodendo para qualquer reação adversa ou efeito negativo de sua presença. Era completamente completa. Uma mulher que agia como age um remédio que tem mais efeito colateral do que poder de cura.

Ele ficava parado, petrificado, enquanto ela vinha como um gato, ou uma cobra, se enrolar por baixo dos braços, ao redor do pescoço e da cintura até não estar mais apoiada no chão. E era o fim da razão e da autopiedade daquele homem. Era como se ela o sugasse para dentro de si e tomasse, mesmo que só por alguns instantes, o controle de sua alma. Ele, longe dela, não sedia a nenhuma pressão, nenhuma tentação, nenhuma ameaça. Mas ali, naquela relação quase simbiótica, ela era o imã que o movia para onde quisesse mover. Um imã que atraia coisas que não tinham a menor chance de se moverem antes dele aparecer. Era magnético e poderoso.

Enquanto ela gemia e lhe sussurrava elogios abstratos ele caminhava com aquele corpo trepado sobre o seu. E terminavam sempre no mesmo lugar. Às vezes ela vinha da sala, às vezes da cozinha, às vezes estava dentro do carro, mas sempre terminavam dentro do quarto. Quando soltavam o peso dos próprios músculos e ossos sobre a cama, as paredes começavam a sumir em um fade negro e sólido como no fim de um filme. “Fade out” ela dizia, e sorria depois, espelhando o sorriso que ele mesmo expressava. Depois disso o quarto se transformava em escuridão.

Ela usava suas coxas grossas e a bunda muito forte para manter as pernas trancadas à altura da cintura forçando o contato quase invasivo dos dois. Ele se agarrava a ela como uma tranca de dezoito dentes, que não solta, que não afrouxa, que não se move até que seja a hora. Ela mordia seu pescoço, ele mordia sua clavícula, ela arranhava suas costas, ele puxava seus cabelos da nuca, ela fechava os olhos e abria todos os chakras, ele ofegava e a comia como quem tenta matar alguém. Era a violência mais crua e simbólica do mundo.

Ele, da cor do homem, com os tons de um homem, as diferenças e semelhanças das cores que os homens do tipo dele têm e ela branca, translúcida, lisa e macia como são as mulheres do tipo dela. Ela se alimentava do desejo que ele lhe oferecia e que nenhum outro homem jamais lhe dedicou. Ele se alimentava da intensidade e da energia que ela lhe passava, do magnetismo que lhes unia e que ele nunca encontrara em mulher alguma. Se misturavam em suas semelhanças e diferenças para fazer o impossível ser banalidade e a realidade, criação de alguém.

E depois do fim, depois de tudo, ela ficava na luz, no pequeno e discreto caminho de luz que iluminava a escuridão daquela cama imensa e se mostrava para ele. Se mostrava por inteiro, por dentro e por fora, pelas curvas e pelas sombras, como quem quer contar a história do que acabou de acontecer. Ele sorria com uma boca de Cheshire e, assim como o gato, rodava de cabeça para baixo, flutuava o corpo na escuridão e virava vapor colorido. Ele ia para o ar, para o além, para a vida de verdade e ele ficava mais um pouco ali, sentindo a ardência que dá, o calor que dá, o incômodo confortável que dá e depois adormecia para sumir também. Nunca houve amor. Nunca lhes faltou nada!

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