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Amores de festa de sábado à noite

Estava quente no quarto, era domingo, daqueles domingos que não têm absolutamente nada de especial, que o céu está azul e ensolarado, mas ninguém quer ir ao parque, nem tomar um sorvete, nem dar uma volta de bicicleta, nem nenhum clichê de domingo. Mais ou menos uma da tarde, por aí, uma cama de solteiro insuficiente para os dois, insuficiente até mesmo para um solteiro sozinho, e o calor visceral do ar, do sol e dos corpos semi-suados tentando dormir grudados naquele bafo sufocante.

Nenhum carinho, nenhum beijo de “bom dia meu amor”, nada. Não era amor, não era especial, não era nada demais. Ele passou por cima dela como se pulasse uma mureta, caminhou até o banheiro e por instinto fechou a porta à chave. O rosto no espelho, inchado, amassado, com olheiras e sem brilho. Água, muita água, água sem parar, um oceano de água doce da torneira para as mãos, das mãos para o rosto, do rosto para o espírito e do espírito para o ralo seco da pia. Escovou os dentes, olhou-se no espelho e gostou da nova cara: “bom dia!” disse, sorrindo para si e voltando para o quarto.

Ela estava acordada, com as costas oferecidas ao teto, os cabelos esparramados pelo travesseiro e vermelha. Gente de pele clara geralmente fica vermelha. Mesmo usando apenas calcinha, parecia estar tomada por um calor insolúvel e imutável. Sorriu para ele. Ele sorriu para ela e se beijaram comedidamente. Ele, com gosto de menta, ela, com gosto de guarda-chuva velho. É o mal de beijar pessoas recém acordadas. O encanto do “amanhecer ao teu lado” é aniquilado pelo cheio de podre da boca de quem bebeu, fumou, se drogou e dormiu logo em seguida. Ele tinha fumado, bebido, se drogado mais e dormido logo em seguida, mas acordou mais cedo e por isso não fedia mais. Nessas situações, dignidade é um sinônimo para gente limpa e saudável.

Ele se deitou sobre ela, com todo seu peso, com todos os seus ossos, músculos, pesos, pelos e poros. Passou a mão por baixo de seus ombros e agarrou com força os peitos dela, comprimidos contra o colchão, amassados como sua cara, como seus cabelos, como sua aparência toda. “Não, primeiro eu preciso tomar banho”, ela disse, e ele respeitou, a contra gosto, o senso de higiene mínima da moça. Balançando suas curvas suaves de mulher fora dos padrões de revista, segura e sensual, se jogou para dentro do banheiro como se fosse o seu próprio quarto. A cama de solteiro vazia e úmida, com o lençol todo amassado, vítima de uma noite de sono sem sexo, sem ações, sem emoção alguma. Drogados, bêbados e fodidos. Mortos. Deitados em uma cama, quase pelados, quase transando, quase gozando, mas só dormindo, recuperando vidas passadas em pesadelos péssimos.

Depois do banho ela saiu sem roupa. Já estava sem roupa antes, mas a ausência da calcinha dava um tom quase fraternal à cena. É estranho ver alguém pelado de cara, sem cerimônias, quando não foi você que tirou nenhuma das peças de roupa. Fica quase banal, nada sexy, nada erótico, só diário e simples. Mas ela foi na direção dele, meio seca, meio molhada, com os cabelos grudados na nuca, e durante alguns minutos se contentaram em apenas beijar o outro. Um beijo de verdade, sentindo o profundo gosto de pasta de dente, de boca quente com ar gelado, com ela acariciando os cabelos dele, com ele deslizando a mão pelos pontos molhados nas costas dela.

Daí, transaram um monte. Primeiro na cama, depois no chão, depois na sacada, depois no chuveiro de novo. Ele se cansou na segunda, ela foi quem forçou as outras duas. Homem quando não quer demora horas pra gozar e ela estava interessada nessa persistência, no martírio, naquela ardência que dá quando o sexo já passou do limite do saudável e normal, no quase sofrimento. Ela queria a câimbra, queria o suor abundante, a boca seca, a garganta arranhada dos gritos, dos urros, os dentes frios da boca ofegante e a pele toda vermelha, arranhada, estapeada, friccionada, gasta até o fim. Era já o fim da tarde, cinco, seis, sete horas. Céu escuro, fome aguda, bagunça instalada, desidratação suave. Eles deitaram mortos vivos de olho no teto sem dizerem mais nenhuma palavra. Coisa normal desses amores de festas de sábado à noite.

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Sensual e fictício

A porta fechada que era pra fingir que o mundo tinha parado de existir e tudo o que restava era aquele quarto. Os corpos tremendo de frio e tesão, cheios de pontas de dedos muito frias e narizes que pareciam bicos de gelo. No escuro, quase nada visível, quase nada pra ver e calma, uma extrema calma que descia dos cantos das paredes e lambia os pés da cama, as costuras e as franjas da cortina, os beiços do tapete e as nossas canelas.

De costas, apoiada na parede como quem acaba de ser pega pela polícia, me oferecia uma nuca lisa e comprida para eu beijar, lamber, morder e arranhar. Minha mão sumia por dentro dos cabelos, que se agarravam nos meus dedos e não largavam mais. Foi o primeiro começo de um par de pares de dias da gente se alisando como se tivéssemos mais intimidade que qualquer outra dupla no mundo, nos olhando sem roupas e sem defeitos, isentos de perfeição por opção e felizes com a nossa curiosidade.

Dias sentindo sua respiração quente ao redor da minha orelha, sua voz falhada e oscilante brotando do meio da escuridão e um calor concentrado que passava de mim pra você e depois voltava de novo, num ciclo de aquecimento natural quase imbatível. De dia ainda era escuro e a noite era 24h a dentro, mergulhada em todo tipo de troca de experiências e sensações. Eu passava meus dedos pelo seu rosto, desenhando o contorno da tua boca como um batom de festa, sentindo a ponta da tua língua surgindo por entre os dentes para fazer meu tato salgado receber as boas vindas do teu paladar voraz.

Beijos no olho, carinhos detrás da orelha, dedos entrelaçados debaixo de um sem número de cobertas, pelados e muito quentes, nos aproveitando um do outro para pura sobrevivência. Era tão sensual que chegava a doer ter que dormir. Fechava os olhos fora de controle desejando mais uma dúzia de noites muito bem gastas transando ao som de Los Hermanos, pedindo comida pelo telefone, bebendo vinho barato e usando a boca para beijar e lamber, mas quase nunca para falar.

Era tão erótico, tão intenso e, ao mesmo tempo, tão suave, que beirava a loucura, daquele tipo de sentimento que faz a gente pensar sobre largar o emprego, vender o apartamento e o carro, deixar o cachorro com a mãe e se mudar, de mala e cuia, de vez pra outro lugar. Tão bom, mas tão bom, mas tão bom, que não existia e, enquanto eu passava os dias desenhando uma fantasia cheia de delicadeza e sentimento, a vida real corria a passos largos acabando com toda a minha imaginação.

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Preto

Era uma presença negra, coisa preta mesmo, perdida no meio da escuridão, me esperando chegar perto para me comer. Ia me comer de qualquer jeito e eu torcia muito pelo “good way” da coisa, afinal, àquela altura, com o medo e o tesão que eu estava, dava pra acreditar em morte e sexo na mesma proporção. A casa era minha, o campo de batalha era meu, mas com ele eu me sentia tão vulnerável, tão insegura, a ponto de ter medo de avançar dentro da escuridão familiar da minha própria porta de entrada. “Não acende a luz!”, disse, e eu obedeci hipnotizada.

Com uma mão na minha cintura, um passo atrás de mim, me guiou para dentro apartamento gelado como se me conhecesse, como se soubesse da minha casa, do caminho para o quarto, ou o banheiro, ou que a água fica na porta da geladeira e os copos estão na terceira porta da direita para a esquerda do armário. Sabia tudo ali, inclusive, que eu ficava completamente mole com gente me segurando firme pelo quadril. Era muito escuro estar com ele, se é que escuridão pode ser um sentimento. Eu pensava que ele podia ser um assassino, um ladrão, um sequestrador, um estuprador e em todas as opções o meu tesão não diminuía. Era preto o mundo ao redor.

Quando a porta se fechou pude me dar conta de como minha casa era escura. Não conseguia ver nada e mantinha um mínimo senso espacial por saber onde as coisas costumavam ficar, mas não via. Jurava que mesmo à noite entrava alguma luz pela janela da sala, mas não. Era ele, apagando tudo, até as coisas do além, tornando meu mundo um pretume sólido e fosco para onde, totalmente movido por intuição, ele me levava. Eu já não acreditava como ele sabia o que estava fazendo, para onde estava indo e, principalmente, em como estava fazendo tudo certo. Talvez a escuridão fosse só para mim e ele, já sendo escuro e sombrio, pudesse ver com exatidão o que se formava à nossa frente.

Reconheci o cheiro do meu quarto e ali meu corpo amoleceu. Não teve conversinhas na sala, não teve um bom vinho na cozinha, não teve uns beijos na parede do corredor, nem uns amassos no batente da porta. Eu estava no meu quarto, com um cara que eu tinha conhecido algumas horas antes e tudo que minha mente podia processar era a vontade incontrolável de fazer sexo com ele. Era só isso que me preocupava. Tinha medo que ele fosse daqueles sadomazoquistas que gosta de ficar batendo, amarrando. Não pela dor, mas pelo sofrimento de ficar perdendo horas e horas de puro sexo para alimentar uma tara. Eu hoje não queria beijo na boca, não queria palavras ao pé do ouvido, não queria, talvez, nem preliminares. Eu queria dar!

E então, como numa mágica, meus pensamentos fugiram para fora de mim, saindo por algum ponto do meu corpo e flutuando em letras vermelho-neon pelo quarto. Iam se grudando nas paredes em uma porção de frases prontas. Eu pensava e automaticamente uma linha cursiva e delicada ia escrevendo meus pensamentos no teto, nos cantos das paredes, na cabeceira da cama e ele, escuro até o talo, absorvia cada sílaba. O que aconteceu depois é difícil explicar porque está naquele limiar que gira em torno da alucinação, da completa loucura, do sonho e da realidade extrema. Mas eu dei. Ou melhor, ele tomou de mim, sem chance de reação, nem de rebobinar a fita, voltar os capítulos, não tinha mais volta.

Me puxava os cabelos como se quisesse arrancar minha cabeça do corpo, acabava com qualquer traço de vaidade do meu corpo e investia para dentro de mim como se quisesse me varar, sair do outro lado, me rasgar ao meio. E tudo isso porque eu queria. Estava escrito nas paredes, estava saindo de mim e eu já não pensava mais, era só impulso e instinto. Às vezes é preciso deixar a princesinha interior lá fora, na rua, longe de casa e deixar a ninfomaníaca selvagem tomar conta. Eu queria trepar, daquele jeito que ninguém tem dúvida, ninguém precisa explicar e ninguém consegue repetir. Pra ele, com ele, dentro daquela escuridão, eu daria até a alma sair andando. Numa definição bem banal e simplória, me comia como uma puta barata. Mas aquelas putas que pedem mais, que instigam o cara, que fazem de tudo pra que ele peça pra parar, que diga que não aguenta mais.

E eu, agora tomada por algum espírito maligno, não queria mais parar. Falava absurdos, pedia coisas impensáveis, sentia  partes do meu corpo que eu nunca soube que existiam, apanhava igual uma escrava e sorria, às vezes até gargalhava e berrava tomada por uma loucura que não era minha. Não sei se desmaiei ou dormi, mas em algum momento ele foi embora, acabando com a loucura, terminando meu exorcismo e levando aquele pretume todo, deixando a luz aparecer. E já era dia. Acordei destruída, com o corpo roxo em lugares enigmáticos, como as canelas, os braços, os ombros, e com dores estranhas e intensas, que vinham de dentro e passavam para fora, como se estivesse sendo castigada por mim mesma. Naquele dia não levantei da cama, criando coragem para entender o que é que tinha acontecido e esperando, ressentida, vir a noite, para escurecer tudo de novo.

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