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Magnetismo sobrenatural

Não sabia o que era porque não tinha muito o que saber. Às vezes a vida mostra uma situação que só serve para entendermos que nós não temos o menor direito de saber mais do que nos foi revelado. O mistério é necessário, importante e insubstituível em alguns casos. Esse era um deles. Ficava sentado olhando, franzindo a testa e tentando entender de onde vinha todo aquele magnetismo, toda aquela atração incontrolável por um ser que poderia ser qualquer outro, mesmo sendo impossível sentir a mesma coisa por mais ninguém.

Ela aparecia no canto da parede, no batente da porta, por detrás do vidro do box do banheiro e as estruturas iam ruindo. As paredes tremiam como se fossem plásticas e finas, os tijolos se desarranjavam, o reboco e o revestimento ia caindo todo no chão, que tremia como um terremoto a cada passo que ela dava. E vinha, de onde fosse, destruindo tudo com seu caminhar de quem está pouco se fodendo para qualquer reação adversa ou efeito negativo de sua presença. Era completamente completa. Uma mulher que agia como age um remédio que tem mais efeito colateral do que poder de cura.

Ele ficava parado, petrificado, enquanto ela vinha como um gato, ou uma cobra, se enrolar por baixo dos braços, ao redor do pescoço e da cintura até não estar mais apoiada no chão. E era o fim da razão e da autopiedade daquele homem. Era como se ela o sugasse para dentro de si e tomasse, mesmo que só por alguns instantes, o controle de sua alma. Ele, longe dela, não sedia a nenhuma pressão, nenhuma tentação, nenhuma ameaça. Mas ali, naquela relação quase simbiótica, ela era o imã que o movia para onde quisesse mover. Um imã que atraia coisas que não tinham a menor chance de se moverem antes dele aparecer. Era magnético e poderoso.

Enquanto ela gemia e lhe sussurrava elogios abstratos ele caminhava com aquele corpo trepado sobre o seu. E terminavam sempre no mesmo lugar. Às vezes ela vinha da sala, às vezes da cozinha, às vezes estava dentro do carro, mas sempre terminavam dentro do quarto. Quando soltavam o peso dos próprios músculos e ossos sobre a cama, as paredes começavam a sumir em um fade negro e sólido como no fim de um filme. “Fade out” ela dizia, e sorria depois, espelhando o sorriso que ele mesmo expressava. Depois disso o quarto se transformava em escuridão.

Ela usava suas coxas grossas e a bunda muito forte para manter as pernas trancadas à altura da cintura forçando o contato quase invasivo dos dois. Ele se agarrava a ela como uma tranca de dezoito dentes, que não solta, que não afrouxa, que não se move até que seja a hora. Ela mordia seu pescoço, ele mordia sua clavícula, ela arranhava suas costas, ele puxava seus cabelos da nuca, ela fechava os olhos e abria todos os chakras, ele ofegava e a comia como quem tenta matar alguém. Era a violência mais crua e simbólica do mundo.

Ele, da cor do homem, com os tons de um homem, as diferenças e semelhanças das cores que os homens do tipo dele têm e ela branca, translúcida, lisa e macia como são as mulheres do tipo dela. Ela se alimentava do desejo que ele lhe oferecia e que nenhum outro homem jamais lhe dedicou. Ele se alimentava da intensidade e da energia que ela lhe passava, do magnetismo que lhes unia e que ele nunca encontrara em mulher alguma. Se misturavam em suas semelhanças e diferenças para fazer o impossível ser banalidade e a realidade, criação de alguém.

E depois do fim, depois de tudo, ela ficava na luz, no pequeno e discreto caminho de luz que iluminava a escuridão daquela cama imensa e se mostrava para ele. Se mostrava por inteiro, por dentro e por fora, pelas curvas e pelas sombras, como quem quer contar a história do que acabou de acontecer. Ele sorria com uma boca de Cheshire e, assim como o gato, rodava de cabeça para baixo, flutuava o corpo na escuridão e virava vapor colorido. Ele ia para o ar, para o além, para a vida de verdade e ele ficava mais um pouco ali, sentindo a ardência que dá, o calor que dá, o incômodo confortável que dá e depois adormecia para sumir também. Nunca houve amor. Nunca lhes faltou nada!

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