Arquivo da tag: traição

Suzana

O Túlio acelera o carro e liga o rádio. Estamos um pouco bêbados depois de seis garrafas de cerveja, ele está com a camiseta suja porque babou uma boa parte de uma dose de uísque que pedimos para começar e eu estou com os olhos inertes. A gente não tem o que conversar, é de noite e está chovendo fraco. As luzes se multiplicam nas gostas espalhadas pelo vidro e ele insiste em não ligar o limpador. Odeio a sensação de não conseguir ver o caminho. Abaixo o volume de uma música qualquer que esta tocando e digo a primeira coisa que me vem.

A Suzana não gosta de mim, cara.

Quem falou?

Eu tô dizendo.

Viagem sua…

Não é. E ela não gosta de você também.

O farol fecha e ele segura o volante com a duas mãos olhando longe. Suzana é namorada do Túlio. Uma filha da puta. Loira, peituda, imbecil e filha da puta. E não gosta de mim. Nem eu dela. Não temos assunto, então o ambiente permanece aéreo. Ele conheceu Suzana numa festa do trabalho. Na época ela tinha ido buscar bebida no bar e eles cruzaram o olhar. No dia seguinte já era namoro. A Suzana veio para a nossa turma de amigos pouco tempo depois, quando ele assumiu que gostava dela de verdade. Ela chupou metade dos nossos conhecidos em menos de um mês saindo com a gente. Era deprimente. A Suzana era filha da puta demais.

A Suzana é filha da puta demais, cara.

Não fala isso.

A Suzana é filha da puta e puta demais, cara.

Ele não diz nada. O farol abre e ele sai com calma, dirigindo como se não houvesse destino algum. Aumenta o volume do rádio e está tocando a música nova dos Titãs. Uma merda. A chuva aumenta e a noite parece ainda mais escura. Eu quero fumar um cigarro, mas não dá para abrir a janela e o Túlio não fuma. Um raio acerta o topo de um prédio e, por uma fração de segundo, vemos o edifício todo se iluminar de azul. É “dia dos homens” e, por isso, estamos rodando sozinhos. Não tenho namorada. Suzana não está com Túlio porque está bebendo com umas amigas. Ele disse isso.

Cadê ela?

Disse que ia beber com umas amigas.

Tá.

Tenho certeza de que não é a verdade. Meu amigo deprimido não tem a menor ideia de onde a namorada está. Ele faz uma curva e entra em uma rua congestionada. Há bares e casas noturnas nas duas calçadas e o mundo parece melhor do lado de fora do carro. Penso que Suzana é, provavelmente, a pior coisa que já aconteceu na vida do Túlio e digo isso a ele. Não há qualquer reação. Dez minutos depois estamos completamente travados no meio da rua congestionada com pessoas se divertindo, apesar da chuva, em bares diversos.

A Suzana trai você, cara.

Quem falou?

Eu tô dizendo.

Viagem sua…

Não é. Ela trai você desde sempre.

Por que você tá falando isso?

Porque eu sei.

Ele me olha com uma expressão indecifrável. Um minuto se passa e o trânsito não anda. Quero quebrar o silêncio, mas não consigo pensar em nenhum assunto melhor. Retomo.

Sou seu amigo. Você deveria arranjar alguém melhor que ela.

Não tem ninguém melhor.

Você acha, cara. A Suzana é filha da puta demais.

Como você sabe que ela me trai? Você tem provas?

Olha ali.

Aponto, pela janela do lado dele, um casal sentado em uma mesa na varanda coberta de um bar. Um cara forte está beijando uma garota loira com peitos imensos. É Suzana. Túlio desvia o olhar e volta a fitar o casal no segundo seguinte. O cara aperta os peito direito da moça sem nenhum pudor e sua mão não consegue agarrar tudo. Não existe mão no mundo que consiga pegar o peito inteiro da Suzana de uma vez.

Larga ela, cara. Ela é filha da puta demais.

Não é a Suzana. É parecida.

Caralho, cara… você precisa de alguma coisa melhor na vida. Olha lá.

Ele congela o olhar no carro da frente e as luzes de freio tingem a cena de vermelho. Penso que ele quer explodir, mas nada acontece. O trânsito anda um pouco, ele não reage. Quando penso em dizer algo ele vira o rosto para mim e abre a boca, mas nenhuma palavra sai de dentro dela. Seus olhos estão molhados e seus lábios formam uma figura estranha. Meu amigo chora. Não sei o que fazer e fico olhando para ele. Na cena ao fundo vejo Suzana beijando o pescoço do cara e ele com a mão deslizando por sua coxa até o contorno da bunda. Até um semi-cego conseguiria identificar Suzana ali. Ela é o ser humano mais filho da puta que eu conheço na Terra, nesse momento. Provavelmente não terei chance de conhecer alguém pior durante minha vida. Túlio está me olhando há algum tempo e então fala.

Ela é a mulher que eu amo, cara. Amo de verdade.

Penso que o amor é uma coisa horrível e não deve acontecer para ninguém. Sinto pena. O amor é uma coisa filha da puta e cruel, faz pessoas boas se comportarem como idiotas e elimina qualquer traço de auto-respeito que um ser humano pode ter. Odeio Suzana com todas as minhas forças como se ela fosse alguém que tivesse dado um soco na cara do Túlio em um bar. Eu entraria em uma briga pelo meu amigo. Mas não é uma briga. Não há nada a fazer com mulheres assim, o mundo as ama e as protege, concluo. Mulheres como Suzana. Naquele instante, para mim o amor parece feito só de coisas ruins. Me senti com sorte por não amar ninguém.

A Suzana não gosta de você, cara.

É – ele responde, e no mesmo instante tenho certeza de que mesmo assim ele a pedirá em casamento e será um homem infeliz enquanto for possível.

Etiquetado , , , , , , , ,

A frieza é que me dá medo

Tenho medo de muita coisa nesse mundo, assim como muita gente também tem. “Não tenho medo de nada”, que grande mentira. Quem não tem medo de nada não faz a menor ideia do que é um diagnóstico de câncer, uma arma apontada pra cabeça, uma aranha armadeira sobre a pia do banheiro, um sequestrador sentado no sofá da sala ou um aviso de tubarão quando seu filho tá brincando no mar. Não sabe do que fala. Estamos cansados de saber que o medo é o que nos permite discernir sobre perigos e, assim, continuarmos vivos. Mas existem medos que não são tão fáceis de explicar. Um dos meus medos mais intensos e inexplicáveis é a frieza dos humanos em alguns momentos decisivos. Tenho medo da frieza das pessoas em alguns momentos.

Tenho medo da frieza do preso que confessa o assassinato sem baixar o olhar. Ele sabe que fez algo que não deveria ter feito, sabe que é irreversível, sabe que uma pessoa deixou de existir antes da hora por sua culpa, sabe que existe uma família em luto, sabe que existem amigos desconsolados, sabe que existe uma responsabilidade eterna e, mesmo assim, não se abala. Olha o juiz e confessa que matou. Olha o interrogador e diz que matou. Olha pro repórter e diz que matou. Passa por entre as pessoas e não abaixa a cabeça, não tenta esconder o rosto, não fica com a voz embargada, os olhos vermelhos, a pele branca. Simplesmente assume e pronto. Tenho medo.

Tenho medo da frieza de quem caminha pelo escuro incerto sem ponderar ou temer. Gente que levanta rápido quando acaba a força e vai pela casa, entre os móveis adormecidos e os obstáculos mortais, atrás de uma vela, de um quadro de luz, de uma lanterna, de um telefone, da putaquepariu. Gente que não tem medo de pisar no vidro, de ser esfaqueada por trás, de ser surpreendida por algum tipo de extraterrestre, de ser esquecida no breu pra sempre. Essa frieza de assumir o papel do herói, o papel de quem vai “resolver essa porra pra já!” e resolve mesmo. Gente que some na caverna e volta com o urso à tira colo. Tenho medo.

Tenho medo da frieza de quem mente pra polícia na hora do enquadro. Policial, por excelência, não costuma tolerar muita conversa. Se for mentira, tua vida corre perigo, pode apostar. “Tá com droga?” e o peão responde que não, com as meias cheias de cocaína, com umas três pedras de crack escondidas na bunda, uma paranga de maconha enfiada goela abaixo e um frasco de desodorante cheio de lança-perfume dentro da mochila. “Tá armado?” e o maluco responde que não, num ato suicida que faz a lâmina do canivete dentro da cueca esquentar à ponto de fogo, a arma debaixo do banco do carro chega a trepidar, enquanto o facão deita inquieto debaixo do tapete do passageiro. Gente maluca que acredita tanto na própria palavra que mente na hora da morte em busca de viver um pouco mais. E vive. E tenho medo.

Tenho medo da frieza de quem pergunta se está sendo traído e ouve que sim. Gente que tem estômago pra conversar depois de saber que ela dá pra outro, que ele come outra. Gente que não grita, não explode, não quebra tudo, não manda embora, não diz que vai sumir, não odeia, não mal diz, não amaldiçoa, não planeja vingança, não planeja assassinato, não diz que vai atrás do filho da puta, não diz que vai arrebentar a vagabunda. Tenho um medo mortal do frio que salta de para-quedas pelo buraco da íris dos olhos e toma conta da cena toda. Essas cenas com gente fria que descobre que é traída e consegue, só com o olhar, dominar o traidor e fazê-lo se arrepender de existir. Gente que tem fibra, que não perde o controle nunca, que está sempre um passo à frente da loucura sensata. Tenho muito medo!

Etiquetado , , , , , , , ,

Corra com tesouras!

“Esse texto vai me dar dor de cabeça, até porque já fui apedrejado por coisa bem menos pesada. Mas acho que seria uma imensa injustiça comigo mesmo não publicá-lo”, eu disse, pouco antes de levantar da cama. Saiba abstrair… conto com isso!

Se alguém me pedisse um conselho hoje, qualquer pessoa, de qualquer idade e qualquer tipo, eu diria a mesma coisa para todos: corra com tesouras! É o melhor que eu posso desejar, mesmo que a pessoa esteja querendo ouvir “larga dele”, ou então “não, não gaste dinheiro com isso agora”, tudo que eu poderia dizer, para soar verdadeiro e sincero seria isso. É claro que é uma metáfora, uma força de expressão, mas até a interpretação literal já surtiria muito efeito. Correr com tesouras é perigoso, não é aconselhável, dá medo em quem faz e em quem vê e a mensagem do dia é essa. Tenha e proporcione o medo puro!

Quebre as regras, todas elas. Quebre regras sérias, regras morais, regras cívicas e não só aquele tipo de regra que nos faz parecer idiotas em vídeos motivacionais correndo pelados ou usando bermudas em lugares onde todos estão de terno. Quebre regras justas, acordos que você mesmo firmou, rasgue contratos, seja imoral. Roube alguma coisa de algum lugar e corra, sem querer parecer expert nem heroico. Corra para não ser pego, grite palavrões e ofensas às pessoas na rua, passe a perna em alguém que você não conhece. Faça algo muito errado, algo que cause problemas, que faça estrago, que faça alguém sentir medo. Sinta medo de ser pego por isso tudo!

Minta! Invente uma mentira forte, das que precisam de muita apuração, muitos dias de pesquisa e muita força de vontade para ser desmascarada. Falte ao trabalho dizendo que está doente e se atreva a não tentar forjar um atestado. Convença a todos com emoções, jogos mentais e rostos falsamente tristes. Engane alguém honesto, passe alguém para trás, faça mal a uma pessoa inofensiva. Seja ruim por um dia, seja alvo da crítica do mundo inteiro, dos hipócritas que se sentem donos do que é correto, das pessoas que dão lição de moral em massa na internet, das pessoas que acham que são melhores que você. Sinta remorso por ferir alguém que jamais lhe faria mal, arrependa-se e conviva com o aperto no peito de se sentir o pior humano do mundo. Sinta isso!

Traia alguém que confia cegamente em você. Quem trai precisa de coragem, muita coragem. Confiança não tem preço, nenhum dinheiro compra e, por isso mesmo, jogue tudo fora. Minta para alguém que necessita da sua verdade para viver, ignore sentimentos, mágoas e arrependimentos. Faça o que jamais esperariam que você fizesse, feche a porta para alguém que sempre lhe estendeu a mão, sinta vontade de estar em outro lugar enquanto estiver com pessoas que dariam a vida por mais um minuto ao seu lado. Faça tudo dar errado, estrague os maiores valores do mundo, desperdice um amor, perca um amigo, envergonhe um familiar e chore por isso. Chore honestamente para saber como é, só para dividir a dor com quem você fez sofrer. Aceite de coração aberto o fato de que quem trai, será traído. Lide com essa frustração e não esconda, nem por um segundo, o medo de também ser passado para trás.

Corra perigo. Meta-se com alguém que corre mais do que você, que é mais forte que você, que é mais ágil que você, que tem mais autoridade que você. Sinta o medo puro, o medo da agressão física, o medo da dor, da morte, da tortura que é tátil. Acelere no farol vermelho em um cruzamento movimentado ao meio-dia e tente não fechar os olhos ou rezar. Caminhe pelo meio de duas faixas, na contra-mão, em uma avenida importante. Salte de um telhado para o outro, corra o risco de se matar sozinho, sem glória, sem platéia e sem motivo. Aceite o ineditismo de fazer coisas perigosas sem receber nada em troca. Absorva cada segundo desse medo, dessa ambiguidade, desse eterno perde e ganha de forçar as próprias emoções ao limite.

Aprenda a mentir olhando nos olhos, sem piscar, sem fazer careta e sem gaguejar. Fortaleça sua mente e descubra como oprimir, dominar, ludibriar e convencer pessoas com quem você convive. Num mundo onde todo mundo pode ter uma arma, ser psicologicamente evoluído ainda vale mais a pena. Controle a sua carência. Às vezes precisamos de pessoas, e às vezes precisamos de nós mesmos. Arranje um problema sério, dos grandes, cometa grandes erros e, mesmo no fundo do abismo do desespero não conte para ninguém. Resolva suas questões sozinho, não mostre fraqueza, medo ou dúvida. Seja perene, impenetrável, sólido e confiável. Não confie em ninguém. Não honre acordos. Não dê sua palavra sem cruzar os dedos nas costas e não diga a ninguém que está cometendo um erro.

Corra com tesouras! Corra e depois arremesse-as a esmo, correndo o risco de acertar alguém, de quebrar alguma coisa, de ferir a si mesmo. Corra com tesouras, com facas, com serras elétricas, com objetos perfurocortantes, com todo tipo de coisa que você, em sã consciência, não ousaria fazer nenhum tipo de movimento brusco. Assuma uma loucura falsa, uma loucura proposital e provocada. Aceite que você não tem motivos, entenda todos os medos, sinta todos os hormônios tentando impedirem você fazer coisas perigosas e curta cada segundo de aperto no peito por ter magoado, ferido ou traído pessoas queridas. Sinta o mais puro poder da maldade, da ruindade sem motivo, da banalidade da barbárie gratuita e depois, no fim, agradeça por ter a chance de concertar tudo isso.

Mas todo mundo sabe: se conselho fosse bom a gente seguia, não saia falando pra todo mundo por aí…

Etiquetado , , , , , , ,

O amante

Ela não sabia de nada, absolutamente nada, mas eu a deixava me assustar com suas caras e bocas, como se fosse perigoso mentir. Meu nome não era o mesmo, minha família não existia do jeito que eu havia contado, meus amigos tinham outros nomes, empregos e objetivos, tudo era diferente do que ela pensava ser real. Mas eu gostava assim! Dava a ela um poder tão cru e controlador que nada podia deixá-la mais atraente. Não existe nada mais sexy do que uma mulher poderosa.

O ritual se repetia, como se eu fosse prisioneiro de algum tipo de cativeiro, uma cela, uma tocaia que me armaram e me botaram sobre constante vigilância. Eu acordava, ainda com o céu escuro e ao pé da cama estava ela. Na mesma posição das outras vezes, com o mesmo olhar das outras vezes, fazendo a mesma coisa que fazia nas outras vezes. Acordava pelada, vestia sempre, no máximo, a calcinha, sentava-se na cadeira que fica no canto do quarto, cruzava as pernas e me assistia dormir. Nesses momentos ela tinha certeza de que me tinha na palma da mão e sentia prazer com isso.

Horas depois eu abria os olhos e o quarto fedia a cigarro. Olhava para ela e recebia de volta um olhar desafiador e sarcástico, com um sorrisinho cínico no canto da boca e uma sobrancelha mais alta que a outra. Nua, sexy, fumando como quem beija a boca de um anjo e se insinuando para mim. Era uma mulher fantástica, dos cabelos loiros compridos, nem lisos nem enrolados, do tipo que as moças surfistas americanas têm, daqueles que fazem grossas vírgulas nas pontas e parecem ser mais pesados do que realmente são. Tinha a pele branca que beirava um tom azulado translúcido e gostava de ser assim. Ao menos é o que parecia, já que não me lembro de tê-la visto com vergonha de tirar a roupa nenhuma vez.

Fumava com calma, soltando a fumaça como se fossem nuvens de leite que saem da boca para lamberem o nariz, a testa e a franja. Me olhava quieta, com movimentos lentos e eu, sentado na cama, abraçado aos joelhos, olhava de volta, com os olhos inchados e a barba selvagem. Depois de algum tempo ela sorria, eu sorria de volta e ela decidia se levantar. Ajoelhava devagar sobre o colchão e vinha como um felino macio engatinhando para mim. Eu, propositalmente, me fazia surpreso e deixava que ela comandasse todo o teatro.

Amantes gostam de encenar, eu acho. Elas fogem da realidade de suas vidas para serem outras mulheres, com outros caras, que gostam de outras coisas e que estão com elas por outros motivos. Acredito que quando uma mulher aceita ser “a outra”, ou quando decide arranjar um “outro” para si, automaticamente adquire características diferentes das que costuma ter em sua rotina. Principalmente no que diz respeito ao sexo. São situações de fuga, de adrenalina, medo e tesão puro que fazem com que o segundo encontro aconteça e assim por diante. Para algumas pessoas a infidelidade é mais instigante que o amor.

Eu estava diante de uma manifestação desse tipo de pensamento. Já sabia que ela não fumava quando estava fora do meu quarto. Também sabia que tinha uma vida sexual conservadora, que seu marido não era criativo e que, por isso, ela também não se estimulava a ser. Sabia que aquela calcinha mínima era exclusividade dos meus olhos, que aquele corpo liso naquelas posições que eu via só se contorciam daquelas maneiras para mim e que, se tudo desse errado, a parte mais selvagem da vida daquela mulher desapareceria para sempre. Era o que ela dizia.

No fundo, mesmo que negando, eu sabia que tudo que eu sabia sobre aquela vida podia ser parte de uma ficção calculada, assim como a que eu oferecia para ela. O bom dessa mentira é que não importa. O teatro fazia mais sentido, a sinceridade estava nos sons, nos gestos e nas entregas, não nas palavras. Ela nunca falou em amor. Eu nunca achei que deveríamos falar um dia, estava bom do jeito como vivíamos. Sexo, violência, segurança, mentiras e periodicidade. Eu descontava todas as minhas escolhas erradas no campo afetivo em 12 horas de companhia. Ela aprendia e testava todas as teorias físicas e anatômicas em 12 horas de devoção. O tempo era o mesmo, os objetivos não.

No fim o ritual era sempre o mesmo. Ela vestia as roupas, me sorria com os dentes à mostra e dizia tchau, mandando um beijo no ar. Entrava no carro dolorida, com o abdome rígido, as pernas trêmulas, as coxas assadas e os peitos vermelhos, mordidos e inchados. Chegava em casa e cuidava da vida doméstica, estéril e branca que assumiu quando se casou, como quem dá sinal para um ônibus na rua: da forma mais natural e banal do mundo. Ia à padaria, pedia o pão e deixava mais cinco paus no Marlboro que, ali, era comprado para o marido – que nunca foi fumante.

No fim das contas, aceitava uma vidinha comum, meio feliz, meio colorida, meio interessante, contando quinzenas, administrando ciclos menstruais e sonhando com violências sexuais que aquela casa jamais presenciou. Sonhava mais com sexo do que com a minha companhia, com o meu disfarce de homem indefeso ou a minha voz. Não me amava, nunca me amou e talvez nunca me amará, mas ela sempre voltava. E fazia isso porque tinha amor. Amor próprio, amor pela vida e amor pelo tempo que não devemos perder nunca e amor pelos espásmos que o corpo tem de ter, pelas gostas de suor que o corpo tem que expelir, pelos gritos que a garganta tem que gritar e pelas peles que as unhas precisam arranhar. Ela voltava porque aqui, no meu quarto, na minha casa, dentro da minha falsa vida, ela era real.

Etiquetado , , , , ,